Aula de 04/08/1994 – Da estrutura Outrem ao mundo elementar. A ilha de Speranza

(...) Fiz essa distinção entre a forma homem e a forma anjo. Eu nem me lembro se eu cheguei a dar uma aula disso pra vocês. Se eu cheguei a trabalhar em termos de forma homem e forma anjo. Mas isso já mostra os meus os meus objetivos de compreensão do que é essa prática de desumanização que nós vamos entrar hoje pra concluir isso, viu?!
 
Em primeiro lugar, muitas das coisas que estão aqui seriam chamadas de sujeitos e outras de objetos.
 
Por exemplo: Isso daqui é um objeto, essa mesa é um objeto [Claudio aponta objetos da sala]; mas, na verdade, todos os indivíduos humanos que estão aqui são chamados de sujeitos.
 
Então, na verdade, o universo ou o mundo, ele não é tão rico como nós pensamos. Ele possui duas coisas: sujeito e objeto. Então quando nós entramos em contato com o mundo ¬e entrar em contato com o mundo gera uma peça que é de uma importância incrível, que é o que se chama percepção. Sempre que nós entramos em contato com o mundo, nós tomamos conhecimento de duas coisas: de sujeito e de objeto. Então, por causa disso, os filósofos começaram a se preocupar para verificar que espécie de índice haveria nas coisas ¬ ou que sinal haveria nas coisas ¬, que aquilo dali não é um objeto, mas é um sujeito. Ou seja, os filósofos começaram a preparar-se para descobrir exatamente o que distinguiria um sujeito de um objeto. Qual índice haveria em alguma das coisas que a gente vê ao longo da nossa existência. Qual o índice que essa coisa tem que faz com que essa coisa seja considerada por nós como um sujeito.
 
Veja bem, cada um de nós, de per si, se considera um sujeito ¬e um sujeito com sonhos, um sujeito com percepções, um sujeito com motivações, com interesses, com tristezas, com alegrias (...). Então a Filosofia vai estabelecer um conceito que se chama solipsismo.
 
Claudio: Querem tomar nota desse conceito? Solipsismo.
 
Claudio: Esse sujeito quer dizer que cada sujeito ¬por exemplo: eu sou um sujeito¬ supõe que no mundo só existe EU como sujeito, todo resto é...?
 
Alunos: Objeto.
 
Claudio: Objeto. Certo?!
 
Isso chama-se solipsismo. Depois vocês vão ver que o solipsismo não é uma brincadeira. É uma coisa de uma violência terrível. O solipsismo afirma a existência de apenas um sujeito.
 
No caso... no meu caso, se eu for solipsista; o único sujeito que existiria seria EU.
 
Mas acontece que a Filosofia vai verificar que existe índice no universo, índice de determinados corpos, índice de determinados objetos, que são índices egóicos. O que quer dizer índices egóicos? Quer dizer que há determinados objetos que têm índices de serem sujeitos também. Então esses índices egóicos chamar-se-ão quebra do solipsismo.
 
Entenderam aqui?
 
Então, o que é quebra do solipsismo?
 
Porque, se há índices egóicos no mundo... eu vou olhar pro Fábio e vou dizer ‘Pô, Fábio é um sujeito também...’. (risos) O que que acontece com isso? Quebra do solipsismo.
Então, os índices egóicos, que as filosofias encontraram, que afirmavam da existência de... além de objetos, da existência do sujeito... [que] seria o organismo.
 
EU, ao olhar para o mundo e verificar que ¬no mundo¬ existem objetos que têm um organismo semelhante ao meu; eu considero que esses objetos que têm um organismo semelhante ao meu são também sujeitos. Então o organismo seria ¬para esta teoria filosófica¬ índice, pode usar a categoria índice egóico.
 
Todo mundo entendeu? Cacau entendeu?
 
Então o organismo seria a quebra do solipsismo e nós, evidentemente então, por essa teoria, nós afirmaríamos que o universo ¬ou o mundo¬ se divide em sujeitos e objetos. E esses sujeitos entrariam em uma comunidade. Essa comunidade dos sujeitos chama-se intersubjetividade. Usa esse nome: intersubjetividade. Então a intersubjetividade seria uma comunidade constituída pelos sujeitos em função desse índice egóico que seria o organismo. Muito bem.
 
No século passado, salvo equívoco, um autor chamado Daniel Defoe escreveu um livro famosíssimo, famosíssimo, chamado Robson Crusoé, não é?! E, nesse nosso século (no éc passado, séc XX) um escritor francês chamado Michel Tournier escreveu um livro (Tem em português) com o título Sexta Feira ou os Limbos do Pacífico. Este livro do Michel Tournier é também sobre o Robson Crusoé.
 
Então o Robson, o Robson (É uma história fácil de entender... e foi escrito em função do atomismo). O Robson é um cara que naufragou, o navio dele naufragou e ele foi para uma ilha e naquela ilha ele ficou absolutamente sozinho. Ele ficando sozinho, o que que ele perdeu? Os índices dos sujeitos, os índices egóicos. Ele não tinha mais um organismo diante dele, não é?! Ele ficou inteiramente relacionado apenas com objetos. Não haveria nenhum índice egóico. Nenhum organismo diante dele. E ele ficou então apenas com objetos na frente dele.
 
Mas, o que nos daria o índice égóico, o que nos daria... o que nos mostraria o organismo e nos faria aparecer para nós os índices egóicos, ou seja, a existência de sujeitos, seria o nosso olhar. O nosso olhar descobriria no mundo (...) Robson tornou-se ou deveria se tornar um grande solipsista. Exato? Um grande solipsista porque ele se tornaria então o único sujeito na ilha de Speranza. Mas isso não ocorreu. Porque o Robson começa a construir uma fortaleza, uma cidadela, uma cidade dentro daquela ilha para a existência de sujeitos. Ele começa a produzir um mundo de sujeitos. Ainda que ele devesse se tornar de imediato um solipsista, ele não se torna. Ele não se torna um solipsista. No sentido de que ele começa a construir um mundo para ser habitado por diversos sujeitos. Ora, essa simples observação nos leva a descobrir uma coisa muito original.
 
Se vocês entenderam, abro aqui a aula. Porque eu vou agora fazer uma modificação. Se correu tudo bem até aqui. Se vocês entenderam.
 
continua
 

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Parte 2: 
Parte 3: 

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