Aula de 10/07/1994 – À sombra da forma homem

Um personagem que reproduz o autor que vivia em um estado de embriaguez permanente. O autor é Malcom Lowry.

Uma obra literária, ela é quase sempre uma obra biográfica. Pode ser Dostoiewsky, pode ser Marcel Proust... um romancista moderno, ele faz um obra biográfica. Biográfico quer dizer história pessoal. Uma obra biográfica, ela escreve a biografia do próprio autor. Mas quando você entra em contato com uma obra como essa de hoje (À Sombra do Vulcão de Malcom Lowry) o fundamento é que o autor procura produzir pontos de ruptura na história pessoal.

(...) Então eu estou criando uma figura chamada ponto de ruptura na biografia ou na história pessoal. Agora, em função disso, este filme que vocês viram, que é a história de um diplomata –me parece que é isso– antes da segunda grande guerra e dentro do México já há um confronto e ele está mais ou menos ali no meio daquilo. O diretor do filme, o John Huston, que é um diretor de altíssimo nível, neste filme talvez ele não tenha feito o agenciamento ideal com Malcom Lowry. Talvez alguma coisa tenha escapado.

Então eu vou começar, em função do que eu acabei de falar, eu vou começar a expor o que é exatamente a minha leitura dessa obra, dessa obra literária, viu? Vocês viram o filme. O livro é completamente diferente e, com todo o respeito à John Huston, o filme deixa a desejar em relação à obra literária, sem dúvida nenhuma, viu?!

O que eu vou dizer pra vocês hoje, provavelmente tem alguns conceitos –dois ou três– que vão se tornar definitivos pra nossa aula; já hoje se tornam definitivos.

Eu vou partir de um livro do Bergson (meus alunos antigos todos já conhecem) um livro chamado Matéria e Memória – esse livro existe em português. (...) E outro livro –é um livro que também tem em português– chamado Imagem Movimento - Cinema I, do Deleuze. São esses dois livros que vão fundamentar a exposição que eu vou começar a fazer agora com um pouco de ‘pé quebrado’, mas é o máximo que eu poderei fazer.

faixa-doacao

O Bergson, na obra dele, por motivações que não são motivações delirantes, mas são motivações teóricas muito poderosas. Em um determinado momento ele é forçado a pensar o que seria deste universo antes da aparição da vida. Ou seja, veja o que eu disse para vocês: alguma coisas leva o pensador, força o pensador a penetrar em campos não imaginados; ele é forçado a pensar o universo antes da vida; antes da aparição da vida. E ele tá fazendo esse pensamento mais ou menos ali na década de 10 (do séc. XX) por aí.

Ele vai dizer então, ele começa por dizer, que esse universo é luz. É uma coisa muito original o que ele está dizendo. Ele está dizendo que o que nós chamamos de matéria ou mesmo que nós chamamos de força, tudo isso se reduz à palavra luz; que esse universo é luz – se formos ver teorias cosmológicas que percorrem o século XX, nós vamos ver elas dizerem coisas muito semelhantes: o Big-Bang, etc.

Então eu disse que o universo é luz e que essa luz, ela tem um movimento infinito: luz pura e movimento infinito. Ele chama isso de universo acentrado –nesse universo não há nenhum centro. Então, não havendo nenhum centro, este universo é um labirinto: é um labirinto de luz – o que é uma novidade, porque o que nós entendíamos como labirinto eram labirintos espaciais; ele está falando num labirinto de luz, sem centro, aonde não há centro.

Até que, em um determinado instante, neste universo de luz acentrado, vai existir uma figura – que eu não posso declarar ela integralmente– é como se existisse uma antecipação de consciência: uma pré-consciência. É alguma coisa que tivesse o poder de observar esse universo penetrado de luz, mas que não tivesse o poder de deter a imagem observada dentro de si próprio. Ou seja, um ser que observasse –vai ser difícil o que eu vou dizer– um ser que observasse a luz, mas que não pudesse deter a luz em si; a luz transpassaria esse ser.

É um momento muito difícil essa exposição, eu prolongo para vocês entenderem um pouco melhor; porque é o Bergson falando que nesse universo de luz já existiria uma consciência –marquem para ficar mais claro– é o que ele chama de consciência virtual. Uma consciência virtual.

Mas, com o passar do tempo esse universo começa a esfriar –diz ele– e a nascer, dentro desse universo começa a aparecer uma imagem privilegiada, um bloco de luz privilegiado. Esse bloco de luz privilegiado é a vida ou, vamos usar para compreender melhor: é a aparição do homem. O surgimento do homem –na verdade é da vida, mas eu vou usar do homem, viu?! Porque o Bergson não é um pensador antropológico, ele é um pensador da vida. Eu vou usar o homem para vocês entenderem melhor.

Quando começa a surgir isso que eu chamo de homem, nesse universo de luz, é o nascimento de um centro. O homem traz com ele um centro chamado centro perceptivo. Centro perceptivo é que cada homem de per si se considera o centro deste universo. Eu sou o centro deste universo para mim mesmo. Porque tudo o que chega, chega segundo a minha percepção. Então a minha percepção forma um centro num universo acentrado, certo?!

Então essa percepção que se forma em mim é uma maneira de eu entrar em contato com a luz que me circunda. Essa luz me circunda, eu tenho uma percepção e essa percepção apreende essa luz.

Mas a minha percepção –marquem outra vez – ela é interessada. Ou seja, a minha percepção só entra em contato com aquilo que lhe interessa. O que não lhe interessa passa pelos lados. Então a minha percepção apreende um bloco de luz, porque é do interesse dela apreender um bloco de luz, e o que não interessa a ela, ela deixa passar –não sei se ficou claro... E isso daí eu vou passar a chamar –e essa denominação fica definitiva para nós– eu vou passar a chamar de forma homem.

A forma homem é um poder perceptivo de apreender uma quantidade x de luz; apreende uma quantidade x de luz e outras quantidades passam sem que essa percepção apreenda –ficou claro isso?

Então o Cônsul é exatamente uma forma homem. Ou seja, o que ele é? Ele é um centro perceptivo, ele é uma forma homem, com a capacidade de apreender um bloco de luz, apreender alguma coisa do mundo –ele apreende alguma coisa do mundo; ou seja, só apreende aquilo que é absolutamente necessário para ele. Mas ele vive como em estados microscópicos, porque ele vê ao lado do bloco de luz que a percepção pode apreender, ele vê inundações de luz. Ou seja, a forma homem está sempre ameaçada nele de se quebrar. E se a forma se quebrar, o que acontece? Ele vai ser inundado de luz.

Não sei se vocês entenderam...

Parte 1:
Parte 2:
Parte 3:

"Uma obra literária, ela é quase sempre uma obra biográfica. Pode ser Dostoiewsky, pode ser Marcel Proust... um romancista moderno, ele faz um obra biográfica. Biográfico quer dizer história pessoal. Uma obra biográfica, ela escreve a biografia do próprio autor. Mas quando você entra em contato com uma obra como essa de hoje (à sombra do Vulcão de Malcom Lowry) o fundamento é que o autor procura produzir pontos de ruptura na história pessoal. "

No terço final da gravação o som fica um pouco abafado; mesmo assim,  a aula está perfeitamente audível. Segue abaixo uma sequencia do filme À sombra do vulcão (1984), de John Huston. Ulpiano desenvolve o tema da aula a partir deste filme.

 

faixa-doacao-pe-de-pagina

Uma opinião sobre “Aula de 10/07/1994 – À sombra da forma homem”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *