Aula de 14/04/1994 – Tempo, pensamento e liberdade. Pontas do presente e lençóis do passado.

Eu vou entrar com uma categoria que é literária, que é teatral, mas que de alguma maneira é também matemática e física ― que se chama narrativa. Classicamente, narrativa traduz-se por história. A narrativa é identificada a uma história. Em literatura, chama-se estrutura diegética. É alguma coisa que tem um começo, um meio e um fim. Que lembra, inclusive, uma entrevista com as atrizes Bete Coelho e Júlia Gam sobre a peça Pentensiléias (dirigida pela Daniela Thomas e pela própria Bete Coelho).
 
Uma entrevista meio tola, que elas deram, mas em que elas falavam exatamente sobre narrativa: que é alguma coisa que conta uma história. A narrativa conta uma história!
 
E quando você conta uma história, o que está acontecendo ― e aqui eu quero que vocês marquem ― é uma SUCESSÃO.
 
A narrativa é sempre a narrativa de uma sucessão. Então, quando você fala em sucessão, de imediato você integra, à categoria de sucessão, a idéia de tempo. A sucessão é passado, presente e futuro. Então, quando você pensa em sucessão, você pensa em passagem do tempo: alguma coisa está se passando; está sucedendo; está indo do passado para o futuro, passando pelo presente. Isso que vem a ser sucessão. Na nossa vida cotidiana, nós entendemos o tempo como se fosse uma sucessão. Sempre que nós pensamos o tempo ― invariavelmente ― nós pensamos o tempo como sendo uma sucessão: alguma coisa que começa no passado; vem para o presente; e vai para o futuro. Nenhum de nós põe isso em questão!
 
Em função disso, sem que haja nenhum erro, os pensadores de uma ciência chamada termodinâmica que vai trabalhar com uma categoria chamada flecha do tempo. (Ninguém precisa se preocupar, pois se depois for necessário, nós temos aqui um físico, o Luiz Alberto, que é doutor em termodinâmica...).
 
― O que quer dizer Flecha do Tempo? Quer dizer que o tempo é alguma coisa que vai do passado para o futuro. Porque a flecha do tempo é regida por uma lei ― a lei da irreversibilidade. Ou seja: a Flecha do Tempo só vai para frente. Isso dizer que quem está regido pela lei da flecha do tempo e tiver 30 anos ― fará 31, mas nunca fará 29. (Está certo?) Isso seria exatamente a lei do tempo segundo a termodinâmica: é o tempo sucessivo, que vai sempre pra frente ― e é um tempo irreversível. Ele só vai pra frente! A nossa vida é assim: nós só vamos pra frente. (Entendeu, Cacau?). Muito bem!
 
Mas vocês viram, eu disse pra vocês, que, inclusive cotidianamente, quando nós pensamos o tempo, nós só pensamos o tempo em termos de sucessão. (Certo?)
 
― O que é sucessão? Primeiro o passado; depois o presente; e depois o futuro ― formando uma sucessão. Mas acontece que sucessão é igual a movimento. Sucessão é sinônimo de movimento. E agora vem o grande segredo:
 
Então, se nós pensamos o tempo sob o modelo da sucessão, nós pensamos o tempo sob o modelo do movimento. (Vejam se vocês entenderam?) Se o tempo é pensado em termos de sucessão, ele é pensado sob o modelo do movimento. (Ponto)
 
(Vamos pegar tudo de maneira a simplificar... viu? Eu não estou colocando nada muito difícil ― para vocês poderem entender.)
 
Isso que eu vou dizer é um pouco de ficção:
 
Vamos dizer que dois pensadores, na década de 50 na França ― um chamado Alain Robbe-Grillet [2008-2009], provavelmente o literato mais famoso da França, que inaugurou uma escola chamada Nouveau Roman e foi o responsável pela existência da Nouvelle Vague, no cinema... Alain Robbe-Grillet; e, de outro lado, um intelectual chamado Alain Resnais, que era um pensador de cinema (O Robbe-Grillet era um pensador de literatura); os dois se juntam para fazer um filme chamado O ano passado em Marienbad. Esse filme é provavelmente um dos filmes mais famosos que existem, mas que infelizmente não tem em vídeo. (Talvez no CCBB.) Então, quando esses dois artistas se reúnem para fazer esse filme ― o que eles vão fazer é fantástico! ― eles vão fazer um filme sobre o tempo. E nesse filme, inclusive, trabalha uma das mais famosas atrizes do cinema francês, que já morreu, belíssima, chamada Delphine Seyrig. Uma mulher de uma beleza extraordinária, uma atriz extraordinária... Então, esse filme é sobre o tempo.
 
O ano passado em Marienbad é um filme sobre o tempo. Então, pelo que eu disse, esse filme deveria ser sobre... sucessão. Se o tempo é uma sucessão, então, o filme ― que é sobre o tempo ― deveria ser sobre ... sobre o movimento. Exatamente! Mas acontece que esses dois pensadores vão tentar pensar o tempo fora do movimento. Marquem isso: pensar o tempo fora do movimento. (Depois eu dou as razões para isso!)
 
Alª: Fora do movimento?
 
Cl: Fora do movimento!
 
Então, uma coisa, que está fora do movimento, significa que ela não se... move! (Vê lá, Cacau:) Então, se eles vão pensar o tempo fora do movimento, eles estão afirmando que o tempo não se... move! O tempo não se move: é essa a afirmação que eles estão fazendo. O tempo, segundo o que eles estão falando, é a condição ― a CONDIÇÃO ― do movimento. Mas o tempo mesmo não se move. É essa a afirmação que eles estão fazendo, quase enlouquecida, mas...
 
Alª: O tempo é a condição do movimento?
 
Cl: Sem o tempo, não há movimento. Mas que eles estão afirmando que o tempo é uma forma que não... se move! Que não se move.
 
Então, vamos analisar O ano passado em Marienbad, sob esse modelo que o Alain Resnais e o Robbe-Grillet colocaram, que, segundo eles, chama-se o TEMPO PURO.
 
O que quer dizer o Tempo Puro? O tempo menos o movimento.
 
continua
 

Parte 1:
Parte 2:
Parte 3:

Som muito bom! Esta aula pode ser encontrada como texto em Aulas Transcritas/Curso regular realizado na casa de Alexandre Akerman/Tempo, pensamento e liberdade

Uma opinião sobre “Aula de 14/04/1994 – Tempo, pensamento e liberdade. Pontas do presente e lençóis do passado.”

  1. Não consegui acessar a Parte 1. As outras sim. É normal o video travar de vez em quando?
    Fora isso, estão sendo maravilhosas essas video-aulas pra mim, assim como todo o site. Obrigada!

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