Aula de 07/04/1994 – A fundação do tempo

Parte I

[De acordo com o pensamento clássico, dadas duas proposições do tipo:] Os gregos são racistas; os alemães não são racistas. Então, variou o conteúdo da verdade. (Vocês entenderam ― “o CONTEÚDO da VERDADE”?).

― Agora, de que maneira A VERDADE se apresenta para o homem? Quando e como ― no campo dos saberes humanos  ― surgiu essa questão do VERDADEIRO e do FALSO? (Entenderam a questão?). Essa posição vai ser colocada por Aristóteles, no século IV a.C.

E o que Aristóteles vai dizer é que a única forma de o verdadeiro e o falso aparecerem no mundo humano seria por uma prática chamada JUÍZO ou PROPOSIÇÃO. Então, sempre que você produzisse um juízo ou uma proposição, você teria o verdadeiro ou o falso.

― O que é um juízo? É a coisa mais simples do mundo: a relação de um sujeito com um predicado, através do verbo ser na terceira pessoa do singular. Então, quando se diz, por exemplo: a cadeira é bonita; a cadeira não é bonita ― uma dessas proposições é verdadeira e a outra, necessariamente falsa.  Então, a verdade ou o falso (V/F) ― não apenas a verdade ― emergiria pelas proposições ou juízos.  (Certo?). Por quê? Porque as proposições ou juízos são aquilo que afirma ou nega alguma coisa de outra. As proposições ou juízos afirmam ou negam um predicado de um sujeito.

Assim, sempre que se produz um juízo ou uma proposição tem-se o verbo ser na terceira pessoa do singular; e esse verbo ser na terceira pessoa do singular exclui o TEMPO. O verbo ser na terceira pessoa do singular faz uma exclusão do tempo: A é isto ― ele não diz A será isto; ele não diz A foi isto; ele diz A é. B é. (Entenderam?).

Então, esse verbo ser na terceira pessoa do singular faz uma afirmação chamada UNIVERSAL, que [compreende] uma exclusão do tempo: ou seja: Isto é assim; e SEMPRE será assim ―é esta a posição da FORMA da VERDADE.  Nessa posição, a verdade, ― a forma da verdade ―, não incluiria o tempo.

(Vejam se entenderam...)

Mas pelo fato de que o homem existe e de que Aristóteles considera ser o homem dotado de uma vontade livre, determinados acontecimentos do futuro só poderão ser conhecidos após se darem ― não há como conhecê-los antes.

Você pega, por exemplo, uma ocorrência da natureza: um raio, que se dá. Você pode dizer: “Sempre que um raio se dá, um trovão vai aparecer”. Mas quando se trata do homem, quando o homem faz parte da ocorrência, o homem introduz a vontade livre ― e aí você não sabe exatamente o que vai ocorrer. (Vocês entenderam?). Isso se chama FUTURO CONTINGENTE. Ou seja, todo futuro de que o homem faz parte torna-se contingente.

Eu posso, por exemplo, perguntar a vocês assim: haverá ou não uma batalha naval amanhã? Como é que eu vou obter a resposta a essa questão? Só há uma maneira de obtê-la: depois [que se der ou não a batalha]. Você não tem como produzir uma resposta em torno disso.

Então, surge aqui uma VARIAÇÃO na VERDADE, em função do TEMPO. Ou seja, introduzindo-se o tempo ― a forma da verdade começa a sofrer sua influência, a influência do tempo.

(Não sei se isso ficou claro. Ficou?)

Então, se vocês marcarem a noção de futuro contingente, isso já é suficiente para se entender o que estou dizendo. Bom... a noção de futuro contingente, em filosofia, é uma questão de altíssimo nível. Se é verdade que uma batalha naval pode acontecer amanhã; ou pode não acontecer, isso significa que a verdade em relação ao futuro contingente tem que aplicar uma alternativa entre uma proposição afirmativa e uma proposição  negativa ― a batalha naval vai acontecer amanhã ou a batalha naval não vai acontecer amanhã.  Então, a verdade no futuro contingente é completamente diferente do que eu afirmei sobre A VERDADE para vocês.  A verdade no futuro contingente implica o ou da alternativa, e a confrontação de uma proposição afirmativa e de uma negativa.

(Não sei se vocês entenderam... Você entendeu, Jorge, o que foi colocado?).

A forma da verdade se altera pela força do tempo.

(Aqui é muito importante que vocês perguntem...) porque o que eu estou dizendo não é nenhuma variação no conteúdo da verdade. Não estou falando sobre conteúdo da verdade: essas tolices que falam por aí. Eu estou falando sobre a FORMA da verdade. Então, o que se altera em função da força do tempo é a forma da verdade.

Alª: Você passa a incluir a disjunção: o ou, não?

Cl: A disjunção inclui o ou e coloca as duas proposições ― a afirmativa e a negativa. Então, você diz assim: “a batalha naval acontece amanhã ou a batalha naval não acontece amanhã é verdadeiro”. (Vocês entenderam?). Então, aparece alguma coisa assim que rompe com toda a tradição da forma da verdade ― que é buscar a forma da verdade, estabelecer a forma da verdade através de uma proposição afirmativa e uma proposição negativa. Mas pelo fato de o tempo ser introduzido, a força do tempo começa a fazer a forma da verdade variar.

(Vocês entenderam?).

Isso se chama o problema dos futuros contingentes. (Eu acho que vocês podem marcar isso, porque, conforme o curso, a gente vai voltar). Agora, qual a importância disso que estou dizendo pra vocês? O que importa aqui para um lógico, por exemplo, ― se for um lógico brilhante ― é a variação da forma da verdade. Mas o que importa pra mim é a força do tempo ― o poder que o tempo tem em desfazer, romper, formar quebras, inclusive da forma da verdade.

(Eu acho que está bem claro isso, não é?).

Ora, esse exemplo que estou dando é uma amostra clara de que o tempo é uma força capaz de produzir variações nas formas. O tempo é uma força capaz de produzir uma modificação na forma da verdade. Então, fica muito nítido que o tempo exerce a sua força sobre alguma coisa.  Mas quando eu digo “o tempo exerce sua força sobre alguma coisa”, nós podemos perguntar: e há alguma coisa que exerce sua força sobre o tempo?

Cl: Vocês estão entendendo essa aula?

Alª: Perfeitamente.

A resposta, por exemplo, dos filósofos e pensadores antigos era: há. Os filósofos antigos consideravam que o MOVIMENTO exercia uma força sobre o tempo.

(Vamos marcar isso, para ver se essa aula prossegue...).

Então, para os filósofos antigos, o movimento exercia uma força sobre o tempo ― e o tempo era subordinado ao movimento.

Agora, no mundo moderno vai-se dar um processo completamente diferente: o tempo vai se constituir como um INCONDICIONADO.

― O que é o incondicionado? O incondicionado é aquilo que não recebe influência de força nenhuma. Então, o tempo seria, talvez, a única forma ou força incondicionada.

(Vocês entenderam a noção de incondicionado?).

Então, quando eu transformo o tempo num incondicionado, ele se torna uma força que faz todas as coisas variarem... sem que ele mesmo varie! Por isso, eu posso dizer que o tempo é uma forma que não se move. ― ele é uma forma sem movimento. (Não sei se vocês entenderam.)

(Não sei se ficou difícil...).

Alª¹: É uma forma -----

Cl: É. O tempo é uma forma ou uma força; pode usar assim. Mas ele mesmo, (prestem atenção, porque aqui está aparecendo uma coisa muito difícil), o tempo enquanto tal não se move: ele é a forma em repouso do movimento. (Ficou muito difícil, não é? Não faz mal não: deixem lá, deixem passar; eu já vou voltar, e vocês vão entender...) (Acho que você entendeu!)

Alª²: Porque ele mesmo não se move...

Cl: Mas não faz mal...

Agora, vejam para onde que eu quero conduzir vocês nesta aula:

Eu disse que a força do tempo vai exercer sobre as formas uma afecção muito grande; e, a tal nível, que é capaz de transformar a forma da verdade. Foi isso que eu coloquei!

Mas, ao mesmo tempo, eu coloquei que o pensamento antigo afirmava que o tempo era determinado pelo movimento; e o pensamento moderno afirma que o tempo determina o movimento. O que houve foi uma... inversão! Classicamente, quando nós encontramos dois enunciados ― em que esses dois enunciados se contradizem um ao outro, ― nós afirmamos que um é verdadeiro e o outro é falso.

(Não sei se vocês entenderam...).

Então, se o pensamento moderno afirma que o tempo subordina o movimento e o pensamento antigo afirma que o movimento subordina o tempo ― nós temos que decidir qual dos dois é verdadeiro e qual dos dois é falso.

(Entenderam, ou não?).

Mas se eu decidir que o tempo determina o movimento, eu estou afirmando que Kant falou a verdade e que Aristóteles, o falso. Então, o Aristóteles teria produzido um discurso falso e o Kant teria produzido um discurso verdadeiro, porque o Kant fala que o tempo determina o movimento e Aristóteles fala que o movimento determina o tempo. (Certo?). Nós, necessariamente, cairíamos nessa oposição; ou sairíamos desta oposição verdadeiro e falso, desde que as forças que habitam a avaliação humana tenham, da antiguidade para a modernidade, se transformado. (Não entenderam...).

Alª¹: Quer dizer que esse critério de verdadeiro ou falso tenha se modificado, é isso ---?

Cl: Não. O que estou dizendo é: as forças que constituem, que compõem os poderes de avaliação do homem se modificaram da antiguidade para a modernidade.

Vamos voltar...

(Entendeu aqui, Silvia?)

Alª²: Entendi.

Mas o pessoal não pegou não!...

Alº: Você pode repetir essa parte?

Cl: Eu vou voltar, eu vou voltar... Eu vou tentar outra forma.

Alª²: Para sair dessa oposição verdadeiro-falso é preciso que o modo de avaliação humana se modifique. O tempo determinando o movimento, você vai cair naquela oposição: Kant está falando a verdade e Aristóteles está mentindo [a proposição do Aristóteles, neste caso, apareceria como falsa e da do Kant como verdadeira]. Teria que se modificar o modo de se fazer essa avaliação.

Alª³: Isso significa que tem outra forma além da forma da verdade?

Cl: Não é isso. Aí está parecendo a mesma pergunta feita pela Vera.

Alª³: É a forma da verdade que muda?

Cl: Não. A forma da verdade vai mudar, mas não é isso. Eu falei sobre a avaliação, me deixa reorganizar pra vocês entenderem... é no avaliador...

Alª³: Ah! Tá... Ah! Eu estou entendendo...

Deixe-me explicar pra vocês, deixa ver se eu encontro [Claudio procura as referências]. Se eu não encontrar eu uso a memória.

Bom, existe um teórico de arte chamado Worringer: a primeira obra dele é uma tese de doutorado. Foi escrita mais ou menos em mil oitocentos e noventa e poucos, publicação em mil novecentos e pouco, tradução francesa de 5 anos atrás ou 10 anos atrás.  E esse teórico da arte diz que há dois tipos de arte: ele fala em ABSTRAÇÃO e EINFÜLUNG. Eu vou tirar esse nomes, e eu vou dizer...  (Não é isso que ele fala, mas pra ficar mais fácil pra vocês entenderem...) Ele diz que existe uma ARTE ORGÂNICA e uma ARTE CRISTALINA. Ele faz essa afirmação! E diz que a arte orgânica é a arte propriamente grega, a clássica; e liga a arte cristalina ao barroco e ao gótico.

Então, o cristalino e o orgânico seriam dois tipos de arte: duas maneiras diferentes de produzir um objeto artístico. Sendo que aquilo que o orgânico produz e o que o cristalino produz não se opõem um ao outro como verdadeiro e falso. (Não sei se vocês entenderam...) Agora vai aparecer uma coisa mais surpreendente: eles não poderiam se opor como verdadeiro e falso, porque esse par ― verdadeiro e falso ―  só existe no orgânico. (Ficou difícil, não?)

Eu estou dando essa aula muito rastejante, porque eu não estou gostando da maneira como vocês estão ouvindo: eu estou achando que vocês não estão compreendendo bem. (Nem todos, ouviu?)

Então, o par V/F só existe do lado do orgânico; não existe do outro lado.  Pode-se, portanto, de repente, verificar que uma determinada potência, uma determinada força de administração do mundo funciona sem constituir esse par verdadeiro e falso.

(Ficou muito difícil, hein Tatiana? Ficou! Vamos tentar outra vez.). Eu já expliquei que essa aula aqui pode trazer qualquer ----- de volta, viu?

Alª: Eu estou relacionando isso com a questão anterior.

Eu agora vou retornar, vou sair para o outro lado, eu vou dar uma facilitada pra vocês.

Alª²: É preciso que você já esteja numa matéria organizada, para que a avaliação que se dê em cima disso aqui seja verdadeira ou falsa. Anterior a essa matéria organizada você não pode fazer essa avaliação de verdadeiro ou falso.

Cl: Vamos outra vez para vocês entenderem.

O sujeito humano é dotado de um corpo, nós temos um corpo e esse corpo que nós temos é estruturado como organismo. E esse organismo precisa ser administrado. Então, o ser vivo, o humano, sobretudo, tem uma série de componentes nele que administram sua própria vida. São faculdades como a memória, a inteligência, a sensibilidade, a cinestesia, o exteroceptivo, o proprioceptivo... que são componentes que administram a sua vida. Isso se chama ESQUEMA SENSÓRIO-MOTOR. Então, esse esquema sensório-motor é uma ordem do corpo que apreende o mundo ou apreende o TEMPO como sendo uma sucessão. Então, se você está diante de alguém que está falando para você expressando o seu esquema sensório-motor, esse alguém ao falar do tempo dirá que o tempo é uma sucessão: passado, presente e futuro se sucederiam. Primeiro o passado, depois o presente, depois o futuro, na ordem de sucessão.

(Não sei se isso está claro...).

E quando eu falo “ordem de sucessão do tempo”, eu estou dizendo que o tempo é determinado pelo movimento ― porque a sucessão é movimento.

(Vocês entenderam ou não?)

Então, o tempo estaria determinado pelo movimento.  Mas, se por acaso você passa para o CRISTALINO. No momento em que você passa para o cristalino, você vai começar a se relacionar com o tempo sem que ele esteja no modelo da sucessão. Ele vai ser jogado no modelo da coexistência e da simultaneidade.

(Não sei se vocês entenderam...).

Então, se você joga o tempo sobre o modelo da coexistência e da simultaneidade, você já não está no tempo sucessivo. E isso vai ocorrer: vai ocorrer ― desde que você abandone o esquema sensório-motor.

Cl: Ficou um pouco difícil, não é?... Ou clareou mais? O que você achou, Tatiana?

Alª³: Está claro!

Cl: Então agora vamos voltar, vamos reorganizar mais uma vez.

Alª: O que você falou, entra no campo da simultaneidade?

Cl: Simultaneidade e coexistência.

Então, vamos lá. Quer falar, Tatiana?

Alª³: Não, quero voltar...

Esse livro que está aqui, [A Imagem-tempo], a questão dele é contra o pensamento antigo ― porque o pensamento antigo afirma que o movimento determina o tempo. Então, no momento em que você afirma que o movimento determina o tempo, as imagens que você tem do tempo são sempre a partir do movimento. (Dá pra entender aqui?) Toda noção que você tem do tempo é a partir do movimento. E quando você tem a noção sobre uma coisa em função de outra, chama-se IMAGEM INDIRETA.

Por exemplo, eu estou desejoso de conhecer a Cristina. Eu não conheço a Cristina; eu quero conhecer a Cristina. Então, uma pessoa que conhece a Cristina, o Dudu, me fala sobre a Cristina, me dá uma imagem da Cristina. Essa imagem que o Dudu me deu é uma imagem indireta, porque eu não a retirei da Cristina, eu a retirei dele.

Na Antiguidade, nós não tínhamos uma imagem direta do tempo; mas sim uma imagem indireta ― porque era o movimento que nos dava essa imagem. (Entenderam?) Agora, toda a questão deste livro aqui é buscar a IMAGEM DIRETA DO TEMPO.

Alª: Hum! Bacana...

Cl: Perfeito, não é?

Alº: Cláudio, ficou uma questão para mim. Da forma como você apresentou o problema, da forma como você apresentou a questão desse livro, você não excluiu dai o Kant? Quer dizer, ele já teria se oposto àquele pensamento antigo, anteriormente?

Cl: Por quê?

Alº: Porque você coloca que a questão desse livro ― A imagem-tempo, do Deleuze ― é justamente se opor ao movimento como determinante do tempo. O Kant havia se oposto a isso.

Cl: Sim.

Alº: Não é? E o Deleuze resgata a questão do pensamento antigo, digamos, atropelando o Kant?...

Cl: Não. Não.

Alº: Como fica então o Kant, aí?

Cl: Fica muito bem, porque essa questão aqui está sendo posta no cinema. Ele está buscando a imagem direta do tempo, no cinema. É isso que ele está fazendo. Então, o fato de Kant já ter colocado uma imagem direta do tempo, ao invés de fazer com que Deleuze se “embanane”, pelo contrário, eu vou mostrar a você que não.  A pergunta está bem feita! Vou mostrar a você que não. O que nós temos que partir é do exemplo que eu dei; do excelente exemplo que eu dei. Você buscar a imagem direta do tempo. (Está certo?). Por quê? Porque a imagem antiga era uma imagem...

Alª: Através do movimento.

Cl: Era uma imagem indireta do tempo, porque era através do movimento. Mas sempre que você tiver o esquema sensório–motor como dominante, o que vai aparecer é uma imagem indireta do tempo. Então, nós temos que avançar para cima do esquema sensório-motor.

Alª: Claro!

(Não sei se vocês entenderam...)

O esquema sensório-motor sempre nos dará o movimento como determinante do tempo. Então, para você fazer a inversão você tem que quebrar o esquema sensório-motor.

Alº: Isso porque o esquema sensório-motor é mesmo baseado no movimento, não é? Eu poderia falar isso?

Cl: Como é que você diria... Diz isso melhor pra mim.

Alº: A natureza do esquema sensório-motor, o que ele está buscando, é justamente o movimento: ele recebe e devolve movimento, ele funciona no movimento!

Cl: Ele é recepção e devolução de movimento. Então, acabou. É isso mesmo! É isso mesmo!

Então, ele está sempre em torno do movimento e constituindo uma imagem do tempo subsidiária do movimento: é isso que ele vai fazer, (tá?) Isso que o Dudu falou é porque ele já conhece o meu trabalho, com vocês eu vou expor mais isso, viu?

Mas agora... O que é?

Alª: Eu estava pensando numa outra coisa que você tinha falado, mas...

Cl: Não precisa ficar preocupada não, porque você sabe.

Agora, é algo assim que as pessoas, quando ouvem a afirmação que eu estou fazendo, e a aprovação que o Dudu fez de que o esquema sensório-motor está diretamente associado ao movimento, e que por isso ele torna o tempo subordinado, o que é quebrar o esquema sensório-motor? O que é isso? Quebrar o esquema sensório-motor.

Evidentemente que falar no esquema sensório-motor, pura e simplesmente, não é o suficiente. Eu tenho que explicar o que é o esquema sensório-motor, dizer a vocês o que é isso. (--) Surpreender ou não me surpreender quando a gente encontra determinados pensadores, determinados artistas, querendo buscar, mas sem essa clareza toda que eu estou colocando, a imagem direta do tempo. Olha o que estou dizendo pra vocês:

Em nossas vidas práticas, é evidente que nós temos o passado, o presente e o futuro como sucessivos. Evidente! Agora, no entanto, eu estou afirmando que nós temos o tempo como sucessivo ― porque em nós há uma dominância do esquema sensório-motor. Se você quiser romper com esse esquema sensório-motor, lutar contra esse esquema sensório-motor para tentar atingir o que eu estou chamando de TEMPO PURO, a IMAGEM DIRETA DO TEMPO, você pode, como eu falei, fazer uma associação com determinadas práticas artísticas ou filosóficas, que a gente vai encontrar determinados pensadores, ao que aparece, se encontrando com a imagem direta do tempo.

(ouve-se o ruído forte de um motor sendo acelerado) Claudio diz: Parece Macaé...

(Está muito difícil a aula? Hein, Tatiana?...)

Alª: Não, Eu estou pensando... na imagem direta do tempo.

Alª: Nesse caso, que você deu, da sucessão do passado, presente e futuro, de certa forma, é bem o que o Proust fez, não é?

Cl: E aquele personagem do filme do Alain Resnais ― Providence.

Alª²: Qual personagem?

Alª: O personagem velho, não é de certa forma esse...

Cl: John Gielgud. Sim, mas, eu vou clarear muito mais isso... Vamos ver o que é isso!

O que a gente tem que fazer, inicialmente, para começar a dar conta do que eu estou falando, é o seguinte: utilizar as duas definições: a definição aristotélica ― o tempo é determinado pelo movimento; a definição moderna ― o movimento é determinado pelo tempo. (Não é?) Então, vamos ver isso aqui:

A afirmação do Deleuze...(é uma precipitação; mas para a compreensão de vocês ficar mais fácil,) é que na hora em que você for ter uma imagem direta do tempo, você não vai ter essa imagem determinada pelo movimento. Então, se você não tem a imagem direta do tempo determinada pelo movimento, o tempo deixa de ser sucessivo. (Vê se vocês entenderam...).

Alª: Se a sucessão já não está mais respondendo...

Cl: Deixa de ser sucessivo, perde o caráter de sucessivo.

Alº: Se eu deixo de ser afetado pelos movimentos e o tempo preso ao movimento, nesse esquema sensório-motor, se eu deixo de ser afetado por isso, e eu entro no outro tempo, é como se tudo virasse uma expressão pura...

Cl: Você não entra num outro tempo, você entra no tempo puro.

Alº: No tempo puro... e um dos atributos disso seria a expressão pura de tudo.

Cl: Aí eu não entendi, “expressão pura de tudo” eu não entendi...

Alº: Tudo se mostra como expressão pura, como expressão pura das coisas, uma vez que eu não estou sendo afetado.

Cl: Não, o que vai acontecer é que você vai abandonar a imagem indireta do tempo e vai entrar na imagem direta do tempo. Para não haver complicação nenhuma, essa variação, essa modificação é que de um lado vai ficar a sucessão e de outro lado a sucessão vai desaparecer. A imagem direta do tempo não traz com ela a sucessão.

(Vocês entenderam aqui?).

Se ela não traz com ela a sucessão, (prestem atenção), a imagem do tempo puro não traz com ela a sucessão. Mas é impossível você falar do tempo sem deixar de falar em presente, passado e futuro. Você tem que falar em presente, passado e futuro, ainda que seja a imagem pura do tempo. E quando a gente fala em passado, presente e futuro a gente não supõe que eles são... sucessivos? (Tá?) Não supõe isso?

Alª: Aí vai cair na simultaneidade?...

Como é que podemos tornar passado, presente e futuro simultâneos? Porque se for imagem direta do tempo eles têm que ser simultâneos, porque senão não é mais imagem direta do tempo.

(Você entendeu?).

Porque a imagem direta, a imagem pura do tempo não permite a sucessão.

Alº: A simultaneidade é um paradoxo?

Cl: Se é um paradoxo? É. Mas qual a importância de ser um paradoxo? Não tem importância nenhuma! O que tem importância aqui é que a sucessão vai desaparecer. E, necessariamente, vai surgir a simultaneidade e a coexistência. Agora, não importa que a imagem seja direta ou indireta, sempre tem presente, passado e futuro. Nós poderemos pensar presente, passado e futuro numa simultaneidade? Se pudermos pensar, estamos encontrando a imagem direta do tempo.

Alª¹: É exatamente a questão do Proust, não é?

Alª²: Claudio, a sucessão, o movimento... a sucessão é condição de possibilidade da verdade, do verdadeiro e do falso?

Cl: Não. Não tem nada a ver! (Você deveria até marcar essa resposta:) A sucessão, para o esquema sensório-motor, quebra o poder da verdade. O esquema sensório-motor vai trabalhar com o verbo ser na terceira pessoa do singular exatamente para construir uma forma da verdade que não tenha a sucessão como algo que possa dissolvê-lo. (Ficou muito difícil, não é?)

Alª: É a questão da verdade histórica, não é isso?

Cl: Da forma da verdade. Mas isso já foi uma questão que ela trouxe para cá. Eu estou me encaminhando para outro lugar: eu estou me encaminhando para uma questão muito simples; a questão que eu estou levantando é muito simples: Nós partimos de duas imagens: a direta e a indireta do tempo. Se você tem a imagem indireta do tempo... O que é uma imagem indireta? É você entender uma coisa por outra. Isso que é uma imagem indireta. Então, o homem na antiguidade entende o tempo pelo movimento. Então, se ele entende o tempo pelo movimento, o tempo para ele é, necessariamente, uma forma de sucessão.

(Está bem, Tatiana? Ou não?).

Alª: Está, mas...

Cl: (Calma, Tatiana!). É uma forma de sucessão.

Agora, se você vai buscar a imagem direta do tempo, você vai tirar da imagem direta a sucessão: o tempo não é mais sucessivo ― porque a sucessão é igual a... mo-vi-men-to! Então, você retirou a sucessão: você encontra o tempo, necessariamente, constituído por coexistência e simultaneidade. E, aí, o Dudu colocou (mas, na hora em que ele colocou, não tinha nada a ver): você está diante de um paradoxo. Que paradoxo? De que passado, presente e futuro ― como forma pura do tempo ― não são mais sucessivos.

― Será que nós poderemos encontrar o passado, o presente e o futuro numa simultaneidade?

(Vocês entenderam a questão?)

Se nós encontrarmos o passado, o presente e o futuro numa simultaneidade, nós encontramos o quê? A imagem direta do tempo puro. Isso daí, a colocação da simultaneidade do passado, do presente e do futuro foi colocada por Santo Agostinho no século IV dC. Porque foi ele o segundo grande pensador do tempo na sucessão a Plotino.(---) O Santo Agostinho vai criar uma FÓRMULA. A palavra fórmula não é uma palavra vazia, viu? Formula... depois eu vou falar sobre o que é fórmula. E a fórmula do Santo Agostinho é PRESENTE DO PASSADO, PRESENTE DO PRESENTE e PRESENTE DO FUTURO. Ele vai fazer uma fórmula surpreendente. Que Deleuze, no discurso dele, vai chamar ― e isso é definitivo para nós ― PONTAS DO PRESENTE.

― O que são as pontas do presente? Presente do passado, presente do presente, presente do futuro: eu vou explicar depois. Mas isso é uma das imagens diretas do tempo. E o Deleuze vai encontrar duas imagens diretas do tempo. Ou seja, ele vai encontrar duas maneiras de o tempo puro emergir. A segunda chama-se a COEXISTÊNCIA dos LENÇÓIS ou JAZIDAS DO PASSADO.

Alª: Quer dizer, a primeira são essas pontas do presente que ele associou com a fórmula do Santo Agostinho.

Cl: Isso! Fórmula de Santo Agostinho.

Alª: A segunda...

Cl: Ele vai associar com a Fórmula do Bergson.

Alª: Ah! Bergson, a memória...

Cl: A Fórmula do Bergson, a memória ontológica.

Vocês vão ter então uma fórmula do Santo Agostinho, e depois a formula do Bergson, não me lembro agora, também não importa. Então, na fórmula do Santo Agostinho nós chegamos às pontas do presente. Na fórmula do Bergson, lençóis ou jazidas do passado.

Antes de penetrar nisso, lençóis ou jazidas do passado são coexistentes; e as pontas do presente são simultâneas. Vamos usar a distinção COEXISTÊNCIA e SIMULTÂNEO, (viu?) que depois eu vou mostrar por que. É evidente que isso tem uma função: eu não estou usando coexistência e simultâneo vaziamente.

Mas, vamos para as pontas do presente, está certo? O que são as pontas do presente na fórmula do Santo Agostinho? Presente do presente, presente do passado e presente do futuro. (Está certo?). Nesse instante nós temos que fazer uma pausa teórica; e em vez de penetrar de imediato nas pontas e nos lençóis... (Que o sonho da gente é: “vamos logo para essas pontas e esses lençóis para resolver isso daí”, não é?) Não, não podemos fazer isso! Quer dizer, poderíamos fazer: numa conferência eu faria; numa aula eu não faço. Na conferência a gente faz porque é aquele negócio de concentrar--------- No Jornal do Brasil... (Risos).

Então, agora nós vamos buscar as pontas e os lençóis; as coexistências e... as simultaneidades. Porque Deleuze nesse livro aqui está procurando as imagens diretas do tempo e, é evidente que ele vai encontrar, não é? Ele não é bobo, é um gênio! Mas num livro dele chamado Diferença e Repetição ele vai buscar duas outras coisas. Ou melhor, ele vai buscar... Nesse aqui ele busca a imagem direta do tempo ou imagem pura do tempo (não é?). Agora, no Diferença e Repetição ele vai buscar a SÍNTESE PASSIVA.

Então, nós temos aqui dois objetos diferentes: o objeto da Diferença e Repetição é a síntese passiva; o objeto da imagem-tempo é a imagem direta do tempo. (Certo?). Então, nós ficamos aqui, nessa posição nós ficamos com a imagem direta do tempo... Os exemplos que eu dei me parece que clarearam. Mas, nesse instante, eu abandonei a imagem direta do tempo e comecei a levantar o problema da síntese passiva. Mas, isso é tão difícil, que eu disse que na imagem direta do tempo eu precisava da síntese passiva. Agora que eu comecei a encontrar a síntese passiva, eu estou vendo que eu preciso voltar à imagem direta do tempo. É como se nós fizéssemos um ziguezague para encontrar a compreensão dessas coisas. Porque isso é exatamente o fenômeno do paradoxo. Você começa a ter rompimentos, fraturas, bifurcações, contradições, retornos, explosões, cintilâncias, etc.

Então, volta a imagem direta do tempo. Voltei à imagem direta do tempo.

Na imagem direta do tempo nós encontramos, em mil novecentos e cinquenta e poucos, uma forma de pensar que vai tentar introduzir na teoria do romance e na teoria do cinema, ou na prática do romance e na prática do cinema, a imagem direta do tempo. Através de Alain Robbe-Grillet. A obra de Robbe-Grillet, tanto no cinema quanto na literatura, é uma tentativa de encontrar a imagem direta do tempo. (Então, vocês prestem atenção aqui que isso aqui vai chamuscar muita gente). Não é inventar a imagem direta do tempo: é encontrar! É encontrar com ela. E isso é muito problemático. Então, se você busca encontrar alguma coisa significa que aquela coisa não está à vista. Você tem que produzir determinados instrumentos para atingir aquilo. (Não sei se vocês entenderam...).

Por exemplo, Orson Welles, no cinema, tem uma obsessão: encontrar a imagem direta do tempo. É essa a obsessão que o Orson Welles tem. E ele cria, no cinema, uma prática chamada PROFUNDIDADE DE CAMPO ― que é inclusive uma prática barroca. Essa prática, chamada profundidade de campo ― que ele vai criar e eu vou liberar para vocês ― o que ele visa fazer com ela? Fazer com que a imagem direta do tempo surja no filme dele. Então, o que ele fez? Buscou, na profundidade de campo, um meio para encontrar a imagem direta do tempo.

A questão do Alain Robbe-Grillet também é a imagem direta do tempo. Na verdade, toda a questão do Alain Robbe-Grillet são as pontas do presente. Toda a questão dele está nas pontas do presente.

Alª: Na simultaneidade?

Cl: Sim, na simultaneidade. Toda a questão dele está ali.

Então, eu estou dizendo pra vocês que a nossa prática no mundo não nos dá, de forma nenhuma, a simultaneidade do tempo. Nas nossas práticas, o que nós temos é o sucessivo. (Está certo?). Então, para se encontrar essa simultaneidade, nós temos que buscar em outro lugar; porque aqui não dá.

(Não sei se vocês entenderam. Está claro isso?)

Alª: Claro.

(Mas esse outro lugar, quando eu digo que a gente tem buscar fora, é que essa aula vai ser uma aula violenta!).

Quando eu digo que a gente tem que buscar em outro lugar, que não este que está aqui, vejam se não parece que estou dizendo que este lugar que está aqui é o real; e que esse outro lugar é o imaginário.

(Ou vocês não entenderam? Acho que não!).

Alª: Por que parece? Eu acho que não parece...

Cl: Porque parece que o real é o lugar dessas conexões lógicas, racionais em que nós estamos incluídos.

Alª: No sensório-motor!?

Cl: No sensório-motor! Parece que isso é que é o real. O resto é o imaginário!

Alª²: Que o resto seria uma transcendência...

Cl: É o imaginário, seria o imaginário...

(Eu acho que vocês não entenderam bem, não é?)

(virada de fita)

Parte II

(...) todos nós a vivemos, não só psiquicamente. Não é? Psiquicamente: o nosso psiquismo apreende no mundo a sucessão do tempo; mas o nosso organismo é determinado pela sucessão do tempo, (ou não é?!)

― O que nós passamos a saber? Que o psíquico e o orgânico são governados pela sucessão do tempo.

(Vocês entenderam o que eu disse?).

Então, para encontrar a simultaneidade do tempo, tem-se que sair do psíquico e do orgânico. No começo da aula, eu disse que o Worringer falava numa arte orgânica e numa arte cristalina. Então, se eu seguir o Worringer, é sair do orgânico para encontrar o cristalino.

― E esse cristalino, é imaginário; ou é real como o psico-orgânico?

(Vocês entenderam a questão agora ou não? Hein, Silvia?

Alª: Perfeitamente!

― O cristalino é real, como o orgânico?

Alª: Não, como o orgânico, não.

Cl: Como o orgânico, não; mas ele também é real, ele não é um produto do imaginário. Agora, nós temos que dividir o real em VIRTUAL e ATUAL. Que eu ainda estou achando a forma mais fácil para de se entender. O que eu estou chamando de virtual é exatamente a SÍNTESE PASSIVA.

(Ficou muito difícil, não é?)

Alª¹: “Peraí”, “peraí”!

Alª²: Porque você não tinha falado direito sobre síntese passiva; Você deu um recuo depois voltou.

Cl: Mas voltei.

Alª³: É porque isso ele falou há umas aulas atrás.

Alª²: Ah, bom. Desculpe.

Cl: Eu não tenho pressa nenhuma nessa aula. (Como é que está indo, Margô?)

Não tenho pressa nenhuma. É uma aula é riquíssima! Eu vou até onde vocês puderem ir. Quem ia falar?

Alª³: Eu pedi para esperar um pouco para eu me organizar. Mas estou acompanhando, claro!

Agora, eu apontei novamente para a tal da síntese passiva. Apontei pra ela. Usei um instrumento até um pouco inválido, para ajudar a vocês... falei em virtual e atual. Nem devia ter falado! A única coisa que importa agora é que não sabendo o que é, uma coisa eu já sei: a imagem direta do tempo e a síntese passiva são a mesma coisa.

Então, agora, nós vamos começar a entrar na síntese passiva. (Está bem, Cristina?).

Alª: Está. Eu só consigo...  eu fiquei pensando se não é nem o psíquico nem o orgânico que são as vias que acessam a imagem pura do tempo...

Cl: Explica, por exemplo, porque Proust, em sua estética, rompeu com a associação de idéias.

(É barra pesada...)

Alª: É. Eu sei, mas eu estou pensando assim: se não é o psíquico e o orgânico, quer dizer, eu sei que não é: porque esse é o real atual. (Cl: Mas eu vou mostrar por que não é!)

Cl: [Se você sabe que não é...] então, está ótimo!

Alª: Eu estava pensando na impessoalidade. Quer dizer, é claro que é, mas... É uma espécie de repetição ou é...?

Cl: A síntese passiva?

Alª: Não, é quando Deleuze fala muito da impessoalidade. É quando ele trabalha com o sujeito, com o Foucault

Cl: É que ---- você falar na impessoalidade... Não: nós vamos acabar, não pode fazer isso!

Alª: Não?

Cl: A gente tem que ter a mesma lucidez de... O pensamento tem que entender, ele tem que entender; não importa o quê, mas ele tem que entender: ele não pode ser dominado por nada! Nós temos que entender exatamente o que estou falando.

Alº: Cláudio, um dos motores da coexistência e da simultaneidade que apareceria, não seria a associação de idéias?

Cl: Se for associação de idéias é psíquico. Mas se você estudar Proust, você vai ver que todo mundo confundiu muito Proust pensando que Proust achava que a obra de arte, à maneira de Swann ― porque Swann pensava assim ― era uma associação de idéias. De forma nenhuma! Para fazer arte você tem que sair (Proust não diz dessa maneira!) você tem que sair do psico-orgânico.

Alª²: É aquela coisa da emergência do passado entrando no presente...

Cl: Não, mas cuidado, porque essa emergência do passado entrando no presente, de que você está falando, ainda é psíquico.

Alª²: Ainda é psíquico?...

Cl: Por exemplo, eu vou te dar uma explicação:

Quando eu mergulho no passado, quando qualquer um de nós mergulha no passado, para encontrar no passado alguma coisa que foi vivida... (entendeu aqui?) Então você viveu alguma coisa no passado, e você quer recuperar essa coisa que você viveu ― o que você faz? Você faz um mergulho no passado para recuperar aquilo que você viveu. Por exemplo, lá em Macaé tinha o footing que as meninas faziam e os rapazes ficavam olhando. Para contar isso pra vocês eu tenho que mergulhar no passado. E quando eu mergulho no passado ― o que eu encontro? Um antigo presente da minha vida. Então, quando o psíquico vai ao passado para buscar as suas lembranças, o que o psíquico encontra são antigos presentes. Ele não vai, de forma alguma, ao passado puro: ele vai aos antigos presentes.

(Vejam se vocês entenderam isso: distinguir ANTIGOS PRESENTES de PASSADO PURO.)

Alª³: O passado puro é um passado que não foi presente, não é?...

Cl: Mas eu não vou nem falar isso agora.

Então, quando a gente vai recuperar a nossa vida passada nós estamos recuperando... os antigos presentes; nós não estamos lidando com o passado puro.

Alª: Claro

Alº: O passado puro. Poderia ser também presente puro?

Cl: Olha, nunca ouvi ninguém falar em presente puro, mas a gente pode até falar isso.

Als: Pode?

Cl: Pode. De certa forma, pode. Por quê?...

Agora, eu vou começar a explicar para vocês toda a questão, através da compreensão do que vem a ser a síntese passiva.

(Conversa entre os alunos sobre um filme: Julia e Julia).

Vou começar a explicar pra vocês o que é síntese passiva, tá? Agora, o que vocês têm que fazer? Vocês têm que abandonar todo o antigo presente de vocês, mas o antigo presente no sentido do que foi presente quando eu expliquei para vocês.  Vocês esqueçam o que eu venho falando até agora. Não se lembrem do que eu estava falando, cuidem só do que eu vou dizer. Se vocês vierem... Por exemplo, se a Tatiana vier com formas da verdade (tá?), se a Cristina vier com a impessoalidade ou etc., vocês não vão entender o que eu estou falando. Nós vamos entrar na síntese passiva. Então, tudo o que eu falei até agora não importa, quando nós concluirmos a compreensão da síntese passiva eu volto às imagens puras do tempo e, aí, vocês vão entender com a maior clareza. (Está bom? Então, vamos lá.).

Vocês já notaram que ao raio sucede o trovão? Ou não? Geralmente a gente vê aquela claridade no céu, (não é?). Assim, ao raio sucede o trovão. Isso de ao raio se suceder o trovão chama-se uma conjunção constante.  Uma conjunção constante que está ocorrendo no mundo: o mundo está sempre nos apresentando essa CONJUNÇÃO CONSTANTE. Mas agora se, por acaso, você for fazer um sério exame no raio, você vai verificar que no raio não está contido o trovão. O trovão não está contido no raio. Ainda assim, eles estão na natureza em conjunção constante.

― O que quer dizer conjunção constante? Quando aparece um [dos membros da conjunção], necessariamente o outro aparece. Ou seja, na conjunção constante você supõe que o primeiro é CAUSA do segundo. (Vocês entenderam?). Então, qual é a causa do trovão?

Alª: O raio.

Cl: O raio. (Está certo?). Aquilo que você acha que é. Mas olhem que coisa interessante! O trovão só aparece quando o raio desaparece. Porque eles são sucessivos, são sucedâneos. Um aparece, o outro desapareceu. Se eles estão numa relação de CAUSA e EFEITO, foi isso que eu disse para vocês, o que é necessário que apareça primeiro? A causa. E depois, o efeito. Então, a causa aparece, desaparece, aparece o efeito. Aparece o raio, depois o trovão. Vocês estão de acordo com isso? Não é claríssimo? Então agora nós vamos botar... quem? Vou botar a Silvia, que é uma mulher calma, tranquila, sentada numa cadeira, observando durante quinhentos anos, uma tempestade interminável. (Risos...) Então, de segunda a segunda ela vê um raio, em seguida, POW, o trovão. Então, raio... trovão, raio... trovão. Então o que está acontecendo lá na natureza? Um fenômeno, que eu queria que vocês marcassem, chamado REPETIÇÃO dos MESMOS elementos. (É isso que está acontecendo? Ou não?)

― O que a Silvia está vendo?

Al: A repetição dos mesmos elementos.

Cl: Está vendo ou não está?

Vamos dizer que Silvia está fazendo uma prática chamada CONTEMPLAÇÃO. Contemplação quer dizer: ela pode ver; mas não pode intervir.

(Entenderam?)

― O que a Silvia pode fazer?

Al: Contemplação.

Cl: Mas não pode intervir nada. Eu usei Silvia porque ela é super-agitada e na hora em que ela contemplar o raio, você acha que Silvia vai esperar chegar o trovão? Dentro dela faz: bum! (Vejam se entenderam...).

O que a Silvia faz? Ela antecipa, no espírito dela, o trovão.

S: Ainda bem. Porque eu estava pensando que eu era indecisa e ia ficar quinhentos anos para fazer isso. (Risos)

Cl: Ela antecipa o trovão, mas quando ela antecipa o trovão, ela retém o raio. Ela faz a retenção do raio, e antecipa o trovão. Na hora em que ela faz a retenção do raio e antecipa o trovão ela junta dentro do espírito dela aquilo que no mundo estava separado. Raio e trovão no espírito de Silvia se interpenetram. (Entenderam?). Eles se interpenetram. Mas se interpenetraram onde?

Alº: No espírito.

Cl: E lá no mundo?

Alª: Continuam separados.

Cl: Então, a contemplação produz uma diferença no espírito sem alterar o objeto. (Entenderam?). O espírito se altera sem que o objeto se altere. Agora, o raio aparece, desaparece e aparece o... trovão. Então, o raio aparece num instante e no instante seguinte é o trovão. Então, lá no mundo, o que nós temos é SUCESSÃO DE INSTANTES.

(Vocês entenderam sucessão de instantes ou não?)

― O que é a sucessão de instantes? Aparece uma coisa; desaparece; e a outra surge. Então, os instantes são SEPARADOS ou DESCONTÍNUOS.

(Não sei se vocês entenderam...).

― O que quer dizer descontínuo? Um só aparece, quando o outro desaparece. Então, os instantes são descontínuos. Mas, no espírito da Silvia, o instante do raio e o instante do trovão se INTERPENETRARAM, se FUNDIRAM. Enquanto que no mundo eles estavam em COESÃO, em JUSTAPOSIÇÃO, no espírito de Silvia eles estão fundidos.

(Você entendeu, Cristina?).

― Quem é que fez a fusão? Quem fez a fusão foi o espírito que contempla. Então, o espírito que contempla contrai os instantes. Então, de que nós vamos chamar esse espírito que contempla? De EU CONTRAENTE. Eu CONTEMPLATIVO e CONTRAENTE. Ele contempla e contrai. Na hora em que ele contrai, ele funde os dois instantes.

(Vejam se vocês estão entendendo...)

Alª¹: Como é que você chama isso? Espírito...

Alª²: Contemplativo e contraente.

Ele funde os dois instantes. Ao fundir os dois instantes, ele produz o que o instante em si mesmo não tinha: EXTENSÃO. A fusão de dois instantes cria uma extensão.

(Entenderam bem, extensão?).

Uma extensão no espírito. Porque o instante antecipado é o trovão. O instante retido é o raio. Quando os dois se fundem o raio se torna passado do trovão e o trovão futuro do raio. Mas no mundo eles não eram passado e futuro: eram apenas dois instantes separados.

Alª¹: Agora, porque você chama isso de extensão? Isso você deu numa aula há dez anos, agora, quando eu passei a limpo falou nisso eu...

Cl: A extensão é porque dois instantes se juntaram. Então, quando se junta os dois instantes, o primeiro é passado do segundo e o segundo é futuro do primeiro!

Alª¹: Então, eles se tornaram como se fosse uma unidade...

Cl: Essa contração, essa prática que a Silvia acabou de fazer, chama-se A INVENÇÃO DO TEMPO. Lá nos instantes não havia tempo; o tempo aparece no espírito que contrai.

Alª²: É impressionante, porque isso é exatamente igual ao que acontece no espaço. Por isso é que o tempo...

Cl: Eu ainda vou explicar toda a questão do espaço...

Alª²: O espaço é exatamente assim. Eu tenho vários pontos, eu só tenho uma continuidade quando os pontos se fundem. E, aí, eu tenho uma extensão. É exatamente assim o tempo como produto do espaço.

Alª¹: É o modelo?

Alª²: É o modelo espacial!

Cl: Essa extensão chama-se DURAÇÃO.

― O que é duração?

Alª³: Agora eu entendi o que é extensão. Agora eu entendi! Extensão é a duração do tempo. Você está falando de extensão, é exatamente a duração.

Cl: Extensão e duração é a mesma coisa. Então, a duração está onde?

Alº: No espírito!...

Cl: No ESPÍRITO! A duração está no espírito. (Está certo?). Então, vocês já podem até escrever: A ESSÊNCIA da duração é a CONTRAÇÃO. Então, no espírito já há passado e futuro.

(Está indo bem?).

Fundiu o raio e o trovão (não é?). Lá no mundo raio e trovão estão separados? No espírito estão juntos? Lá no mundo eles se chamam conjunção constante? No espírito chama-se CONEXÃO NECESSÁRIA. (Bota aí).

Alª: Mas a conjunção constante não é duração, são sempre os instantes separados. Enquanto que conexão necessária...

Cl: Não. Agora você vai encerrar definitivamente:

― A duração está no espírito?

Alº: Tá.

― Qual é a essência da duração?

Alº: A contração.

― O que se opõe à duração?

Alª: Os instantes separados.

Cl: Os instantes separados, exatamente. O que se opõe à duração é a REPETIÇÃO.

Alª: A repetição dos mesmos...

Cl: O que se opõe à duração é a repetição dos instantes. A repetição dos mesmos elementos. Bota assim: o que se opõe à duração é a repetição. Numa outra linguagem essa duração é a DIFERENÇA. (Mas não vou entrar por aqui senão vai complicar muito). O que importa agora é que a fusão dos dois instantes, que se deu no espírito, é a invenção ou, vamos dizer melhor, a FUNDAÇÃO DO TEMPO.

― Quem é que funda o tempo? O espírito que contempla e contrai. Ele funda o tempo. Ele juntou então, o passado ao futuro. (Certo?). Juntou os dois instantes.

(Entenderam aqui?).

Então, esses dois instantes... o primeiro se torna passado e o segundo se torna futuro. E O PRESENTE é aquilo que passa do passado para o futuro.

(Depois eu vou melhorar isso pra vocês. Está certo?).

Alª: E vai falar de pontas do presente...

Cl: Ah! Não faz isso. Porque eu posso falar de pontas do presente aqui, Silvia? Esgotou, não preciso dizer mais nada. Não posso falar de pontas do presente aqui, Silvia. Como é que posso falar de pontas do presente aqui, Silvia?

Alª: Não, nesse instante você não pode, mas é por causa de que isso existe que pode falar desse presente...

Cl: Então, está. Então, você vai falar. Vai concluir. Mas como você pode fazer uma conclusão dessas, Silvia?

Alª: Não estou fazendo conclusão, Cláudio, estou só estou falando...

Cl: Isso aqui não é uma lógica racional, não estou dentro de uma lógica racional, pelo contrário, eu estou na irracionalidade absoluta, eu estou entrando nos paradoxos. Se você fala uma coisa dessas, eu morro...

Alª: Não estou fazendo conclusão, quem vai concluir é você... eu só falei assim porque...

Cl: Então, vejam. Vejam bem. Vamos agora fazer uma mentira, uma mentirinha. O raio é um instante separado do trovão? Não foi isso que eu disse? São dois instantes, o raio aqui e o trovão aqui. Dois instantes, (tá?) Então vamos pegar três instantes no mundo da repetição.

― Posso fazer isso, pegar três instantes no mundo da repetição? (Não entenderam...).

Alª: Pode.

― Esse três instantes no mundo da repetição estão separados?

Als: Estão.

Cl: Tá? Vocês podem chamar o mundo da repetição de MUNDO DA MATÉRIA. Podem chamar.

― Então, no mundo da matéria os instantes estão separados?

Als: Estão.

Cl: Estão? Tudo isso é um jogo que estou fazendo para vocês entenderem. Então, vamos chamar esse três instantes um de passado, um de presente e um de futuro. Então, se eu chamo um de passado, um de presente e um de futuro.

― Eu vou dizer que o passado está separado do presente?

Alª: Sim...

Cl: Sim.

― Eu vou dizer que o presente está separado do futuro? Sim.

― Eu vou dizer que o futuro está separado do presente? O futuro está separado do passado? Eles são descontínuos? Separados? (Certo?).

Agora, quando eu entro , na duração, os instantes se fundiram? O passado está separado do futuro?

Alª: Não.

Cl: Não está na mesma fusão? Então, quando você vai para a duração o passado e o futuro não estão separados do presente, são DIMENSÕES do presente. Lá nos instantes estão separados, cá no espírito não estão separados.

(Não sei se vocês entenderam...).

Então, eu vou chamar o passado e o futuro de dimensões do presente; porque fazem parte do presente. E quando eu digo DIMENSÕES DO PRESENTE, eu estou dizendo que o passado já não é mais passado, é o presente do passado e o futuro é o presente do futuro, porque é no presente que eles estão se dando.

(Vejam se vocês entenderam...).

Isso são as PONTAS DO PRESENTE.

(Vamos falar pra ver se vocês entenderam...)

Isso está se dando antes de haver no mundo qualquer ser psico-orgânico. Por quê? O psico-orgânico vai emergir disso que está aí.

(Ficou muito difícil, não é? Tatiana?)

Alª: Está bem!

Está bem? Tranquilo, não é?

Alº: Eu só estou com uma âncora lá atrás, mas não é para agora...

Cl: Não, não,manda, manda!

Alº: Não, é uma coisa que você falou do Orson Welles que está atravessado aqui.

Cl: Da profundidade de campo?

Alº: É, exatamente.

Cl: (---) Vê como é que foi essa ponta do presente.   (Cristina?) Cristina, não balança a cabeça...  Não quero nada aí amarrado, hein? Amarrou aí, você solta!

Alª: A única coisa que... amarrou, na verdade é uma questão antiga. Eu não sei nem se é uma questão que me preocupa propriamente. Mas só para dizer que até hoje não ficou muito claro... E eu até compreendo racionalmente... por que o organismo é resultado disso. Eu sei que é!

Cl: Eu vou mostrar por quê... É claro que eu vou mostrar por quê!

Alª: Porque parece...

Cl: Não é só o organismo. É o psico-orgânico.

Alª: Claro!

Cl: Ou seja, disso daí...

Alª: Essa síntese, porque exatamente esse procedimento de contração e de retenção dos instantes, isso é a síntese passiva síntese passiva ...

Cl: Que só se dá no espírito e não se dá no mundo.

Alª: Que só se dá no espírito e não se dá no mundo. O problema é que eu acho que...

Cl: Chama-se fundação do tempo essa síntese. PRIMEIRA SÍNTESE DO TEMPO.

Alª: Eu acho que eu tenho um modelo muito humano...

Cl: Do psico-orgânico?

Alª: Quer dizer... até para pensar o que seria o espírito. Fica difícil, para mim, compreender como um organismo seria o resultado desse processo, porque o espírito, na minha concepção, está imbuído de um organismo, de um psiquismo...

Cl: Certo!

Alª: Está compreendido?

Cl: Claro!

Alª: É só... eu sei que é isso, que é essa questão...

Cl: Você está toda tolhida pelo sistema sensório-motor. É só isso!

Alª: Exatamente. Embora eu compreenda o que você está dizendo e posteriormente a isso eu compreendo todas as questões... Mas você não precisa se deter nisso agora

Cl: Não, podemos nos deter.

Alº: Essa faculdade de contração é só...

Cl: Não é uma faculdade!

Alº: Ah, não, porque a faculdade é para agir, não é?

Cl: A faculdade age...

Alº Mas ela não é justamente em vista da ação... por isso que o espírito faz isso?

Cl: Repõe a pergunta!

Alº: Essa contração dos instantes, essa fusão dos instantes separados, e aí que funda a síntese ativa...  É pra ação isso?

Cl: Não. Não é pra a ação! Vai gerar a ação!

Alº: A ação vai ser um efeito disso?

Cl: Sim, um efeito disso...

Agora eu vou abandonar novamente a síntese passiva, e vou voltar à categoria de imagem direta do tempo. Ou melhor, eu não vou à imagem direta do tempo.

[pequeno corte por interrupção externa]

Alº: A minha questão, lá atrás, é uma questão da profundidade de campo, vai ser a busca do tempo, da imagem direta do tempo. Como é a questão da profundidade de campo, que significa em tese, tecnicamente, abranger diversos campos em foco, e, não, desfocados ― como é que isso vai alterar ou vai dar uma contribuição nessa busca?

Cl: A primeira idéia que eu posso liberar pra você é uma tese que não é propriamente cinematográfica, é pictórica. É uma distinção que vai haver entre a pintura renascentista e a pintura barroca, dizendo que o renascentista trabalha com profundidade no campo e o barroco com profundidade de campo. Para distinguir a sua questão, eu vou ter que trabalhar com essas duas proposições. Mas isso eu não vou poder fazer hoje, porque senão desloca a aula. Se você pegar o Wölfflin ― Conceitos fundamentais da história da arte ― ele vai mostrar, por exemplo, como o Vermeer trabalha nitidamente com a profundidade de campo: ele vai usar as técnicas de alongamento dos planos ― então as figuras que estão no primeiro plano são monstruosas, [perspectiva] uma perspectiva, uma diagonal para produzir a profundidade de campo. E vai opor às práticas de profundidade no campo, que fariam os renascentistas. Exatamente essas camadas, que você colocou. Enquanto que a profundidade de campo faria um mergulho. É a única coisa que eu posso falar agora. Fica para a próxima aula, porque parece que nós vamos partir para isso mesmo ― pra arte ― neste curso. (Certo?)

*Nota do editor: todas as ilustrações do livro que Ulpiano menciona acima estão disponíveis em: http://www.philipresheph.com/a424/gallery/course/ma.htm

Cl: Foi mais ou menos uma reposta boa, Jorge?

Alº: Deu pra começar...

Alº²: Eu continuo pensando no passado e futuro como dimensões do presente. Eu entendi esse presente como uma ponte ou uma cola, que está juntando um instante, como você deu o exemplo, o raio passado, e o trovão futuro, não é? Então, o presente é uma ponte que junta esses dois instantes, não é? Então, daí, esses dois instantes viram uma dimensão do presente.

Cl: Viram dimensões do presente, exatamente!

Alº²: Ele está fazendo uma cola, uma colagem.

Cl: O presente é aquilo que ― tá: usa essa palavra “cola” ― cola os dois! Então, nessa síntese passiva, a dimensão do tempo mais importante é o presente. Porque é o presente que vai passar o tempo todo, carregando com ele o passado e o futuro. Carregando com ele! Ele vai como sendo um navio com dois faróis na extremidade: o passado e o futuro. É isso que vão se chamar as pontas.

Alº²: Presentes, não é?

Cl: Presentes, inteiramente presentes!

Alº²: Construção do espírito.

Cl: Construção do espírito! Mas acontece ― aqui é que está a grande questão ― um eu que contempla e que contrai. Contrai o quê? Contrai o que se repete na matéria. Ao contrair o que se repete na matéria, o espírito funda a MATÉRIA ORGANIZADA. A contração desloca a matéria da matéria enquanto tal, para a matéria organizada. O espírito produz a organização da matéria. A organização é a SÍNTESE. Organização é a mesma coisa que orgânico.

Então, eu estou distinguindo aqui, Cristina, matéria e matéria organizada: são duas coisas diferentes! O que se repete está na matéria. A síntese funda a matéria organizada.

Alª: Então, essa síntese é a PRIMEIRA SÍNTESE DO TEMPO. Ela é simultânea à organização da matéria. É ela que organiza, mas ela é simultânea!?

Cl: Ela é simultânea. É ela que é a fonte de tudo isso, mas ela é diferente; Ela não é a matéria organizada. Ela funda a matéria organizada. Ela funda o psico-orgânico. E o psico-orgânico vai ser governado pelas leis do presente.

Alª: Bom, ainda estamos então na primeira síntese...

Cl: Na síntese passiva deu-se a fusão dos instantes. Essa síntese passiva produz o psico-orgânico, que agora se constitui com o presente, o passado e o futuro separados. (Aqui, neste momento, eu não vou poder explicar! Ficou dificílimo, não é? Você entendeu aqui, ---? É preciso que vocês falem um pouco!) Porque quando você passa para a síntese ativa, aí o presente, o passado e o futuro ficam separados. Essas pontas do presente só se dão na síntese passiva. Por isso, o Allain Robbe-Grillet é um pesquisador de sínteses passivas. Ele só quer sínteses passivas, ele não quer as ativas! As ativas ----, ele não quer isso! Ele quer as sínteses passivas. Porque o mundo do Robbe-Grillet é de síntese passiva, de pontas do presente. Então, os personagens do Robbe-Grillet recebem a distribuição dos tempos: olha, você vai para o presente do passado, você vai para o presente do futuro, e você vai para o presente do presente. Três tipos de presentes.

― Então, quando isso ocorre, o que vai acontecer?

É exatamente O ano passado em Marienbad, na visão do Alain Robbe-Grillet. Aqui acontece uma coisa muito interessante, porque na visão do Alain Resnais são LENÇÓIS DO PASSADO. Então, vamos ver aqui, para vocês entenderem.

“Duas pessoas se conhecem no presente do presente (Agora!), já se conheciam no presente do futuro, e não se conheciam no presente do passado”.

(Não sei se vocês estão entendendo...)

Elas se conhecem no presente do presente. Já se conheciam no presente do futuro. Não se conheciam no presente do passado.

Então, quando você entra nessa síntese passiva, você entra no paradoxo do tempo e do inexplicável.  Você entra no inexplicável! É exatamente isso que é a obra do Alain Robbe-Grillet. Então, você pega a obra dele, o que vai acontecer? A primeira coisa que vai nos surpreender é que a narrativa é constituída pelo modelo do esquema sensório-motor. Não sei se vocês entenderam? A narrativa é o que se chama ESTUTURA DIEGÉTICA ― é sucessiva! Quando você pega a narrativa do Robbe-Grillet, ela nunca se sucede, ela...

Alº: O Robbe-Grillet é a destruição de qualquer ontologia possível e de qualquer organização seqüencial.

Cl: É, qualquer organização seqüencial. Eu não digo ontologia, porque ele está produzindo uma NOVA ONTOLOGIA. (Tá?) Depois a gente pode discutir isso, ouviu? Agora, com ele, rompe-se qualquer estrutura seqüencial. Então, quando você pega uma obra do Robbe-Grillet, você só tem SIMULTANEIDADE. Aquilo dali leva você quase a uma insuportabilidade. Mas a insuportabilidade da BELEZA!

O que eu estou dizendo é o seguinte: quando você sai desse esquema sensório motor e entra na imagem direta do tempo, vão acontecer coisas surpreendentes. Quer ver? Nós dizemos às vezes: “Que dor insuportável!”

― O que quer dizer uma dor insuportável? Quer dizer, que a estrutura sensório-motora não suporta aquela dor: está além dos limites da suportabilidade. Um filme muito ruim: Um homem chamado cavalo responde isso para vocês. Lembram desse filme? Que é aumentar a superfície da dor.

Então, quando você diz: “Que dor insuportável”, quem não está suportando? O esquema sensório-motor. E quando você diz: “Que beleza imensa”. Está ultrapassando o esquema sensório-motor. Então, quando você encontra um homem do esquema sensório-motor que se defronta com uma beleza imensa, da mesma forma que quando ele se defronta com uma dor imensa ele toma uma aspirina, quando ele se defronta com uma beleza imensa, ele põe um lenço no rosto. Ele tapa o rosto para aquilo.

(Vocês entenderam? Não entenderam isso?)

Vocês pegam um filme do neo-realismo, vocês vão encontrar “pessoas colocando um lenço no rosto”! Por quê? Exatamente, porque vocês estão diante de uma posição, que não é mais a posição do esquema sensório-motor. Mas a posição da imagem pura do tempo, a personagem sai do esquema sensório-motor. Ela não age mais ― ela CONTEMPLA! Ficou muito difícil, não é?

Cl: Fala!

Alª: No início da aula você estava falando da diferença entre uma concepção antiga do tempo condicionado ao movimento, e uma moderna do tempo puro que funda o movimento. E...

Cl: “Que subordina o movimento” é melhor.

Alª: Que subordina o movimento, não funda. Tá bom.

Cl: Você só se move porque você está na forma do tempo.

Al: Na forma pura.

Cl: Pura. Essa forma pura não tem sucessividade.

Alª: Esse cristal do tempo, não é?

Cl: O cristal? Como é que você entende o cristal?

Alª: Eu só estou pensando na idéia de simultaneidade e coexistência.

Cl: Você ainda não pode pensar o cristal ― já, não! Deixa o cristal de lado! Mas é o cristal, por exemplo, que vai inventar o Visconti, etc. Mas nós não podemos dar conta do cristal hoje, não. Tem que esperar. Na próxima aula vocês vão dar conta dele. Se nós mantivermos o curso assim. Depois nós vamos discutir.

Alª: Tá bom. Por que você falou em simultaneidade e coexistência naquele momento da aula, e agora você também está falando? Eu queria entender...

Cl: Eu não estou falando em coexistência, eu estou falando em simultaneidade. Estou falando nas pontas do presente, não estou falando nos lençóis do passado. Eu estou dizendo pra vocês, Cristina, que existem duas imagens puras do tempo. E eu dei os exemplos, não é? Exemplos, não. Eu defini: lençóis ou jazidas do passado; e as pontas do presente, não é?

Alª: As pontas do presente são a simultaneidade.

Cl: E os lençóis ou jazidas do passado, a coexistência. Eu só estou na simultaneidade.

Alª: A simultaneidade é a síntese passiva...

Cl: A PRIMEIRA síntese passiva. A coexistência é a segunda síntese passiva.

O que nós temos que fazer é tentar entender o que é a síntese passiva. É isso que a gente tem que fazer!

Alª²: Então, todas as três sínteses são imagens diretas do tempo?

Cl: Não. Não. Digamos, as duas primeiras sínteses passivas são imagens diretas do tempo. Porque a terceira síntese não tem imagem. É vazia.

Então, nós vamos ficar somente nas duas primeiras sínteses.

Alª¹: É porque a primeira síntese, essa primeira síntese do tempo, a síntese passiva de Bergson, você abordou por vários caminhos...

Cl: Vários...

Alª¹: Você abordou através do Bergson...

Cl: Através do Hume...

Alª¹: Você cercou essa primeira síntese por vários caminhos. Mas a segunda síntese eu não...

Cl: Mas hoje eu não iria trabalhar na segunda síntese, Cristina. A única coisa que eu posso falar pra você da segunda síntese, mas não vai ajudar muito...

Alº: É uma ativa e duas passivas?

Cl: Na segunda síntese passiva, --- --- sínteses ativas. As sínteses passivas formam as sínteses ativas.

Cl: Pra você, Cristina, se eu fosse falar na segunda síntese do tempo, eu iria introduzir aqui uma categoria chamada IMAGEM MÚTUA, imagem COALESCENTE. Não vou introduzir isso agora. Não adiante, é perder tempo!

Alª²: Na primeira síntese, quando eu vou pra síntese ativa, o passado e o futuro se separam. Mas...

Cl: Deixa só eu dizer uma coisa pra você: quando eu digo presente, passado e futuro se separam, o que isso lembra a você? O que lembra a vocês “presente, passado e futuro” separados? A matéria. Mas acontece que não é isso aqui. Não é. Eu estou usando apenas como um meio confortável de nós irmos pra frente. Quando nós estivermos mais poderosos, eu vou mostrar que a coisa é diferente.

Alª²: Eu não estou pensando na matéria não. A pergunta é a seguinte: eu carrego para essa síntese ativa a antecipação em forma de previsão?

Cl: Vai. Vai-se transformar em previsão.

Alª²: E a retenção em memória.

Cl: Exatamente! A retenção é na síntese passiva. A memória é na ativa.

Alª²: E a antecipação se transforma em previsão...

Cl: Exatamente.

Por isso que quando você chega lá, na síntese ativa, tem que fazer um exame: o que se passa na gente quando nós queremos invadir o futuro? Nós não estamos mais na antecipação. Nós estamos na previsão.

(Entendeu a questão aqui?)

Essa é uma questão muito difícil, mas que nós vamos reter tudo. Nessa aula daqui eu não estava pretendendo trabalhar mais simples. Eu estava pretendendo fazer um trabalho gigantesco com vocês, em termos de cristal, em termos de forma da verdade, em termos de Leibniz como fundamento dessa aula. Nós vamos discutir no final como é que nós vamos fazer a organização dessa aula aqui, porque essa aula aqui está uma piada pra mim, piada. Eu não posso perder esse tempo! Eu não posso perder esse tempo! Tem que ter tudo organizado. Então, por exemplo, o L.A. nunca mais apareceu. Não é? Então, está na aula ou não está?

Alª: Tem que perguntar pra ele!

Cl: Tem que perguntar! Eu não brinco nessas coisas, entende? E eu não posso fazer uma aula e, porque o outro faltou, eu... não ! Não há hipótese, não há hipótese! Entende?

Então, nesta aula de hoje, que eu expliquei que é uma aula solta, inteiramente solta, a nossa questão é dar conta da síntese passiva, da primeira síntese passiva. Vamos tentar encontrar os conceitos que eu estou usando, porque se vocês não fizerem isso comigo nós vamos nos perder completamente. Vamos fazer?

Als: Tudo bem!

Tem o eu contemplativo?

Als: Tem.

O que esse eu contempla?

Alº: Os instantes separados. A matéria.

Cl: A matéria é o melhor nome. A matéria se constitui pela repetição. Essa matéria se repete. Entenderam aqui?

Vamos usar a palavra PURA, como adjetivo de REPETIÇÂO. Por quê? Porque REPETIÇÃO PURA é repetição na matéria ou repetição da matéria. Mas vão aparecer repetições no espírito.

(Entenderam aqui?)

Então vamos chamar a repetição na matéria de repetição... (Als.) pura!

A repetição pura é governada por duas regras: INSTANTANEIDADE E DESCONTINUIDADE. Chama-se MENS MOMENTANEA.

Então, a repetição pura tem quantas regras? Duas. Instantaneidade e descontinuidade, certo?

Claro, que aqui eu teria que dar para vocês, mas não vai dar, senão vai pra essa aula, senão seria muito violento., o que é a CONJUNÇÃO CONSTANTE, viu? Não vou fazer isso agora. Mas acontece que lá na matéria está havendo uma repetição.  Agora, eu abandono a matéria e penetro no espírito que contempla. E depois eu vou ter que explicar esse espírito que contempla.

O espírito que contempla é de uma tradição do Plotino, que vai pegar toda uma corrente de pensadores: Plotino, Condillac, Hume, Bergson... Todos esses pensadores estão pensando o espírito que... (Als:) Contempla! Daqui a pouco eu vou fazer uma fala sobre o espírito que contempla.

Então vamos lá outra vez:

― Os conceitos de repetição, de descontinuidade e de instantaneidade estão aonde?

Als: Na matéria!

Cl: Na matéria, está certo? O primeiro conceito que eu coloquei no espírito foi CONTEMPLAÇÃO. O segundo é CONTRAÇÃO. Contemplação-contração = Duração. Então, é nítido que a duração se opõe à repetição. Ou não?

Alª: Claro!

Cl: E agora nós podemos fazer uma coisa sensacional: a repetição gera diferença. Porque a repetição dos instantes gera a fusão no espírito. Então, no espírito apareceu uma coisa que não tem na matéria. A matéria é a justaposição ou a coesão dos instantes. E no espírito é a interpenetração ou a fusão dos instantes. Vamos opor fusão à coesão. Ou interpenetração a justaposição. (Está bem, Cristina?)

Alª: Claro!

Cl: Claríssimo?

Alª: Tá, tá.

Então, no espírito houve a interpenetração ou a fusão dos elementos separados na matéria.

(fim de fita)

Parte III

(...) Ou não? Vários elementos. Quando você tem vários elementos, em filosofia chama-se MULTIPLICIDADE.

― Então, na matéria existe multiplicidade? (Cristina, isso é importantíssimo!)

― Na Matéria existe multiplicidade, Jorge?

Alº: Sim.

Cl: Tá? Agora, no espírito são dois elementos que se fundem, ou não?

Als: São, sim.

Cl: No espírito também tem multiplicidade. Só que a multiplicidade do espírito é MULTIPLICIDADE DE FUSÃO e a multiplicidade da matéria é a MULTIPLICIDADE DE JUSTAPOSIÇÃO. Então, o pensamento de Bergson se fundamenta na existência de duas multiplicidades. A multiplicidade da matéria é matematizável, a do espírito não. A da matéria é mensurável,a do espírito não. (Multiplicidade é só isso que eu vou dar, não vou aumentar agora não. Senão vai pesar muito! É esse o curso que a gente tem que fazer: uma beleza de curso!

― Então, o que o Bergson descobriu? A existência de...?

Alª: Duas multiplicidades.

Isso vem de um matemático chamado Riemann. O Bergson tira, desse matemático, a noção de duas multiplicidades ― e a introduz no CAMPO EXISTENCIAL. Então, para ele, há a multiplicidade de interpenetração e a multiplicidade de justaposição. A multiplicidade de justaposição é descontínua e a de interpenetração é contínua.

(Está muito difícil, Jorge? Alº: Tranquilo!)

(Eu não quero nenhuma problemática aqui, hein? Duas multiplicidades, só isso! Está bem?)

A multiplicidade de duração [de interpenetração] é a fundação do tempo. Multiplicidade de duração!  Logo, na multiplicidade de justaposição, pelo menos é o que está aparecendo, você não tem o tempo, você tem o espaço. Depois nós temos que invadir isso daí, vai-nos complicar muito.

Alª: O que você falou da multiplicidade de duração?

Cl: É o TEMPO...

Alª: Tá...

(Está bem aqui? Quer falar alguma coisa? Vocês não perguntaram nada sobre a multiplicidade! Não se interessaram... Façam uma questãozinha sobre a multiplicidade, perguntem sobre ela...)

Alª¹: O espírito tem uma multiplicidade de duração e a matéria

Cl: Não. Use multiplicidade de interpenetração, que é igual à duração.

Alª¹: A multiplicidade da duração. (É isso!)

Cl: É, pode usar assim, pode usar.

Alª¹: E a matéria a multiplicidade de justaposição

Cl: Justaposição... Chamam uma de ESPAÇO e a outra de TEMPO.

(Está bem assim? (Tá) Quer alguma coisa?)

Alª²: Tem alguma coisa a ver essa diferença de fusão e justaposição com a separabilidade dos elementos?

Cl: Tem; claro! Claro! Você só mantém a multiplicidade de fusão e a multiplicidade de justaposição; e não cólica nesse momento! Porque agora você está sabendo que a multiplicidade de fusão só emerge porque existe um eu que...?

Als: Que contempla e (Alª: contrai) contrai.

Cl: Quem falou contrai?

Alª: Eu, Margô.

Cl: Está sabida!

Então, vamos chamar essa multiplicidade que contrai de EU CONTRAENTE. (Tá?) Agora vocês vão ter uma surpresa...

― Esse eu contraente é da síntese passiva? Ou não?

Als: É. Claro!

Cl: Esse eu contraente pode se chamar também EU LARVAR. As personagens do Beckett são todas eus larvares. Por isso, você não entende nada delas.

Alº: Contraente, tudo bem. Mas por que eu?

Cl: Por que o eu ― estranho isso, não é? ― dar essa categoria de eu. A sua pergunta permite que eu responda, entende? Porque quando pergunta é feita de uma maneira que me vai jogar lá pra frente, eu retenho. É o seguinte:

A filosofia concluiu pela existência de uma alma racional nos homens. Os homens, os seres humanos, seriam dotados de uma razão: corretíssimo! E essa razão, platonicamente pensada (e aí não há nada demais, porque todo mundo vai dizer parecido), tem como conteúdo ou como objeto as idéias. Então, a razão pensa...?

Als: As idéias.

Mas o Platão afirma que essas idéias não estão dentro da razão, elas estão fora da razão. Por isso, para Platão, a razão apreende as idéias pela contemplação.

(Está bem claro?) (Eu estou até cortando: eu não estou dando uma aula sobre isso; eu estou dando uma explicação!)

Mas os filósofos de depois vão chegar à conclusão que também existe uma alma nos animais. Porque a alma seria uma POTÊNCIA DE COESÃO. Se você tirasse a alma das coisas, as coisas se dispersariam. Então, a alma, que para o Platão é a razão contemplando, para os estóicos é a FORÇA DE COESÃO DA MATÉRIA. Então, os estóicos colocam uma alam no homem, mas colocam uma alma também nas PLANTAS. Mas não só no homem e nas plantas, ou no animal e nas plantas; eles colocam uma alma em toda e qualquer coisa: nas pedras, nos minérios, na água, na terra ― que é a força de coesão daquelas coisas. Então, eles distribuem as almas por TUDO o que existe: os rochedos têm alma, as pedras têm alma, os carvões têm alma... Se nós usarmos as figuras atômicas do século XX, os azotos têm alma, os fósforos têm alma, os carbonos têm alma. E essa doutrina chama-se ANIMISMO.

O animismo é distribuir almas por tudo o que existe.

(Vejam se entenderam!)

Tudo o que existe tem uma alma. Então, as almas são os pequeninos eus que estão distribuídos em todos os corpos. Por exemplo: o meu corpo tem uma miríade de pequeninas almas que contemplam e contraem. Todos os corpos têm alma. Todos os corpos!

― Almas que fazem o quê?

Als: Que contemplam.

Cl: Elas contemplam.

Então, a noção de eu ― que eu estou usando a palavra eu ― são essas almas contemplativas. Essas almas contemplativas, no modelo animista, que estão incluídas em tudo o que existe. Essa doutrina é uma doutrina plotiniana... então, tudo o que existe está penetrado de almas.

Fala:

Alª: Quer dizer que existe um eu que não é psico-orgânico.

Cl: Esse eu não é psico-orgânico! É o EU LARVAR.  Mas esse eu larvar vai gerar o EU PSICO-ORGÂNICO.

Alª: Claro!

Cl: Mas como o Beckett e o Robbe-Grillet querem encontrar o TEMPO PURO, eles vão a esses eus que não são psico-orgânicos: chamam-se eus larvares. São os eus contemplativos e contraentes. Moll, Malone, Murphy. Nós agora vamos começar a ler Beckett de outra maneira.

(Foi bem, Cristina?)

Nós agora temos que continuar a trabalhar no eu contraente, no eu contemplativo. Essa tradição do “eu que contempla” é originário na fórmula do Plotino que é o título da tese de Silvia. Como é que é, Silvia?

Alª: “Tudo é contemplação!”

Cl: Fórmula. Fórmula, (hein?) Depois eu vou explicar fórmula para vocês, não hoje. Fórmula de quem?

Als: Plotino.

Cl: Plotiniana. A fórmula plotiniana é... que coisa: “Tudo é contemplação!” Que coisa!

Alª: Como é que ele teve coragem...

Cl: Que coisa! Uma coragem terrível! E a tradição acompanhou!

Então, esse eu é contemplativo. Vamos ver o que é SÍNTESE PASSIVA.

― O que quer dizer síntese? Juntar o que está separado.

― O que a síntese junta? Os instantes que estão separados.

― Por que passiva? Porque ela não intervém lá na matéria. Ela faz a síntese dentro dela. Então, síntese passiva.

Mas, essa síntese é originária na repetição dos mesmos elementos. Não foi isso o que a fez sintetizar? Por isso se chama SÍNTESE PASSIVA DO HÁBITO. O hábito não é a repetição. O hábito é a contração: contrair hábitos. (Não é assim que a gente diz?)

Alº: O hábito é uma síntese passiva?

Cl: O hábito é uma síntese passiva.

Então, O HÁBITO É A FUNDAÇÃO DO TEMPO E A CONSTITUIÇÃO DO PSIQUISMO. (Fantástico!!!)

Agora, nós temos que distinguir como o tempo se dá na síntese passiva e como ele vai se dar na síntese ativa.

Mas eu não vou dar essa aula agora.

5 opiniões sobre “Aula de 07/04/1994 – A fundação do tempo”

    1. Caro Alexandre,

      Nas aulas em ÁUDIO de 30/03/1994 (Investigação sobre os conceitos de contemplação e repetição) e 06/04/1994 (O jogo do tempo: Deleuze e Robbe-Grillet), Ulpiano trabalha bastante sobre as sínteses ativas e passivas.

      Os Editores

  1. Comentário de Luiz Manoel Lopes, enviado por e-mail:
    As sinteses passivas são aquelas que ocorrem quando afecções se dão no espírito e a partir das repetições combinam-se ao acaso, gerando relações de delirios, “dragões alados, carruagens de fogo”; tais sínteses possuem o seu aspecto temporal quando, ao acaso, instantes que aparecem e desaparecem se fundem no espirito, fazendo aparecer linhas de tempo no sujeito; esses instantes são contemplados e contraídos de modo passivo, sendo daí e a partir daí que as ações, as atividades, as faculdades de um suposto sujeitos passam a ocorrer.

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