Final de aula – fragmento de uma gravação

Entendemos por biografia de um filósofo sua biografia intelectual. Por outro lado, não gostaríamos de descartar a variedade de fatos pessoais que acabam participando, direta ou indiretamente, da construção de uma obra filosófica. No caso de Claudio Ulpiano, tão marcante quanto o seu encontro com o pensamento de Gilles Deleuze, nos parece, por exemplo, seu precoce autodidatismo, sua relação vital com a filosofia, sua postura eternamente rebelde.

Sabemos, todavia, que privilegiar e interpretar um ou muitos aspectos de uma existência é tarefa tanto impossível quanto pueril. Optamos, então, pela tentativa de criar uma biografia, nem verídica nem ficcional, através de entrevistas, de testemunhos de memória, de correspondências, etc. Cada novo fragmento virá se incorporar ao anterior, acrescentando algo a esta biografia que será por natureza incompleta.

Fragmento 1: Relato de uma lembrança

Uma parte considerável da história de Claudio Ulpiano está associada a Macaé - então pequena cidade do litoral fluminense, hoje uma cidade em pleno desenvolvimento -, onde nasceu a 14 de novembro de 1932. Essa distância, que hoje se atravessa em pouco mais de duas horas, não raro levava mais de um dia inteiro para ser percorrida, por estrada de ferro ou vias lamacentas, o que obrigava o viajante, muitas vezes, a pernoitar no caminho, para atingir seu destino apenas no dia seguinte. Embora na idade adulta Claudio tenha se fixado definitivamente no Rio de Janeiro, durante um longo período de sua existência ele retorna com regularidade à cidade materna em busca do frescor dos seus ventos e de sua intensa e radiosa luminosidade.

Apesar de sua origem fluminense, Claudio é criado no Rio de Janeiro, ainda Distrito Federal, anos antes de sua fusão com o Estado do Rio. Macaé, no entanto, permanece para ele um ponto de referência, onde costuma passar suas férias na grande casa dos avós, uma espécie de sítio em pleno coração da cidade. É nessa casa que vezes sem conta Claudio se refugia em seu quarto, tendo ao lado algumas dezenas de livros, que lê sem descanso. Muitos de gramática portuguesa - ecos de seu encontro com aquele que aponta como o "único professor" que teve em sua vida, suplantado apenas pela leitura dos grandes mestres que, no futuro, a filosofia, a arte e a ciência lhe trariam. Inúmeras vezes Claudio faz referências à figura exótica que, quando menino, lhe dava aulas de português no Colégio Anglo Americano, em Botafogo. Vestido de branco, com um terno de corte impecável, e portando nos pés um sapato de bico fino e longo, em duas cores, reproduzia o trajar típico dos malandros que transitam, ainda hoje, nas ruas da Lapa. Teria sido, esse professor, quem lhe trouxe a paixão pelo estudo e a pesquisa de nossa língua.

No Rio de Janeiro, após a separação de seus pais, Claudio vive em uma agradável casa da Rua Maria Amália, na Tijuca, em companhia de sua mãe e de seu irmão mais velho, momentos de proteção e felicidade que permanecerão em sua lembrança como as mais ternas recordações de sua infância. Claudio se descreve, nesse período, como uma criança alegre e vivaz, que se destaca invariavelmente em todas as suas incursões esportivas. Foi campeão inter-bairros do jogo de botão - atividade muito em voga na cidade desde a década de 30, quando os "jogadores", ainda fabricados artesanalmente, a partir de botões de roupa, de material e tamanho diversos, eram torneados e preparados com esmero, de modo a garantir um bom desempenho, naturalmente favorecido pela habilidade do botonista e pelo estilo com que administrava sua palheta.

A morte de sua mãe, ainda jovem, vítima de um distúrbio na glândula tireóide, hoje de fácil cura, marcou de maneira definitiva o espírito da criança. Essa perda, prematura, leva-o a reunir-se outra vez com seu pai, então em sua segunda união e já com mais três filhos, passando a residir com eles em um apartamento no Morro da Viúva. É então que Claudio Ulpiano faz seu encontro mais significativo - com a vasta biblioteca do pai -, de importância essencial para a carreira que desenvolveria a seguir.

Se esse trajeto mais ou menos extenso que liga o passado ao futuro do filósofo, seus sonhos de menino à efetuação de sua vida adulta, por um lado se assemelha ao percurso de tantas vidas à procura de um destino, em seu caso particular assume os contornos de uma busca cada vez mais devotada ao pensamento.

Sílvia Ulpiano

Fragmento 2: Um sonho de Maria Luísa

Os sonhos atribulados de Maria Luísa é um livro escrito pelo físico Mario Novello, e o trecho a seguir expressa a bela amizade e mútua admiração que sempre existiu entre Mario e Claudio.

No livro, a menina Maria Luísa, filha de um cosmólogo, o Doutor Luís, passa seus dias em estreita convivência com o ambiente científico que reina na sua casa. À noite, tem estranhos e admiráveis sonhos, onde passeia entre físicos, filósofos e partículas que conversam e se explicam, e onde as informações extraordinárias que ouviu sobre o universo se misturam às suas experiências do dia-a-dia.

Num destes sonhos, no qual visitam sua casa o doutor Gödel e o doutor Rosen, e vão todos passear por uma ponte que leva “ao mesmo lugar, só que no dia anterior ” – a ponte de Einstein-Rosen –, está presente também Cláudio Ulpiano.

“ Por volta das 13 horas, doutor Luís tinha conseguido – sabe-se lá como – despachar o chato do doutor Panathos, e na sala já estavam Rosen, Gödel e o filósofo fluminense Ulpiano. Este foi o último a chegar.

No começo, ele não queria aceitar o convite. “ Eu não sou físico ”, dizia. “ Não entendo nada disso”. Mas o doutor Luís, que gostava muito dele, insistiu com uma meia-verdade: “ Olha, Ulpiano, não fui eu quem sugeriu teu nome para formar parte dessa equipe, mas sim os outros dois ”. Isto não mudou em nada a decisão dele. Até que o pai de Maria Luísa encontrou um argumento definitivo:

— Ulpiano, disse o doutor Luís, nós não estamos querendo ensinar nada. Só aprender.

Isso deixou Maria Luísa muito, mas muito, espantada.

— E eu que pensava que professores só ensinassem!, exclamou espantada”.

Um pouco depois, no mesmo capítulo, quando Maria Luísa já está no meio da travessia da ponte que leva ao passado, ela cruza de novo com o filósofo.

“ Quando chegavam no meio da travessia Maria Luísa percebeu que o doutor Rosen se afastava mais e mais. Ela se esforçou para andar um pouco mais rápido, mas não conseguiu acompanhar-lhe os passos. Parecia que ele voava, tão rápido estava!

“ Que será que deu nele?”, falou para si mesma. “Parece que está fugindo de alguém. E além disso, esse vento...” Realmente, um vento forte tinha acabado de começar.

Mal ela disse isso, viu que uma boa dúzia de velhinhos – que ela reconheceu de uma antiga fotografia que ficava no alto da estante de seu pai, como sendo filósofos bem famosos – corriam, logo atrás dela, de mãos dadas com o professor Ulpiano. Todos falavam ao mesmo tempo, parecendo que cada um queria impor alguma verdade ao outro. As palavras eram pronunciadas muito rapidamente, como se estivessem sendo sopradas com força, quase cuspidas. O resultado final dessa confusão era precisamente este: eles estavam produzindo uma ventania!

— Caramba! disse espantada. O professor Ulpiano trouxe todos os seus colegas!

Embora não ficasse claro se eles estavam correndo atrás ou à frente do doutor Rosen, uma coisa era certa: eles estavam sem dúvida se evitando! “ Puxa! Parece que houve alguma coisa no passado entre eles...”, pensou. Com a ventania que os filósofos tinham provocado, a ponte estava completamente em desordem. As coisas estavam literalmente fora de ordem.

— Não faz mal. Vou acabar consertando tudo. Vou até voltar lá no passado e fazer eles serem amigos de novo, disse, como se fosse tão simples reatar amizades.

O professor Ulpiano parou a corrida, arfando.

— Um café, por favor, minha filha, pediu.

Mas, curiosamente, não esperou pelo café e seguiu de mãos dadas com seus amigos na direção da ponte. Eles continuavam falando todos ao mesmo tempo. Maria Luísa reconheceu a voz de um deles – mas não se lembrou de quem era –, que repetia várias vezes:

Nesta ponte, quem caminha veloz para o futuro

se aproxima rapidamente de seu passado...

Nesta ponte, quem caminha veloz para o futuro

se aproxima rapidamente de seu passado...

Embora não entendesse o que ele queria dizer com isso, ela ficou contente. “ Ainda bem que eles estão se divertindo com outra coisa. Pelo menos não estão mais correndo atrás do doutor Rosen!”

O doutor Rosen estava tão furioso depois da cena com os filósofos que tremia a um canto, envolto numa imensa camiseta que lhe cobria totalmente o rosto.

— Desse jeito o senhor vai acabar batendo com a cabeça em algum lugar, alertou Maria Luísa. Mas parecia que ele não a escutava.

— É sempre assim quando estamos por perto, disse um dos filósofos. Ele não fala. Fica mudo. Parece que não acredita em nada do que a gente diz, ou então tem medo, sabe-se lá do quê!”

Os sonhos atribulados de Maria Luísa, Jorge Zahar Editores, Rio de Janeiro, 2000

Fragmento 3: Carta a uma criança

No ano de 1990, Cláudio e Silvia ficaram alguns meses hospedados na casa de uma amiga. Ela tinha uma filha de dois anos, que acordava muito cedo. Todos os dias, invariavelmente, a criança saía de sua cama, sentava-se no sofá da sala e assistia aos mesmos filmes, Bela Adormecida e Mágico de Oz. Cláudio, que sempre dormiu pouquíssimas horas (não raro, passava muitas noites sem dormir) era o único habitante da casa acordado naquele momento, além da criança. Ele a seguia no seu ritual: também sentava no sofá e assistia aos filmes, todos os dias. E todos os dias lhe fazia as mesmas perguntas sobre eles. Embora desconfiada, a criança sempre lhe respondia, como se estivesse ouvindo as perguntas pela primeira vez. Numa ocasião, Cláudio lhe escreveu este texto:

UMA DECLARAÇÃO DE IGNORÂNCIA COMO PROVOCAÇÃO

Para a minha amiga das manhãs: Julia Isabela

"Julia Isabela, com seu pequenino espírito, diante de mim, quando lhe faço as ruinosas questões sobre Bela Adormecida e Mágico de Oz, torna-se hesitante: estaria à frente de um ignorante ou de um provocador? Mas como seu coração ainda mantém o virgem tecido da inocência, ela me responde todas as vezes... já o cérebro que, desde sua aparição, é rápido e preciso computador, a faz colocar seus olhos claros em perplexidade – tanto a ignorância quanto a provocação são artes que, nela, estão in absentia. A hesitação e a perplexidade são faceirices deste corpo, que todos os dias inaugura a vida com festa".

Do seu amante, Claudio Ulpiano

Fragmento 4: Entrevista com Claudio

Esta entrevista foi realizada em 8 de julho de 1995 na casa do Claudio, em Laranjeiras. O entrevistador era Rodolfo Treitel Paschoal, um aluno, que pedira a ele uma entrevista sobre suas leituras, para ser publicada num livro com outras entrevistas sobre o mesmo tema. O livro acabou não saindo. Logo após a morte de Claudio, em 1999, Rodolfo cedeu gentilmente o texto a Silvia Ulpiano.

Rodolfo pergunta: Claudio, antes de você começar a ler, você costumava ouvir histórias... - alguém contava histórias pra você?

Claudio responde [inicialmente com uma voz muito lenta...]: Bom... Se isso ocorreu... não terá sido o mais importante pra mim. É que eu fui criado... numa enorme biblioteca ­- do meu pai; e o contato que eu tinha com os livros era de uma maneira um pouco mágica, porque.. eu via o meu pai trabalhar, e... atingia -- a biblioteca no momento em que ele não estava. Os livros apareciam pra mim dessa maneira... E muito cedo, com muito pouca idade, eu comecei a fazer leituras...

Comecei a ler livros indicados pelo meu pai: é... As Minas do Rei Salomão... depois... todo um acompanhamento de literatura brasileira... e... aos 10 anos - por um encontro casual... - eu li O Banquete de Platão. Aos 10 anos de idade, aquilo me tocou muito... porque eu não sabia - em função de eu viver num universo jurídico - que as coisas relativas aos afetos do homem eram tão importantes!... Por incrível que pareça!...

Aí, eu tomei conhecimento do... do amor!... E, a partir daí, eu comecei a minha vida de leitura.

(Não sei se isso é suficiente...)

R: Você... na infância, fez alguma identificação com algum personagem que você tenha lido?

C: Não! Não creio... Era muito variável, porque também eu li Dostoiewski muito cedo - e se identificar com personagens de Dostoiewski é muito difícil! É... Eu conseguia fazer uma leitura sem identificação com os personagens e isso talvez... - não posso explicar o motivo - tenha me feito passar pelas literaturas mais diferenciadas umas para as outras. Eu poderia ler - por incrível que pareça... - Alexandre Herculano, Dostoiewski, Campos de Carvalho e... não sentia a menor dificuldade!

Houve uma época, era a época... do verão, que eu passava na casa do meu avô - uma casa enorme, no interior, em Macaé; aí, eu separava uma grande quantidade de livros para ler naquele verão... E esses livros, geralmente, eram da minha avó - e tinham sido da minha mãe. Então aparecia literatura feminina... como [a de] alguém já desconhecido hoje, que se chamava Madame Delly - era o pseudônimo de uma leitura “água com açúcar”. E o Vento Levou..., mas também, misturado, Dostoiewski... Então, era [essa] mistura que - eu acredito - me possibilitou a... poder fazer qualquer tipo de leitura, sem nenhum medo! Acredito que sim.

R: E... influência da cultura popular?

C: Como, cultura popular? Você quer dizer, música?

R: Música!

C: Ah! Permanentemente. Não só música, como os amigos - os primeiros amigos... É... mas para fazer uma exata influência sobre mim... Aprimeira grande influência sobre mim foi o cinema. O cinema me influenciou muito, muito mesmo - porque eu chegava nas quartas-feiras, aqui no Rio, e eu já não tinha mais filmes para ver - eu tinha visto todos!... E com muito pouca idade eu comecei a conhecer o cinema europeu, o cinema francês... por Marcel Carné. Foi provavelmente o primeiro... Então, o cinema me causou uma grande influência... Muito, muito forte!

A música, também não foi propriamente a música popular, que me tocou primeiro. Porque a minha madrasta tinha discos de “selo vermelho” - europeus, importados - e eram músicas clássicas... as chamadas músicas clássicas - óperas, etc. E eu talvez tenha penetrado primeiro nisso... do que no samba, no chorinho... Mas também comecei a conhecer - através dos meus amigos - a música americana, que era fatal, não é? Morando no Rio de Janeiro... eu tinha de conhecer o jazz... e... e... a mistura com o cinema, por exemplo, os musicais americanos...

Mas... O que você chama de cultura popular... eu me perco um pouco no que seria isso, exatamente...

O jornal... eu lia... Desde muito pequeno - diariamente - eu recebia em casa, às segundas, quartas e sextas - O Gibi e o Jornal dos Esportes.Aliás, O Gibi, O Mirim e o Jornal dos Esportes - quando eu era pequeno; bem pequenininho. O Gibi e O Mirim eram duas revistas em quadrinhos. E às terças, quintas e sábados - o Suplemento Juvenil e O Globo Juvenil. Interessante é que o Suplemento e O Globo tinham formato de tablóide; e O Gibi e O Mirim tinham formato de livros. E, todos os dias, o Jornal dos Esportes - porque eu era apaixonado pelo Fluminense!

R: Você... tinha costume de escrever e faz alguma ligação entre a leitura e o que você escrevia...?

C: Tinha. Tinha costume de escrever contos. Porque eu lia muuuito - contos. Inclusive havia nessa época revistas que, eu não posso dizer - eram “especializadas” em contos! Mas todas as revistas, que chegavam às minhas mãos, tinham contos. E, geralmente, contos traduzidos - contos de escritores estrangeiros... que eu não lia na língua original: lia em português; e... me impressionavam muito, muito!... Não propriamente os contos de amor, mas os contos... - os contos que traziam alguma novidade; alguma coisa encantadora...

Eu poderia citar um, que... - utilizando conceitos da minha leitura atual - eu chamaria de um conto de conjugação virtual. E esse me impressionou muito - por isso eu vou [fazer a narrativa dele]:

Era a história de um homem... apaixonado por uma mulher... e ele não tinha acesso a essa mulher. E, um dia, ele estava num salão e ela noutro; e - entre os dois - uma porta de vidro... E a imagem dela se refletia na porta de vidro! Aí, ele mudou a posição da cadeira - pra que a imagem dele também entrasse... no vidro da porta. Aí, a imagem dele ficou do lado da imagem dela. Ele esticou a mão e... a imagem da mão dele tocou na imagem da mão dela... E “ela”... estremeceu!

Quer dizer: ela reage, estremecendo. E isso me impressionou muito - no sentido de que o conto poderia fazer experiências magníficas do espírito. Isso foi uma descoberta que eu fiz. E, a partir daí, meus contos têm essas marcas de experimentações - que não eram propriamente experimentações psicológicas; mas experimentações... que - com as minhas influências deleuzeanas atuais... - eu chamo de conjugações virtuais.

R: Então, a partir disso, você dirigiu a sua leitura?

C: Não... Eu não poderia dirigir a minha leitura - porque era uma massa de informação que eu estava começando a receber. Eu era muitopendido para a literatura; mas, como eu disse pra você, aos dez anos eu já tinha lido um livro de Platão!? Mas o livro de Platão - que era O Banquete - ainda não era propriamente filosófico... Já, quando eu cheguei aos 16 anos - eu comecei a tomar contato com livros de filosofia. Livros de filosofia; na época, também livros de psicologia; uns poucos livros de lingüística...

Então, eu comecei a me aproximar dessas leituras - e verifiquei que a leitura de filosofia era altamente apaixonante! - E, aí, eu me envolvi de imediato na história da filosofia; interessei-me em estudar grego... M e interessei, não foi porque era bonito, ou não, estudar grego; porque me interessou - era útil pra mim! Eu via aquelas palavras em grego... e sentia desejo de traduzir aquilo.

Então, eu comecei a ler Platão, comecei a ler os gregos... E imediatamente apareceu Jean Paul Sartre, pra mim - sem dúvida nenhuma - como o meu primeiro grande ídolo intelectual. Sartre falava... eu me deslumbrava! E como Sartre tinha uma influência muito grande da fenomenologia... - eu me tornei um estudante, assim, voraz - da fenomenologia do Husserl. E foram esses dois caminhos daqui que fizeram com que eu me encontrasse com Deleuze - um pouco na frente - e... constituísse o meu destino.

R: Você possuía algum ritual específico de leitura?...

C: Olha... no verão... - como eu falei pra você - eu colocava uma pilha de livros, numa casa muito grande, em que a gente morava - uma casaenorme, de interior; e eu ficava num quarto - lá na frente da casa, distante assim uns 50 metros dos outros quartos. É... eu fazia um ritual erótico... um ritual erótico - dificilmente eu passava uma noite de leitura sem me masturbar. Era quase impossível que isso não acontecesse:fazia parte. Eu me sentia... parece que eu descobria meu corpo, não é?

“Ler” e “corpo”: é... a beleza da vida - a força da vida, cruzadas de todas as maneiras dentro de mim! Então, dificilmente também eu parava de ler antes que amanhecesse... Eu esperava amanhecer - sempre. Era uma experiência belíssima de vida!

R: Há algum autor que você já admirou, e hoje em dia você não gosta mesmo - virou um desafeto?

C: Não acredito... Não acredito, porque eu não fiz essa, como eu disse pra você, essa associação com o autor como comumente se faz. Eu sempre sobrevoei. Eu sempre estive sobrevoando. E... isso até me deu muito orgulho na minha vida porque... eu sempre observei as relações das pessoas com os autores e as minhas foram diferentes... Então, se por acaso um autor me causou uma impressão numa época, eu posso dizer que na outra época ele não causou?... Não! Não! Aquela impressão que ele me causou naquela época - para aquela época - ela foi magnífica! Então, não há autor de que eu tenha gostado e que hoje eu não goste... De cada um, eu arranquei alguma coisa pra formar opatchwork que eu sou.

R: E... quais são seus autores preferidos?

C: A partir de Deleuze! Eu tenho Deleuze como uma espécie de... de fonte de todo o meu pensamento. E como Deleuze... faz um investimento... - eu vou aos extremos - digamos, da... literatura à matemática... É... eu leio René Thom, eu leio Henry James, eu leio Platão, eu ouço Schumann, eu ouço Paulinho Moska... Ou seja, eu faço todas as experimentações possíveis no pensamento. Então... a pergunta foi autor preferido? Acho... que todos os que escreveram... e... todos os que vão escrever!

R: Você... costuma ler mais de um livro ao mesmo tempo...?

C: Hum! Normalmente... Se você olhar, normalmente 40-50 ao mesmo tempo: eu nunca li um livro na minha vida... - Ler um livro... - Ler um livro.., eu faço isso quando eu deito... Aí eu deito e leio um livro, quer dizer, leio um conto... Mas isso é muito raro! Geralmente eu estou na mesa de trabalho... e na minha mesa de trabalho eu estou com o meu espírito em alta atividade... eu posso estar lendo um conto, lendo um romance... mas aquilo está sempre associado com alguma coisa. Nunca tenho um objeto isolado (não é?) como se eu fizesse... Porque, inclusive, essa idéia de isolar um objeto - eu acho que se chama um projeto de representação. Então, a única maneira que eu tenho de quebrara representação, é conjugar tudo que eu faço - inclusive a leitura. Por exemplo: nesse momento, eu estou com um texto de “tempo” em implicação na minha frente; mas ao lado... tem as coisas mais variadas que se associam com essa leitura que tá aí. Inclusive, nem mesmo música eu posso dizer que não ouço ao mesmo tempo.

R: Você... costuma ler fragmentos...? Como é que você...?

C: Costumo. Costumo ler, desde que esteja envolvido com o meu trabalho! Por exemplo, estou lendo um texto... - eu estou escrevendo um livro sobre Deleuze, né? Eu estou escrevendo um texto ou lendo um texto, por exemplo, sobre o TEMPO. Aí, aquele texto libera alguma coisa sobre... “perambulação” - [sobre] como, por exemplo, Benjamin chama o flâneur. Aí, eu sou levado a ler Édipo em Colona... Eu sou forçado, ou seja, eu sou um leitor sem vontade - eu não tenho vontade própria! O texto me força - me força a ler. E eu me sinto inteiramente livre, ou seja: eu acho que conquisto a minha liberdade exatamente porque eu me submeto à força que me impele a ler; e não por uma “escolha livre” da minha vontade - que eu acharia uma tolice.

R: Fala mais um pouco sobre esse percurso...

C: Porque eu considero que o pensamento não seja “ por natureza” uma tendência a se exercer. O homem não exerce o seu pensamento porvontade livre; nem o próprio pensamento tende a pensar por natureza. Eu considero que o nosso pensamento só começa a se exercer, quando alguma coisa de fora o força a fazê-lo. Ou seja - nós só pensamos forçados. Isso aqui foi um aprendizado que eu fiz na obra do Deleuze. O homem - naturalmente - é banal, tolo e envolvido em asneiras. Então, pra evitar essas asneiras, eu passo a minha vida como se estivesse drogado. Ou melhor: eu procuro sempre me drogar. Mas essa “droga” que eu uso é... o pensamento. É provavelmente a droga mais poderosa, que não permite mais retorno - não há cura pra ela!...

R: Existe alguma conjugação entre ler um livro e uma leitura do mundo? Como é que você vê essa afirmação?

C: Permanentemente! Eu acho que “ler e estudar” não é um refúgio. Aqueles que lêem e estudam pra se refugiar - eu não acredito que eles estejam “lendo” e “estudando”. Porque “ler e estudar” é, necessariamente, fazer uma abertura para o mundo. Não fazer uma abertura pro mundo pra observá-lo, ou pra reformá-lo, ou pra transformá-lo. Mas pra destruí-lo - e produzir outro mundo. Ou seja, eu “leio” e “estudo” para saber que o pensamento - sempre que ele se exercer - pode criar novas linhas de vida; logo, outros mundos. Pensar é mergulhar no mundo. Ler é mergulhar no mundo. É exatamente o oposto desses que fazem... é... - são, o quê? - São, mais ou menos, os imbecis letrados - aqueles que se fecham num “grande saber”, emitindo “máximas”, que não têm serviço nenhum a favor da vida. O pensamento existe, o estudo existe, a leitura existe - pra prestar um serviço... à vida. Então, sempre voltados pro mundo...

Rodolfo Treitel Paschoal é psicólogo e Doutor em Saúde Coletiva pelo IMS-UERJ

Fragmento 5: Sobre a morte de Gilles Deleuze

Querida amiga,

Esse texto foi escrito para o Jornal do Brasil por ocasião da morte de Deleuze: nós estávamos em Petrópolis, não sei se você se lembra. Foi um dia muito difícil. Imagina dizer para o Claudio que Deleuze tinha morrido! Mas você sabe, de uma certa forma tanto o Deleuze quanto o Claudio enganaram a morte, ou fizeram com ela um acordo muito especial: morrer sem morrer sufocado. Não deixa de ser uma bela morte, um pouco à maneira dos gregos, ainda que isto não me sirva de consolo. Quanto ao título, ele foi dado pelo próprio jornal, a partir do texto.

Silvia

SOFRIMENTO DE HOMEM COMUM

Como falar de Deleuze quando estou tão comovido? Que é um príncipe dos filósofos, que é o pensador da diferença, que entendeu que tudo é contemplação? Jamais! Seria não ter aprendido a sua lição: que o mundo em que vivemos é o melhor dos mundos, ao modo de Leibniz, porque nele há a potência de criar e de inventar. E em um mundo em que Deleuze sorriu, escreveu; apaixonou-se por Glenn Gould; concebeu o que é a filosofia; fez da arte afetos de matéria; deu ao caos a dignidade permanente do crivo, formamos a crença, - horizontal -, de que neste mundo são compossíveis; o direito de amar Deleuze, como se dele fôssemos um heterônimo; e por ele sofrer insuportavelmente, como uma pessoa, como o mais comum dos homens.

Claudio Ulpiano, novembro de 1995

Fragmento 6: Dez anos sem Cláudio: uma impressão pessoal - escrito em 5 de janeiro de 2009

Hoje completam dez anos.

Lembro-me bem de alguns detalhes daquela manhã, outros me escapam, se esfumaçaram na memória. Tenho apenas uma vaga lembrança de que estava nublado e chuviscando, não sei mais ao certo. Por outro lado, recordo-me nitidamente quando o telefone tocou e meu amigo T me deu a notícia.

Sim, o que temíamos, mas sabíamos inevitável, tinha acontecido.

Claudio havia falecido.

O enterro seria dali a algumas horas, num lugar afastado, nos arredores de Niterói.

Imediatamente a rede dos amigos e colegas se mobilizou. Em pouco tempo, eu já estava à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas, à espera da carona de minha amiga M, também ex-aluna de Claudio.

Começam aí os jogos singulares da memória daquele estranho dia.

Não me lembro como cheguei à Lagoa, que horas eram, se chovia mesmo, o nome do cemitério, a hora do enterro, mas me lembro de detalhes insignificantes, como, por exemplo, M parando o carro numa curva de intenso tráfego. Nossa outra amiga, J, que estava no banco do carona, não conseguia se mobilizar para abrir a porta do carro para eu entrar; havia-se esquecido que o carro de M era de duas portas.

Estranho como estes detalhes tolos ficam e se justapõem a outros, aos que realmente importam, nestes momentos tão decisivos da existência. É como se a percepção de tudo o que aconteceu, imediatamente antes, se exaltasse. E as linhas e as sombras se alongassem, as cores se saturassem, os sons e os odores se aguçassem, para grafar a memória de maneira diferenciada, fisicamente, como sulcos no corpo e não apenas imagens fugazes na consciência.

No carro íamos as três, atravessando túneis e pistas de alta velocidade, em direção à ponte que nos levaria até Niterói, no outro lado da baía de Guanabara.

M e J, que haviam acompanhando mais de perto os últimos dias de Claudio, conseguiam conversar e fazer algum sentido daquele acontecimento.

Eu, que havia estado afastada nos últimos meses, não conseguia fazer sentido de nada. Para mim, eu me via de novo a caminho de mais um encontro com a morte, com a perda precoce de um ser querido. Anos antes eu havia perdido um irmão de 23 anos, antes disso meu pai, aos 46 anos, e agora era Claudio, que havia sido outra figura masculina marcante em minha vida, a deixar nela outro vazio impreenchível.

Mas eu não conseguia sentir nada, só me via enredada por uma nuvem de perplexidade, que parecia combinar com aquele dia de teto baixo, ou que pelo menos assim parecia para mim.

Enquanto atravessávamos a ponte, eu apenas via imagens em movimento se desfilando caleidoscopicamente através do vidro do carro. Nada se conectava com nada, é o que me lembro desta viagem de carro. M e J conversavam e eu fazia um esforço enorme para seguir o que elas diziam, mas não me lembro de uma palavra, só de que eu não conseguia sentir, não conseguia entender, não conseguia pensar.

Tudo parecia inacreditável, Claudio morto, nós três dentro de um carro, chegando em Niterói num dia chuvoso, quase frio, um pouco depois do ano novo. Era como um sonho dentro de um filme, um pesadelo vívido, mas irreal.

O carro subia e descia por elevados, ladeando estaleiros e fachadas encardidas depois de atravessar a ponte, já em Niterói, e eu temia chegar a nosso destino, temia minha própria reação.

Pois apesar de o exercício de sofrer uma perda brutal ter-se tornando absurdamente freqüente naqueles últimos anos – além das mortes trágicas de meu pai e de meu irmão, eu também tinha perdido minhas avós, me separado e deixado toda uma vida na Austrália – por uma estranha coincidência de circunstâncias, eu nunca tinha visto o cadáver de uma pessoa querida, até então. Desde a infância, por mais precoces, chocantes e violentas que tivessem sido as mortes em minha vida – e foram mesmo – elas sempre haviam me atingido com um primeiro golpe acolchoado, como uma almofada colocada na frente de uma pistola. Não ter visto os corpos de meus mortos talvez tenha atuado como uma anestesia inicial, um narcótico de curta duração contra uma dor insuportável, mas inevitável. Até hoje não sei se isso retardou ou acelerou o “processamento do luto”, a “aceitação da perda” – ou seja lá o nome que os guardiões da normalidade usam – ou se não fez qualquer diferença.

Daí meu nervosismo, minha ansiedade, o medo de minha própria reação, ante este iminente encontro com a morte como um fato tão real, já consumado e objetivo.

M dirigia bem, J continuava conversando com ela, prosseguíamos sem obstáculos, afinal era uma manhã de trânsito bom, em plena semana, primeiros dias de janeiro. Chovia pouco – se é que chovia.

Apesar disso, parecia que não chegávamos nunca. Estávamos atrasadas, o lugar era longe, afastado, nos perdemos um pouco, mas quando nos achamos, não foi difícil saber. Rostos conhecidos começavam a surgir entre carros estacionados próximos ao cemitério, depois entre alamedas e lápides. E logo encontramos a capela certa.

E foi então que, pela primeira vez, vi o corpo morto de uma pessoa amada. E todo o absurdo da morte me golpeou, desta vez, com a sua violência real, sem qualquer anestesia. Eu senti minhas pernas vacilarem, tive que me encostar numa parede, tentando me compor e me conter, para me adequar à atmosfera à minha volta.

Mas à medida que recobrava o auto-controle, me abstraía da presença das outras pessoas, e me via diante do vazio.

E tentava entender como era possível aquele homem, que até pouco tempo estava tão vivo, tão loquaz, estar estirado naquele caixão, imóvel, silencioso e silenciado para sempre?

Como ele, que havia mudado a minha vida e a vida de todas aquelas pessoas ali presentes, podia morrer?

Como seria possível nunca mais vê-lo entrar numa sala, com seu andar elegante e seus cabelos longos, menear a cabeça em sinal de cumprimento a todos e lançar aquele sorriso tímido, mas inequívoco, que anunciava sem palavras sua alegria de estar ali e que naquele momento, embarcaríamos todos em uma aventura inesquecível, uma aula sua?

Ou senão ver seus olhos faiscando de intensidade, quando percebia que havia conseguido nos transmitir um grande pensamento, e depois, num ato de relaxamento, pedir um café para a Silvia?

Ou vê-lo pensando com as mãos, ele que gesticulava tão belamente enquanto pensava, diante de uma sala repleta de pessoas sedentas por um bálsamo que as aliviasse da dor de existir e também apontasse para um novo horizonte, um “mundo possível”, mas dentro deste mundo mesmo, dentro desta vida mesmo, porque é a “única que nós temos”, como ele sempre afirmou?

Como suportar este vazio?

Como continuar a amar esta vida agora?

Como continuar a acreditar nela e na potência do corpo, se ali, diante de nós, estava a morte, vitoriosa, a caçoar de nossa dor, de nosso sofrimento, de nossa perda?

Ele havia feito de sua vida uma obra de arte, que compartilhava generosamente com todos que dele se aproximavam. Como poderia agora ser arrebatado assim, arrancado dela, traído por ela?

Eu não agüentei: me aproximei e toquei sua mão, para ter certeza. E o corpo frio, confinado, imóvel, só confirmou o que eu já sabia. Ainda assim, era como se eu, em algum lugar, acreditasse ser possível implorar para que ele ficasse conosco só mais um pouquinho - só mais um pouquinho, - que não se fosse tão cedo, por favor. Era uma sensação meio mágica, meio irreal, como de estar dormindo e não querer acordar, ou esperar que um milagre acontecesse, mesmo não acreditando em milagres...

Mas o rosto jazia sereno, belo e inescrutável, confirmando a realidade implacável dos fatos, do fato da morte. O ritual do funeral tinha que continuar, a tampa do caixão seria fechada, as pessoas tinham que dar o último adeus.

Foi então que, num impulso, me lancei para frente e beijei sua testa. Como se, desesperadamente, eu lhe pedisse para me deixar algo, por mais ínfimo que fosse, daquilo que ali, dentro dela, havia-se armazenado por tanto tempo e tão brilhantemente.

As lágrimas jorravam, mas eu me continha, me mantive composta e bem comportada, mantendo o decoro.

E em direção ao jazigo íamos todos nós, que havíamos sido alunos, amigos, parentes, colegas. Alguns muito próximos, outros nem tantos, mas, enfim, estávamos ali reunidos e impotentes, solidários e solitários, diante de uma parte de nós mesmos que se ia para sempre.

Pois é assim a morte de uma pessoa amada: um pedaço de nossos corpos que nos é arrancado à sangue frio, sem piedade, sem anestesia.

Como seria a vida depois deste dia?

Como seria a vida depois desta perda?

***********

Dez anos se passaram depois deste dia.

Como tem sido a vida, desde então, sem o Claudio, para alguns de nós?

Ela continuou, sobrevivemos. E a rede que ele teceu, que nos uniu enquanto ele viveu, também continua viva, fortalecida ao redor de sua obra, de sua voz, de sua presença ausente.

Nestes dez anos, cada um de nós perdeu mais alguém e teve ganhos e alegrias também. O mundo mudou, se acelerou, muitos se dispersaram, outros se esforçam heroicamente contra as adversidades e mantém acesa a chama da memória.

Mas tenho certeza absoluta de que todos nós que ficamos, que o conhecemos, que fomos tão profundamente afetados pela vida que ele nos ajudou a tornar possível, todos, sem exceção, sabemos o significado da palavra mutilação. Pois ter sido parte da vida de um ser tão extraordinário quanto o Claudio - e depois perdê-lo - é como se ver de repente sem pernas e sem braços e ter que continuar a andar, assim mesmo.

A gente pode até rastejar, é verdade, mas não consegue mais voar.

Apesar disso, no dia a dia e de vez em quando, me surpreendo com lampejos da presença dele em minha vida. Principalmente em sala de aula, quando me pego dizendo algo que deixa meus alunos boquiabertos. Ou quando vejo neles uma centelha de fascinação no olhar, quando lhes apresento um texto ou um pensamento libertador, que parece abrir uma janela jamais vislumbrada.

Sorrio para mim mesma.

E me lembro daquele beijo que lhe dei na testa.

E me dou conta de que tudo o que ele abrigava ainda vive. Através de mim e de todos aqueles que estavam presentes em Niterói naquele dia, há dez anos atrás.

Apesar de parcialmente mutilados e já dez anos mais cansados, nossos corpos ainda abrigam o desejo de viver e a potência de criar novos mundos, “mundos possíveis”.

E abrigam também a capacidade de amar esta única vida que temos.

E de torná-la uma obra de arte.

Vera Lima Ceccon é professora de Literatura Inglesa da Faculdade de Letras da UFRJ

Fragmento 7: "Sou um mortal, cercado de mortais"

Todos estes textos, escritos à mão por Claudio, fazem referência à sua doença e à falta de ar ocasionada pelo enfisema pulmonar que o acompanhou durante longos anos. A fragilidade do seu corpo fica evidente no tremor da letra no manuscrito aqui reproduzido.

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1 -

Não quero falar. Quero escrever. Uma carta com gosto de caneta e de cama - e bastante imprecisa. Uma espécie de delícia noturna; um sonho que antecipa o sono feito de drogas hipnóticas. Por quê ?

Quebrei a esperança - sou um mortal, cercado de mortais. Criatura sem criador. Um fragmento entre outros. O que posso escrever... pensar: portos seguros. NUNCA MAIS. A tempestade, a turbulência e só.

Problema: os guerreiros se tornaram ridículos, os santos morreram, os artistas agonizam.

2 -

“ Por que me canso com tanta facilidade ? Parece - me impossível estudar ”. Este enunciado, o repeti seguidamente em meados de 1990 e no começo de 1991. E ainda o tenho bastante vivo, embora já não me comporte da mesma maneira. Não que agora possua uma disposição infatigável. Longe disto. Sinto - me inteiramente frágil, todavia é diferente: antes, sentia - me esmagado. Agora é um ir e vir, as águas das ondas na praia. Só não sei se aplicado a um determinado fim, pensar, o novo estado revela melhoras sobre o antigo. Antes era insuportável. Paralisava - me. Agora, há uma inquietude, mas paradoxal, porque imóvel: como se tivesse atingido a pura forma da inquietude, que não se inquieta, embora todos seus conteúdos sejam inquietos. Não é menos horrível, não é menos insuportável.

Em ambos, temo a morte e a solicito.

3 -

Estou pensando em escrever, embora seja inteiramente indiferente - ao meu “ estado de coisas ”, a concepção de um projeto. Excita - me, sem dúvida, como deve excitar a parede branco - creme do quarto, a quem dorme nele há vários anos: estar vivo é excitante. Produz excitação ser um fragmento no tempo, ter uma memória, com blocos de passado nos acompanhando, projetos negros para o futuro, pensamentos estarrecedores sobre a vida... excitação ou repetição... Mas que quero escrever ?

Uma mistura de filosofia, literatura, pessimismo existencial - com a devida revolta pelas condições frágeis da vida e da matéria...

4 -

Impossível para mim adaptar - me às circunstâncias. Ser determinado de fora a fazer. Não cumpro ordens não obedeço. Só sei entender. E para entender posso manter meu sonho de solidão. Obedecer é me reunir a outros. Isto não suporto. Preciso curar - me? Preciso de uma cura ? Não acredito: acho - me formidável, sem querer com isto dizer que sou melhor que alguém. Sou meu star. Dou - me autógrafos. Delicio - me em viver da maneira que vivo.

5 -

Estou atordoado. Como se estivesse em um bote soçobrante no meio de uma tempestade de raios e trovões. Atordoado nas paixões; uma parte de mim. Neste recinto, das paixões, tudo se tornou irrespirável. É uma noite escura: as trevas sem fundo. Um vulcão desesperado; delirante.

6 -

1) É preciso que meu espírito cada vez fique mais buliçoso - inquieto. É sua saída possível. Não posso suportar não compreender, ou compreender pouco, ou compreender à altura do autor - quero ir mais longe, desligando - me de tudo que pertença ao meu tempo histórico como força de pressão. Que venha a eternidade !

2) Quem não carrega consigo as imagens e as emoções de determinados filmes ?

7 -

Acredito que nestes últimos quatro anos, esta é a primeira vez que me acho em condições de “ não sufocamento”, como se minha doença pudesse ter um retrocesso, a ponto de esta “ melhora ” estar acontecendo. A ponto de poder escrever uma carta - fato dos mais admiráveis do espírito humano.

Minha tese sobre Deleuze - que ousadia ! Escrever sobre Deleuze sem ser francês. Mas é o que faço, em idas e vindas, as mais difíceis.

Fragmento 8: O filósofo brasileiro

No ano de 1990, uma aluna do Cláudio que se mudara para a Austrália, a Vera Lima Ceccon, veio passar uns dias no Rio e aproveitou para entrevistá - lo. Ao final da entrevista, pediu - lhe que gravasse uma pequena mensagem para o pessoal do seu grupo de filosofia da Austrália, formado por jovens de vários países. O texto abaixo é a transcrição desta mensagem.

O FILÓSOFO  BRASILEIRO

Pode ser surpreendente, mas existe filosofia no Brasil. É evidente que o filosofo brasileiro é uma espécie de buraco no fundo dos oceanos, para onde as águas de todo o planeta se dirigem. Então, nós recebemos a poesia inglesa, o rock australiano, a filosofia francesa. Nós somos uma mistura, mas exatamente por sermos uma mistura nós somos estrangeiros o tempo inteiro. Nós não temos um território delimitado.

O nosso universo de filósofos é de viagens constantes. E essas viagens fazem com que nós façamos os encontros mais insólitos; por exemplo, eu sou filósofo, mas me misturo com santos medievais, poetas malditos franceses, pintores modernistas, música da “ pesada ”, matemática, e todo um universo completamente diferente do que aqueles que vocês estão acostumados a conviver sendo ingleses ou europeus.

O que eu entendi, pelas informações que a Vera me deu, é que haveria alguém aí que seria um lingüista, outro que seria um poeta, talvez o próprio lingüista, outro que seria um biólogo e ao mesmo tempo um baterista. E eu acho que a combinação da biologia, da bateria, da lingüística e da poesia, no final das contas, daria um filósofo brasileiro, uma espécie de buraco no oceano que recebe múltiplas águas. E no meu entender isso é um meio de produzir alguma coisa nova, e talvez muito bonita. Então, quando a Vera me falou de vocês, eu disse: Por que vocês não fazem essa experiência ? Misturam um pouco de moléculas, metáforas, jogos de sonoridade e constroem uma arte nova !? É isso, um abraço para vocês !

Claudio Ulpiano

Fragmento 9: Final de Aula

A gravação a seguir tem apenas 36 minutos de duração. É o final de uma aula dada por Claudio no dia 3 de março de 1994. Não sabemos onde está o início dela. Talvez tenha se perdido, entre tantas fitas cassete que sumiram, estragaram, ou nunca chegaram às nossas mãos. É mais do que interessante ouvir esta gravação, porém. Ela tem um charme bem especial, a atmosfera dos finais de aula nos grupos de estudo na casa de algum aluno, quando a exposição ia virando uma conversa sem deixar de ser aula e, sobretudo, filosofia.

É sobre Deleuze que Ulpiano discorre. "Então Deleuze vai finalizar" , ele fala, "dizendo que a obra de arte é produzida pela memória de curta duração. Não começa a supreender a gente? Não começa a mexer com os nervos da gente? O coração não começa a bater mais forte? Não está acontecendo algo de originalíssimo? Memória de curta duração e memória de longa duração encontradas no cérebro... Não são figuras metafísicas! Estão no cérebro".

Num dos blocos em que costumava rabiscar pequenos textos, Claudio escreveu: "Dar aula é para mim o melhor movimento que posso fazer na vida. (...) Ambiciono a solidão do meu pensamento - mas amo o convívio da aula. Esta ambiguidade, mais o caos que as pessoas que me cercam constituem, é toda a minha biografia".

Final de aula: Parte 1
Final de aula: Parte 2

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2 opiniões sobre “Final de aula – fragmento de uma gravação”

  1. Foi um grande achado este sítio. Degusto com enorme prazer, há algum tempo, aulas de Claudio. Elas me são muito caras e acrescentam muito em minha vida, liberam muitos cativos. Parabéns a todos. Márcia

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