Aula de 14/03/1989 – A idéia de matéria

capa-grande-aventura[Temas abordados nesta aula são aprofundados nos capítulos 6 (Do Universal ao Singular) e 9 (A Imagem Moral e a Liberdade) do livro "Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento", de Claudio Ulpiano. Para pedir o livro, escreva para: webulpiano@gmail.com]


Em vez de ir por outras linhas, eu vou iniciar a aula integralmente na filosofia. (Certo?) E vou me servir de três tipos de pensamentos gregos: Platão, Aristóteles e os estoicos - esses três! E a questão com que nós vamos começar a trabalhar - e que prossegue com outras questões nas próximas aulas - é a ideia de Matéria. É na ideia de Matéria que nós vamos trabalhar!

Agora, é realmente alto nível de filosofia; [um tema] puramente filosófico - que eu vou tornar fácil para vocês entenderem! - e fundamento das próximas aulas. Ele fundamenta as próximas aulas! Isso [que eu disse] não é para assustar ninguém não; pelo contrário, é para vocês ficarem mais calmos. Eu volto sempre a esses temas, não há porque ficarem preocupados!

E as três filosofias que eu vou trabalhar serão: o Platão, dois livros dele... (quem quiser ler esses livros - ler Platão é sempre muito bonito! - os dois existem em português) os livros são o Timeu e o Filebo; no caso do Aristóteles,  A metafísica, sobretudo o livro V e o livro X (Vocês vêem que eu estou falando como filósofo, não é? Eu estou falando como filósofo!); e os estoicos, ao longo de seus comentadores, fundamentalmente dois comentadores: o Victor Goldschmidt e o Émile Bréhier.

Então, é isso que eu vou fazer (viu?). Então, vamos começar:

Nosso objetivo é um só: a matéria. Depois vocês vão ver a importância disso: ela vai surgindo para vocês... eu faço desvios, faço deslocamentos... e vocês vão entendendo a importância da questão.

Bom. A obra do Platão, chamada Timeu, é alguma coisa como "a construção do universo". O que vai ser constituído, nessa obra, é o universo  é a origem, o começo de tudo! Pode-se dizer mais ou menos - não exatamente - que antes desse acontecimento do Timeu, o que nós teríamos seria o Caos. (Vai começar o inferno, tá?)

Então, nessa obra, Platão coloca a existência de uma figura mítica, que ele chama de demiurgo. Demiurgo, em grego, chama-se artesão. Mas Platão chama essa figura de "artesão divino" - um deus! E esse deus vai construir o mundo. Na verdade, o demiurgo é uma mistura de deus e artesão - ele é, simultaneamente, um deus e um artesão. Então, é o demiurgo que vai ser o responsável pela criação da natureza - e isso que eu estou contando para vocês, de ele ser simultaneamente um deus e um artesão, não é um acontecimento das decisões platônicas. Não foi Platão que decidiu, de repente, dizer: Oh, quem construiu essa natureza foi um demiurgo, que é simultaneamente deus e artesão. (Não é?). Não, não é nada disso! Isso tudo é um prolongamento da história do mundo, que vai desembocar em Platão. É a história dos movimentos político-sociais do Oriente, da própria Grécia, que levam Platão - ao pensar na construção da natureza - a pensar em um deus artesão. Então, o demiurgo vai passar a ser chamado de O Pai Artesão.

O que esse demiurgo vai fazer? Esse demiurgo encontra-se, depara-se com o que, em Platão, chama-se Meio Espacial. O meio espacial é a matéria. É uma matéria louca; uma matéria caótica; real: existe. Difícil de ser compreendida! É uma ideia bastarda do Platão, uma ideia difícil - ideia que não parou de atravessar todo o Ocidente. Ele coloca o demiurgo deparando-se com o que ele chama de meio espacial, estranhamente, melhor dito: o Receptáculo. Ele vai chamar de alguma coisa que é o receptáculo.

Quando se começa a falar sobre esse meio espacial, a linguagem falta. A gente não tem como dizer mais nada! Então o demiurgo encontra [esse receptáculo] e, acima disso, encontra o que se chama Formas Inteligíveis.

O demiurgo é um pai artesão, que vai construir o nosso mundo; e os elementos componentes que ele tem para construir o nosso mundo são as formas inteligíveis e o meio espacial. Então, ele começa a trabalhar. Não existe ainda o nosso mundo: existe o meio espacial e existem as formas inteligíveis. E esse demiurgo vai começar a trabalhar.

E o que ele faz? Ele obriga, força, força o meio espacial a imitar as formas inteligíveis.

Então, no momento em que esse meio espacial começa a imitar as formas inteligíveis, nasce o Mundo Sensível: o nosso mundo. O nosso mundo é chamado de misto - é o misto de formas inteligíveis e meio espacial. Então, o nosso mundo tem origem na formas inteligíveis e no meio espacial. E o nosso mundo é o resultado da ação causal do demiurgo, forçando o meio espacial a imitar as formas inteligíveis.

E o que aconteceu? Esse meio espacial é perverso, caótico, louco, sem lei, sem ordem. Mas, devido à ação do demiurgo, o meio espacial passa a imitar as formas inteligíveis que são Ordem, Lei e Cosmos. E, nesse processo de imitação, emerge o nosso mundo.

O nosso mundo tem como matéria esse meio espacial. Mas esse meio espacial - que é a matéria do nosso mundo - é obrigado a imitar as formas inteligíveis. Por isso, o nosso mundo é um Ícone. O nosso mundo é o lugar da Imitação. (Entenderam?) Não é o meio espacial que é imitação. É o nosso mundo que é imitação.

Por isso, para o Platão, a natureza [já] começa toda pronta. Porque, na hora em que o demiurgo obriga o meio espacial a imitar as formas inteligíveis, a natureza está toda pronta. A primeira manhã da Natureza é a imitação perfeita! De lá para cá, só houve Degradação. (Entenderam?) De lá - do ato criativo - em seguida, a única coisa que aconteceu foi degradação. O primeiro momento é o Momento Perfeito da criação. Daquele primeiro momento em diante - que é o momento do tempo, da história - o que aconteceu foi de-gra-da-ção! E o Platão está vivendo na sociedade grega do século IV a.C. E, nesse século IV, ele convive - com a degradação do campo social e com a incoerência dos fenômenos cósmicos. (Vocês entenderam? Não, não é? Não foi claro, não?)

Platão, no século IV, com a degradação do campo social... Porque o que ele acabou de dizer é que no primeiro momento da criação tudo era perfeito. Mas a partir do primeiro momento começou a haver degradação. Tudo começou a se degradar, a se perverter! Então, é evidente que, se ele está num momento histórico que não é o momento da criação, ele está num momento degradado! Está num momento degradado! Então, para Platão, aparece de imediato uma questão: fazer a terapia da cidade, curar a cidade.

O que seria essa terapia da cidade, o que seria curar a cidade? Produzir um processo evolutivo? Seguir com a cidade para uma evolução?

De forma nenhuma! Seria recuperar, para a cidade, o Modelo Original.

Por isso, para o platonismo, toda a verdade está nas origens. Processo exatamente oposto ao do Hegel, para quem tudo está no fim. Para Platão, tudo está no começo. Para ele, não existiria lugar para a criação no nosso mundo - apenas para a recuperação. Não há nada a criar - e sim, tudo a recuperar. Por isso, pode-se dizer - com a maior facilidade - que o principal instrumento do trabalho platônico é a reminiscência - em grego, anamnesis. É a reminiscência.

Reminiscência de quê? Lembrar-se dos tempos originais. (Entenderam?)

Porque é necessário que a degradação se dê - porque ela se dá! - porque do momento da criação, para o momento seguinte, a degradação é absolutamente necessária.

Conclusão a que nós chegamos daí - conclusão difícil e assustadora: é que a matéria do nosso mundo - a matéria do meu corpo, a matéria desta mesa, a matéria da natureza - é uma matéria perversa, uma matéria louca, caótica, que se dobra ao Caos - porque o demiurgo forçou a matéria a imitar as formas inteligíveis. Se a imitação parar - nós caímos no Caos. (Entenderam?) O modelo fundamental é a mímesis ou imitação, a prática mimética - imitar.

Então, para o Platão, todo o modelo do mundo se dá [com] o Meio Espacial tendo que imitar as formas inteligíveis. Se não imitar, o meio espacial volta ao lugar do Caos. Quando esse meio espacial volta ao lugar do Caos, ou seja: quando o meio espacial não imita as formas inteligíveis - chama-se fantasma. Na hora em que ele imita as formas inteligíveis - chama-se ícone.

Nós teríamos dois processos: o fantasma - que em latim é traduzido por simulacro; ou o ícone. Porque a natureza do meio espacial é Caos total. E o Caos não para de rugir no interior da semelhança dos ícones. (Eu acho que foi bem! Foi? Vocês entenderam? O que você achou Bento? Todo mundo entendeu o que se processou?)

Então, vejam bem: Platão vive num campo social onde está havendo degradação. É uma degradação absolutamente necessária - porque o tempo é degradação. Então, a preocupação de Platão é que essa degradação possa chegar a tal ponto - que o Caos retorne inteiramente, desaparecendo a imitação. Toda a questão dele é o perigo de que o Caos venha a tomar conta da ordem colocada pela imitação. E, por isso, a função do filósofo será governar a cidade, para fazer dela uma prática mimética - uma prática da imitação - imitar as formas inteligíveis. Se isso não ocorrer, vai ser a vitória do simulacro, a vitória do fantasma, a vitória do meio espacial sobre os ícones.

- Querem fazer perguntas? Está perfeitamente claro para todo mundo? Está S.? Chico? O que você achou E.? Porque? Vejam bem, eu escolhi dar filosofia para vocês. Eu poderia dar de outra forma... [Mas,] não; eu vou dar filosofia. Então, a gente tem que passar por esses buracos negros... por essas coisas duras! (Tá tudo bem, não é? Estou de acordo. Eu aceito um café e vou continuar.)

Aluno: Quando você falou de ----??----.

Claudio: Porque é o seguinte, o Platão está dizendo que na hora em que nasce o mundo sensível, junto com ele aparece o tempo. E o tempo - necessariamente - é degradador. Então, o que vai acontecer, é que, a partir do primeiro momento as imitações vão enfraquecer. Quanto mais enfraquece a imitação, mais perigo há de o fantasma subir. O fantasma ameaça o tempo inteiro: é uma ameaça constante! (Viu?)

Então, ponto aí...

Aluno: ---?--- antagônica...

Claudio: Seria! Mas o demiurgo é como todo o criador: faz a obra e vai embora. Ele deixa a obra aí. Os homens que tomem conta dela... E aí que está o grande perigo!

Aluno: O tempo é degradador por si próprio ou ele degrada?

Claudio: O tempo vai degradando a matéria... Vai degradando a imitação... Vai quebrando a imitação e libertando o simulacro. O simulacro vai aparecendo - é isso que vai ocorrer. Porque, o primeiro momento da criação do demiurgo é perfeito! A partir do primeiro momento, tudo é degradação. São momentos perigosíssimos na obra dele.

(Vamos seguir para vocês entenderem, viu? Agora eu vou começar a facilitar um pouco, essa parte foi mais difícil - vocês vão começar a compreender. Eu agora vou mais calmo, vocês vão compreender!)

Na Grécia - na mesma Grécia de Platão - aparece um grupo de pensadores - eu vou chamar inicialmente de pensadores, depois eu melhoro os nomes, viu? - chamado sofistas - chamam-se sofistas. E vamos colocar que na Grécia existiriam, de um lado, os platônicos; e, de outro lado, os sofistas. De um lado, os sofistas fazem discursos. De outro lado, os platônicos fazem discursos. O discurso em Grego é chamado logos. No plural é logoi. Então, há os logoi platônicos e os logoi dos sofistas.

Os sofistas acham - (Atenção, se ficar difícil, coloquem imediatamente para mim). Os sofistas acham que na natureza só existem fenômenos.

O que é fenômeno? Fenômeno é tudo aquilo que aparece. Então, para os sofistas, no céu, por exemplo, existem eclipses, planetas, cometas, estrelas e os acontecimentos do céu - são os fenômenos. Para o platônicos, além dos fenômenos existem as formas inteligíveis. Para os platônicos, todos os fenômenos sensíveis são governados pelas formas inteligíveis. Para os sofistas, além dos fenômenos, não existe nada.

Para os sofistas, existem os fenômenos e para os platônicos, além dos fenômenos existem as formas inteligíveis. Então, a questão platônica é o discurso atingir as formas inteligíveis. A questão sofista é o discurso falar dos fenômenos.

Haveria dois processos: enquanto o platônico espera que com o discurso ele atinja as formas inteligíveis, o sofista não acredita nas formas inteligíveis - ele acha que só há fenômenos. Então, para o sofista, só há um discurso - o que fala dos fenômenos. Para o platônico, há dois discursos - o que fala dos fenômenos e o que fala das formas inteligíveis. (Entenderam?)

Para o platônico - o que fala dos fenômenos e o que fala das formas inteligíveis. Para os sofistas - apenas aquele que fala dos fenômenos. Então, para Platão, havendo dois discursos - o que fala dos fenômenos e o que fala das formas inteligíveis - emerge a distinção platônica, que vai ser muito nossa, entre - doxa e episteme: que é entre opinião e ciência.

Então, para o Platão, só é possível ciência se o discurso falar das formas inteligíveis. Por causa disso - para ele - o discurso do sofista não é um discurso científico. Eu acho que ficou claro, não é? O discurso do sofista, que só fala dos fenômenos, não é um discurso científico, porque o único discurso científico é aquele que atinge as formas...? Inteligíveis. Então, para o Platão, o discurso do sofista, em vez de ser um logos - é um anti-logos.

Nós, agora, teríamos dois tipos de discursos: o logos - que atinge as formas inteligíveis e é imediatamente episteme; e o logos ou anti-logos - que só fala dos fenômenos.

(Vamos ver isso! Foi bem? Eu fui bem? O que vocês acharam? Deu para entender bem?) Então vamos lá:

Aluno: --

Claudio: E não precisa ser grego para entender isso, não... (viu?). Quando nós nos deparamos com os fenômenos - e agora eu vou modular essa palavra: vamos chamar fenômenos cósmicos! Quando nós nos deparamos com os fenômenos cósmicos, que são: o movimento dos astros, as estrelas, os eclipses, etc. e... ventanias, tempestades, raios, trovões... nós reparamos que os fenômenos são imprecisos, são fugidios, escapadiços e - sobretudo - não param de mudar - eles mudam o tempo inteiro! Na hora que você for falar sobre um raio, sobre um relâmpago, você está falando sobre aquilo... - e aquilo já passou! Logo, sempre que o discurso fala sobre um fenômeno que está acontecendo - entre o tempo do discurso e o tempo do fenômeno - há um desajuste.

- Por quê?

Porque o que acontece no mundo fenomênico é aquilo que passa - aquilo que passa o tempo inteiro. No mundo fenomênico, no mundo do tempo, nada paralisa: tudo passa. Então, o anti-logos sofista só fala sobre a mutação.

Aquele discurso, que fala sobre a mutação, não é científico - porque só pode ser científico o discurso que fala sobre o estável e permanente. Estável e permanente - são as formas inteligíveis. Nasce a episteme do ocidente!

A episteme ou a teoria das ciências do ocidente traz como pressuposto a permanência e a estabilidade do objeto. O sofista é rejeitado como praticante da ciência - porque ele faz discursos sobre os fenômenos. (Foi bem, não foi? Entenderam?)

Então, Platão condena o anti-logos - como aquilo que fala sobre fantasmas. O fantasma é aquilo que nunca é - porque não para de passar. (Vejam se entenderam!) O fantasma nem é isso nem não é aquilo - ele é o que passa, o que flui, é o devenir.

Devenir é aquilo sobre o qual a ciência não pode dizer nada.

Por isso, para Platão, fazer ciência é atingir - com o discurso - as formas inteligíveis - que são estáveis e permanentes.

(Dois pontos para uma pergunta, At.? E você, filha, você conseguiu entender?)

Olha, eu quero retomar para vocês que é a primeira aula - está todo mundo igual, estamos todos iguais! [Se] essas questões não passaram com clareza, é sempre bom retomar!

Além dos fenômenos cósmicos, existem as práticas da cidade. E as práticas da cidade geram o que se chama - mundo ético: qual é o comportamento do homem dentro da cidade. O comportamento pode ser vicioso ou pode ser virtuoso. O Platão e o sofista vão falar as mesmas coisas.

Para conhecer exatamente o que é a virtude, o que é a sabedoria, o que é a beleza... Platão diz que é necessário atingir as formas inteligíveis. E quando o sofista fala sobre beleza, sobre virtude - ele fala sobre beleza e virtude nos devenires.

É a mesma questão dos fenômenos cósmicos! Quando vai falar sobre a cidade, o anti-logos dos sofistas só fala sobre aquilo que está acontecendo. E Platão diz: "Isso não é um discurso científico! Para se produzir um discurso científico, tem-se que encontrar a estabilidade e a permanência". Por isso, para Platão, existem, lá nas formas inteligíveis, O Bem, O Belo e O Verdadeiro - que são os objetos exatos com que o logos platônico vai entrar em contato. Para o sofista nada disso existe - para ele só existem os fenômenos. Essa é a oposição dos dois.

Por causa dessa oposição, o Platão chama o sofista daquele que não é capaz de imitar as formas inteligíveis, daquele que não é capaz de chegar às formas inteligíveis. Por isso, para o Platão, o sofista é o fantasma. (Certo?) E os platônicos são os ícones.

E o que fazer com os fantasmas? Expulsá-los da cidade. É preciso expulsá-los da cidade - porque os fantasmas são a constante ameaça do Caos. O conselho de Platão: coloque-os à ferro debaixo dos oceanos.

Aluna: --?--

Claudio: Eles pensam Platão como um idiota - idiotia pura! Eles não acreditam naquelas formas inteligíveis, não acreditam em nada. Mas acontece que vai haver a vitória do platonismo. O platonismo vai vencer. Os sofistas vão ser expulsos da cidade. Os fantasmas vão ser expulsos.

(Ponto. Não precisa mais disso!)

Aluno: --?-- estão na frente, não é?

Claudio: Exato!

Aluno: Mas realmente parece que os sofistas descrevem o fato prévio, num determinado tempo. Eles estão atingindo o fato porque ele tem...

Claudio: Mas a questão é que não há aquele tempo. O tempo é puro fluir. No tempo, não há a possibilidade de você ter um instante paralisado. Quem está no tempo flui. Não entendeu não, Bento?

Aluno: Eu digo: esta lâmpada está acesa. Eu acabo de falar isso... a lâmpada apaga! Então, essa minha afirmação prende a lâmpada acesa num determinado momento. Ela está presa naquele momento ao qual eu me referi.

Claudio: Sim, mas não tem valor o seu discurso, porque você está querendo prender aquilo que flui. É isso que o Platão está dizendo! É mais ou menos isso, Bento: na hora em que você entrou nesta sala, você era quinze minutos mais novo. Neste instante em que eu estou falando com você, você já é dez segundos mais velho. Dentro do tempo, não há possibilidade de você paralisar. Tudo flui, tudo devém! E Platão diz: "Quem está pensando o tempo, está pensando aquilo que muda. Está pensando o fluxo. E o fluxo não pode ser objeto da ciência. Só o estável e o permanente podem ser objeto da ciência". A questão é essa. Ficou difícil, Bento?

Aluno: --?--

Claudio: Definir? Não, [a questão] é mais alta A.. Ele não está definindo o que é a ciência. Ele está produzindo a ciência! Está acabando de inventar a ciência que você usa hoje! Ele está dizendo que o objeto da ciência é impossível ser um objeto do fluxo, ele tem que ser um objeto da permanência, da estabilidade. É por isso que nasce a ciência com a busca dos invariantes, dos permanentes. Porque o devir, aquilo que muda, para ele - literalmente - não pode ser objeto científico.

- Por que não pode ser objeto científico?

É a coisa mais simples do mundo, é claríssimo: não pode ser, porque no momento em que você fala sobre ele, ele já não é o que era. Não é que o objeto no devir seja assim: é... é... é... é... Não! O objeto no devir não é - o tempo inteiro! É muito fácil entender isso! Aquilo que é - aquilo que é permanente - é sempre! Aquilo que devém - aquilo que muda - nunca é! Tudo o que está no devenir, nunca é - é a coisa mais fácil! O Platão está dizendo que não se pode pensar aquilo que não é. Não se pode pensar o não-ser. Tem-se que pensar o Ser! A ciência (ou o pensamento) do devir está inteiramente desqualificada. Só pode haver pensamento do estável e do permanente. E aqui está nascendo o racionalismo. A razão está nascendo, tendo como objeto de pensamento o estável e o permanente. E o devir não é objeto de pensamento - é objeto dos delírios e das imaginações. É isso que Platão está dizendo!

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Aluno: E o sofista?

Claudio: O sofista não concorda! Porque o sofista...

Aluno: Eles não pretendiam fazer ciência!...

Claudio: Pretendiam fazer ciência, sim, At.! E fizeram ciência - do devir! Do devir! (Vê se entendeu!) Aquilo que Platão desqualifica - para o sofista é a única coisa que pode acontecer!... Porque para o sofista não existe nenhuma forma inteligível! Para o sofista não existe nada estável e permanente. só existe o devir!

Aluno: --?-

Claudio: Claro! Essa é a grande questão! Atenção: a grande questão é essa! É que a razão nascente constitui como objeto dela o estável e o permanente. E desqualifica como impossível o devir como [elemento] a ser pensado. O ocidente vai conviver séculos com isso. O devir não pode ser pensado! (Entendeu?)

Ao longo da história do pensamento, vocês vão encontrar, por exemplo, Bergson - a grande questão do Bergson é pensar o devenir. (Entenderam?) Por isso, se ele vai pensar o devenir ele não pode ser um? ra-cio-na-lis-ta! Porque a questão do racionalista tem como ponto de partida a estabilidade e a permanência. É essa a grande questão que está aparecendo. E o Platão desqualifica o sofista, desqualifica o anti-logos, como aquele que está querendo a bastardia, está querendo o delírio, a perversão - pensar o devenir. Então a história do pensamento ocidental, aí é um historiador de filosofia quem nos diz - que é o Deleuze - diz que a história do pensamento ocidental é o recalcamento do pensamento do devenir. O tempo inteiro o pensamento dos devenires recalcados, impedidos de subir. (Eu acho que foi bem, não foi?)

(Podem fazer mais perguntas! O que você achou, F.?)

Aluna: --?--

Claudio: Exato! Exato! Qual a pergunta? Deixem eu colocar uma questão para vocês entenderem:

Houve, na Grécia, umas figuras chamadas os "sábios gregos". Esses sábios gregos não são exatamente os filósofos. Os filósofos têm origem nos sábios - mas filósofo quer dizer "amigo da sabedoria"; e sábio, "aquele que tem a sabedoria". São diferentes! Platão não é um sábio - é um filósofo. Ele é o amigo da sabedoria. E a sabedoria, para ele, são as formas inteligíveis. (Entenderam?) O filósofo é aquele que atinge a sabedoria, atinge as formas inteligíveis. O sábio, não! O sábio carrega com ele a sabedoria. Você pode dizer que o sofista está muito mais próximo do sábio que o Platão. (Não sei se ficou claro...)

(Vocês entenderam?)

Essa é uma questão muito difícil, mas que eu vou melhorar para vocês da seguinte maneira:

- O que pretende a ciência que está nascendo com o platonismo?

Eu vou fazer uma pequena apresentação para vocês compreenderem com clareza isso daqui. Vou fazer uma história assim meio sofista, meio pervertida, para vocês entenderem:

Quando nós falamos, quando nós produzimos um discurso, existem duas coisas - o ato de falar e aquilo que é falado. Sempre que alguém fala, há o ato da fala e aquilo que é dito. O ato da fala chama-se enunciação. E aquilo que é dito chama-se enunciado. Então, sempre que eu disser alguma coisa, aquele que fala: sou eu. E aquilo que eu disse: é aquilo que eu disse.

Há um momento, na Grécia, que a verdade depende de quem falou. Por exemplo, eu digo assim: 2+2 são 5. Aí, o Bento pergunta: quem disse isso? Aí o L. responde: Foi o Claudio. Foi o Claudio? Então, é verdade!

Porque a verdade, nesse determinado momento da Grécia, pertence àquele que fala. É dependente de quem falou. Quem falou é que tem a verdade. Se [esse alguém] falou, é verdadeiro. Esse acontecimento chama-se "a verdade na enunciação".

Quando nasce a cidade grega, a verdade sai da enunciação e vai para o enunciado. A verdade já não é mais daquele que falou. Mas aquilo que é dito. (Entenderam?)

Então, num outro momento eu sou um déspota e digo: "Os cachorros têm cinco pernas". Aí o Chico diz: "Sem dúvida, você falou!"

Agora eu chego na cidade grega e digo: "Os cachorros têm cinco pernas" e o Chico me responde: "Prove!" Porque a verdade se deslocou da enunciação e foi para o enunciado.

No momento em que a verdade vai para o enunciado... quando os homens falam, falam afirmativa ou negativamente - ex.: eu falo: "Antônio tem barba", "Antônio não tem barba". Aí o Bento me diz: "Prove!" Os enunciados são afirmativos ou negativos, e aquele que ouve o enunciado quer demonstrações e provas. (Entenderam?) Isso é que se chama enunciado científico.

O enunciado científico é aquele que, quando é produzido, tem que ser demonstrado e tem que ser provado. (Eu não sei se vocês entenderam bem...) É exatamente esse o processo que se dá no campo platônico.

Para o sofista não é essa a questão. Para o sofista o enunciado não tem que ser nem afirmativo nem negativo - tem que ser problemático.

- Por quê?

Porque a palavra problema vem da palavra enigma, em grego. Enigma dá a palavra problema. E os sábios não eram aqueles que procuravam afirmações ou negações. Eles procuravam os enigmas. O mundo do sofista é o mundo dos problemas - e não o mundo das afirmações e negações. Por exemplo, vou voltar a contar uma história:

Dizem que Homero era um sábio. Homero era um sábio! O sábio não é aquele que afirma ou nega; quem afirma ou nega é a consciência científica. O sábio problematiza. Então, o que Homero queria conhecer eram os enigmas. Como um sábio, na hora que um enigma aparecia para ele - ele dava a solução. O mundo do sábio é um mundo problemático - e não um mundo das afirmações e negações. Tanto, que um dia fizeram um enigma para o Homero mais ou menos assim: "Aquilo que eu mato, eu deixo. Aquilo que eu não mato, eu trago." É mais ou menos isso. Eu sei que o Homero não soube responder o enigma e se suicidou. Sabe o que era o enigma? Eram pulgas. "As pulgas que eu mato, eu deixo. As que eu não mato, eu trago."

Os enigmas são triviais, são tolos. Como tudo o que acontece nas nossas vidas! Mas são inteiramente sérios. Porque --?-- significam a nossa própria vida. O mundo é - simultaneamente - fútil e sério. Era isso que o sofista vivia e que o sábio vivia! Então, a questão do sábio não é a questão do Platão: afirmar / negar e provar. A questão dele é problematizar.

Exemplo: você pega a sexualidade hoje. O que a ciência faz com a sexualidade? Afirma ou nega determinadas proposições. O que faria um sábio com a sexualidade? Ele problematizaria.

(Foi difícil! Está aberto para o café. Tomem um café, que eu vou melhorar isso daqui. Problemas e afirmações e negações: ficou difícil! Ficou, não é? Eu retorno isso aqui. Tomem um café para eu melhorar isso.)

[Intervalo para o café]

Eu vou utilizar uma espécie de estratégia para você... porque há uma diferença muito grande em se dar uma aula de filosofia para o estudante de filosofia e uma aula de filosofia para quem não é estudante de filosofia. A gente desvia um pouco: não se pode perseguir determinados temas; não se pode fazer determinados trabalhos detalhados; tem-se que fazer determinadas aberturas... Isso não diminui a qualidade da aula. Apenas, você faz determinadas derivas. É como se fosse o nascimento de uma nova composição discursiva: não é a mesma composição entre o professor e o estudante de filosofia e entre o professor e o estudante que não é de filosofia.

[--- pequeno trecho da fita com defeito ---]

[...] e as formas inteligíveis. Vamos dizer que para o Nietzsche é a mesma coisa. Existe o mundo fenomênico e existe outro mundo. Só que enquanto o segundo mundo do Platão é um mundo de Formas Inteligíveis, o segundo mundo do Nietzsche é o Caos puro. É o Caos puro. Então, para o Platão, o mundo fenomênico se apóia nas Formas Inteligíveis. Para o Nietzsche, o mundo fenomênico se apóia no Caos. (Entenderam?) Um se apóia no Caos, outro se apóia nas Formas Inteligíveis. Mas tanto o Caos quanto as Forma Inteligíveis são aquilo que está fora do mundo sensível; está para lá do mundo sensível. Existiria o mundo sensível, o mundo fenomênico apoiado no platonismo pelas Formas Inteligíveis, e apoiado no Nietzsche pelo Caos. (Certo?)

Pegando-se o modelo platônico e pegando-se o modelo religioso, o homem religioso e o homem platônico:

Na hora em que o homem platônico quer fazer ciência, ele tem que se deslocar (não interessa como!) na narrativa mítica (não importa agora!). Para fazer ciência, ele tem que - de alguma maneira - se deslocar até as Formas Inteligíveis; ele tem que ir até as Formas Inteligíveis. E o homem religioso - nas suas práticas medievais, por exemplo - para fazer teologia tem que atingir Deus - que também está acima das formas sensíveis, acima do mundo fenomênico.

De certa maneira, portanto, há uma semelhança entre as Formas Inteligíveis platônicas e as Forma Religiosas do cristianismo - que é alguma coisa além do mundo fenomênico.

A questão nietzcheana é não destruir esse fora. Ele não destrói o fora - mas o despovoa de essências, formas inteligíveis e deuses: transforma esse fora num Caos. Há um fora, há um acima, há um para lá. Mas o para lá dele não são as Formas Inteligíveis - é o Caos.

Então, a partir disso daqui, nós podemos dizer que o homem platônico, quando vai fazer a sua episteme, a sua ciência, ele precisa se transportar para as Formas Inteligíveis. O homem religioso, nos seus momentos de angústia, nos seus momentos...

[virada de fita]

Só que as Formas Superiores religiosas são meros fantasmas, são ficções, são ilusões. O que o Nietzsche faz não é destruir isso. É apenas despovoar de Formas Inteligíveis e de Fantasmas. (Entenderam?) Ele despovoa.

Então, para o Nietzsche existe o fenômeno e o fora. O fora é o Caos.

Aluno: O que é que ele chama de Caos?

Claudio: O que ele chama de Caos? Eu vou tentar explicar, ao longo das aulas, (ouviu?) o que seria esse Caos do Nietzsche! No início é muito difícil! Porque, neste início, eu estou deslocando as Formas Inteligíveis platônicas ou o Céu religioso e transformando isso em Caos. Ainda não dá para dizer bem - espera mais um pouco, que depois eu digo melhor. É o mundo das forças caóticas - [mas assim] fica vago, fica tolo, fica idiota! Deixa eu montar melhor, para haver compreensão integral.

Neste instante, o que nós vamos fazer é apenas despovoar as Formas Inteligíveis do céu platônico e tornar este fora o mundo do Caos.

- O que vai acontecer aí?

O mundo dos fenômenos - e aí já é Aristóteles, não precisa mais ser Platão! - é o mundo onde nós constituímos o nosso saber. Eu concordo, o nosso saber se constitui no mundo fenomênico. (Certo?) Então, nós, os seres humanos seríamos seres históricos, incluídos dentro da história, que vamos fazendo mutações no campo do saber em função dos saberes fenomênicos. Assim, nós viveríamos!

Mas, para o Nietzsche, existiriam duas experiências do fora. A experiência do fora do Platão é a experiência epistêmica - chegar às Formas Inteligíveis. Para o Nietzsche, haveria duas experiências do fora; logo, duas experiências do Caos. No Platão, é a experiência da episteme, a experiência da ciência, a experiência da filosofia, das Formas Inteligíveis! Para o Nietzsche haveria duas experiências do fora - uma seria a loucura; a outra seria a subjetivação. Que é exatamente o modelo da aula que eu vou dar para vocês.

Nessa tese que eu estou passando para vocês, o homem enlouqueceria quando entra no Caos e é governado por esse Caos. Enquanto que ele constitui uma subjetividade - e aqui é fantástico e difícil! - uma subjetividade livre; e atinge o pensamento quando ele entra nesse Caos, mas não para ser governado por esse Caos - mas para pensá-lo. (Vocês entenderam?) As duas experimentações do fora. A experimentação da loucura - quando você é dominado pelas forças do Caos; ou quando você faz a experiência do fora - produzindo pensamento. Isso, na linguagem do Deleuze e na linguagem do Heidegger, chama-se dobra.

A dobra é quando você experimenta o Caos, mas constitui um pensamento; e a loucura, quando você cai dentro desse Caos. (Ficou claro, não é?) O melhor modelo para se entender isso é manter o platonismo. É mantendo o platonismo, que nós entendemos.

O que fica muito claro é que o Nietzsche foi um homem que viveu a vida nos limites: ele viveu a vida dele nos limites do saber e do fora. Ele viveu nesses limites! Ou seja: ele não parou de fazer a experiência do pensamento, da liberdade e da loucura.

Existe hoje, sobretudo no Rio de Janeiro, uma voga nietzscheana, uma --- completamente idiota, onde se tenta fazer um combate ao racionalismo com o mais estúpido dos irracionalismos. O Nietzsche não é um irracionalista. O Nietzsche não combate a razão utilizando paixões, sentimentos e caprichos - não é nada disso! Ele combate a razão, tentando produzir um instrumento que vá além da razão - que ele chama de pensamento. E o que ele chama de pensamento é a experiência de uma subjetividade livre e ----.

É isso que vai ser o nosso curso: O que são essas experimentações do fora, o que é a constituição da dobra. Eu vou mostrar para vocês a razão grega, o pensamento barroco, o pensamento moderno, como é que ele vai constituir uma dobra; entender esse fora e produzir o pensamento; e ultrapassar a sujeição aos saberes. (Fui feliz? Fui, não é? Acho que fui!)

O modelo que eu vou seguir com vocês, olha, eu diria, é um modelo estratégico - mas... é esse o modelo possível! Pensando o platonismo, eu começo, inclusive, a colocar o Aristóteles - e eu vou ficar muito triste, porque o Aristóteles vai pesar um pouco para vocês. Mas vocês vão ter que entender a teoria da atribuição, a teoria da predicação, todas as questões que eu coloquei, senão vocês não vão perceber o que é a distinção de uma proposição para um problema, o que é a experimentação do falso, o que é a produção da liberdade, o que é a produção do pensamento novo, o que é a constituição de novos modos de vida - tudo isso vai-se perder, se eu não passar um Aristóteles para vocês. Então, ele vai ser obrigado a passar, viu? E quando a gente trabalha em Aristóteles, não há meios de a gente não ser inteiramente filósofo - é aquele negócio duro - lógica, metafísica pesada (não é?).

Muito bem!

A grande questão é que, para Platão, pensar é atingir as Formas Inteligíveis. Para Nietzsche, é inteiramente semelhante: pensar é pensar o Caos. Muito semelhante, muito semelhante! Nesse movimento de Caos e Formas Inteligíveis é que nós vamos ter a linha do nosso curso, que, agora, se eu consegui realmente passar isso para vocês, eu vou começar a explicar - viu? Vamos pensar que processos vão se dar aqui, a partir deste instante.

Neste instante isso não vai importar, mas na Grécia, em função de um poema de um pré-socrático chamado Parmênides, vão aparecer duas escolas - uma chamada megárica e a outra chamada cínica. Literalmente vão aparecer essas duas escolas: [ou seja,] duas maneiras de pensar. Essas duas escolas trazem a preocupação de nos explicar exatamente o que é pensar. Toda a questão da escola megárica e toda a questão da escola cínica - é nos ensinar a pensar. Então, essas escolas colocam que, quando nós pensamos, quando nós utilizamos o nosso pensamento, nós não podemos, de forma nenhuma, explicar ou definir alguma coisa com outra coisa.

Para essas escolas, por exemplo, se eu quiser dizer o que é a mesa, eu não posso dizer, com a cadeira, o que é a mesa - eu só posso dizer o que é a mesa com ela mesma! O que eles estão dizendo é que os enunciados do pensamento só podem ser enunciados da identidade pura. Eu nunca poderei dizer alguma coisa sobre algo que não seja aquele próprio algo. Eu nunca poderei dizer, por exemplo, que a mesa é branca. Porque se eu disser que a mesa é branca eu estou dizendo que a mesa é outra coisa que ela mesma. Então, o único enunciado que eu posso produzir é "a mesa é mesa". (Vocês entenderam? Ou não entenderam?)

Aluno: --?--

Claudio: Eu precisava dar essa explicação porque eu tenho que começar a fazer vocês penetrarem, fazer com que vocês entendam o que é pensar a diferença; ou melhor - pensar é pensar diferente! Então, nós temos que dar conta do enunciado cínico e do enunciado megárico. Temos de entender o que eles estão dizendo!

É muito simples, por exemplo: eu pego a Eliane. E Ana me diz: 'Claudio, me diga, por favor, o que é a Eliane?' Aí eu digo assim: 'Eliane é Chico'. Aí a Eliane diz assim: 'Não, Claudio, não concordo! Você não pode dizer que eu sou uma coisa que eu não sou. Eu sou eu mesma!'

O que eu estou dizendo é que a condição megárica e cínica é que a única coisa que você pode afirmar sobre alguma coisa é aquilo que aquela coisa é. Ou seja: você colocar no conceito predicado aquilo que está no conceito sujeito - "a mesa é mesa", "a cadeira é cadeira", "a rosa é rosa", e assim por diante...

(Fracassei novamente!)

Aluno: --?--

Claudio: O que eles estão dizendo é da maior facilidade: que a única coisa que você pode dizer de 'alguma coisa' - é aquilo que 'aquela coisa' é. Você não pode dizer que uma coisa é aquilo que ela não é. Ora, a mesa é mesa; branco é branco. Se eu disser que a mesa é branca, eu estou dizendo que a mesa é o que ela não é! Então, para o megárico e o cínico, eu só posso produzir um tipo de enunciado "a mesa é mesa", "o branco é branco", "a rosa é rosa", e assim por diante.

É exatamente por causa disso que Platão escreveu sua obra chamada "O Sofista". Ele escreve essa obra inteira para destruir os enunciados megáricos e cínicos - O Sofista; e o Aristóteles escreve uma "Física" e uma "Metafísica" para destruí-los. O Aristóteles escreve uma física e uma metafísica, escreve toda uma obra para destruir essas proposições cínicas e megáricas da impossibilidade da predicação. (Certo?)

Então, é esse tema que nós vamos entrar - e na próxima aula eu começo a dar mais devagar - para vocês entenderem o que é exatamente o processo megárico e o cínico. E eu trago um pequeno texto para vocês lerem (certo?). E a partir daí nós começaremos a entrar - e eu vou tentar facilitar - no que vem a ser a metafísica platônica em "O sofista" e no que é a proposição aristotélica, para romper com essas duas questões levantadas pelo megárico e pelo cínico. Nas soluções platônicas e nas soluções aristotélicas! Em seguida, mais para frente, nós trabalharemos nas soluções hegelianas e vamos pensar de que maneira Nietzsche, Lucrécio, e outros pensadores vão pensar a mesma coisa. (Certo?)

(Está bom por hoje, não está?)

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8 opiniões sobre “Aula de 14/03/1989 – A idéia de matéria”

  1. Genial, um verdadeiro tesouro, este material. Iniciativa excelente, muito importante para o aprenizado de quem, como eu, nao teve oportunidade de ser aluno do Claudio, mas tem interesse em filosofia.

  2. A exposição do professor Cláudio é demasiada concisa. Fico grato pela iniciativa de vocês… Estou fazendo minhas pesquisas para a monografia e este site está sendo muito, muito útil. Obrigado!

  3. Belo texto: sábio. E sábio por tentar articular nos intervalos do que é estável, aquilo que é constituinte do movimento, do fluir, do devir. Por isso, o estável viaja em nós. E o faz, desestabilizando,reestabilizando,estabilizando,desestabilizando… na constituição de um meio, de um processo…Parabéns póstumos ao Prof. Cláudio. Parabéns a todos os seus divulgadores.Que o trabalho de todos se multiplique. Edson

  4. Para mim o Cláudio Ulpiano é um convite à antiimistificação da vida. Ele nos conduz no árduo e prazeiroso trabalho na busca pelo pensamento. Como eu gosto dessas aulas, me sinto revitalizada… mais uma vez parabéns a vocês que nos presenteiam com esse material.

  5. Essa aula é fundamental principalmente porque revela que o Nietzche pode ser compreendido à partir de Platão e seus mundos: o sensível e o intelegível.O mundo intelegível estaria fora do mundo sensível que o imita.Na explicação do Cláudio, ,Nietzche também considera dois mundos,porém no lugar do mundo das formas intelegíveis está o cáos.Isso é muito simples,mas eu só entendi hoje! Pensar o cáos vem a ser a tão misteriosa dobra,ou subjetivação.Entender eu entendi,mas pergunto se funciona?

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