Aula de 20/04/1995 – Mundo das sensações: tudo se movimenta, nada se formaliza

O pensamento... quando eu falo pensamento, eu estou me referindo a uma faculdade do sujeito humano; ou seja, o homem contém nele uma série de faculdades – faculdade quer dizer força.  Força voltada para fora. Então o pensamento, a percepção, a memória, a imaginação – isso é que são as nossas faculdades – a linguagem... nada nos impede de dizer:  o canto. Então as faculdades humanas, elas são, no nível da possibilidade – no nível da possibilidade quer dizer: Quantas faculdades o homem pode ter? Acho que infinitas. Quantas ele tem atualmente? Algumas. Entre elas, uma faculdade chamada pensamento. E essa faculdade chamada pensamento, no Livro X, o Platão diz que ela – esta faculdade – só funciona se uma determinada força que estiver fora dela , e esta força, o Platão chama de contradição –que eu vou explicar para você o que é –, se esta força aparecer. Esta faculdade –o pensamento– vai funcionar diretamente ligada à contradição. Explicando outra vez: O que Platão está dizendo é que o pensamento humano, ele nunca viria à tona, ele nunca funcionaria, nunca haveria em nós o ato de pensar, se o mundo funcionasse no seguinte modo:
 
(...)
 
Se o mundo fosse constituído de um lado de um conjunto de sujeitos (...) e cada sujeito que nós somos é constituído por uma série ou um conjunto de vivências, cada um de nós marca sua existência pelas vivências que cada um de nós possui e que vão variando ao longo da nossa vida. (...) Ou seja, nós os sujeitos humanos estamos mergulhados...  (...) numa corrente do tempo. E a ideia de sujeito humano, pressupõe que, nessa corrente do tempo, onde se dão as vivências – sempre mutantes e variáveis –  existe a unidade de um eu que permanece sempre idêntico a ele mesmo.
 
faixa-doacaoO que eu quero dizer é que as vivências que eu tive o ano passado, eu suponho que foram vivências de um eu; que é um mesmo eu que está tendo vivências neste momento, agora. O que quer dizer isso? Quer dizer que, dentro da corrente do tempo, haveria uma estranha figura chamada eu, que não variaria com a flutuação e a mutação do tempo.
 
Essa figura chamada eu, chama-se substância ou substância humana  – ou ego, ou eu –  que seria aquilo que nos daria uma identidade e uma unidade.
 
De outro lado do sujeito existiriam os objetos. Por exemplo: estes óculos, este copo, este livro. E o que se pressupõe é que os objetos são constituídos... Atenção, que é fortíssimo o que eu vou dizer!  Os objetos são constituídos por um conjunto de sensações. Cada objeto, ele é constituído por um conjunto de sensações. Por exemplo: quadrado, duro, pesado, cinza, um aroma. Ou seja, um conjunto de sensações... cor, aroma, peso, calor, superfície... constituem o objeto.
 
Mas essas sensações, tanto quanto as vivências do sujeito, estariam na corrente do tempo.
 
Ora, se essas sensações estão na corrente do tempo, e o tempo é aquilo que faz e desfaz, da mesma maneira que o tempo faz e desfaz as vivências,  ele faria e desfaria as sensações. Mas o que se supõe é que unindo estas sensações haveria uma identidade e uma unidade do objeto que se manteria na corrente do tempo.
 
Ou seja, o que eu estou dizendo para vocês é: as duas noções – de sujeito e de objeto –  elas não são retiradas da corrente do tempo, mas elas se sustentam  – cada uma delas –  por uma unidade que mantém no sujeito e mantém no objeto, uma identidade.
 
Vocês entenderam. Certo?
 
Esta identidade é a identidade dos sujeitos, é esta identidade que faz com que, por exemplo, que nós sejamos reconhecidos pelos nossos amigos, pelos nossos parentes ou mesmo pelos nossos inimigos. Ou seja, se eu perder a minha identidade, provavelmente os meus inimigos não me odiarão mais. E se eu perder minha identidade, provavelmente os meus amigos não me amarão mais. Então a identidade é um fato do reconhecimento.
 
A identidade – tanto do sujeito quanto do objeto –  é um fato propriamente do reconhecimento. Ou melhor, em termos filosóficos, a palavra que se usa não é reconhecimento, mas recognição. O que significa que a nossa existência, ela se dá num processo contínuo e invariável, melhor dito: é uma linearidade homogênea de recognições. É uma linearidade homogênea de reconhecimentos. Ou seja, nós passamos as nossas vidas reconhecendo a identidade das coisas.
 
Certo?
 
Essa identidade das coisas, este reconhecimento, é que, [segundo Platão... ...é isto que ele está dizendo] todos aqueles que vivem no universo da recognição – ou seja, no universo do reconhecimento –  eles não precisam pensar. Por que ao viver neste universo do reconhecimento – neste universo da recognição –  está tudo placidamente constituído. Nada me abala, nada leva o meu pensamento a pensar.
 
É como se o mundo fosse um apaziguamento completo. O apaziguamento do reconhecimento.
 
continua
 

Parte 1:
Parte 2:

 
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