Aula de 25/08/1994 – Nós, os homens: qual a causa da nossa infelicidade?

(...) eu começo a entrar em novos mundos, novos universos, inclusive novas palavras. Porque, se eu vou trabalhar com novos mundos, eu não posso reproduzir as palavras deste mundo em que nós vivemos.
 
Tudo o que eu tenho feito até agora, na verdade, são preparativos. Não é dizer que daqui a duas aulas eu já tenho competência e vocês já têm competência para, juntos, nós começarmos a trilhar a filosofia do Deleuze ¬que é uma Filosofia originalíssima e dificílima. Mas eu conto que o início já vá se dar talvez na próxima aula; aí que vão começar a surgir novos conceitos ¬conceitos assim que você nunca ouviram falar: ritornellos, clinâmen¬ e aí vocês vão começar a compreender e isso vai mostrar para nós que é uma ilusão a gente pensar que só existe esse tipo de mundo, que só existe esse tipo de espaço, que só existe esse tipo de tempo. Vocês vão começar a compreender que existe uma multiplicidade de tempo, uma multiplicidade de espaço; que os nossos afetos podem ser modificados e as nossas maneiras de vida também.
 
Essa aula de hoje, ela vai... ela tem todo um objetivo; se eu obtiver sucesso de conduzir vocês para estes novos caminhos. (...) Numa linguagem universitária deficitária [esses novos caminhos] chama-se constituição de novas subjetividades.
 
Eu, aqui nessa aula, eu fiz uma menção ¬ não sei se vocês devem estar lembrados¬ entre subjetividade material e subjetividade espiritual. Eu fiz essa distinção. Eu não levei à frente essa distinção, mas é uma distinção deleuziana; no sentido de que a subjetividade espiritual, ela já conviveria com novas forma de tempo, com novas formas de arte, novas formas de pensar.
 
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De uma outra maneira, ao utilizar os instrumentos do Foucault ¬que eu nunca utilizei nessa aula¬ é... o poder político, ele não é administrador; como classicamente nós pensamos, segundo o modelo marxista. O poder político é produtivo. E o poder político é sempre uma subjetividade, que eu chamo de subjetividade material.
 
Então essa distinção entre subjetividade material e subjetividade espiritual apareceria em qualquer tipo de Arte... apareceria na Música, no Cinema, no Teatro, na Pintura, na Literatura.. O que não seria 'a realidade', seriam 'duas maneiras de viver um mesmo processo'. Certo?
 
(...) essas questões, eu acredito que todos vocês vivem e têm dentro de vocês um gérmen do que eu estou dizendo: que um mesmo processo pode ser vivido de maneiras diferentes. E a marca disso pra nós vão ser essas duas subjetividades ¬conforme eu estou colocando: uma subjetividade material e uma subjetividade espiritual.
 
continua
 

Parte 1:  
Parte 2: 
Parte 3: 

 
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7 Responses

  1. Obrigada pela oportunidade de poder conhecer as maravilhosas aulas de Claudio Ulpiano. Acabo de ouvir as gravaçoes de “Qual a causa da nossa infelicidade?” e gostei muito. Há um momento em que se perde parte do discurso ao passar da fita 2 para a 3. Ele comenta sobre pintura e fiquei sem saber. Mas é apenas um detalhe, todo o restante é uma enorme oportunidade de aprender.
    Abraço de agradecimento.
    Solange.

    • Cara Solange
      Agradecemos seu comentário. É muito bom saber que a “sala de aula” virtual tem sempre novos alunos. Este é o nosso objetivo! As gravações, no entanto, foram feitas com aparelhos não-profissionais, muitas fitas se destruíram; às vezes apresentam falhas, e alguns minutos se perdem, como nesta aula. É uma pena, mas não há o que fazer. Estamos tentando recuperar mais de uma gravação de uma mesma aula, e no futuro esperamos ter o máximo possível de aulas inteiramente restauradas. É um longo processo, porém…
      Um abraço, Os Editores

  2. agradeço a voces pela oportunidade de aprender com um educador tão singular e brilhante.

  3. Prezados editor@s,

    caso possam, peço que informe-nos sobre o filme citado pelo Ulpiano no minuto 17 da parte 2, parece que o título seria O Anjo.

    grato pela atenção e pela disposição dos senhor@s em lançar estas trilhas sonoras no cyber espaço.

    • Olá, Alan
      Desculpe a demora na resposta! Somos pouquíssimos trabalhando aqui. O filme que o Claudio cita é “Asas do Desejo”. do Wim Wenders. Ele se refere ao filme dizendo “O anjo, do Wim Wenders”, pois os personagens do filme são anjos.
      Um abraço, Os Editores

  4. Bom dia,

    há algo de errado com as partes 1 e 3? Não consigo ouvir… Alguém mais passando por isso?

    Grata,

    a.

  5. É com muita emoção que recebo aqui, obrigado! Cláudio! Parabéns!!! Sua precisão absurda para preparar um espírito, que nunca conheceu essa perspectiva da imanência, que nos traz estes problemas legítimos. Sua capacidade de insuflar estética é algo único, é diZer o impensável e assim, expressar o infinito. Uma saída para quem nunca entrou em contato com essa potência, mas que, por outro lado, não suporta mais a mesmice da mediocridade. Parabéns pela iniciativa!!!!

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