Aula de 07/07/1994 – A singularidade. Os girassóis de Nietzsche, digo, de Van Gogh

Uma ideia... ela é utilizada demais pelas religiões. É a ideia de alma. Certo? Essa ideia de alma, nós frequentemente quando lemos alguma coisa sobre alma, nós ligamos isso à religião. Mas essa palavra alma, ela pode ser utilizada pela Filosofia como plenitude de ateísmo. Inteiramente atéia. O que eu vou dizer... eu vou passar a dizer... eu vou fazer uma afirmação de que nós os homens possuiríamos uma alma ¬eu não estou identificando esta alma a nenhum preceito religioso. A minha questão é dizer para você que toda alma, falou-se em alma... toda alma possui um conjunto de potências. Então uma alma, ela necessariamente trás com ela um conjunto de potências. E essas potências da alma é o que se chama faculdades. Então uma alma ela é dotada de diversas faculdades ¬faculdades como sinônimo de potências.
 
Potência quer dizer o que?
Por exemplo: todos nós aqui possuímos memória. E a memória tem uma função. Qual é a função da memória? A função da memória é recuperar antigos presentes.
A memória é utilizada para recuperar antigos presentes. Há momentos em que nós não utilizamos a memória; nem por isso nós deixamos de ter memória. É isso que se chama potência. Potência é alguma coisa que existe, mas nem sempre está em ato. Certo?!
A alma possui diversas potências. Essas potências chamam-se as faculdades da alma. Então, na nossa alma, cada um de nós possui um conjunto de faculdades: memória, sensibilidade, inteligência, imaginação. Tudo isso são as faculdades da alma.
 
Por exemplo: O sujeito humano é dotado de linguagem. A linguagem é uma faculdade, é uma potência da alma.
 
Então, quando nós queremos... (Vocês entenderam bem aqui?) então, sempre que eu falar alma ou psiquismo, tanto faz; ou consciência, tanto faz.
 
Claudio: ¬Eu estou dizendo que inconsciente, psiquismo, alma, possui as...?
Claudio e alunos: ¬As faculdades!
 
E essas faculdades são os nossos instrumentos de vida. Nossos instrumentos de vida.
 
Por exemplo: Se amanhã uma das minhas faculdades falha, a memória começa a falhar, eu entro em crise. Eu começo a ser recusado pelo campo social.
 
Quando a nossa memória começa a falhar, e esse fenômeno é muito claro quando nós começamos a envelhecer, começa a haver uma recusa no campo social, nas nossas práticas, no trabalho, etc.
 
Então as faculdades... alguns pensam que algumas faculdades são mais poderosas do que as outras. Por exemplo: Há uns que têm o intelecto, que é uma faculdade, muito desenvolvido, é isso que se chama Q.I.. E o intelecto é uma faculdade que, pelo menos no nosso mundo, ela funciona como a faculdade principal para nós.
 
Por exemplo: quando a nossa a nossa faculdade, a sensibilidade, começa a enfraquecer, nós chamamos o intelecto para dar um conselho à sensibilidade.
Por exemplo: nós ficamos tristes, aí vem o intelecto e diz ‘ não fica triste, tem outras coisas para você ver’.
 
Então essas faculdades, elas fazem ou começam a fazer um jogo de associação entre elas: a sensibilidade se associa com a imaginação, a imaginação com a memória, a inteligência com a memória e assim por diante. Mas essas faculdades, elas são necessariamente distintas umas das outras. Elas são distintas: cada uma tem a sua autonomia. E cada faculdade, cada faculdade teria o seu objeto. Por exemplo: o objeto da memória é presentes antigos... é o antigo presente. Então esse seria o objeto’ dessa faculdade que eu chamei de memória. A sensibilidade, ela tem como objeto o visível, o audível, o tateável, o gosto... o palatável, o olfatível.
 
Então a sensibilidade tem a sua matéria... o intelecto tem a sua matéria...
 
Claudio: ¬Qual é a matéria do intelecto?
Claudio: ¬O pensável.
 
Claudio: ¬Qual a matéria da imaginação?
Claudio: ¬O imaginável.
 
Claudio: ¬Qual a matéria da memória?
Claudio: ¬O memorável.
 
E assim por diante.
 
Então todas as faculdades (Eu queria que vocês anotassem) elas possuem os seus usos comuns. O uso comum da faculdade é exatamente o objeto com o qual a faculdade ou potência se liga. Ela se liga. Muito bem...
 
Então a memória, vamos usar a memória, ela é uma das nossas faculdades E a função da memória é facílima de se entender: ela tem a função de, quando solicitada, ela vai procurar um antigo presente.
 
Por exemplo:
Eu digo pro Paulinho: Paulinho, o que você fez no ano passado?
E o que ele vai fazer? Imediatamente ele vai fazer um esforço de memória pra recuperar aquele antigo presente. O que mostra que as faculdades estão ligadas a uma  força que nós temos dentro de nós chamada vontade... vontade...
 
O que que é a vontade?
A vontade é o uso que nós fazemos de uma ‘faculdade’ sob o domínio da vontade. É o chamado uso voluntário.
 
Se eu solicito a Paulinho para ele me falar sobre o domingo passado, e ele faz um esforço de memória para se lembrar, é porque a memória dele está sob o domínio da vontade dele. Chama-se memória voluntária.
 
Ou se eu falo com Fábio: ¬Fábio, 2 + 2 e ele diz 4, é o intelecto dele que está sob o uso da vontade.
 
Então as faculdades, elas são, normalmente, voluntárias. Normalmente elas são voluntárias. Elas estão sob o domínio da vontade.
 
Acontece um fenômeno muito interessante; se vocês lerem, por exemplo, a obra do Proust, vocês vão ver que, coincidentemente, o Proust solicita a memória voluntária ¬a memória voluntária é essa memória que vai apreender antigos presentes¬ mas há momentos  (vocês põem solicitar vocês mesmos) que involuntariamente... involuntariamente, a memória trás cenas do passado que nós não provocamos por vontade.
 
Então essas faculdades podem funcionar também involuntariamente. Então nós podemos dizer que as faculdades funcionam voluntária ou involuntariamente.
 
Então vocês não podem esquecer essa noção que eu acabei de colocar pra vocês de involuntário. Porque, por exemplo, um filósofo, um dos mais famosos, chamado Platão, ele introduziu um vocábulo na História da Filosofia que se chama reminiscência, reminiscência ou anamnese, que é exatamente a memória funcionando involuntariamente. Não só involuntariamente como apreendendo objetos diferentes [ou que não pertencem ao] do antigo presente.
 
Então de a reminiscência se difere da memória porque a memória é aquilo que apreende antigos presentes. A reminiscência não apreenderá antigos presentes. A reminiscência vai apreender o passado puro. O passado que não pertence a nenhum sujeito particular.
É um passado que não pertence ao Fábio, não pertence ao Sérgio, não pertence ao Gustavo, não pertence a mim. É o passado em si mesmo.
 
É quase impossível falar sobre isso. Daqui a pouco eu vou começar a explicar isso para vocês.
 
continua
 

Parte 1: 

Parte 2: 

Parte 3: 

Na primeira parte da aula (16:18 min) o som é irregular, com ruídos de fundo. Na segunda e terceira parte, o som está ótimo.

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