Aula de 28/09/1995 – O que é um signo? – Proust: os signos materiais e o signo da arte

O ponto de partida dessa aula é a palavra signo. Essa aula que eu vou começar é uma aula dura, é uma aula difícil porque é uma aula de estudo. Uma aula de aprendizado. E esse conceito de aprendizado é o conceito mais poderoso que existe. Proust diz que o que o homem faz durante toda a sua vida é um aprendizado. O homem não para de aprender na sua vida. Então o ponto de saída desta aula é essa figura chamada signo. E eu vou começar a explicar pra vocês o que vem a ser um signo – de uma maneira inteiramente fácil, que é a maneira clássica que eu explico aos meus alunos universitários.
 
O mundo é constituído de coisas. A palavra coisa é uma palavra do vocabulário vulgar, o vocabulário cotidiano. E essa palavra coisa, ela recobre tudo o que existe. Tudo o que existe você pode chamar isto é uma coisa. Isto é uma coisa, as minhas palavras são uma coisa. Então esta palavra coisa, ela tem o valor de recobrir tudo o que existe. Por isso, qualquer elemento que exista eu dou o nome de coisa.
 
[Claudio aponta objetos na sala: isto é uma coisa, isto é uma coisa...].
 
Tudo o que existe é uma coisa eu estou aplicando para as pessoas também, tá?! ...Deus,  tudo, tudo é coisa. E as coisas, elas têm valor pra nós valor não quer dizer que elas são boas ou más; quer dizer que elas valem. A nossa vida torna as coisas valiosas.O valor é trabalhado por uma ciência chamada Axiologia ¬é a ciência dos valores. As coisas valem, elas têm valor. O primeiro valor que as coisas têm é o valor.... (interessante que é readotado pelo Marx, é readotado pelo Ricardo [David Ricardo], é readotado pelo Adam Smith; nas teorias econômicas ¬; as coisas têm para nós um valor de uso. Todas as coisas, elas têm ou podem ter um valor de uso.
 
Por exemplo: este cinzeiro, eu uso ele para apagar cigarro; o rádio, eu uso para ouvir música; a xícara eu uso para beber café.
 
Então, todas as coisas que têm no mundo, eu posso tornar ela um valor de uso. Tornar um valor de uso é a coisa mais simples para se entender: eu posso usar qualquer coisa, desde que eu consiga transformá-la em algo que me sirva.
 
Então as coisas, elas trazem com elas um valor de uso. Agora, como todas as coisas têm valor de uso ou podem ter valor de uso, todas as coisas podem interessar a todos os homens.
 
(...)
 
Como todas as coisas têm valor de uso e todos os homens podem se interessar por elas, as coisas adquirem um valor de troca. Todas as coisas [também] têm um valor de troca.
 
O que quer dizer valor de troca? Este cinzeiro que está aqui [Claudio pega um cinzeiro] ele tem um valor de uso, mas eu posso a qualquer momento em que eu quiser trocar este cinzeiro por uma outra coisa qualquer desde que eu encontre alguém interessado no valor de uso deste cinzeiro.
 
Então, tudo o que existe no mundo, todas as coisas que existem no mundo; necessáriamente todas as coisas, elas têm valor de troca e valor de uso.
Elas se tornam valor de troca... quando elas se tornam valor de troca, elas ganham o nome mercadoria. O que aconteceu no ‘capitalismo’ foi que ‘tudo no capitalismo’ se transformou em ‘mercadoria’; inclusive, dizem, o espírito. (Isso é o Marx que eu estou citando)
 
Então, até uma trovoada tem um valor de uso e um valor de troca, tá?! Tudo... valor de uso e valor de troca.
 
Então eu pego este cinzeiro e eu vou usá-lo. Muito simples: eu fumo um cigarro e jogo a cinza em cima dele.
 
Claudio: O cinzeiro tem...
 
Alunos: Valor de uso.
 
Claudio: Valor de uso.
 
Agora eu pego este cinzeiro e levo na esquina e vendo ele. Ele passou a ter valor de troca.
 
Agora, eu vou fazer uma suposição: a Maria Lúcia me dá este cinzeiro de presente. Ela me dá este cinzeiro de presente. Eu pego o cinzeiro, guardo o cinzeiro e... a Maria Lúcia vai fazer uma viagem a Paris... Ela está viajando para Paris e eu estou em casa e puxo este cinzeiro para fumar um cigarro. Na hora em que eu for fumar um cigarro, eu olho pro cinzeiro. E na hora em que eu olho pro cinzeiro, eu me lembro de Maria Lúcia. Eu olho pro cinzeiro e me lembro dela. Na hora em que eu olhar para o cinzeiro e me lembrar dela, o cinzeiro, ele deixa de ter valor de uso e valor de troca e se transforma em um signo.
 
O signo, qualquer coisa que existe pode ser um signo. Basta que aquela coisa evoque outra coisa. (entendeu Ricardo?)
 
Aluna: Acho que isso tem a ver com a memória...
 
Claudio: [Se] o signo tem a ver com a memória? [Sim] ele tem uma relação com a memória porque ele é evocador. Evocar... ele tem uma relação com a memória, o signo porque ele evoca.
 
O signo é alguma coisa que nos remete para outra coisa.
 

Parte 1:
Parte 2:
Parte 3:

11 opiniões sobre “Aula de 28/09/1995 – O que é um signo? – Proust: os signos materiais e o signo da arte”

    1. Oi, Estevão
      Fiz o teste agora, dá pra baixar sim. Mas antes você tem que esperar que aquela parte da aula carregue inteiramente. Só aí você clica em download.
      Tente fazer isto, talvez o problema esteja aí.
      Um abraço,
      Os Editores

  1. Não tinha problema algum, o problema era a peça que estava na frente do computador… hahahaha

    Parabens pelo trabalho. Tem uma aula do claudio que me ajudaria muito que ele fala sobre Melville e Bartebly. Eu vi esta aula uma vez em video. Desde ja agradeço por tudo, beijos noc oração

    1. Oi, Estevão
      Todas as aulas em vídeo estão sendo restauradas e logo estarão no site. Talvez esta aula tenha sido gravada também. Neste caso, temos que contar com o acaso. Estamos atentos!

  2. OI Marici! O trabalho do site está ótimo, venho constantemente indicando para meus alunos; é uma alegria muito grande poder estar compartilhando desta iniciativa de vcs. Tenho saudades… é bom estar perto do Claudio tão querido! bj

    1. Querida Hélia
      É muito bom estarmos juntos de novo, os antigos alunos e amigos; afinal, vivemos a época histórica dos grupos de estudo, lembra-se?
      Um beijo, marici

  3. pretendo escrever um conto pequeno mas com muita vibração sobre ulpiano, em cima de uma de suas aulas. este professor não ensina constroi aprendizados, que trabalha este de vcs, entro em contato quando possivel.

    1. Olá, Eveline
      Você quer dizer as fotos dos antigos alunos? Da época em que o Claudio dava aulas nos grupos de estudo? Bom, este é um longo trabalho de coleta e pesquisa, que temos que ir fazendo aos poucos. Esperamos um dia tornar público muitos itens interessantes desta época, fotos, depoimentos etc.
      Um abraço, Os Editores

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