Aula de 05/05/1994 – Produzir seu próprio inconsciente I

Parte I

A filosofia ― e o que eu vou dizer é assim tão sutil, tão difícil de apreender, que vocês terão que se esforçar um pouquinho para segurar ― tem como questão o PENSAMENTO. Essa é a questão da filosofia, não importa qual ― mesmo que seja a filosofia hegeliana, a platônica: qualquer filosofia traz como questão o pensamento. O pensamento é a grande questão da filosofia. E, ao colocar o pensamento como questão, a filosofia vai buscar saber o que é real: porque a matéria do pensamento é a REALIDADE.

Então, no momento em que a filosofia estabelece que o pensamento é a sua unidade superior, o elemento seguinte a ser buscado se chama realidade.

Evidentemente, essa noção de realidade, para o homem comum, não é a mesma coisa que para a filosofia, porque, na busca que ela faz da realidade, a filosofia vai inicialmente afirmar ― e aqui vocês vão começar a sofrer um impacto! ― que há dois tipos de realidade: o universal e o individual. Quer dizer, é um texto difícil! Inicialmente, a filosofia vai afirmar que haveria dois tipos de realidade: o universal e o individual. Seriam as duas realidades.

― O que é o universal?

Por exemplo: aqui, nesta sala, há diversos indivíduos que pertencem a uma espécie. Nós ― os indivíduos que estão nesta sala ― pertencemos à espécie humana. Então, no momento em que a filosofia afirma que há dois reais, o individual e o universal, o individual é cada indivíduo que existe dentro da realidade. Por exemplo, eu sou um indivíduo. Logo, eu sou real. Mas a filosofia vai afirmar também que a espécie também é real. Então, além de existirem indivíduos no interior de uma espécie, a própria espécie teria realidade, independente da subjetividade. Isso daí é a tese tomista, que afirma de duas realidades: o universal e o individual.

Alguns anos depois, um filósofo nominalista, chamado Guilherme de Ockham, que se torna famoso no séc. XX, vai romper com essa tese e afirmar que a única realidade é o individual; e que o universal nada mais é do que um objeto do pensamento.

E a realidade fica então restringida ao...? Individual!

Então, para essa tese, essa xícara é real? É. Por quê?

Tudo o que for individual é tomado como real. O que não for individual é afirmado como não-real. (Depois eu vejo o não-real.)

Muito bem! Essa tese vai colocar o individual e o singular como sinônimos. Então, é indiferente dizer que esta xícara é um individual ou que esta xícara é um singular ― porque individual e singular são tomados como sinônimos. Então, essa tese do Guilherme de Ockham está afirmando que o real é o indivíduo ou... o singular!

Agora, em segundo lugar e definitivo: toda realidade necessariamente tem uma FORMA; então, o real passa a ser a FORMA INDIVIDUAL.

(Entendido?)

― Não é possível haver uma realidade sem...? Forma!

― Se é real, tem...? Forma!

Então, o individual é afirmado como única realidade; ou seja, a única realidade é o individual, os indivíduos que existem no mundo; pouco importa se indivíduos físicos, biológicos, até mesmo pouco importa se indivíduo religioso, se indivíduo metafísico ― anjos, Deus ― pouco importa: o real é individual! O individual torna-se sinônimo de singularidade.

Todo individual, todo real, necessariamente, tem uma forma. Então, nós temos uma estrutura chamada percepção, que tem a função de nos relacionar com o real; logo, a percepção está sempre encontrando formas: é o governo das formas!

A forma é o que se chama o ESTRATIFICADO, ou aquilo que se chama SISTEMA ESTÁVEL: é uma baixa energia. E ele se torna endurecido: a forma é dura. Ela é dura. Ela é como se fossem os limites presidiários. E ao ser dura, ela constitui toda a realidade. A realidade é constituída por formas individuais. Mas, no século XX...  (Fala:)

Alº: Por exemplo, em relação ao pensamento?

Cl: O pensamento é o instrumento de apanhar essa realidade, mas o pensamento faz parte dessa realidade. O pensamento é uma faculdade do real.

Alº: Tem forma também?

Cl: Claro, tudo o que for real tem que ter forma! Não tendo forma, não é... real! Então, o real é idêntico à forma. Individual e formal é a mesma coisa. (Está bem assim?)

Então, o que ficou afirmado, é que a realidade é idêntica ao individual e necessariamente formal. Então, todo e qualquer ser que você encontrar tem necessariamente uma...? Forma!

A forma é a propriedade essencial da existência. Existe, logo...? Tem forma!

Cl: Não sai disso!

Mas, nos anos recentes, determinados acontecimentos relativos à ciência, sobretudo o fato de nós termos investido numa ciência do micro-objeto, o pensador, a ciência penetra no fundo do espaço e do tempo para buscar um pequeno objeto que é simultaneamente corpúsculo e onda, (certo?) Ou seja, o nascimento da física quântica vai produzir uma variação na interpretação do mundo.

Vocês podem marcar isso: o nascimento da física quântica promove uma reavaliação do pensamento. Da mesma forma que eu posso dizer que o surgimento de uma peste num continente ― como, por exemplo, a peste negra na Europa ― abala e modifica toda a existência e toda a história do pensamento. Então, o nascimento da física quântica vai dar um caminho novo para o pensamento científico. E no momento em que esse caminho novo se ergue, o que vai acontecer de extraordinário é que individual e singular ― que eram sinônimos e representantes formais do real ― vão se separar. O real continua a ser o individual; mas o singular é pré-real, é AFORMAL. Então, começa a gerar-se um conceito novo, que é o conceito de A-FORMALIDADE ― que não estaria integrado no individual. Então, nós passaríamos a ter um real individual e um real a-formal. Dois reais.

Alº: O singular seria pré-real?

Cl: O importante aqui é que no momento em que foram distribuídas duas realidades, uma realidade formal e uma realidade a-formal, vai aparecer uma das coisas mais estranhas do pensamento, mas que já tinha sido altamente liberado no século XIX ― que é um campo do ser não-existencial. Ou seja, (difícil o que eu estou dizendo!), vai ser constituída uma realidade ― que é individual; e uma realidade ― que é singular. A realidade individual EXISTE; a realidade singular NÃO-EXISTE.

Então, parece que a filosofia agora entra no mais violento dos paradoxos. Em vez de se preocupar com o real que existe ― o individual; ela começa a penetrar no aformal ― que não-existe. Esse aformal que não existe é a SINGULARIDADE. Então, o pensamento agora teria duas matérias para trabalho: o individual e o singular.

(Se vocês não entenderem, falem, hein?)

O individual é todo o campo existencial; enquanto o singular não tem existência; mas é a gênese do individual.

Al: Claudio, como é que ficou o universal?

Cl: O universal se tornou matéria do pensamento. Já no Guilherme de Ockham, o universal é expulso do campo ontológico e jogado no campo da semiologia ― e se torna um signo. Mas quando entra o século XX, ― pela física quântica ― vai haver a separação do individual e do singular: o individual como real formal; e o singular como real aformal. Numa outra linguagem, o individual existe; e o singular não-existe. Isso daqui é terrivelmente chocante, porque a gênese do existente é feita pelo não-existente.

― O que é isso que não-existe?

Em primeiro lugar, se existir, tem forma. Tem existência? Tem forma! (Não sei se vocês entenderam...). É invariável essa posição: vocês nunca vão encontrar um ser que exista sem forma. Se você for um pintor, se você for um artista, e tiver nojo dos esclerosados, náusea diante daquilo que não se mexe; você tem que ir mais fundo com o formal, com o individual: você tem que quebrar as forças do individual formal para penetrar no aformal, singular.

(Ficou difícil aqui? Acho que não!)

Ou seja, a arte tem que arranjar algum meio para livrar-se da forma!

Alº: Isso tem a ver com o Heráclito?

Cl: Não. Aparentemente tem; mas não. Eu não vou poder dar a sua resposta agora, é um trabalho muito grande que o Deleuze faz, porque muitos, por exemplo, do século XX, que acompanharam a leitura do pensamento do Heidegger, veriam no que eu estou afirmando uma proximidade com o Heidegger: não tem! No entanto, para não confundir, durante uns tempos pode ficar como se tivesse a ver; depois eu rompo! Mas nada tem a ver com o Heráclito, e eu não vou parar agora para dar aula de Heráclito, que seria fugir muito! Quando se fala em Heráclito, fala-se em fluxo heraclítico, fala-se em movimento... Mas esse movimento heraclítico, que é retomado por Platão, que é retomado por Hegel, nada tem a ver com esse pensamento. Então, não é heracliteano o que eu estou falando. (Certo?)

O que eu estou dizendo... Apareceram para nós, sem que seja ficção, sem que seja tolice, dois tipos de realidade: uma realidade individual e uma realidade singular.

― O que é a realidade individual, o que é a realidade?

Toda e qualquer realidade tem uma forma; inevitavelmente tem uma forma. Então, vocês vejam que coisa interessante: vocês pegam um objeto que vocês chamam de real: uma xícara, que é um indivíduo no mundo, logo é real ― ela tem nitidamente uma forma. Ela tem uma forma: ela ocupa um lugar no espaço e um ponto no tempo. Isso é uma realidade inteiramente absoluta: é invariável! E a nossa compreensão do mundo é sempre feita sob o modelo do individual. Então, o que nós achamos que tem realidade, de imediato nós dizemos: Tem realidade? É individual! Tem forma? É individual! Então, na hora em que você for para a singularidade, vai nascer o esquartejamento. Por quê? Porque o singular NÃO TEM FORMA ― mas é REAL.

É muito simples aqui: quando você compara um macro-objeto (como uma xícara) a um micro-objeto (que a quântica nos revelou), você vai ver que o micro-objeto é constituído de corpúsculo e onda. Então, ele é um ser que se esquarteja, que se torna diferencial nele mesmo. Isso é impossível na unidade macroscópica. É impossível! Ou seja, somente o quântico, somente o infinitesimal vai se dar ao luxo de quebrar a unidade do objeto.

(Foi bem?)

Então, é isso que eu estou dizendo, a singularidade é destituída de forma. Mas a destituição de forma, na singularidade, não é uma questão negativa para ela; é sua essência mais positiva: não ter forma, ser constituída apenas de força. Mas ainda aí não seriam as quatro forças da física, porque essas quatro forças da física são formais. Gravidade, eletromagnética, fraca e forte ― são formas. (Certo?)

(Não sei se vocês entenderam...)

Então, a singularidade tem que ser pensada como destituída de forma. Se ela é destituída de forma, mas é real ― e nós sabemos desde Aristóteles que o real só pode ser ATUAL ou POTENCIAL: atual é a forma; logo, o singular é a potência, é unidade potencial ― aqui começa a surgir uma coisa assim terrível para a história do pensamento, pela dificuldade que vai aparecer. Esse objeto singular, o aformal ― conforme eu coloquei ― que tem essa realidade... a realidade dele nada tem a ver com a realidade do individual. Ele é um ser esquartejado ― porque ele é pura potência.

Assim, nós agora começamos a lidar com algo que parecia pertencer às místicas, mas está pertencendo ao pensamento filosófico e ao pensamento científico: que é encontrar essa singularidade, que seria a unidade potencial para todos esses sistemas estáveis, sem energia, que estão por aí.

Ou seja: a unidade produtora, a gênese das coisas e do ser seria a singularidade. Então, se um artista, um cientista, um filósofo se preocupam com essa gênese, o que eles têm que fazer é penetrar nessa singularidade, arranjar artifícios, arranjar instrumentos para sair das formas individuais e penetrar nessas forças singulares. A obra do Gilles Deleuze é exatamente isso. A obra do Gilles Deleuze é a descoberta do singular de várias e terríveis maneiras, a descoberta desse singular e da filosofia do singular. Não que haja uma rejeição do individual; não há rejeição do individual. Mas a grande questão da filosofia do Deleuze, da arte do Deleuze, do pensamento do Deleuze é que você não pode pensar sem o par individual-singularidade, o grande amor dos milênios. Ou seja: nós abandonamos a tradição do pensamento que se limitava a pensar o individual e agora o pensamento lida com duas metades: a metade individual e a metade singular. Sabendo-se que a metade individual existe e a metade singular não existe. Conforme o texto do Elton, se vocês jogarem esse bloco para cima, e cair cara, ou seja, se sair o singular para cima, você não vê o que é aquele objeto. Se cair o individual pra cima, você vê a metade do objeto. (É isso, Elton?)

― Por quê?

Porque o singular... é difícil de entender, não é? Quando a gente começa a tomar o encaminhamento do pensamento... O singular é exatamente a matéria do pensamento que povoa o século XX. O século XX tem uma forte atração por ele. Por quê? Porque ele é energético, ele é energia potencial, ele não se identifica com as formas anquilosadas. Ou seja, o aformal, esse singular, é o mais estranho dos seres, porque ele é uma unidade (incrível!) ― uma unidade múltipla. Na verdade, ele não tem unidade, ele é uma MULTIPLICIDADE. O singular, nesse ponto, é diferente do individual... porque o individual é uma unidade; olha aqui: xícara, gravador, cinzeiro... Agora o singular é constituído de vários elementos, ainda que não exista. Então, o singular é sempre ― necessariamente ― uma multiplicidade. (Certo?) E essa multiplicidade se explica intrínseca e extrinsecamente. Extrinsecamente, eu tenho que afirmar que essa singularidade não existe. Intrinsecamente, eu tenho que afirmar que essa multiplicidade pode ser pensada em termos de cinética e dinâmica; ou seja, em termos de movimento, em termos de força. Ela é uma força. Ela é a FORÇA POTENCIAL, que gera tudo o que existe. Então, você teria aqui o universo do século XX quase que traçado: a CARTOGRAFIA DO SÉCULO XX. Que é buscar nesses caminhos caóticos e difíceis o encontro da singularidade. Encontrar-se com ela ― e depois morrer!

Alº: Intrinsecamente...?

Cl: Intrínseca, quer dizer, veja bem: sempre que você perguntar alguma coisa, Ricardo, não está pressuposto que você já a conhece. Qual foi a pergunta que você fez?

Alº: Você falou, extrinsecamente e intrinsecamente...

Cl: Você tinha que fazer o seguinte: explicar-me o que é extrínseca e intrínsecamente. Isso que você teria que fazer, no momento em que você não dominou um conceito. É que eu não expliquei! Se eu não expliquei, é que está mal dado. (Certo?) Porque como é que você vai entender o que é extrínseco e intrínseco, se eu projeto de repente extrínseco e intrínseco, e a Márcia pode até pensar que é ela, extrínseca no sentido sexual, mas intrínseca no sentido intelectual. (risos...) Aí, vai dar uma confusão terrível!

Cl: Extrínseca é a relação da singularidade com o individual. Intrínseca é a singularidade no seu interior.

Então, se você quiser descobrir a natureza do singular, o que é que você faz??? Você parte para definir o intrínseco, que é o elemento constituinte da singularidade... (Não entendeu, não?)

Alª¹: Só fala de novo o que é extrínseca e intrínseca!

Cl: Extrínseca é a relação de um ser com o fora dele. Intrínseca é a relação do ser consigo próprio. Isso que é intrínseca. É esse o caminho, na história do pensamento, de nós conhecermos as coisas por definições extrínsecas e por definições intrínsecas!

Alª²: Se você diz que o singular não existe, você está aproximando a existência da estabilidade?

Cl: Olha, eu nunca tinha pensado isso, mas estou. Sem dúvida nenhuma, parece que o que você acabou de dizer é que a realidade precisa de baixa potência, já que ela é formal. Concordo. É isso mesmo! Ela é quase que o ser do nada. É a busca frenética e idiota da homogeneidade. Buscar o homogêneo, o mais puro dos homogêneos, que é o sistema estável. A realidade se daria aí. O individual é um sistema estável, onde se tenta abolir todas as forças potenciais. Mas quando você mergulha no singular, não adianta. Você vai encontrar as singularidades e essas singularidades são, todas elas, potenciais. Todas elas fontes de potência. (Não sei se foi bem, foi, Tatiana?)

Vocês vejam aqui: o singular não se opõe ao individual; é complementário. Vamos usar agora o conceito de COMPLEMENTARIDADE. Agora, por exemplo, quando nasce a física matemática, no século XVII, para vocês entenderem o que é a física matemática, é a coisa mais fácil do mundo. A gente pega os conceitos da física, por exemplo, CAUSA e EFEITO são conceitos físicos, porque implica movimento dos corpos. E aí você inclui na causa e efeito o conceito de diferencial, que foi inventado pelo Leibniz no século XVII. O diferencial das causas e dos efeitos. Você está fazendo física-matemática, por quê? Porque o diferencial é um ser da matemática. Juntou um ser da matemática com um ser da física, nasce a física-matemática! É isso que são essas dificuldades, que a gente passa por aí, não entende nada, mas é exatamente isso. Então, eu estou fazendo aqui uma coisa muito nova, que é a complementaridade entre singular e individual. O que implica em dizer que se você quiser conhecer o individual, você tem que conhecer o singular. Apenas, o singular e o individual trazem características diferentes, porque um está num sistema instável e outro no sistema estável.

O que está ocorrendo aqui é que o singular não pode ser explicado pelos conceitos do individual. Olha que esse momento é um momento sublime da aula: os conceitos do individual não explicam os conceitos do singular. Então, se você pega a história da filosofia, e a história da filosofia é governada pelo real individual, o modelo dela é todo real individual, sobretudo o modelo aristotélico, retomado por todos eles na história do pensamento. Isso significa que esses conceitos não podem ser aplicados ao...? singular! Porque,com eles,você não dá conta do singular.

Então, quando você começa a penetrar no singular, o que você verifica é espantoso: nenhum dos conceitos que funcionam no individual penetra no singular. No individual há dialética, há oposição, há luta de contrários; no singular, não. O singular é apenas um movimento incessante de partículas abstratas. Isso seria a singularidade!

(Foi bem, ou entristeceram? Acho que entristeceram... Parou, barrou, não sai mais nada?)

Nós estamos nesse precipício: o singular e o individual. Pra vocês entenderem, se agora nós passarmos a fazer uma prática de vida em torno do singular, nós temos que criar uma ÉTICA para isso. Por quê? Porque o que existe é uma ética do...? Individual ― que se chama MORAL. A ética do individual é moral. A ética do singular é o encontro e movimento dos corpos. Só que esses corpos são abstratos e inexistentes.

(Como é que foi, está indo bem?)

O que nós temos que fazer; o que todos nós temos que fazer ― não adianta ser de outra maneira ― é compreender a singularidade. Na hora que vocês compreenderem, vocês vão dizer assim: “Ih, agora que eu descobri, eu não entendo nada de individual”. (Risos) É assim que a gente começa a entender que a gente é ignorante, que é pretensioso..., seus ignorantes, (tá?) É isso mesmo! Isso daqui é como se fosse uma tempestade em cima da gente... O filósofo não pára de fazer essa experimentação! Provavelmente a mesma experimentação que o Artaud faz, a mesma experimentação que o escritor faz. Ele se depara com o VAZIO, e aquilo se quebra dentro dele. Isso é muito importante, porque nós pensamos ---?--- E aí você começa a explicar o singular e o individual, que eu não entendo mais nada?!...

Então, eu, agora, através dessas duas noções, posso dizer pra vocês que nós podemos ter dois tipos de vida: uma vida modelada pelo individual; e uma vida modelada pelo singular. Isso daí é que vai começar a explicar os romances anglo-saxões, que são exatamente fundados nessa nova experimentação.

― Por quê? O que eu estou falando?

Todos os homens trazem neles uma ânsia de experimentação. A vida traz uma ânsia de experimentação. Quer ver como é fácil entender isso? A exaltação da virgindade e a exaltação da família são pra fazer um bloqueio muito grande na energia potencial. Faz-se um bloqueio ali. Nós somos constantemente uma força genética, constantemente uma potência em ato.

Agora, essa potência pode endurecer ― e nós nos tornarmos formas individuais. Ou não endurecer ― e nós sermos passagens de singularidades.

Difícil esse momento, os exemplos poderão ser tanto literários quanto físicos, pouco importa! Porque na literatura vai aparecer o que se chama singularidades, ao invés de indivíduo. Nós temos de descobrir o que é a singularidade...

― O que é exatamente a singularidade? Porque quando a gente faz uma imagem da singularidade, a gente sempre faz uma imagem cheia de minhoquinhas, como se fosse o movimento browniano ---- nada disso!

Alª: Se endurecer..?

Cl: Se endurecer, individua; se endurecer, vira sujeito: o mais alto ponto da forma, que é a mais baixa potência de energia ―  sujeito e indivíduo. Quando a gente se torna sujeito e indivíduo, sai da frente, pode sair da frente, porque nada passa ali: é paralisador de processo. Paralisa todo e qualquer processo!

Enquanto que a singularidade é uma entidade NÔMADE. Nômade, contingente, sem destino! Será que a gente pode dizer que a singularidade é estética? Talvez!

Alº: Como é que é isso no sujeito, que você disse; como é que é isso na prática, em marcação?

Cl: O que, neste instante, nós temos aqui, no nível da prática, é que do lado do individual, nós começamos a encontrar o sujeito e o indivíduo. Do lado da singularidade, eu não posso jogar sujeito e indivíduo, não existe isso na singularidade. Então, pra nós começarmos a entender, indivíduo e sujeito são duas formas.

― O sujeito é uma...? Forma!

A forma não existe sobre o vazio; ela é CONTENSÃO DE SINGULARIDADES. O que está dentro da forma são as singularidades, barradas: elas não podem passar. Elas não passam, de jeito nenhum!

Então, quando essas singularidades não passam, quando há um endurecimento das formas e as singularidades não passam, chama-se SUBJETIVIDADE MATERIAL. No momento em que houver o contrário, que as formas se arrebentarem e as singularidades passarem, chama-se SUBJETIVIDADE ESPIRITUAL.

Alª¹: E o lance da física quântica?

Cl: Não é o lance da física quântica. Não senhora, não tem nada a ver! Não senhora! Se você disser que a filosofia depende da física quântica, eu não faço mais filosofia... A maior tolice o que você falou! Depende da física quântica como? Nem a física quântica depende disso! Calcule se para fazer literatura você dependa do açougueiro: “Ah, o açougueiro bateu, posso começar a escrever!” O que é isso?

Alª²: Você pode repetir isso que você falou do endurecimento das formas?

Cl: O endurecimento das formas, pra trazer para uma linguagem prática, você vai encontrar determinadas atividades no mundo real: a religião, os mitos, determinados sistemas de proteção à família ― que são formalizantes endurecedores. Eles formalizam: eles impedem o movimento das singularidades. As formas impedem esses movimentos. Porque a forma é aquilo que dá permanência às relações singulares. As singularidades ganham uma permanência! A singularidade, nos movimentos dela, é browniana: não têm permanência! Se você existir em termos de encontros singulares, a sua vida é sempre uma aventura em busca de encontros com outras forças.

Alº: A subjetividade espiritual!

Cl: Espiritual! É melhor marcar esses dois nomes ― subjetividade material e subjetividade espiritual ― para entender o que eu estou dizendo.

Então, o que acontece, é que um campo de poder traz com ele a preocupação de produzir subjetividades materiais ― que são subjetividades materiais submetidas às formas do Estado e da Família. Isso em termos políticos ― por causa da pergunta dela! Agora, a subjetividade enquanto força não se submete a essa forma.

Você pode dizer o seguinte: se nós estamos no mundo formal, nós temos uma arquitetura. Se nós estamos no mundo das singularidades, nós temos outra arquitetura. Você não pode pensar a cidade nomádica como idêntica à cidade sedentária. Você não pode pensar as formas do sujeito como idênticas às forças da singularidade. Por quê? Porque essas forças da singularidade não se submetem às leis do Tempo ou às leis da Natureza. Elas vão penetrar no fundo do vazio, no fundo do tempo... Então, são outras maneiras de viver.

A obra de dois grandes filósofos ― Espinoza e Nietzsche ― é eticamente isso, é uma transposição: você sair do mundo das formas, da subjetividade material; para penetrar no mundo das forças.

Então, nós, eu estava explicando isso, fazemos a nossa vida EXPERIMENTANDO: nós não paramos de experimentar ― nós experimentamos o sexo, nós experimentamos o amor, nós experimentamos a bebida, experimentamos tudo: é a experimentação do individual e do formal. Agora, quando aparece esse singular, aparece outro modo de experimentação ― que eu vou chamar de EXPERIMENTAÇÃO SUPERIOR ou EXPERIMENTAÇÃO TRANSCENDENTAL.

Quer dizer, experimentar o singular é uma experimentação completamente diferente da experimentação clássica que nós fazemos nas nossas vidas. Então, nas nossas vidas nós fazemos a experiência comum, chamada EMPÍRICA ― e a experiência comum é regida por uma série de leis.

Agora, quando nós entramos na singularidade, todas as leis se desmancham; todas as formas se desmancham ― e nós entramos num mundo nômade e contingente: sem destino, sem princípio, sem direito, sem diretriz, sem nada. Ou seja, é a fonte e a força toda do CAOS.

Eu não estou dizendo pra vocês que não existe o mundo formal; existe, sim, o mundo formal! Esse mundo formal é o que se chama Mundo da REPRESENTAÇÃO. O mundo da singularidade é o Mundo da EXPRESSÃO. Então, se o mundo formal é o mundo da representação, ele vai criar técnicas pictóricas, técnicas cinematográficas, técnicas musicais, para produzir a pintura, o cinema, a música da representação. E o Mundo da Expressão também vai montar o seu mundo. Mas de uma maneira mais legítima, o que emerge agora ― e nós começamos a entrar na raia do fantástico! ― são dois tipos de corpos: um corpo representativo e um corpo expressivo. Esse corpo expressivo seria a singularidade, e o corpo representativo, o das formas.

O domínio da representação é total. Você não vai abrir a televisão e ver forças singulares passando. Ali, você vai sempre encontrar o domínio do modelo e das formas representativas. Porque as singularidades são literalmente a quebra de todas as formas. Todas as formas somem. E a sua própria vida fica, então, como se fosse uma oscilação no alto mar: ondas muito altas, abismos ― que você começa a penetrar quando entra na singularidade. Por isso se dizia que o poeta barroco não parava de vomitar o dia inteiro: ele tinha vertigens; ele lidava com o abismo!

Pelo menos, isso no fim do século XX, a passagem dessas forças singulares começa a convocar o pensamento  para novas formas de vida: constituir novas maneiras de viver. Isso daí não pára de ser pensado em todos os campos: porque, durante algum tempo, no século XX, com o domínio do freudismo e do marxismo, só passava essa teoria da forma.

Com o rompimento desse governo das formas ― que era o marxismo e o freudismo ― começou a surgir a liberação das formas, uma nova teoria do inconsciente, uma nova teoria do amor, uma nova teoria da vida... Então, se são as singularidades, eu vou amar como os indivíduos amavam? Não! Eu vou inventar outros modelos de amor! Eu vou escrever como os indivíduos escreviam? Também não! O indivíduo só escreve uma coisa: autobiografia.

Por isso você pega, por exemplo, o Joseph Conrad. Ou pega qualquer livro... O livro é uma história sobre a vida de alguém. Se essa história sobre a vida de alguém for dominada pela forma, ela é uma biografia. Se a forma for rompida, já não é mais uma biografia. E a biografia, vocês sabem, é sempre best-seller. Por quê? Porque a biografia é a revelação da forma de um indivíduo. Enquanto que na singularidade isso não aparece. Vocês têm que começar com uma compreensão sobre literatura. Há um autor do nosso século, um autor assim explosivo, do campo da singularidade, que é o Henry Miller. E o Henry Miller só escreve sobre quem? Sobre ele! ----- ninguém. Ele é fanático por si próprio! Ele escreve sobre si próprio o tempo inteiro; mas a questão é que ele não escreve sobre as formas dele! Então, o Henry Miller não é um sujeito; ele é uma singularidade nômade. Ele se agencia com a escrita; e a escrita vai expressar isso. Porque essas singularidades têm uma permanente relação com a expressão: “Como me expressar?” “Como passar a minha vida?” Em seus momentos principais, essa expressão aparece na escrita, no pictórico, no pictural, nas pedras, quando forem arquitetônicas, e assim por diante.

Alº¹: Nessa expressão, singular passa a ser individual? Porque o pensamento, a expressão é uma forma, não é?

Cl: Não, nós aí vamos ter que buscar... A palavra é forma. A palavra é forma. Mas aí nós vamos ter que tentar pensar se o que você disse é verdadeiro, se o pensamento é uma forma: não vai ser! Eu ainda não tenho meios de explicar, mas não vai ser uma forma... e isso vai ser facílimo de entender e provavelmente, e sem dúvida nenhuma, a força toda da obra do Proust, a genialidade da obra do Proust está em ter descoberto que o pensamento não é uma forma.

Alº²: É uma força?

Cl: É uma força! É a grande descoberta do Proust. Isso que tornou a “Recherche” a grande obra que ela é. Porque todo mundo pensa que a questão do Proust é buscar a memória. De maneira nenhuma! A questão do Proust é buscar o pensamento. Mas não o pensamento enquanto forma ― o pensamento enquanto singularidade. Isso eu vou ter que explicar, mais tarde, talvez hoje eu já explique isso para vocês compreenderem.

Então, nós continuamos com a mesma disputa, de um lado o singular; e do outro o individual. O formal se constitui como um objeto clássico, regido por princípios clássicos. Sendo, como eu coloco o tempo todo para vocês, FORMAL... O formal é regido pelo princípio de identidade, é regido pelo princípio de não-contradição, é regido pelo princípio do terceiro excluído: todos os princípios lógicos governam o individual. Se você vai aplicar um princípio do formal no singular, você se acabou. Ou seja, para você penetrar no singular, você tem que produzir um novo campo operatório de conceitos.

(Vocês estão entendendo?)

É a mesma coisa, por exemplo: eu tenho uma namorada ― a Natasja Kinski; depois eu largo a Natasja Kinski e namoro outra. A cada uma eu impulsiono um aparato teórico. Como elas também impulsionam um aparato teórico para cima de mim. Porque eu venho de um mundo; elas vêm de outro. Os nossos mundos vão se cruzar, não para fazer dialética, mas para se complementarem. Eu vou escolher os mais bonitos e intensos operadores teóricos e elas também! Ou, então, elas são idiotas e eu sou um idiota! É isso que se faz!

Agora, se você quiser fazer da sua vida alguma coisa de diferente, se você quer expressar sua existência, expressar a sua vida, você tem que se confrontar com o mundo formal. Esse mundo formal vai se deparar como o grande obstáculo para você.

O século XX doou essa questão para nós de uma maneira extraordinária. Eu posso até dizer pra vocês que, por exemplo, a arte pictórica teve quantas escolas no século XX? Umas cento e cinqüenta! Dessas cento e cinqüenta, provavelmente umas cento e trinta seriíssimas. E todas as cento e trinta só pretendem uma coisa: liberar as singularidades... liberar a carne, liberar as forças, liberar... é sempre a mesma coisa! Porque a arte é sempre uma experiência do mais alto nível de pensamento. A arte quer se encontrar com o pensamento. A arte não quer saber; o artista não quer saber: corta a orelha, para poder se expressar. Expressar o quê? Expressar as singularidades. Agora, se nós não tivéssemos a arte, para expressar as singularidades, novos mundos não seriam gerados.

A arte produz novos mundos; por quê? Essa questão diz respeito ao pensamento. Porque nós confundimos pensamento com intelecto. O intelecto, a memória, a imaginação, a percepção são formas do sujeito. FORMAS do sujeito! O pensamento não-é uma forma; o pensamento é uma POTÊNCIA ― adormecida! Dificílimo entender a teoria do pensamento! O pensamento é uma potência adormecida. O pensamento não é como o intelecto. O intelecto, a gente faz assim [Claudio estala os dedos] e diz: “Intelecto, diz quanto é dois mais dois”! “Quatro.” Também pode dizer “cinco”, que dá no mesmo: falso ou verdadeiro ― dá no mesmo!

Agora, o pensamento, a gente fala assim: “Pensamento, examina aqui: o pensamento continua dormindo, continua dormindo; não tem essa questão com ele! Ou seja, para você fazer com que seu pensamento funcione, é preciso que venham forças ― extraordinárias ― para acioná-lo; senão ele não funciona: fica quietinho no seu canto! Enquanto nós vamos fazendo aquelas “miserinhas” na nossa vida, o pensamento não aparece. Então, eu estou dizendo para você que o pensamento é uma força impotente. Se vocês quiserem conhecer essa questão com a maior facilidade, é ver a vida e a obra do Artaud. O que o Artaud descobriu foi exatamente isso: o pensamento é uma impotência: é preciso produzir forças para fazê-lo funcionar. Então, você encontra, por exemplo, a arte, alguns tipos de arte, produzindo forças caóticas, do lado de fora, para que essas forças voltem e forcem o pensamento a pensar. Na hora em que esse pensamento começa a pensar, o pensamento invade a singularidade!

O intelecto só lida com formas. O intelecto com formas, a memória com formas, a percepção com formas... --- a famosa gestalt; enquanto que as forças só estão do lado do pensamento.

Então, a experimentação da arte, no caso do Proust, é vencer todas as barreiras da forma, para chegar à nudez do pensamento ― e fazer a última das viagens.

(Não sei se foi bem...)

Então, é isso que se tem que entender: o pensamento não é sinônimo de intelecto; o intelecto é uma forma. Uma forma perfeitamente histórica... Aqui começam a se separar essas duas noções: história e devenir. O pensamento é devenir, a singularidade é devenir; o formal é histórico.

Você quer a história, você só tem um tipo de história: a história das formas. As singularidades nunca poderão ter história, porque elas não são históricas ― são devenires. Isso daí é um dos maiores segredos da obra de Michel Foucault: a diferença entre devenires e história. Devenir/história; devenir/história. Por exemplo, você está fazendo faculdade na UFF, fazendo história, você está trabalhando com as formas. Agora, se você quer entrar no fundo do ser, nos devenires, aí você faz agenciamentos com artistas, com cientistas, com filósofos ― porque eles só fazem essas práticas de devenires. Devenir e história não é a mesma coisa! Devenir é força...--- está do lado do pensamento, do lado da singularidade. Enquanto a forma está do lado do intelecto.

(Tá bom, não está? Ou não?)

Mas tem que saber o que são as singularidades. Saber exatamente o que são as singularidades. O que eu vou colocar para você ― eu acho que já está relativamente bom, é que nós temos dois campos, dois campos de força: o campo das singularidades; o campo das individualidades.  O da individualidade chama-se EMPÍRICO. O da singularidade chama-se TRANSCENDENTAL.

Então, o que é o EMPIRISMO SUPERIOR?

Alª: A singularidade...

Cl: O transcendental. O empirismo superior é exatamente isso: a queda na singularidade. Sabendo-se que o pensamento não tem nenhuma tendência a pensar. É preciso forçá-lo, senão ele não vai. Senão, o pensamento fica tranquilamente do lado da forma. Ele quer formalizar tudo!

Alª: O singular é transcendental, e o individual?

Cl: O individual é empírico.

Agora, se nós seguirmos por esses dois campos, nós vamos dar conta! Por exemplo: o transcendental, essa figura chamada transcendental, que eu nunca trabalhei bem nela, o empírico está mergulhado nela ― nós estamos mergulhados no transcendental. O nosso ser é movimento e singularidades. Movimentos permanentes nessas singularidades, nessas forças, que às vezes nos enlouquecem; que de madrugada às vezes nos fazem chorar, quando nos fazem contemplar o vazio; que nos esquizofrenizam, diante das formas matinais. Que quando amanhece e temos que ir para o trabalho, formalizam. Então, a noite é um excelente instrumento, talvez maior do que os narcóticos para liberar singularidades. Isso daí é Maurice Blanchot.

Alª: Claudio, nós estamos mergulhados nesse transcendental, nas forças da singularidade, não é? Eu estou aqui pensando, qual a gênese das formas, como é que elas vêm a se formar...

Cl: Dentro do transcendental!

Alª: Dentro do transcendental, sim, mas é o quê, é um congelamento?

Cl: Não, Dudu: você pega uma semente de maçã, joga na lama. Joga e vai embora. Você volta, depois de dois meses, tem uma roseira. Quem produziu essa roseira? Quem foi? Foi Deus? Não, quem produziu essa roseira foi a semente. A semente. Ela liberou o quê? Ela não liberou mão, filho. A semente não é como o homem, ela não tem mão, ela não tem pá, ela não tem aqueles instrumentos do mundo operário, ela não tem cimento, ela não tem nada disso. Mas a semente tem que produzir alguma coisa. Então, ela vai fazer o quê? Ela vai pegar a matéria que a circunda... O que é a matéria que a circunda? Terra, ar, água e luz! Ela pega essas quatro matérias, junta e sintetiza por... contemplação! Então, a força da singularidade é a contemplação! Isso que é a gênese. A gênese é isso! Aqui é um confronto entre teoria e práxis, entre contemplação e prática. Eu estou dizendo que as forças geradoras deste universo são contemplativas.

Então, você pode compreender perfeitamente isso, que o criador é contemplativo. Ele precisa se desvencilhar do muscular ― o que se chama desvencilhamento do sensório-motor. Ele não é, como um platônico, espantado. Ele é, como um plotiniano, deslumbrado. A beleza da natureza que está na frente dele, e que ele mesmo está produzindo. Aqui está aparecendo um conceito ― o conceito de AUTOPOIESIS. O ser vivo é autopoiético. O ser vivo se auto-produz. Olha que coisa louca! O ser vivo se auto-produz, é cobra comendo o rabo...   Onde acaba a cobra comendo o rabo? Isso não acaba nunca, não é? A singularidade é genética, porque ela é autopoiética. Esse é um dos conceitos principais da microbiologia do século XX. Talvez esse seja o conceito... hein?

Alª:---

Cl: ...que irá nos salvar do Câncer, que ira nos salvar da AIDS. É a fonte da microbiologia atual. A autopoiesis diz o quê?

Als: Que o vivo se auto-produz.

Cl: De outra maneira... Todo ser é autoprodutivo, tem que se autoproduzir, e considerar a sua produção a maior produção que existe no Universo ― porque toda a produção é singular. Singular, se ela produzir alguma coisa, você não vai encontrar nunca nada igual ao que ela produziu; você vai encontrar plágios. O plágio é sempre nauseante! Mas isso existe: nós também estamos mergulhados no plágio. Porque O ARTISTA produz a sua singularidade!

Alª: Cláudio, o que você falou que é genético?

Cl: A singularidade! Fala!

Alª: Não, deixa pra lá.

Cl: As singularidades são gêneses, são gênese... Porque, olha só, todo mundo está sentado aqui. De repente, alguém começa a produzir um pensamento; de onde vem esse pensamento? De onde vem tudo? É a gênese da singularidade...

Alº¹: Mas o problema,que eu estou aqui pensando, justamente, é a semente da roseira vai dar numa roseira, não é? No caso, na planta, então, a gente tem uma forma?

Cl: Forma?

Alº¹: Não; a roseira?

Cl: Você pode dizer que aquela semente, ali, vamos dizer, tem uma forma platônica. Diga assim! Ela vai ser limitada por aquela forma. Mas a semente não é forma.

Alº¹: No fundo, sempre a singularidade?

Cl: Sempre a singularidade...

Alº¹: O problema está justamente na dominação da forma. As pessoas acham que a forma domina e param por aí.

Cl: Isso!

Alº¹: Quando, na verdade, a singularidade...

Cl: As singularidades têm que lutar para passar sem forma... Mas isso é muito problemático; eu não vou dar conta pra vocês hoje...

Alº²: As singularidades também trabalham com as formas...

Cl: São as singularidades que produzem as formas. Mas eu estou dizendo para vocês que elas produzem formas, ou passam como singularidade pura. São duas maneiras. A formalização do singular é uma estratificação. Isso aqui é a coisa mais simples do mundo: um exame da história, e vai-se encontrar os grandes estratificadores ― o Estado, a família, o eu, o ego, o super-ego são grandes formas, grandes formas que estratificam. A singularidade vai desfazendo o eu, o ego, o cogito, o super-ego, o Estado, alma,... tudo vai caindo; mas não para ser construído outro estado? Aquele era ruim, agora vem um melhor! Não! Nós vamos entrar na ANARQUIA COROADA: num universo nomádico, em que os modelos formais não dominam mais. Aqui, é um momento precioso e difícil, porque nós nunca podemos admitir sair de uma forma e não ir para outra forma. Por exemplo, é um filme famoso, do Copolla, vou usar o filme do Copolla porque é desse autor daqui ― o Joseph Conrad, O Coração das Trevas, que deu no Apocalypse now (quem não viu tem que ver, hein?) com o Marlon Brando, que faz o Coronel KURTZ . O Kurtz era o americano, no caso do Joseph Conrad, que foi pra África; no caso do Coppola, é também um americano, que vai pra guerra do Vietnã ― e lá ele perde todas as formas. Pra sociedade ocidental, ele pirou, enlouqueceu. Sim, enlouqueceu, porque ele perdeu todas as formas! Ele já não é mais representante do oriente, já não é representante do ocidente, não é representante do poder político, não é representante de mais de nada: as formas foram todas embora ― ele entrou no devenir. Só há uma saída: matar. Essa foi a tarefa do Martin Sheen no Apocalypse now: matar o Kurtz.

Ele é o Kurtz do Joseph Conrad. Que todos esses críticos do Joseph Conrad, incrível, não entendem: não entendem que a questão não são duas formas que estão se encontrando, é um homem que perdeu a forma. Perdeu a forma: enlouqueceu! Enlouquecer quer dizer: ele já não segue os trâmites legais da formalidade. Ele começa a produzir novas linhas. São linhas abstratas. Novas linhas que vão emergindo na vida. São essas forças chamadas nômades e contingentes. Dois conceitos ― nômades e contingentes ― são dois conceitos intrínsecos. Nômades quer dizer: elas não param de se movimentar, mas sem destino. Contingente: não há nenhum modelo ou lei que as dominem. Não pode! A singularidade não é dominada por nenhum modelo, nem nenhuma lei.

Os princípios das singularidades são REPETIÇÃO e DIFERENÇA. Então, Philip Glass faz da sua música uma singularidade! Tom Waits faz!  Velvet Underground! A experiência da POP ART, a grandeza da experiência da pop arte é exatamente a experiência com o transcendental. Os beatniks... Por que o Jack Kerouac, que era um homossexual exagerado, teve tanto sucesso no nosso mundo? Porque ele faz uma obra suprema: ele inventa na literatura o que se chama o ENUNCIADO TELEGRÁFICO ---- tatatatatatatata! Eles inventam isso, porque com o enunciado telegráfico eles expressam com mais vibração as singularidades. Então, você dedica a sua vida a esses instrumentos! Se você for um artista... um poeta, à escrita;. se você for bailarina, ao bailado; se for de cinema, ao cinema; e assim por diante... procurando expressar essas singularidades.

(Vou dar uma pausa de cinco minutos!)

Parte II

Aqueles que estudam filosofia trazem uma preocupação de domínio de um conjunto de conceitos para a exposição desse tema. Mas isso não é necessário de ser feito: cada um vai para o seu lado, para onde lhe interessar...

O que nós temos que começar a entender agora é a singularidade. Prestem atenção! Sempre que você encontra uma determinada região social, você sabe que essa região social é povoada por algumas raças, ou uma raça. O transcendental é povoado pelas singularidades: é o povo do transcendental! Vejam que é uma coisa assim quase que alucinante: o povo do transcendental! Vão dizer: esse cara pirou! Se ele falasse no jornal das oito, ninguém ia entender isso! “O povo do transcendental resolveu atacar o povo de Macaé”: uma coisa assim...

― O que é povo do transcendental? Vamos tentar entender isso:

Olha, o transcendental pode ser perfeitamente, é idêntico, é a mesma coisa, sinônimo de INCONSCIENTE freudiano. Transcendental é igual...? A inconsciente. Mas eu estou falando que esse transcendental é povoado. Por quê? Porque as singularidades nunca estão sozinhas: elas estão sempre em grupos: são sempre grupais. Por isso o inconsciente é MATILHA, e não EU.

(Não sei se vocês entenderam...)

O inconsciente é povoado por elementos que andam em conjunto. Elementos que andam em conjunto chamam-se MATILHAS, MALTAS, etc. Que são nomes de grupos rejeitados pela sociologia. Porque a sociologia só se apreende com ESTRUTURAS. Grandes formas duras. Eu estou passando formas... nem são formas, são POTÊNCIAS EM MOVIMENTO. Porque um lobo só caça em matilha. O inconsciente só caça em matilha. Porque o inconsciente é matilha: o inconsciente é uma multiplicidade; as singularidades são sempre múltiplas.

(Não sei se vocês estão entendendo...)

Em vez de você pensar que o transcendental ou o inconsciente são unidades, NÃO! São, o que eu estou dizendo, são matilhas! Então, cada inconsciente aqui é um conjunto de matilhas. Pronta para atacar, pronta...

Alª: A singularidade também é matilha?

Cl: Matilha, pura matilha!...

Alº: Mas o inconsciente é individual?

Cl: Não; é singular! Mas se tenta, por exemplo, no Freud, no Lacan, o que se faz é formalizar o inconsciente, individuá-lo. Isso que eu estou dizendo. (Entende?)

Alº: Quer dizer, quando individualiza o seu inconsciente...

Cl: Formalizou!

Al: ...formalizou.

Cl: Sai da frente, porque você está preso: você vai se tornar edipiano, castrado, (risos...) Prepara a verba para o psicanalista! É a individuação. É a formalização. A formalização; é exatamente isso... Então, eu estou colocando que o inconsciente é singularidades. Quer dizer, o transcendental é povoado pelas singularidades: o transcendental é multiplicidade.

Multiplicidade é um conceito que não tem grande importância pra vocês, ele tem uma grande história na via do pensamento. Mas o inconsciente, então, foi jogado para a multiplicidade. Aí, surgiu uma coisa nova: cada um de nós é uma matilha; cada um de nós são essas forças que não têm permanência; forças em mutação constante.

Alº: Na medida em que nós somos individuais, nós somos representações dessas forças?

Cl: Ah, individuais, nós já nos tornamos representações! O que eu falei... a mais baixa... é um sistema estável, o individual é um sistema estável. Sistema estável, quer dizer, é um sistema em que a potência “dançou”: não há mais potência, ele é homogêneo. Por exemplo, as filosofias existencialistas ― Heidegger, Kierkegaard ― sempre geraram um conceito, o conceito de NADA. O conceito de “nada” é o plano mais homogêneo que pode existir. Num sistema estável é uma homogeneização, ou seja, a energia desaparece!...

Alª: Faz um congelamento...

Cl: Congelamento! É um congelamento de imagem: tudo se igualiza! O individual é isso. O individual é assim: “Ahhhh!!! Não agüento mais!!! Ahhhh!!...”

Porque o que houve na história... Nietzsche coloca isso lindamente! E o que ele diz é que houve na história... o que ele chama de VONTADE DE NADA e de NADA DE VONTADE. A vontade de nada é o formal buscando novas formas na eternidade: cria o Céu, cria a Igreja, cria o Inferno... Ou seja: buscar novas formas para sustentar o seu sofrimento, acabar com o seu sofrimento. Então, a vontade inicialmente é vontade de nada. De nada, no sentido de que essas formas religiosas não existem! Deu para entender aqui? Mas a passagem para a modernidade é a “vontade de nada” se transformando em “nada de vontade”. O “nada de vontade” é o NIHILISMO. Tinha até aqueles grupos, os DARKs. Os darks são “nada de vontade”. O “nada de vontade” povoa o século XX! “Não há o que fazer; [já que] eu vou morrer!... Não adianta!” Quantas e quantas vezes eu fui acometido por isso: eu ficava caído em cima da cama às vezes quinze dias. Todo mundo me chamava de maluco. E era mesmo; eu não me movia, o “nada de vontade” me tomou!... O “nada de vontade” toma a gente, domina a gente. De repente, você compreende assim: eu estou trabalhando, eu estou fazendo isso ― pr’a quê? Vou sair aí pelo mundo, vou sofrer o meu drama sozinho pelo mundo afora... Então, há esse deslocamento: da vontade de nada para o nada de vontade.

Então, é exatamente essa grande questão que nós vamos tentar “corrigir”, se é que se pode dizer assim, produzindo uma vida superior, que é a vida da singularidade.

Agora, usando um pouco daquilo que o Chico falou, o individual é orgânico, porque “forma” é sinônimo de “orgânico”. E o singular é não-orgânico. Como diz o Artaud, CORPO SEM ÓRGÃOS (CsO).

Mas, agora, aparece uma coisa notável: eu identifiquei o transcendental ao inconsciente? Identifiquei. E eu agora identifiquei o inconsciente ao Corpo sem Órgãos? Identifiquei. Vejam só:

Cada um de nós é responsável pelo seu próprio inconsciente. Isso é muito Castaneda, (não é Sérgio?) “Cada um de nós é responsável pelo seu próprio inconsciente.” Então, o que nós temos que fazer é o nosso inconsciente. Isso é que é a autopoiesis: produzir o seu próprio inconsciente. (Vocês estão entendendo?)

Alº: Não. Não entendi.

Cl: Produzir o seu próprio inconsciente. Porque .... o que eu estou dizendo é que o inconsciente não é uma forma, ele é sempre um movimento nomádico. Então, para produzir a existência dele, você tem que se associar a ele: o modo dele passar. E aí você vai ver que começam a aparecer as terapias formalizadoras: “Olha, as forças e o desejo são familiaristas, então tem que prendê-los na família”. Ou seja, forças e formas querendo deter os movimentos do inconsciente.  E o responsável pelo nosso inconsciente somos nós mesmos. Quem inventou que o responsável pelo nosso inconsciente é outro ― o padre ou o psicanalista ― foram eles. Agora, quem acreditar, eu não posso fazer nada! O que você tem que produzir é uma crença superior. Uma crença superior. Porque a crença inferior está sempre dentro de nós. “Eu não aguento mais!” ― aí manda uma crença inferior pra mim. (Entenderam?) Ela castra, apreende a sua vida.

(esta aula continua em Produzir seu próprio inconsciente II)



3 opiniões sobre “Aula de 05/05/1994 – Produzir seu próprio inconsciente I”

  1. Sinceramente, gostaria de deixar aqui meu agradecimento às pessoas que trabalham nesse site. Vocês são incríveis. Meus parabéns! Transcrever esses áudios é uma tarefa e vocês saibam que não há nada que possa pagar o compartilhamento desses conhecimentos. Minha gratidão a vocês.

    Um abraço

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