Aula de 11/02/1992 – O virtual ou a superfície paradoxal metafísica

Na aula a seguir - O virtual ou a superfície paradoxal metafísica - Claudio nos dá um belo exemplo de que, para ele, filosofia e vida são indiscerníveis. Para explicar o subsistente, ele chega ao PAPAI NOEL:  "Os objetos são aquilo que pertencem ao real. A teoria dos objetos, inicialmente, no Meinong, é uma ciência do real. Quando ele faz uma teoria dos objetos, está fazendo uma teoria do real, uma teoria daquilo que existe. Ao fazer esta ciência, ele verifica que existe alguma coisa  que aparece para o pensamento, mas não está dentro da teoria do real. Logo, esta coisa não é inexistente. Meinong acrescenta então aos objetos a noção de "Objectif". O "Objectif" é exatamente o subsistente. É aquilo que pode ser pensado, mas não tem existência. O subsistente não existe, só tem sentido. Eu já dei um exemplo de subsistente numa outra aula  - é o Papai Noel. A criança não é imbecil. A criança não lida com o Papai Noel como existente, mas sim como subsistente".

Esta aula foi gravada em três partes. Quando vocês a ouvirem, perceberão que na passagem da segunda para a terceira parte, um trecho está faltando. Claudio já começa a terceira parte da gravação usando a fonologia como exemplo; claramente, um segmento do que disse se perdeu.  Além disso, a gravação se interrompe antes que a aula termine. Por sorte, nas partes um e dois, a questão central da aula - as duas metades do ser, o virtual e o atual, a superfície metafísica e os corpos - já está brilhantemente exposta. A terceira parte, então, por conta dos trechos perdidos, paira incompleta, inacabada, por sobre a absoluta precisão, clareza e rigor com que o filósofo desenvolve sua fala. Optamos, porém, por mantê-la. É certo que, mesmo incompleta, ela continua a ser esclarecedora. Nossa intenção ao mantê-la, todavia, desta vez, vai além disso. Pois esta belíssima aula incompleta revela  também uma inusitada composição: o precioso material que temos nas mãos - patrimônio de todos, patrimônio aberto, patrimônio da humanidade -, sua fragilidade material (gravações caseiras em fita cassete), e os ainda escassos recursos do Centro de Estudos Claudio Ulpiano. Que esta aula, assim, expresse a beleza, a potência e a resistência da filosofia frente ao mundo material, com sua incongruência e temporalidade.

"O que importa nesse momento é que os estoicos fizeram uma coisa incrível! Eles dividiram o ser em dois planos - o plano metafísico, da superfície, e o plano dos corpos. E a partir de agora o objeto do pensamento passa a ter dois lados. Se você quiser pensar, pense os dois lados. Usando a linguagem do Bergson, se você quiser pensar, pense o lado virtual e pense o lado atual. Não se pensa mais um objeto como sendo apenas atual. Pensa-se os dois lados: o virtual e o atual (esse virtual é o que se chama estrutura, depois eu volto a esta questão). O virtual, agora, ainda que não seja existente, é absolutamente real, e se compõe com o objeto atual. Você vai fazer ciência, pense os dois. Vai fazer arte, vai fazer filosofia, pense os dois. Todo objeto é dividido em duas partes: o virtual e o atual, a superfície metafísica e o corpo. Esta superfície metafísica é o que se chama transcendental em filosofia.O transcendental é componente fundamental na constituição do objeto, tanto em termos de conhecimento quanto em termos reais. Neste instante, eu constituo o objeto como tendo duas partes - virtual e real - e chamo o virtual de transcendental. Este transcendental, esta parte virtual do objeto, vai se transformar, na obra de Deleuze - já era assim na obra estoica, à oposição de Husserl, de Descartes, de Kant - em genética, gênesis, transcendental genético. Esta parte virtual é a gênese dos seres. Logo, a existência dos seres implica toda esta superfície paradoxal metafísica".

(gravação com ruídos, porém perfeitamente compreensível)

Parte 1:


Parte 2:


Parte 3:


 

 

10 opiniões sobre “Aula de 11/02/1992 – O virtual ou a superfície paradoxal metafísica”

  1. Silvia, Renata, Marici, a vcs o agradecimento pelo trabalho imprescindível que estão fazendo e a generosidade em dividir conosco a sabedoria dessa grande alma que foi o Cláudio.
    Tudo de bom prá vcs nesse natal e no ano que começa!
    Tadeu.

  2. Muito obrigado por continuarem disponibilizando mais aulas. Fica aqui a ideia, para quem estiver a fim de ajudar, de transcrever esses áudios, já que as aulas transcritas são bem mais fáceis de serem acompanhadas. Eu mesmo, quando tiver mais tempo, irei me engajar nessa prática. Abraço!

    1. Olá, Gabriel
      Um dos nossos objetivos é mesmo transcrever todas as aulas. Já conseguimos fazer isto com 51 delas, estão no site em “Aulas Transcritas” (e, tirando 3 ou 4, não são as mesmas que estão disponibilizadas em áudio), mas realmente é um grande trabalho para uma pequena equipe. Portanto, precisamos de fato de ajuda. Se os internautas puderem colaborar, será ótimo para todos. Quem quiser transcrever as aulas, faça isto, e nos envie, para um copidesque final. Agradecemos a ajuda!
      Os Editores

  3. Aula casca grossa! No melhor sentido da expressão.
    Uma possível forma de usar as aulas do Cláudio como trampolim para nosso estudo da filosofia é o do “quebra-cabeça”. Por exemplo, nessa aula sobre a superfície paradoxal metafísica, o Cláudio nos dá uma dica a mais para entendermos a exposição acerca da extensão como conceito/componente essencial à idéia de acontecimento da maneira como é exposta por Deleuze no “A dobra…”, tema que por sua vez ele expõe numa aula sobre sobre Whitehead e Leibniz de 03/05/1995, “O caos e o crivo”.
    Pecinhas filosóficas que vão sendo montadas por nós.

  4. Escreve o Deleuze o capt 22 da “Lógica do Sentido” (pg.164-5):
    “”Não podemos renunciar a esperança de que os efeitos da droga ou do álcool (suas “revelações”) poderão ser revividos e recuperados por si mesmos na superfície do mundo, independente do uso das substâncias, se as técnicas de alienação social que o determinam são convertidas em meios de exploração revolucionários…” E a revolução começa no pensamento e não com atos de revolta juvenis.
    Me parece que é o caminho que o Cláudio aponta com suas aulas.

  5. Tadeu, importante a sua intervenção. Aliás,
    suas contribuições são preciosas e sempre oportunas. Estudar é sempre uma pesquisa, um trabalho de detetive,uma busca dos elementos distribuidos em diversos pontos que, reunindo-se em nosso espírito, ganham entendimento

    É uma felicidade contar com suas contribuições. Cada vez que uma aparece, além de acrescentar algo importante, torna patente que o esforço para disponibilizar o pensamento do Claudio é imprescindível e gera bons frutos.

    A dificuldade é sobreviver frente à falta de pessoal e de recursos. Ainda bem que existem essas meninas valorosas! (falo da Marici e da Renata). Mas é preciso manter o cuidado no caso das transcrições, super benvindas. Escreverei sobre o assunto numa mensagem para o Gabriel.

    beijo enorme e obrigada!

    Silvia

  6. Oi, Gabriel,

    Gostaria de orientá-lo, caso vc queira mesmo fazer as transcrições. Precisamos muito de ajuda. Mas as transcrições deverão ser feitas exatamente com o que o Claudio fala, sem qualquer supressões, adições ou interpretações. Precisamos do material bruto, que apenas depois será trabalhado, enquanto o Claudio fala em nossos ouvidos. Procuramos manter, inclusive, as perguntas,porque elas indicam as mudanças na direção da aula, para que não fiquem sem sentido. Podemos conversar mais c vc sobre o assunto.

    Obrigada por sua contribuição!

  7. Senhores editores, primeiro agradecer a disponibilização das aulas do Cláudio das quais tanto me beneficio nos meus estudos (na dissertação que acabo de defender, foram essenciais para a escrita de uma entrada que chamo de “Nas paragens do transcendental” na qual Cláudio é o meu guia)

    Sobre as transcrições, faz um bom tempo eu transcrevi a aulade 01/06/1995 “Ritornelo – a arte é um agenciamento coletivo de enunciação” enviei para o endereço que vocês disponibilizavam e nunca teve resposta, sendo que a aula não aparece nas listas de aulas transcritas. Vejo que é do nosso interesse a publicação dessas obras de artistagens que são as aulas do Ulpiano, assim que pergunto: posso enviar novamente? Como o faço?
    abraços,
    nedelka

  8. Muito legal as aulas do Cláudio. Finalmente pude escutar no meu computador.
    Um abraço a todos do Centro de Estudos Cláudio Ulpiano e um feliz Ano Novo.

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