Trilogia Lucreciana (em áudio e transcrições) – Lucrécio e a ontologia da ilusão; Lucrécio e os falsos infinitos; Pensamento: Lucrécio e Espinoza

Titus Lucretius Carus nasceu em Roma por volta do ano 98 antes de Cristo. Quase nada se sabe sobre ele. Os raríssimos comentários dos seus contemporâneos dizem respeito a sua obra, não a sua vida. Cícero, que provavelmente foi o editor de De rerum natura, o cita numa única frase, em uma carta ao irmão, no ano 44 a.C: "O poema de Lucrécio, como você diz, revela ao mesmo tempo imenso gênio e imensa arte". Ovídio o enaltece também numa única frase: "Os poemas sublimes de Lucrécio só desaparecerão no dia em que o mundo inteiro for destruído" - em Amores, I, 15, 23. Tácito evoca De rerum natura sem citar o nome do autor. Segundo Constant Martha, talvez Lucrécio, profundamente fiel ao epicurismo, tenha colocado em prática um dos mais importantes preceitos de Epicuro: "esconda a sua vida" (lathe biôsas, em grego).

Nesta Trilogia Lucreciana, Ulpiano, em bela conjugação com Deleuze, nos introduz no universo "naturalista" do filósofo. (...) A quem pergunta: "para que serve a filosofia?", é preciso responder: que outro interesse tem senão levantar a imagem de um homem livre, de denunciar todas as forças que têm necessidade do mito e da inquietação de alma para afirmar sua potência? A Natureza não se opõe ao costume, pois há costumes naturais. A Natureza não se opõe à convenção: que o direito dependa de convenções não exclui a existência de um direito natural, isto é, de uma função natural do direito que mede a ilegitimidade dos desejos à perturbação da alma de que se fazem acompanhar. A Natureza não se opõe à invenção, não sendo as invenções senão descobertas da própria Natureza. Mas a natureza se opõe ao mito. A descrever a história da humanidade, Lucrécio nos apresenta uma espécie de lei de compensação: a infelicidade do homem não provém de seus costumes,  de suas convenções, de suas invenções, nem de sua indústria, mas da parte de mito que aí se mistura e do falso infinito que se introduz em seus sentimentos como em suas obras" (Gilles Deleuze em Lógica do Sentido).

(...) No livro A gota de ouro do Michel Tournier, este conta a história de um povo árabe que tem uma narrativa, no seu interior, dizendo que os ventos do norte trazem a morte. Segundo Michel Tournier, esses ventos do norte eram, na antiguidade, os povos nômades que habitavam o norte, que cavalgavam e destruíam tudo. Esses povos do norte desapareceram e, no mito, se transformaram no próprio vento. Nada mais houve que um distanciamento da fonte. A fonte se distancia e o mito emerge. (...) Então, o mito é um produto dos fantasmas ou dos simulacros de terceira espécie. E, segundo Lucrécio, a filosofia só tem um inimigo: o MITO. O mito é inimigo da filosofia, é inimigo do pensamento. Mas aconteceu uma coisa terrível aqui. Esses mitos não são produto de um sujeito; esses mitos são absolutamente REAIS. Porque esses fantasmas de terceira espécie são absolutamente reais. Eles pertencem ao campo da Natureza. Se eu usar uma linguagem deleuziana, eles pertencem ao CAMPO DE IMANÊNCIA. Ou seja, o plano de imanência é penetrado de miragens: uma névoa que percorre esse plano. A miragem, a névoa que percorrem esse plano, são exatamente os fantasmas de terceira espécie. São penetradas nesse plano. (...)   O Lucrécio escreveu a obra dele como uma física, que é uma obra dificílima! É uma física que se pretende uma compreensão da Natureza. Compreender a Natureza. Mas toda a obra do Lucrécio não tem o objetivo físico, não tem o objetivo epistemológico. Toda a obra dele tem o objetivo prático, tem o objetivo ético. E, diz ele, se nós não afastarmos os fantasmas de terceira espécie, nós viveremos com as nossas almas perturbadas. Toda a perturbação da alma se origina nesses fantasmas de terceira espécie. A perturbação da alma atinge tal nível que, diz o Lucrécio, este livro que eu estou escrevendo ― De rerum natura – Sobre a Natureza ― tem um objetivo ― estranhíssimo ― provar que depois de mortos nós estamos mortos. Provar isso. Por que provar que depois de mortos nós estamos mortos? Porque esses fantasmas de terceira espécie vão gerar os FALSOS INFINITOS. Aqui que é o problema da nossa aula: gerar os falsos infinitos! Os falsos infinitos se originam na ilusão, que nós temos, da capacidade infinita dos prazeres do corpo; e na duração infinita da alma. Seriam os dois falsos infinitos (Claudio Ulpiano em Lucrécio e os falsos infinitos - aula em áudio e transcrita).

(...) Alguns de nós, quando instalados à mesa, segurando uma taça na mão e com a fronte ornada de coroas, exclamam com a maior seriedade do mundo: "Como é breve a alegria para os humanos! Em breve eles terão passado e nunca mais poderão voltar." Como se na morte os infelizes devessem temer antes de tudo o queimar de uma sede ardente ou o peso de um lamento qualquer. (...) Eles não acrescentam: "Mas a falta de todos esses bens não te seguirá na morte." Se nos penetrássemos dessa verdade, se nela se unissem palavras e pensamento, de que temor e de que angústia libertaríamos nosso espírito (Lucrécio em De rerum natura).

Aula 1 - Lucrécio e a Ontologia da Ilusão:

Parte 1: 
Parte 2: 

Aula 2 - Lucrécio e os Falsos Infinitos:

Parte 1: 
Parte 2:  
Parte 3: 
Parte 4: 

Aula 3 - Lucrécio e Espinoza:

Parte 1: 
Parte 2: 
Parte 3: 
Parte 4: 

 

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