Aula de 05/05/1994 – Produzir seu próprio inconsciente II

Esta é a continuação da aula Produzir seu próprio inconsciente I

Então, o nosso confronto, o que eu estou colocando é gravíssimo: cada um de nós produzir o seu próprio inconsciente! E acabar com essa tolice de que existe inconsciente chileno ou inconsciente brasileiro... Você já imaginou um inconsciente portenho, um inconsciente paulista? Quem é que ia aguentar viver nesse mundo? (Risos). Ninguém ia suportar mais!!!

O inconsciente não é uma entidade formal. Ele é uma singularidade. E você tem que passar a sua existência construindo esse inconsciente: porque é ele que funda as crenças, os amores, as tristezas, os poemas, a alegria... é ele que faz as séries da vida, as séries da morte... Se você tem o seu inconsciente dominado, vai ser uma forma de vida repugnante.

Alº: É você que funda o seu inconsciente?

Cl: Funda, não: você que o dirige!

Porque, por exemplo, quando você sofre um abalo: “Ihhh! Fui trepar com essa mulher e não consegui! Fui um fracasso!!!” Você faz o seguinte: “Então, eu vou procurar um psicanalista!” O que você está fazendo??? Você está produzindo o seu inconsciente!!! O psicanalista vai ter essa função, de produzir o seu inconsciente... Vocês estão entendendo?  Por exemplo: a obra do Michel Foucault...

Alº: O inconsciente é produção da gente...

Cl: Produção da gente!!!

Alº: ou a gente que é produção do inconsciente?

Cl: Não. A gente produz o nosso inconsciente. E ele vai ser o nosso produtor!!! É como se você fosse uma máquina cega. Essa máquina cega começa a produzir aquilo... e aquilo se torna a sua vida! Por exemplo, você começa a escrever, você começa a fazer poemas... aquilo se torna a sua vida. Escrever e fazer poemas é produzir inconsciente.

Aqui você tem um confronto, que eu já tinha colocado, entre inconsciente e diário: alguns só fazem autobiografia, só escrevem diários. Esses produzem um inconsciente entristecido. Agora, você pode produzir um inconsciente forte. Mas a produção do inconsciente é sempre sua.

O Michel Foucault tem um livro chamado História da sexualidade II, em que ele mostra o corte da existência grega, em que o grego produzia constantemente o seu próprio inconsciente; a geração do cristianismo, que o cristianismo vai construir aquela figura chamada “diretor de consciência”.

O que é um diretor de consciência? Aquele que vai produzir o seu inconsciente: “Psiu, vem cá: o que você estava fazendo?” (É assim!...) “Não, meu filho, isso não pode não; que negócio é esse?” Aí, vai gerando o teu inconsciente... Aí, de repente, você pensa que é aquilo que você é, que é a sua natureza; e, no entanto, aquilo é produto do hábito! Produto do hábito! Foi isso que, por exemplo, Schönberg entendeu na música. Se ele vai fazer uma música atonal e ilimitada, é porque ele compreendeu que o hábito cromático que nós tínhamos não era música! Mas depois ele se acovarda, não é? Porque ele produz a dodecafonia para segurar. (Não sei se vocês entenderam?)

Arnold Schönberg, nascido na Áustria em 1874, faleceu nos Estados Unidos da América, em 13 de julho de 1951, como judeu foragido ao nazismo. Em etapa próxima ao final de sua vida, foi mestre de um dos maiores inventores do século xx: John Cage. Curiosamente, tal encontro/confronto de 1934, que aconteceua em um momento no qual Schönberg era mais diluidor de suas próprias invenções do que mestre propriamente dito, acaba por constituir o mais crasso exemplo de que a pura invençãotal como podemos entender a conduta de Cage, avesso às exigências e conselhos do mestre principalmente no que dizia respeito, justamente, à ciência da harmonia -, sem a rigorosa disciplina da mestria, pode se enclausurar em si mesma, ainda que sirva potencialmente de modelo contínuo de questionamento e arrojo; em uma palavra: de risco, imprescindível para o artista. Como inventor, Schönberg foi o maior responsável pelarupturacom o sistema tonal em sua fase de saturação extrema, ruptura esta por ele vista, entretanto, mais como continuidade e conseqüência natural da evolução da linguagem musical do que como fruto de qualquer atitude rebelde e avessa à história. Nesse contexto, Schönberg – preferindo o adjetivo “evolucionário” a revolucionário – se debatia contra a imagem do inventor, declarava-se sobretudo um “descobridor” e firmava-se como um clássico, um criador mais propenso a sínteses do que a hipóteses. Fonte: (http://traca.com.br/livro/353281/harmonia)

O que eu estou chamando de produção de inconsciente, de produção de vida...

Alª¹: Não tem a ver também a educação?

Cl: A educação ― que os gregos chamam de Paidéia ― é governada pelo modelo formal. Você pode produzir uma educação das singularidades. Os povos nômades fazem isso!

Alª¹: Mas a educação que você tem dos seus pais, por exemplo, não é uma...

Cl: É formal!... Inteiramente formal!

Alª¹: É formal, mas é aquele inconsciente formado por outra pessoa???

Cl: Exatamente. Você é formalizado, em princípio, ali dentro.

Alª²: É o que o Nietzsche chama de escravo, não é? A formação do escravo!

Cl: É o escravo; na linguagem do Nietzsche pode ser o escravo...

Alª²: Porque foi totalmente apoderado, não é?

Cl: Sim, apoderado!

Vera e Cacau, vejam o século XX ― o que foi a década de 60? O que foi exatamente a década de 60, a primavera do mundo? A primavera do mundo ― o que foi aquilo? Foi uma produção de inconscientes livres. Que explodiram em quê? Em morte, em arte, em Jimmy Hendrix, Janis Joplin, e assim por diante...  A gente entra nesse mundo e vai fazendo a nossa existência!... Mas o governo das singularidades é o confronto que a gente faz ao longo da nossa vida. Quando nós não tivermos mais potência para viajar, aí acabou a vida! O Ocidente é tão cruel, é tão formalista, que o Fellini fez um filme em que as personagens mantinham relações sexuais aos 80 anos de idade, e foi atacado! Evidente, liberar singularidades, aos 80 anos de idade, rompe com o nosso modo de viver! Agora, isso é na simplicidade do tema que eu estou dando, (não é?) O confronto que a gente vai fazer são esses dois.

Exemplo lindíssimo: se vocês gostam de flores, vocês podem ir ali ao jardim desta casa, encontrar um girassol e cheirar ― aquele girassol é um girassol formal, individual. Mas se vocês forem ver a obra do Van Gogh, o girassol dele é singular. São girassóis singulares! Nós vamos ter que entender isso: nós vamos ter que entender o que é essa matéria tornada sinalética, tornada artística.

Produzir uma matéria artística... Como é que os arquitetos produzem arte nas pedras e os matemáticos produzem equações no vazio?  As equações no vazio e as linhas nas pedras são produções do inconsciente: o inconsciente é criador, é autopoiético. O tempo inteiro! É essa a questão dos rebeldes dos anos 60! Rebelde, por quê? Porque eu quero produzir meu próprio inconsciente! Nenhum artista deixará por menos: qualquer artista sabe que a única maneira de exercer a sua prática é se ele for autopoiético. Um grande exemplo é um ator de 90 anos ― o John Gielgud [falecido em 2000]. De vez em quando ele dava umas entrevistas bombásticas para mostrar que alguns atores que existiam por aí eram formais.

Quebrar essas formalizações, entrar na multiplicidade...  O trabalho até aqui foi muito abstrato, mas a partir daqui nós podemos ir pra qualquer campo ― se for um físico (se for, por exemplo, o Luiz Alberto), ele vai encontrar o mundo formal, que é o mundo das ---; vai encontrar a singularidade, que é....., e assim por diante. Nós vamos sempre encontrar essas duas seções do Universo: o singular e o individual.

Alº: Eu estou com uma dúvida: não sei se é deixar que o inconsciente produza, ignorar a força do inconsciente ou não..

Cl: Tem que dominar isso daí. Presta atenção: O negócio é tão terrível ― e isso, quando eu começar a apresentar, eu tenho que ter um cuidado muito grande com vocês ― porque desfazer uma forma, desfazer o individual ― por exemplo, eu vou desfazer a forma do individual em Dudu: eu posso levá-lo a morte! Eu libero células cancerígenas, libero velocidades enlouquecidas, isso não pode ser feito ao acaso... Isso tem que ter toda uma instrumentalidade para produzir isso. Se fosse negócio de porraloquice, isso mata! Você vai produzir outra cidade cartográfica, você não pode deixar que aquilo passe à vontade! A gente começa a aprender que p pensamento não é democrático. Não tem democracia no pensamento. “Olha, vamos botar em votação se o Platão é um bom filósofo ou um mau filósofo? Quem o pessoal do PT está apoiando? Não é nada disso! O pensamento não tem nada a ver com isso. Nada! O pensamento é um exercício radical que a vida faz. Então, o que eu estou dizendo pra você não é: “Ah, deixa que o inconsciente se produz por si próprio!” Que produz, nada! Isso vai começar a sonhar, delirar, capengar, claudicar. (Lê Édipo!) Vai lá pra lá, vai... não? Vai lá... Lê Castaneda, (---)

Alº: Ele é pré-individual, a-formal...

Cl: Exatamente! O inconsciente é pré-individual! Inteiramente aformal! Mas se ele passar como se fosse uma tempestade, a tempestade ― sai da frente! ― rompe com tudo, cada vez aumenta mais.... Tem uma tempestade num planeta chamado Júpiter (não é, Luiz Alberto?), que já foi descoberta há mais de 400 anos, um furacão, nunca se desfez!... É exatamente essa singularidade no campo físico... A singularidade no campo físico, no campo espiritual, não importa o quê ― mas a produção é nossa!

Alº: A força, que você está dizendo, pode-se dizer que a força sem a forma é destrutiva?

Cl: Não; ela não tem forma. Ela tem o ser destrutivo. É muito simples: você solta dez esquizofrênicos dentro de um circo – e sai da frente! É isso: as forças são esquizas!... Esquizofrênicas!...

Alª: É coisa da entropia mesmo!

Cl: Não, são esquizas as forças. Esquizas no sentido de esquizofrênicas mesmo! São esquizofrênicas e não têm paixão por Moisés ou por formas ou por decálogos... o que elas querem é passar! O que tiver na frente elas vão rompendo! Vão rompendo!  Então, por isso que eu digo: “Administre a sua própria vida!” É isso que é o mais alto grau de potência que a gente tem: é administrar a nossa própria vida! A nossa própria tristeza, a nossa impotência, a nossa infelicidade... Se os nossos amores não vão muito bem, vamos inventar outros... Vamos começar a inventar! Isso seria o que eu estou chamando de... não deixar o inconsciente produzir sozinho... e vai chover... [Claudio brinca:] “Vai chover no Ceará... Vai chover lá, vai acabar o problema de seca, a humanidade vai ficar feliz e a singularidade vai desaparecer...” (risos...), porque a felicidade é um ponto das formas, não é? A felicidade é um conceito aristotélico, o maior pensador das formas!

Então, o que eu estou dizendo, o tempo todo, é que a nossa aula se abre para essas duas forças: uma força singular (eu ainda não pude ainda nem explicar direito o que é isso...) e a individual.

O singular chama-se ACONTECIMENTO. Vamos começar a penetrar... porque agora, ao entrar na teoria do acontecimento, nós vamos começar a entrar numa teoria do tempo, eu vou começar... pra quebrar barreiras, não é para vocês compreenderem de imediato, não: o meu objetivo é quebrar barreiras.

A noção de acontecimento inclui dentro dela... Isso é muito difícil! A noção de acontecimento, que é uma noção pré-individual, uma noção singular, uma noção aformal... A noção de acontecimento traz em seu interior, intrínseca, a noção de TEMPO. Então, se eu falar em acontecimento eu tenho que falar em...? Tempo! Mas ao falar em acontecimento e ao falar em tempo (eu vou dar isso muito rápido, eu vou voltar em outra aula, tá?) eu estou começando a liberar o TEMPO PURO.

Primeiro exemplo do que é tempo puro: o tempo puro não tem sucessão: ele não é SUCESSIVO ― o tempo puro é SIMULTÂNEO.

― Por exemplo: presente e passado são sucessivos ou simultâneos?

Als: Sucessivos!

Mas o que eu estou dizendo, é que quando nós entramos nas singularidades, o presente e o futuro não são sucessivos: são simultâneos!

Aqui começa a se tornar quase impossível de apanhar. É porque o modelo do tempo sucessivo é formal individual. Na singularidade não há sucessão; há simultaneidade ou coexistência. Então, você vai entrar no acontecimento... O acontecimento tem, no interior dele, a força do tempo; mas o tempo em coexistência!

Por exemplo, este ponto da minha aula, em que eu estou, tem um passado? Tem. Tem um futuro? Tem. Então, a ponta do passado e a ponta do futuro estão ligadas ao presente atual, aqui. Não estão ligados? Na verdade, no acontecimento ― minha aula é um acontecimento! ― o presente tem o passado e o futuro como dimensões dele. Então, é sempre um presente extenso. Por exemplo, é um capítulo da novela. É um presente. Um capítulo da novela tem um passado? Tem. Tem um futuro? Tem. Então, o acontecimento é constituído pelo que se chama ― vamos marcar:  PONTAS DO PRESENTE. São as pontas do presente. Que o Sto Agostinho chamava presente do passado, presente do presente e presente do futuro. Então, agora, você investindo no acontecimento, se você vai para as singularidades, você vai encontrar o que eu estou chamando de pontas do presente: presente do passado, presente do presente e presente do futuro. No presente do presente, eu sou apresentado à Márcia; no presente do passado eu, não a conhecia; no presente do futuro, eu já a conheço. Ou seja, no interior do acontecimento nós vamos viver essas três pontas simultaneamente.  (Não sei se deu par entender...) Ou seja: no interior do acontecimento, nós vamos viver essas três pontas simultaneamente. Isso daí é o modelo do sistema francês da Nouvelle Vague, que é uma tentativa de conquistar o tempo.

Aliás, a conquista do tempo, não importa que seja na economia, na filosofia, na política, onde for, a conquista do tempo parece ser a nossa liberdade. É preciso conquistar o tempo para sermos livres, porque o tempo foi permanentemente governado por outras forças.

Eu não sei se ficou bem o que eu coloquei agora... eu liberei a noção de acontecimento, identifiquei acontecimento a tempo... e assim vocês não vão mais botar o acontecimento como sinônimo de fato, o acontecimento é uma questão da singularidade e não do individual... Então você não encontra nenhum acontecimento no empírico. O acontecimento só se dá no transcendental. E o acontecimento é aquilo que tem o tempo como simultâneo ou coexistente: não há sucessão! Então, é um paradoxo terrível!  Um paradoxo terrível!! E é exatamente isso que vai se processar se você estiver no interior do acontecimento.

Por exemplo: Lewis Carroll se supunha no interior do acontecimento. Ele, então, foi produzir um universo discursivo que expressasse esse acontecimento: paradoxos, enlouquecimentos... é isso que ele faz! A obra do Lewis Carroll é ― em Alice, como em todas as Alices dele ― uma tentativa de expressar exatamente as singularidades que ele habitava. Então, eu estou liberando pra vocês uma noção, que é interessante, porque Espinoza trabalhou com ela, sem, no entanto, nunca ter explicado o que ela é: a noção de EXPRESSÃO ― mas ela é fundamentação para nós.

Uma ARTE EXPRESSIVA expressa singularidades. Uma ARTE REPRESENTATIVA representa formas. O nosso confronto vai ser: EXPRESSÃO e REPRESENTAÇÃO. Como é que nós vamos entender isso?

Alª: Uma arte expressiva e uma arte representativa...

Cl: A representativa é...? Formas!

Isso daí é muito pouco, porque aí vocês não vão compreender perfeitamente. Por exemplo: na pintura há uma prática pictórica egípcia. Não sei se vocês já viram como é a pintura egípcia: é frontal e lateral ao mesmo tempo. O mais importante não é isso. O mais importante é que na figura egípcia a figura está colada no plano: não há figura e fundo; está colada. Isso é uma prática que os egípcios inventaram para produzir uma nova singularidade. (Não sei se vocês entenderam...)

Olha, existem dois processos dominantes na pintura: um processo chamado LINEAR e um processo chamado PICTÓRICO. O linear é um processo pictórico em que há o governo da mão: a mão dirige a pintura. E a tal ponto, que você busca com a mão o confronto com as coisas, porque o “toque” é o maior fundamento de realidade. Se você puder tocar naquilo, aquilo tem realidade. Então, a pintura renascentista é toda fundada no linear e no manual.

Quando chega a pintura barroca, ela abandona o linear e o manual, e passa para o ótico ― que é uma maneira nova de fazer arte; onde você já não pinta as coisas como são, mas como você as vê. Então, nós teríamos, de um lado o manual; e de outro o pictórico. Mas, no fundo dos dois ressoa o egípcio, porque os egípcios inventaram a singularidade, chamada HÁPTICA.

O que quer dizer Háptica? É a produção de uma obra pictórica sem que haja distância entre o pintor e o quadro. Ou seja: vai haver o desaparecimento da distância. (Não sei se vocês estão entendendo.) Porque a arte representativa, o modelo dela é a distância: você pinta distante do modelo. Você é o REPRESENTANTE, aquilo que você está pintando é o REPRESENTADO e o conjunto é a REPRESENTAÇÃO.

Então, quebrar a representação, uma das práticas de quebra da representação, é criando a noção de próximo, e quebrando a noção de distância. É entrar nas coisas, como diria Bergson. Você não vê de fora, você vai lá no fundo delas. Isso se chama ― a tentativa egípcia e é uma nova singularidade, chamada háptica.

Provavelmente, alguns de vocês só ouviram a palavra háptica aqui, hoje. O háptico não é de forma nenhuma o individual: ele é uma singularidade. Então, vocês estão vendo que a singularidade é uma produção da vida. É a vida que produz! Da mesma forma que o pictórico, o pitoresco dos barrocos é uma invenção de singularidades. Se você vai ver os góticos, por exemplo, eles inventaram uma geometria nova e inventaram uma figuração nova. Tem esses animais de heráldica, não sei se vocês já viram? Não tem nada a ver com os animais comuns: é uma animália totalmente enlouquecida ― invenção do gótico, que produziu uma nova geometria. Aquele Leão Gótico, ali, é invenção dele. Agora, porque no momento em que você vai produzindo (---) vai gerando uma série de singularidades novas. A singularidade não é alguma coisa dada e pronta. A singularidade é aquilo que SEMPRE é inventada. Você não para de produzir novas singularidades; ou você para de produzir singularidades.

Por exemplo, a pintura egípcia produziu essa singularidade chamada háptica. Se por acaso alguém, no século XX, produzisse uma pintura háptica, estaria plagiando os egípcios. Mas o Francis Bacon, por exemplo, que pinta hapticamente, não fez isso: ele renova. Então, o conceito de RENOVAÇÃO é provavelmente um dos conceitos mais importantes para o pensamento. A questão é exatamente pegar alguma coisa e renovar ali. Fazer uma renovação naquilo; senão, nada acontece! Imagina se o cinema não tivesse feito uma renovação na década de 40. Teria acabado! As artes têm que se renovar, a filosofia tem que se renovar, a ciência tem que se renovar. Então, a busca da renovação é o que define exatamente as viagens nomádicas da singularidade.

Então, nós temos uma singularidade... Ou o háptico ficou muito difícil? O háptico é uma singularidade. Aquilo não é uma forma. Aquilo não é um individual. É uma singularidade inventada pela kunstwollen egípcia. A vontade de arte egípcia que produziu aquilo. Essa singularidade gera necessariamente um corpo diferente tanto do artista quanto do observador. Você tem que ter um corpo diferencial: você começa a gerar um novo tipo de corpo. Porque, inclusive, o que eu estou falando pra vocês, é que o corpo que nós temos é uma invenção das singularidades.

― Qual é a singularidade que produziu esse corpo? Então o corpo é assim. Qual é a singularidade que produziu esse outro corpo? É diferente!

William Burroughs tem um texto em que ele pede urgentemente a produção de novas singularidades para surgir novos tipos de corpos... porque, segundo ele, nós vamos ter que sair do planeta. Não vai estar muito distante o tempo em que nós vamos ter que fazer a grande viagem, (não é?) Sair deste planeta, porque ele não dá mais conta!... Está na cara que isso não

vai ser pra nós! Muitos aqui ainda vão viver a pontinha disso. Porque nós temos uma tecnologia assombrosa. A tecnologia é uma coisa assombrosa!  A gente não sabe o que vai ser inventado amanhã. Provavelmente amanhã eles vão colocar um telefone no meu intestino... Eu telefono para lá e pergunto: como é que está isso aí? (risos...)

É, isso é sério! É só ver os processos que se dão aí. O pai do Sena disse uma coisa interessantíssima: “Eu não sabia que o povo gostava tanto do meu filho!” Não é que gostasse, mas é que ele morreu: virou uma singularidade nova. Aquela singularidade ― como dizia o Gabriel Tarde ― foi-se espalhando como onda, aí, todo mundo foi dizendo: Eu amo o Sena, eu amo o Sena! E é mesmo!!! Porque a morte é uma propriedade que produziu um diferencial nele. O pai do Sena não saberia fazer uma interpretação dessas...

(Não sei se vocês entenderam?)

A singularidade passa a ser o componente fundamental para a construção do humor.

(Foi bem?)

Olha, chegou um momento de aula, vocês vêm que eu estou conduzindo a aula com menos (sobretudo esse grupo que está aqui que tem uma variação incrível, não é?), eu tenho que fazer isso: não deixar que ela caia no campo filosófico. Eu não posso deixar cair, porque senão eu jogo a morte pra cima de vocês... A gente tem que começar a gerar, o tempo todo, grandes movimentos pra encontrar essas singularidades, produzi-las,e com isso produzir uma vida inteiramente diferencial.

Então, eu agora deixo vocês perguntarem! Vocês viram bem, não é? Nós estamos com duas questões seriíssimas, nas quais nós não entramos ― o ACONTECIMENTO e a noção intrínseca da SINGULARIDADE...

Alº¹: Eu vou perguntar... O soneto é uma forma clássica de poema. Imagino que o poeta vá escrevendo o soneto respeitando toda a...

Cl: É idiota: ele tem que renovar o soneto...

Alº¹: Tudo bem, mas o que ele quer, que ele tente captar idéias novas.

Cl: Captar aonde, na tv? Ele tem que produzir idéias novas!...

Alº¹: Mas se ele quiser colocar em forma de soneto?

Cl: Botou... eu não vou ler!...

(risos)

Alº¹: Você acha que é impossível, então, ele criar uma singularidade?

Cl: Por que não? O Haroldo de Campos não criou ― a poesia concreta?

Alº¹: Mas, se por exemplo... Bom, nós já passamos por todos esses movimentos poéticos... Haroldo de Campos, concretismos, não sei o quê?

Cl: Não há mais o que criar???

Alº¹: Não, criar sempre há! Mas se, de repente, ele diz: não, eu quero criar, eu quero colocar as idéias que eu vejo hoje, mas quero colocar na forma de um soneto?!

Cl: Mas você vai formalizar, quando eu expliquei a aula inteira que singularidade não é forma??? Que singularidade e forma são duas coisas diferentes! Agora, se pode liberar o soneto? Claro! Os líricos fizeram isso. Os líricos nem sabiam que havia soneto, já estavam liberando o soneto. Porque a lírica trabalha com repetições, não trabalha com reproduções. Então, ela produziu uma singularidade nova, que é a repetição. Você lê os textos gregos, lê os textos sobre a poesia lírica, que você vai entender isso daí... O lírico não formaliza de maneira nenhuma! Ele não admite a formalização. A rima do lírico é a intensidade. E não o sintagma; ou o significante ― que é a rima do formalizante! Há dois tipos de rima. Há uma rima das intensidades, que não é necessariamente cão rimando com coração! Rimar cão com coração... chega a doer na gente, não é? (risos) Porque o mundo formal é isso: ele é forçado a essas tolices... Quando você entra num campo desses, de produzir singularidades no caso poético, seria um absurdo se não houvesse isso. A poesia é realmente a arte mais desprotegida que existe, não é? Há até um texto do Heidegger sobre isso, muito bonito, um dos mais bonitos que ele escreveu, onde ele mostra que a poesia é um discurso sem perigo. Aparentemente! Então, por exemplo, você vai para Macaé, todo mundo só tem um discurso: político! Não tem outra coisa, é político o tempo todo! Aí, eu chego, e começo a falar o discurso poético... Ah, ninguém se preocupa comigo: os maridos me levam pra casa..., não tem problema nenhum: poeta!...  Mas acontece que, na verdade, esse discurso poético é o mais perigoso! É ele que é o perigo!!! Se o Estado bobeia e se ele passar... desenvolve uma nova maneira de viver. O João Cabral é muito mais perigoso que o Lula! (Não sei se vocês entenderam... )

Alº: No entanto, ele formaliza!

Cl: Problema dele!...

Alº¹: Pois é, mas aí é que está... mesmo formalizando, meu poeta hipotético cria uma singularidade...

Cl: Essa questão que você está afirmando, é possível até que seja. É possível que nós tenhamos que retomar uma forma, (não é?) para atravessar a singularidade... Mas eu acredito que nós vamos conseguir escapar disso!

Alª: Talvez o que ele queira dizer é que a singularidade talvez possa passar, apesar da forma.

Cl: Eu não entendi... ele que quer dizer isso? Se ele quer dizer ele diz, minha filha, ele não precisa de representantes... É você que está dizendo... (Eu fico indignado com essas coisas! )

Alª: Então tá, sou eu que estou dizendo... Tá, sou eu que estou dizendo! Hoje você está atacado, hein?

Cl: Ah, você nem imagina como é que eu sou!

Alª: Está se vendo! Está acelerado e atacado!

Cl: Você, de repente, se tornou representante dele...

Alª: Tá legal, tá legal!!

Alº¹: É, mas eu pensei uma coisa por aí mesmo, porque...

Alª: Obrigada! Obrigada! (risos...)

Alº¹: É que hoje em dia eu acho que a gente vive umas experimentações que são sem forma, são aformais, no entanto, também nem sempre elas têm conteúdo. Nem sempre elas estão...

Cl: Eu não estou entendendo!... Você está com um discurso religioso, está dizendo que o singular é bom, o formal é ruim!? Não é nada disso! Você introduziu a noção de conteúdo. Essa noção de conteúdo não passou na aula! Se não passou na aula, não foi conceitualizada, eu pergunto pra você: o que é conteúdo?

Alº¹: Eu digo... é essa busca do singular no sentido de... de buscar...

Cl: Não é buscar o singular, E, ninguém busca o singular como forma heróica de vida. Você busca o singular como forma de produzir arte na sua vida. Produzir forças de vida. Produzir novas brisas... é isso!

Alº²: Sair do tédio...

Cl: Sair da insuportabilidade!!! Porque a insuportabilidade está em cima de nós.

Alº¹: O Claudio, no caso do soneto, por exemplo, você pode ter um cara que escreve um poema sem forma e, no entanto, talvez não esteja ali latente a intenção dessa singularidade...

Cl: Eu fiquei confuso com a pergunta! Não é que eu queira dizer que uma pergunta tem que ser clara... Não é isso que eu estou dizendo! Eu sei que muitas perguntas... porque o pensamento sente dificuldade para passar, (não é?) às vezes a gente está querendo passar ali e não consegue... é barrado, há portas que se fecham... aí a questão que se levanta é uma questão difícil, e não é obscura. O pensamento é sempre muito difícil, viu? Então, quando eu estou dizendo: não entendi; não quer dizer que você formulou mal. É que ela veio muito densa! Muito densa! A gente produz questões densas! Inclusive, o Nietzsche, a escrita dele, o aforismo, tinha um objetivo: gerar questões em você. Gera questões! (Entende?) Então, você passa uma questão que eu estou dando, você está querendo organizá-la, ela começa a escapar pra você, é uma prática inteiramente singular. Ela começa a escapar! Ela começa a fugir! Aí que eu chamei de viagem, você começa a fazer uma viagem! Essa viagem, às vezes, pode ser mortal, pode te destruir! Foi o que eu disse para o Pepe, que se você deixar essas forças livres, elas podem ser cancerígenas! Uma velocidade, meu filho, que você não agüenta! Superior aos 300 quilômetros do Sena, você vai explodir! Excesso de velocidade! É preciso, então, você ter regras de prudência!

Há duas regras que comandam a nossa vida: uma se chama REGRA DE PRUDÊNCIA, a outra se chama REGRA DE HABILIDADE. A regra de habilidade é comandada pelo pensamento, pelo intelecto, é KNOW HOW. a regra de prudência, você vai e aprende como é, e você vai atravessar determinada região de vida, construir um meio artístico para produzir uma obra... Regra de habilidade é um meio para atingir determinado fim, mas que nós costumamos aprender na nossa paidéia, na nossa educação, nos nossos colégios. Mas existe uma regra mais importante que a regra de habilidade, que é a regra de prudência. A regra de prudência é o famoso conselho. A regra de prudência não tem modelo em lugar nenhum. Então, sim, você tem que se encher de regra de prudência para produzir as suas singularidades. Isso daqui não é loucura, o que está se passando! A regra de prudência é uma coisa que é permanente na nossa existência em termos de conselhos. Por isso que é alguma coisa terrível, (não é?) você encontrar aqueles que são capazes de produzir regras de prudência ― que são os filósofos! Regras de prudência para você poder exercer a sua existência! Não sei se vocês entenderam o que eu disse. Não é pensar que nós temos tudo construído para nós; tudo tem que ser construído... Tem que ser gerado para você poder passar. Isso que eu estou chamando de regra de prudência é importantíssimo!

Alª: Seria esse instrumental que permitiria que a singularidade passasse... sem...

Cl: Se você quer fazer literatura e não quer se agenciar com a escrita, não quer se agenciar com a solidão, não quer se agenciar com a morte, você não quer fazer literatura! Você está dizendo que quer, mas não quer. Você está apenas dizendo: ah, eu quero estudar, eu quero... Mentira, não quer nada! Se quiser, vai! Se quiser, vai!

Alª: Mas aí você precisa das regras e das regras de habilidade e das regras de prudência.

Cl: Sobretudo das regras de prudência. Essas regras de prudência, é o que eu estou dizendo pra vocês, é a constituição de meios pra você passar sua vida, atravessar sua vida. Porque é preciso compreender uma coisa muito simples! Eu... (é um exemplo biográfico, horrível, mas gera singularidade:) Eu, aos quinze anos não sabia se era homem ou mulher, se eu gostava de homem ou se eu gostava de mulher... ninguém tinha me ensinado! Eu nunca soube que..., o dia em que eu me apaixonei por uma mulher, essas paixões infantis, que são paixões mais do claro e do escuro, eu fiquei surpreendido: o que está se passando dentro do meu corpo? Nunca ninguém tinha me ensinado que nós geramos afetos... Nunca me ensinaram!... A nossa educação não permite isso. É uma educação dura, formalizada. Você recebe os seus afetos, e você quase enlouquece, porque você não sabe o que são eles. (Vocês estão entendendo???) Você tem que participar daquilo sem saber o que está se dando! Calcula eu, com doze anos, com uma brutalidade de afetos dentro de mim, e eu não sabia o que fazer: eu quase explodi! A gente fica sem ar, (não é?)

Então, nós temos uma paidéia formalizadora, uma educação formalizadora, que nos formaliza para sermos bons sujeitos: “seja um bom sujeito, que tudo vai bem!” Por isso, que quando passam essas singularidades meio enlouquecidas, tipo Artaud (Artaud é um bom sujeito? Van Gogh é um bom sujeito? Não, não são bons sujeitos!), o que o Estado vai fazer? Vai perseguir, porque são singularidades aformais; e a questão deles é conhecer uma matéria artística: chama-se MATÉRIA DE DIREITO ― é a matéria da arte. E a matéria do mundo é a MATÉRIA DE FATO.

(Vocês poderiam até anotar, porque isso daqui vai ser fundamento para a próxima aula.)

Então, um artista pega essa mesa ― que é uma matéria de fato; e, em cima dela, ele começa a cruzar as suas linhas ― é a matéria de direito. Então, a arte e a matéria têm uma durabilidade ENORME. A matéria é durabilidade de fato; a arte é durabilidade de direito. (Não sei se vocês entenderam...) Às vezes, é uma linha na matéria, uma curva, um gesto ― que você encontra na página 22 de um livro de literatura, e todo dia você pode ir lá, na página 22, recuperar aquele acontecimento; viver aquele acontecimento intensamente outra vez. Isso é a arte. E a matéria que ela ocupa é de fato. Então, a arte, a filosofia e a ciência são de direito. Esses dois conceitos ― de direito e de fato ― são dois conceitos kantianos, mas retomados aqui, porque a filosofia é de direito...  Mas agora nós precisamos começar a compreender esses “de direito” e “de fato”, para transitar para cima do transcendental, dessas criaturas do pensamento, que são criaturas muito difíceis de serem compreendidas.

(pequeno defeito na fita)

Alº: (---)

Cl: (---) restaurador.Você, aqui, pode pensar, inclusive, o próprio Thomas Hardy, Judas, o obscuro. Pensar ele mesmo, porque... Mas a restauração à arte, então é platônica: não é isso! Não é que a arte seja a restauração de uma idéia mítica, não. A arte é como (o exato, um termo muito forte:) a arte restaura a matéria. Ela toca na matéria e a espiritualiza, espiritualiza a matéria. Da mesma maneira, o espírito, nas sínteses passivas, sintetiza a repetição. A matéria recebe aquele toque. Então, olha que coisa: você pega um livro ― aquilo dali é a matéria; as palavras são a matéria ― e você encontra ali ― nas cinco primeiras páginas você já encontra! ― homens e mulheres com afetos de lobo. Aquele livro produzindo novos campos afetivos! É... O morro dos ventos uivantes. Os afetos de Heathcliff, os afetos de Kathy são singularidades. Se, no romance, você encontrar personagens humanas, são formas. Eu não sei se vocês conhecem o Heathcliff e a Kathy, mas, se não conhecem, têm que conhecer: O morro dos ventos uivantes, Emily Brontë ― que é a produção de singularidades. Existe um filme, que de vez em quando passa, e é fraco, mas é sobre o Heathcliff e a Kathy ― onde vocês vão notar que eles não têm um amor comum, eles não têm sentimentos humanos, são verdadeiros lobos! Quer dizer, são afetos que são liberados ali, e isso gera uma singularidade nova. (Eu não sei se vocês entenderam bem o que eu falei...) O artista é que produziu isso: foi Emily Brontë que produziu esses lobos no curso humano. O amor do Heathcliff e da Kathy não é um amor de um homem comum ou de uma mulher comum. E aquilo são afetos, são singularidades liberadas. A arte libera essas singularidades. E a existência das singularidades é uma existência de direito.

Alª: Então, você pode dizer que a arte contempla a matéria?

Cl: Contempla e sintetiza.  Contempla e transforma. Transforma é uma palavra fraca, mas o que ocorre é exatamente isso. O espírito, quando está fazendo essa contemplação, é um ser de direito, porque é o real singular. O real virtual. É uma realidade que não é essa realidade individual. O mais difícil para nós é aceitar essa realidade. É uma realidade que só o pensamento apreende. É aceitar essa realidade e ver que os mecanismos dessa realidade são diferentes das realidades individuais. Isso aí, não está na questão do indivíduo.

Alº¹: Você disse que a semente fazia sua autopoiesis, ----?

Cl: Há uma pergunta, eu não tenho muita certeza, mas se eu não me engano é do Samuel Butler, se eu não me engano! Perguntam ao Samuel Butler: a planta tem competência de alguma coisa? A planta é capaz de construir uma casa, construir um lar, construir uma família? Não! Então, a planta não tem intelecto, ela não é capaz de produzir nada! Mas quando você vê uma semente, por mistura com lamas, produzindo tecidos de rosa, aromas de rosa, cores de rosa, você vê que a planta produz alguma coisa. Nós é que não entendemos isso e produzimos o modelo da inteligência como modelo central. É claro que a semente é produtora o tempo inteiro: mas a produção é por contemplação. Isso daí pode ser chamado de pensamento? Pode!  Pode ser chamado de pensamento, porque a planta faz um exercício excepcional que nenhuma máquina que nós temos por aí é capaz de fazer, que é pegar um pouquinho de lama... e da lama fazer rosas. O pensamento é autopoiético: pode dizer isso tranquilamente, sem dúvida nenhuma! A natureza ― isso é Espinoza  ― Natureza sive Deus, Natureza ou Deus, ela é autopoiética, é produtora, o tempo todo!

Alº²: A natureza é o pensamento?

Cl: É o pensamento! Olha, quando você lê as filosofias ― como, por exemplo, a filosofia de Descartes ― você vai ver que o Descartes não vai dizer que a Natureza é Pensamento. Ele vai dizer que a Natureza é Extensão; e o Espírito é Pensamento. A natureza é extensão e o espírito é pensamento. E ele coloca em cima do espírito e da natureza o governo de Deus. Deus governa tanto o espírito quanto a natureza: governa os dois. Quando chega nesse filósofo, que eu falei, chamado Espinoza, esse triângulo dominante ― Deus, Pensamento e Natureza ― desaparece; e só fica um: Natureza ou Pensamento, ou Deus. Os três se identificam, como o Espirito Santo: os três se identificam  em um: Pensamento, Natureza e Deus. E aí você vai ver a autopoiésis. Aí se dá a autopoiésis. Ou seja: o primeiro Deus não prisioneiro do formal, quem produziu foi Espinoza: o Deus das singularidades. Deus terrível, não é? Porque ele é esquartejado, dionisíaco. O Nietzsche também falou sobre ele.

Alº: Você conhece o Gregory Bateson?

Cl: Muito! Gosto muito!

Alº: Tem a ver? Isso que você está dizendo, Mente, Natureza...

Cl: Muito, muito, muito! Os trabalhos dele sobre o alcoolismo são sensacionais, eu posso em alguma hora falar nisso, porque ele começa a fazer, como o William Burrougs, uma reavaliação nessas questões. Ele é um grande pensador do cérebro, um grande pensador do álcool, sensacional! Ainda que a Escola de Palo Alto seja devedora de alguma coisa pra nós, não é? Levaram muita grana...

Tá bom, não é? Tem mais perguntas? Tá bom!

FIM

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