Aula de 11/09/1994 – Nietzsche: universo e diferença

“Quando você pega um autor, o mais importante para você começar a penetrar naquele autor, é o uso de conceitos que ele vai fazer. O uso de conceitos quer dize, ele vai começar a introduzir um novo campo conceitual. E pode se comparar com a própria música: cada autor trás seu ritmo próprio. Há um ritmo no Nietzsche, há um ritmo no Proust, há um ritmo no Kant. (Certo?)

Então, como instrumento de entendimento para vocês poderem fazer essa penetração, na última aula que eu dei sobre Proust para vocês, eu coloquei que no Proust vai aparecer um confronto de um duo que é ‘a amizade e a filosofia’ contra ‘o amor e a arte’. (Agora preste atenção a este fenômeno. Preste atenção aqui!) O Proust ao falar nestes quatro elementos – a amizade, o amor, a filosofia e a arte – ele falou nas expressões superiores do homem. Um homem que perdesse essas quatro vias, para onde ele iria? O que restaria dele?

Então, a hipótese do Proust, no final das contas, é abandonar três dessas vias, – que seriam a amizade, o amor e a filosofia – e ficar somente com a arte. Mas o importante é que vocês percebam que essas quatro linhas são para todos nós – (...) Então a importância que o homem dá à amizade é esplendorosa. A amizade é um dos grandes momentos da vida do homem. E o Proust colocou a amizade ao lado da filosofia, fez um par: ‘amizade e filosofia’, e um outro par: ‘o amore e a arte’. Por quê? Porque ele vai considerar o amor quase que infinitamente superior à amizade. O amor muito superior à amizade e a arte muito superior à filosofia.

Mas, se por um acaso houvesse uma guerra e estes quatro elementos – amizade, a filosofia, o amor e a arte – terminassem. O que que restaria para o homem? Eu acredito que ou a banalidade ou a loucura. Não sei se vocês conseguiram entender: não restaria mais nada. Ou nós dedicaríamos as nossas vidas a banalidades do cotidiano, aos tempos mortos às idiotias ou então nós mergulharíamos na loucura. (...)

Eu acredito que, de alguma maneira, o Nietzsche começa quando ele se envolve com a loucura. O Nietzsche começa assim.

Então a obra do Nietzsche é uma obra terrível, uma obra terrível! Porque ele conduz o homem a uma posição quase que insuportável. Ele rompe com estes elementos: o amor, a amizade, a filosofia e eu estou exagerando um pouco em relação à arte aqui – na verdade, no final das contas é isso. O Nietzsche diante do homem: um ser necessariamente dramático, um ser necessariamente trágico; um ser que tem diante dele mistérios, a morte, a doença, a velhice; ou seja, um ser que tem diante dele a decadência que ele não pode impedir que se dê. O Proust busca a saída disso primeiro na amizade e vê que por aí não dá; em seguida na filosofia; em seguida no amor e, finalmente, na arte. A arte para o Proust seria a grande saída. Eu estou forçando Nietzsche e dizendo que Nietzsche buscaria uma quinta saída: a loucura.”

Continua...

Parte 1: 

Parte 2: 

Parte 3: 

 

Primeira aula da série “Arte e Estética – pela via de Nietzsche”

3 opiniões sobre “Aula de 11/09/1994 – Nietzsche: universo e diferença”

  1. Essa aula se associa às questões brilhantemente discutidas pelo Paulo Oneto na última coluna, sobre as questões da loucura e da vida colocadas na obra do Nietzsche. Impossível não ouví-la sem arrepios, nós na garganta e gargalhadas!

  2. Olá, antes de tudo gostaria de agradecer pelo grande trabalho que vocês fazem aqui, dando acesso as pessoas a todas essas questões e cursos, venho acompanhando vocês a um tempo e o conteúdo me deixa fascinado!! Gostaria de saber se por acaso vocês vão disponibilizar as aulas em áudio pra download, aliás o site novo ficou ótimo.
    Muito Obrigado.

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