Aula de 13/01/1994 – Idéias e impressões – Hume: conexões necessárias

Utilizam a palavra conceito mais ou menos, ou integralmente, como sinônimo de ideia e eles falam conceito incomplexo ou conceito complexo em relação à palavra que encobre o conceito. Ou seja: se for só uma palavra é um conceito incomplexo. Por exemplo: mesa é um conceito incomplexo (tem uma só palavra), conexão necessária é um conceito complexo (porque tem duas palavras). Entenderam? (...) O complexo é quando duas palavras recobrem o conceito (duas ou três ou mais). Por exemplo: ‘alunos sentados nesta sala que pertence ao consultório de Narciso’, isto é um conceito! Complexo, [um conceito] complexo. O conceito não precisa ser uma palavra. O conceito pode ser todo o livro do Proust. Todos os sete romances do Proust... até o Temps Retrouvé.
 
Então, conexão necessária, que é uma ideia (aqui a palavra conceito e a palavra ideia estão misturadas). Por exemplo: se vocês forem ler Kant, conceito pertence ao campo do entendimento e ideia pertence ao campo da razão. Entenderam? Mas aqui, neste instante...
Em Kant você não pode misturar conceito e ideia, de forma nenhuma! (...) Mas neste instante eu estou colocando como sinônimos, conceito e ideia, sem preocupação nenhuma. E trabalhando na ideia de conexão necessária que aparece no Tratado da Natureza Humana de Hume. Capítulo 2, se não me engano, não tenho muita certeza, seção 14. Com este título: Conexão Necessária.
 
Muito bem!
 
Hume aparece na história do pensamento como uma viragem, como uma mudança do pensamento. Muito real isso, porque toda tradição cientificista ela se constitui em cima de Hume. Toda ela é constituída em cima de Hume, em cima dos chamados enunciados sintéticos de Hume, ela é toda constituída em cima disso. Então você vê um Bertrand Hussell, vê um Wittegenstein, você vai encontrar o Hume presente neles sempre, por causa da modificação da maneira de pensar a ciência.
 
Então em Hume vai aparecer esta ideia chamada conexão necessária, uma ideia complexa, recebendo um capítulo especial. Hume dedica um capítulo especial a esta ideia: Conexão Necessária. Um capítulo enorme que o brilhantismo de Hume é assustador. Mas o tema é tão difícil que ele tem dificuldade até de poder expor. É uma coisa que acontece com o pensador, que talvez vocês não saibam. O pensador às vezes tem dificuldade de expor aquilo que ele está gerando, às vezes até escreve mal, porque ele quer expor aquilo e ele se torna um pouco difícil.
 
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Então essa ideia aparece no Hume no Tratado da Natureza Humana. Mas o Hume tem um ponto de partida clássico que no correr deste curso eu vou fazer uma transformação surpreendente. Mas evidentemente eu não posso fazer esta transformação sem que vocês conheçam o modelo clássico do empirismo. E modelo clássico do empirismo é uma transformação feita por eles na teoria das ideias. Para os empiristas, todas as ideias que nós temos são, necessariamente, originárias na experiência. Nós não temos sequer uma ideia que não venha da experiência. Então, quando nós tivermos uma ideia, essa ideia necessariamente vem da experiência e o Hume diz que na experiência o que nós apreendemos são as impressões, as impressões do mundo. E essas impressões são simples e descontínuas. Que, até num excesso meu, deveriam ser constituídos sobre elas, conceitos incomplexos, ideias incomplexas. Porque são simples. Por exemplo: É possível que um homem faça a ideia de verde? É possível sim. Por quê? Porque ele faz a experiência do verde no mundo. É possível que um home faça a ideia de frio? Sim. Porque ele experimenta o frio no mundo. Certo?
 
Então, todas as ideias que nós temos, antes de serem ideias, foram impressões. Vê se todo mundo conseguiu entender isso com facilidade...
 
Então, na verdade, a ideia e a impressão não são duas coisas, são a mesma coisa com variação de intensidade. Então essas ideias são as impressões e o sujeito humano é aquele que vai conviver, a existência dele toda, com essas ideias que ele recebe da experiência. (Certo?)
E aí vai se fundar o mundo prático, o mundo prático é esse. Então, quanto mais impressões do mundo você tiver, mais ideias você forma e mais capacidade prática você tem para constituir a sua existência. Isto chama-se sensações, são as sensações.
 
Agora, evidentemente, se você tem essas impressões com as quais você forma ideias, você vai poder associar as ideias  senão as ideias ficariam isoladas. (A associação vocês podem colocar como sinônimo de justaposição - justaposição é quando dois elementos estão juntos, mas estão separados).
 
Então o Hume, ele é fundamentalmente, ele é classicamente o filósofo das sensações e das associações. Então ele trabalha com estas sensações e em seguida o sujeito humano associa essas ideias, que antes de serem ideias foram impressões. A diferença de impressão para ideia é de intensidade: as impressões são fortes e as ideias são fracas. Um exemplo: você entra em contato com o vermelho de uma camisa e forma uma ideia de vermelho. A ideia é sempre mais fraca que a impressão.
 
Então o Hume tem uma prática que é muito interessante: toda ideia que ele tem, ele busca  no mundo  a impressão correspondente. Se não houver uma impressão correspondente, é uma ideia de contrabando. Interessantíssima esta prática, né?!
 
Aluna: O que é isso? Ideia de contrabando?
 
Claudio: Contrabando quer dizer que é uma ideia fictícia. Por exemplo: Nós não podemos formar a ideia de centauro?
 
Aluna: Ah, é neste sentido...
 
Claudio: Daqui a pouco eu explico melhor isso pra vocês, certo?
 
Agora, presta atenção, presta atenção:
 
A palavra justaposição e a palavra conexão parecem ser sinônimas, mas elas não estão funcionando, no discurso de Hume, como sinônimos. Então ele vai dedicar (como eu disse pra vocês) uma seção do segundo capítulo  a décima quarta seção  (várias páginas [do Tratado da Natureza Humana]) à ideia complexa de conexão necessária. O que quer dizer necessário? Necessário (este ano vocês vão ter que aprender isso, viu?) é o campo das modalidades. Você produz um juízo: ‘O homem é bom’; ‘O homem é possivelmente bom’; ‘O homem é necessariamente bom’; ‘O homem é realmente bom’. O necessário é um juízo em que você articula sobre ele determinadas categorias modais: de possível, de impossível, de necessário e de real. Que gera os juízos chamados assertóricos, apodíticos, etc. (Eu volto a isso pra explicar melhor pra vocês)
 
Então apareceu em Hume a ideia de conexão necessária. Conexão necessária entre o que? O que é conexão necessária? O que ele está dizendo é que esta ideia de conexão necessária apareceu no espírito humano, aparece no espírito humano, afirmando que determinadas ideias que vem do mundo  estão relacionadas, necessariamente. Eu não sei se vocês entenderam... Não?
 
Vejam bem: eu tenho uma ideia... eu tenho a ideia de fogo. De onde é que vem esta ideia de fogo? Da impressão de fogo [do mundo]. Eu tenho a ideia de calor. De onde é que veio? Veio do mundo. Então eu tenho a ideia de fogo e a ideia de calor. A ideia de fogo vem da impressão do fogo e a ideia de calor vem da impressão do fogo. Então eu tenho duas ideias. Estas duas ideias estão no meu espírito. Separadas. Separadas. Certo? Estão separadas. Então o meu espírito sempre que aparece a ideia de fogo, o meu espírito (pum!) acrescenta a ideia de calor. Apareceu a ideia de fogo no me espirito (pum!) ideia de calor. Não se se vocês entenderam. Em seguida o meu espírito vai produzir a ideia de conexão necessária, dizendo que a ideia de fogo e a ideia de calor estão necessariamente conectadas. Sempre que uma aparecer, a outra tem que aparecer.
 
O mais importante é que esta ideia de conexão necessária não esta vindo do mundo, está sendo produzida pelo espírito. É isto que está sendo original. Por que todas as ideias vêm do mundo e esta ideia de conexão necessária de modo nenhum vem do mundo. Porque o mundo não nos dá nenhuma ideia de conexão necessária.
 
Ele não pode dar a ideia de conexão necessária por uma razão muito simples. Presta atenção. Quando você tem uma coisa, quando essa coisa aparece, ela aparece sempre ligada a outra. Sempre que ela apareceu, ela apareceu ligada a outra. Vamos dar um exemplo, uma coisa que sempre aparece ligada a outra. É...
 
Aluno: gelo e frio!
 
Claudio: Gelo e frio. Sempre que aparece o gelo, o frio aparece conectado a ele. Ou não? Correto? Sempre que aparecem, eles estão juntos. Mas você não pode garantir que amanhã eles vão estar juntos. Por que você não pode garantir? Porque todo conhecimento humano se fundamenta na experiência. Se o seu conhecimento se fundamenta na experiência e o que vai acontecer amanhã ainda não foi experimentado. Então você não pode garantir que o que está junto hoje, vai aparecer [junto] amanhã. Logo, no mundo não existe nenhuma conexão necessária.
 
Aluna: No mundo não tem, né? Só no espírito, né?
 
Claudio: É o espírito que está construindo esta ideia de conexão necessária.
 
continua...
 

Parte 1:
Parte 2:

 
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4 opiniões sobre “Aula de 13/01/1994 – Idéias e impressões – Hume: conexões necessárias”

  1. Como aluno do curso de História na UFF, na década de oitenta, tive o prazer de escutar, por um semestre, o professor Claudio. Hoje, fazendo o mestrado na UFRGS, ele foi citado em aula, e tive um grande orgulho de dizer: fui aluno dele. Levitar na cadeira e vencer a gravidade, isso era escutar as suas aulas.

  2. Agradeço ao pessoal do site pelo esforço em transcrever ou mesmo em postar as gravações. Vez por outra leio e releio algumas das transcrições como complemento de algum estudo e fico maravilhado com a riqueza das palavras do Claudio.
    Espero que continuem com o magnífico trabalho!

  3. Excelente ! Sou imensamente grato …. de todas as aulas que tive na graduaçao e mestrado, poucas foram tao ricas como estas. Parabéns aos organizadores do site.
    Um abraço

  4. Adoro demais estas aulas. Foi o meu presente de 2014 descobrir este site. Adorei demais! Gostaria que Claudio estivesse vivo para eu falar a ele o quanto ele é fenomenal, excelente e um perfeito professor. Estou acompanhando todas as leituras e todos os áudios, fazendo o estudo completo. Coloquem mais audio pois estou adorando. Obrigada a todos que estão fazendo este trabalho e aos familiares de Cláudio. Parabéns.

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