Aula de 19/03/1992 – Platão e Aristóteles: ousia, substantia, essentia

(...) Esse procedimento analógico de Aristóteles revela que o homem em momento nenhum conhecerá Deus passo a passo. Ele só pode conhecer Deus pela analogia. Os teólogos da Idade Média, para resolver isso, têm que construir um novo sistema de razão, de uma razão que não seja mais uma razão abstrativa, mas uma razão intuitiva, que apreenda Deus diretamente.  O que acontece? Surge um tipo de razão novo, que é a razão intuitiva. Na Idade Média, só tínhamos a razão abstrativa. Mas na verdade, os filósofos que estão fazendo isto estão abandonando Aristóteles e voltando para Platão. Porque em Platão existia uma razão intuitiva. A razão intuitiva é a razão que contempla as essências, que apreende as essências diretamente. O que está acontecendo na Idade Média, subitamente, é o retorno de um platonismo recalcado. Esse platonismo começa a retornar para gerar um tipo de razão que já não funciona mais pelo mecanismo da abstração, e sim pelo da intuição, apreendendo diretamente aquilo que em Aristóteles só pode ser apreendido pelo processo abstrativo. Podemos ver com nitidez o confronto entre duas razões. (...) Os medievais vão dizer que a razão grega não pode dar conta de Deus porque o homem é dividido em: antes do pecado, no pecado e depois do pecado. Antes do pecado, Adão. No pecado, os pagãos. Depois do pecado, os cristãos, que receberam a graça. Então a razão grega, que é a razão abstrativa,  é uma razão pecadora. Os cristãos podem conhecer um novo tipo de razão, que é a razão intuitiva. Por isso eles vão admitir que é possível conhecer o indivíduo diretamente... Esta é uma narrativa brilhantíssima que o Étienne Gilson faz do Duns Scot.

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Parte 3: 
Parte 4: 
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5 opiniões sobre “Aula de 19/03/1992 – Platão e Aristóteles: ousia, substantia, essentia”

  1. Vou ouvir (e apreciar) as aulas do Cláudio, mas só o texto de introdução das gravações já me mostra um dos belíssimos papéis da Filosofia que é o de desconstrução de tantos conceitos e crenças que, muitas vezes, abraçamos como verdades absolutas por puro desconhecimento da história da História. Realmente, só sei que nada sei! Mas continuo querendo saber…

  2. Claudio Ulpiano e o ensino da filosofia como principio vital. Nós aprendemos com ele este princípio e jamais nos esqueceremos, e nos lembraremos sempre quando ele nos dava aulas sobre o Isagoge de Porfírio, sobre os Hoplitas, sobre a definição, demonstração como base para compreendermos o pensamento de Deleuze.

  3. A Razão dialética sabe também que o homem é dividido. Não se vale do pecado para fazê-lo, e a psicanálise com recursos a Saussure e aos círculos dos Borromeos exemplifica essa divisão. Consciência de culpabilidade é mais cotidiano que a ideia arcaica de pecado. Viver mais terra a terra dá credibilidade ao pensar.

  4. Essa “Razão Intuitiva” é perfeitamente válida para o que hoje conhecemos da Física Quântica pois ela advém de nossa estrutura quântica que pode “perceber” as inúmeras interligações com partículas de todo o Universo, através de um “mecanismo” puramente Intuitivo. Na verdade, não seria bem “Razão Intuitiva” mas sim, a Pura Intuição aceita pela Lógica e pela Razão.

  5. A aula seguinte na grade de aulas áudio é um detalhamento de uma riqueza incrível, dessa aula.
    Não percam a aula de 09/05/1992, “O conhecimento humano”.
    Abraços a todos os passageiros da “Nave Cláudio”!

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