Aula de 03/05/1995 – O caos e o crivo – O conjunto dos possíveis

(...) O meu objetivo [nesta aula] é, como eu disse pra vocês, a Teoria do Acontecimento, que o Deleuze aponta como sendo originária nos Estoicos, em Leibniz e em Whitehead. (Certo?) Então, o meu objetivo em torno do Whitehead é atingir a Teoria do Acontecimento. E essa Teoria do Acontecimento vai gerar quatro conceitos. E nós temos que lidar com esses quatro conceitos do Whitehead (que são de extremada dificuldade de compreensão!), que são: Extensão, Intensidade, Indivíduo e Objeto Eterno. Então, de alguma forma, nós temos que nos inteirar deles [desses quatro conceitos].
 
(...)
 
Então eu vou indicar um livro para vocês, um livro chamado “A Dobra” [A Dobra: Leibiniz e o Barroco] , um livro do Deleuze que trata do Whitehead, trata do Leibniz e trata do Barroco.
 
(...)
 
O Deleuze, em um capítulo que ele trata do Acontecimento, no livro “A Dobra”, ele introduz dois conceitos em inglês: “Many” e “One”. [Quando] ele introduz esse dois conceitos. Normalmente, um leitor de filosofia exulta, todo de peito erguido:  É comigo mesmo! –diz o leitor de filosofia, “Many” quer dizer “Mútiplo” e “One” quer dizer “Um”. Então “Um” e “Múltiplo”. É um hábito que todo estudante tem... desde que nasce ele está estudando estas duas coisas: , o “Um” e o “Múltiplo”... mas quando ele vai se aprofundar, [ele vê que] não tem nada a ver. Não tem nada a ver... Estes dois conceitos [em Whitehead] estão próximos a uma questão bergsoniana não interessa neste momento.
 
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Mas o Deleuze vai liberar estes dois conceitos, com o objetivo de falar em outros dois conceitos, que são o conceito de “Caos” e o conceito de “Crivo”. (...) Ele usa esses dois conceitos e coloca que o conceito de “Caos” é uma abstração, no sentido de que o “Caos” não aparece sem a presença do “Crivo”. Então, quando eu digo que “A” não aparece sem “B”, eu digo que “A”  isolado  é uma abstração. É isso que ele está dizendo.
 
Então o conceito de “Caos” para ele seria uma abstração, como eu disse. Em seguida, o Deleuze vai apontar – para entender o que ele está dizendo em termos de “Caos” e de “Crivo”– (...) ele aponta para uma questão Física [para você ver qual a dificuldade do texto!], a Eletromagnética; ele aponta uma questão da Biologia, que é a membrana polarizada – Ninguém nem sabe o que é isso...– ; e, em terceiro lugar, ele aponta Platão (...).
 
Então, o que eu vou fazer nessa aula é um trabalho em Platão, mas um trabalho de uma dificuldade e de uma originalidade muito grande; no sentido de que, nas escolas de filosofia, vocês não encontrarão uma leitura deste tipo que eu vou fazer.
 
continua
 

Parte 1:
Parte 2:

 
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2 opiniões sobre “Aula de 03/05/1995 – O caos e o crivo – O conjunto dos possíveis”

  1. Nessa aula, na parte 2, em 10:16 min. o Cláudio cita o poema de Gabriel Tarde, “Os Possíveis” (“Les possibles”). Segue abaixo a tradução:

    “Os vivos são numerosos, mas o que são ante os mortos,
    Mortos acumulados ao longo das eras,
    Diferentes, como nós, em almas e rostos,
    Sombrio e divino museu de fúnebres tesouros ?

    E que são esses mortos perto das multidões
    Dos que poderiam ter nascido e não nasceram
    Que passaram muito perto do Ser e retornaram
    Ao Limbo sem esperança das puras certezas.

    Da realidade se distanciando sem retorno,
    Possíveis e no momento seguinte, impossíveis,
    Prosseguem seus destinos celestes e pacíficos,
    Ignorando o perigo que correram um dia?

    Que esta multidão é grande, inumerável e profunda
    Que preenche o infinito com invisíveis perfis
    Entrevê o poeta em seus sonhos sutis!
    Que mundo dos recusados do mundo!

    E nós, sobre quem recai a carga de existir,
    Passamos em meio a essas sombras sem número,
    Destes irmãos mudos sepultados na sombra,
    Sem sequer nos darmos conta e sem entristecer

    O que é o real ante o irrealizado?
    Uma queda profunda, uma ruína esparsa,
    Uma sobra rejeitada da mesa divina,
    Um destroço, que tombando de tão alto, se quebrou!”

    In “Gabriel Tarde et la Philosophie de l’Histoire”, Jean Millet, p. 393-394 (Librairie Philosophique Jean Vrin, Paris, 1970)

  2. Levei quase 4 anos para entender com exatidão o meio espacial como o lugar da diferença ou da singularidade absoluta, da metaestabilidade, localizando-se, no âmbito do pensamento platônico entre o plano das essência e o mundo das cópias. O que mostra como é escorregadio o pensamento desse novo espaço do real que nos abre a obra do Deleuze. E quando o Cláudio afirma que ao nomeá-lo o ONE (artigo indefinido), Deleuze já começa a instituir um termo, em um discurso apropriado para falar desse novo nível de conhecimento, ele nos remete ao genuíno plano da criação em filosofia, na ciência (por exemplo, Simondon e a nova língua conceitual que ele precisa produzir…), ou nas artes com novas figuras afetivas que aparecem com os verdadeiros criadores de pintura, música, literatura.
    Essa é uma das aulas mais sensacionais e que não para de se multiplicar ou repetir-se criando diferença, isto é, novos problemas, na cabeça da gente.
    Abçs!

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