Aula de 15/05/1995 – Movimento extenso e movimento intenso: indivíduo e singularidade

Eu vou apontar um filme do Joseph Losey chamado A Casa de bonecas. É uma história do Strindberg, com a Jane Fonda, a Delphine Seyrig - sabe quem é ela? Aquela atriz de O Ano Passado em Mariembad - com aquele ator que trabalha em Providence, David Warner e mais um inglês famoso, o Trevor Howard. O diretor é Joseph Losey. O que é que eu quero que vocês saibam nesse filme? É que nele tem muito claro o meio geográfico e o meio histórico. O meio geográfico é a cidade que está dentro de um campo de neve. Tudo é neve, e as casas instaladas ali [nessa neve]. Se o povo daquele lugar dormir três dias, a neve toma a casa! O meio geográfico é a neve e o meio histórico são as casas. (Vocês entenderam?) Esse meio geográfico e esse meio histórico têm um nome que se utiliza no universo deleuzeano - bloco de espaço-tempo. (A coisa mais fácil do mundo!) Todo indivíduo está necessariamente dentro de um bloco de espaço-tempo. (Vamos marcar isso, hein?) Se ele está dentro de um bloco de espaço-tempo, ele é necessariamente - eu vou usar dessa maneira, que é a melhor, embora possa parecer um pouco chato! - Se ele está dentro de um bloco de espaço-tempo, ele é historicizado: ele tem uma história. Ele cria uma história, ele está dentro de uma história... E quando você tem uma história... (Vocês estão entendendo?)

- Quando é que há história? É quando o indivíduo está num bloco de espaço-tempo - que é o meio geográfico e o meio histórico.

Agora, ter uma história é o quê? (Prestem atenção, a aula vai começar a ficar difícil!) Ter uma história é estar dentro de um bloco de espaço-tempo. O que é necessário para ter uma história? É estar dentro de um bloco de espaço-tempo. (Certo?) (Eu vou dar uma arriscada, e depois eu abandono!)

Nos EE.UU., apareceu um diretor de cinema chamado John Cassavetes. Vocês conhecem? Esse autor tem um filme chamado Faces - eu tenho esse filme! - e outro chamado Shadows. (Tá?) Esses dois filmes procuram - ambos - retirar (olha que loucura o que eu vou dizer!) retirar o indivíduo do bloco de espaço-tempo. Pirou! O professor pirou, o Cassavetes pirou, o mundo pirou, acaba a aula, fecha a luz e vamos embora! Ele procura retirar o indivíduo do bloco de espaço-tempo!

Agora: qual é a possibilidade que o cinema tem de tirar o indivíduo do bloco de espaço-tempo? Será que o cinema pode tirar o indivíduo do bloco de espaço-tempo? Pode! O cinema pode fazer isso por Primeiro plano. Vocês sabem o que é o primeiro plano? É o close. A função do primeiro plano é retirar, abstrair - é o melhor nome! - do indivíduo o bloco de espaço-tempo. Você abstrai do indivíduo o bloco de espaço-tempo. (Vamos dizer assim!) Abstrai o bloco... para ser indivíduo tem que estar dentro de um bloco de espaço-tempo. O primeiro plano extrai o bloco de espaço-tempo. Aí o indivíduo se torna o quê? Uma singularidade! (Vejam se entenderam!)

Alª.: Você falou que o ---------??-----, que Deus é uma singularidade..

Cl.: Eu não falei que Deus era uma singularidade, não. Eu disse que Deus era um indivíduo. Eu não disse que Deus era uma singularidade! Eu disse que se Deus existe, ele era um indivíduo. Foi isso que eu disse! Eu disse e repeti diversas vezes que o indivíduo era sinônimo de quê? Existência. Se Deus existe, ele é um indivíduo.

O ---- é do território dos indivíduos e o transcendental, da singularidade, (tá?) Já nomeamos isso. Os indivíduos são dois: o físico e o vivo. Vivo! Atenção, agora: vai passar uma sinonímia. Indivíduo vivo, sinônimo: organismo. E todo organismo pressupõe um meio - geográfico e/ ou histórico - que se chama bloco de espaço-tempo. (Tá bem aqui? Então muito bem!)

Não há um indivíduo vivo fora do bloco de espaço-tempo: não pode haver! E não há indivíduo vivo fora da sua relação necessária com o meio. Então, o indivíduo vivo está dentro de um bloco de espaço-tempo.

Agora eu sou um cineasta. Pego a minha máquina e vou filmar o rosto do J--. Vou fazer um contra-plongé aqui no J--. Só peguei o rosto dele! E aí eu pego o rosto dele, que eu acabei de filmar, e projeto na tela. Aí aparece o rosto do J-- desse tamanho [Claudio faz um gesto indicando o tamanho de uma tela], que nós chamamos de close. O rosto dele vai ocupar a tela toda! No momento em que o rosto ocupa a tela inteira - desaparece o bloco de espaço-tempo.

Porque, no cinema, o bloco de espaço-tempo pressupõe um plano médio e um plano geral. (Vocês entenderam?) Então, o primeiro plano no cinema - é um acontecimento excepcional para o pensamento. Porque o primeiro plano, ao retirar o bloco de espaço-tempo, ele retira o...

Alª.: Meio!

Cl.: Não! Retira o indivíduo! O bloco de espaço-tempo é o meio! Retirado o bloco de espaço-tempo, o indivíduo não pode [existir]. Sem o bloco de espaço-tempo, o indivíduo desaparece. (Entenderam?)

Al.: Eu acho que eu entendi, mas não sei se eu concordo!

É a coisa mais simples do mundo, filha. Não tem nada de anormal no que eu estou dizendo. Não é possível haver indivíduo fora do bloco de espaço-tempo, que é o meio geográfico ou meio histórico. Se no primeiro plano você retira o bloco de espaço-tempo - isso se chama abstração - extrai o bloco de espaço-tempo, o que sobra ali não é o indivíduo, chama-se singularidade. Então, dentre os autores que trabalham com o primeiro plano, vamos ver um moderno que trabalhe excessivamente com o primeiro plano: vamos dizer Bergman. No primeiro plano, você não tem indivíduo. É isso que você tem que compreender! Nós não podemos ter nenhuma resistência aí porque você vai ver que a resistência é absolutamente desnecessária, porque na frente você vai entender isso com a maior clareza.

Definição de indivíduo vivo: não há indivíduo vivo sem bloco de espaço-tempo. O bloco de espaço-tempo é igual ao meio geográfico e ao meio histórico. Esse meio geográfico e esse meio histórico lançam um desafio ao indivíduo e ele vai dar uma resposta.

Agora, nova nomenclatura: o bloco de espaço-tempo - que se chama meio geográfico e meio histórico - pode ser chamado também de SITUAÇÃO - que é uma linguagem inclusive do EXISTENCIALISMO.

Alº.: A palavra circunstância também poderia ser usada?

Cl.: Circunstância também poderia, mas eu não vou usar já. Circunstância não é bem a mesma coisa que situação. Circunstância é uma espécie de perímetro, é aquilo que circunda. (Não é?)

Então: BLOCO DE ESPAÇO-TEMPO; MEIO GEOGRÁFICO e MEIO HISTÓRICO; SITUAÇÃO.

Todo indivíduo vivo está em situação. (Vocês entenderam aqui?) Necessariamente ele está em situação. Esse indivíduo vivo recebe um desafio dessa situação... e vai - imediatamente - dar uma resposta a esse desafio. Isso é o modelo do Western.

- O que é o Western?

O Western é o indivíduo, dentro de um bloco de espaço-tempo, num meio geográfico e histórico, logo: numa situação - que lhe envia um desafio, ao qual ele responde. (Entenderam?) Então, sempre que vocês pegarem um Western, o processo é esse. O processo é uma situação desafiando um indivíduo, que pode ser o Gary Cooper, pode ser o John Wayne, pode ser o James Stewart, pode ser o Clint Eastwood, (não é?) Os grandes heróis...

Alº.: James Stewart pode ser o Janela Indiscreta.

Cl.: Não, Janela Indiscreta já é o Hitchcock - já é outra questão! O Hitchcock já é outra questão, não tem nada a ver com o problema do cinema do John Wayne, do John Ford. Completamente diferente! Isso daqui é o que se chama CINEMA REALISTA.

No cinema realista e na literatura realista - é a mesma coisa. Na literatura realista, no cinema realista, na ciência realista - o que se dá? O que acontece? Você tem diante de você indivíduos vivos e um bloco de espaço-tempo. Isso é o mundo realista. Indivíduo vivo e um bloco de espaço-tempo. Esse indivíduo vivo se depara com uma situação. Uma situação que projeta um desafio a ele. E a esse desafio, ele vai dar uma resposta. É o que na linguagem do cinema realista chama-se acting out. O indivíduo explode! Ele explode: produz uma reação. (Tá?)

- Qual é a minha preocupação em abandonar Espinoza , abandonar Deleuze e de repente entrar no cinema? Por que eu fiz isso? Eu fiz, porque o cinema de Hollywood, o cinema americano antes da guerra, é um cinema realista. Sendo um cinema realista, o que o cinema americano nos mostra são indivíduos dentro de determinados blocos de espaço-tempo. É isso que é o cinema realista.

Então, sempre que você for ao cinema e vir o chamado cinema realista...

- Quais são os cinemas realistas?

Western, cinema noir, esses cinemas históricos americanos, tudo isso são cinemas realistas.

E esses cinemas realistas retomam exatamente essa questão do indivíduo, que é o indivíduo incluído - necessariamente - dentro de um bloco de espaço-tempo. (Façam questões se for possível, se for necessário!)

Alª.: --?-- do primeiro plano, se você vai voltar hoje a isso?

Cl.: Vou tentar voltar. Primeiro plano você não conseguiu entender, (não é?) Alguma coisa te bloqueou!

Alª.: O que tem é a tela....

Cl.: Não, minha filha, presta atenção: pra gente aprender a fazer um trabalho de pensamento. Como é que a gente faz um trabalho de pensamento? É assim que a gente faz:

Você pega um objeto. Pega estes óculos. E você diz assim: estes óculos que estão aqui só podem existir se por acaso houver uma mesa em cima da qual eles estejam. Então, nós chegamos à conclusão que os óculos só podem existir se houver uma mesa para eles estarem em cima. Se eu tiro os óculos de cima da mesa, o que eu retiro deles? A existência! (Conseguiu entender?) É essa a questão do primeiro plano. Porque quando você tem o primeiro plano, que é um processo do cinema, o que ocorre - fundamentalmente - é o rompimento com o que se chama bloco de espaço-tempo. É isso que o primeiro plano faz. Mas como gerou uma dificuldade, gerou uma dificuldade nela, provavelmente gerou uma dificuldade em vocês... retiro o primeiro plano.

Als.: ------

Cl.: Eu vou reexplicar pra vocês. Vou reexplicar.

Alº.: --?-- enquanto conceitual!?

Alº.: De forma alguma! De forma alguma! Eu não iria dar pra vocês uma questão que é apenas conceitual, eu não iria fazer isso! Eu não seria um teórico, eu não seria um professor, eu vou re-explicar pra vocês entenderem. Então, vamos dar uma trabalhada no primeiro plano - pra vocês poderem entender que processo existe exatamente [ali], que permite falar o que eu acabei de falar.

O indivíduo vivo, que pra existir implica o quê? O meio! O meio, que a gente pode chamar de bloco de espaço-tempo, (não é?) Todo indivíduo vivo é constituído com o que se chama ESQUEMA SENSÓRIO-MOTOR.

(Se você não marcar, você vai perder! Tá? Daqui a pouco eu falo, você diz que não entende... Tem que marcar, porque senão eu não posso!)

- O que é exatamente o esquema sensório-motor?

É a capacidade que o vivo tem de apreender os movimentos que estão fora dele. O vivo apreende esses movimentos por sua parte chamada sensória. Por exemplo, o homem. O homem tem o seu sensório distribuído pelo seu corpo. Mas, no homem, o que é fundamentalmente sensório é o ROSTO. No nosso rosto, nós temos o poder de ver, o poder de ouvir, o poder de cheirar, o poder de sentir gosto. Então, o nosso rosto pode ser chamado de PORTA-SENSÓRIO. (Entendeu?) Então, o rosto, é chamado de porta-sensório, com toda a elegância possível, porque é verdade!

Todo o ser vivo... o homem - agora não importa o ser vivo, só o homem importa! O homem, quando se relaciona com o mundo, o sensório dele apreende o movimento que tem no mundo e transporta ou prolonga esse movimento para a sua parte motora. A sua parte motora devolve movimento ao mundo. Então, a parte sensória faz o quê? Apreende o movimento. E a parte motora? Devolve o movimento.

Por exemplo: a minha parte sensória vê ali o movimento de um tigre. O que a minha parte motora faz? Dá no pé! Ou, a minha parte sensória vê ali a Natasha Kinski. A minha parte motora vai conversar com a S-- [Cl. Cita o nome da mulher dele!] (Tá?) Então, o homem - não estou falando do vivo, para poder ficar claro! - ele tem dentro dele a sua parte sensória - que é chamada a PERCEPÇÃO (que é a mesma coisa! ). E tem a sua parte motora. Agora: entre a parte sensória e a parte motora existe o que se chama o PEQUENO INTERVALO. Esse pequeno intervalo (é para qualquer vivo, mas eu estou preferindo o homem - pra vocês entenderem!) Esse pequeno intervalo é quando a parte sensória recebe o movimento do mundo e remete esse movimento para a parte motora - esse movimento vai passar por esse pequeno intervalo. E esse pequeno intervalo vai decidir que tipo de resposta vai ser dado.

Então, eu posso dizer que - no homem - esse pequeno intervalo é o CÉREBRO - que vai responder: dar resposta aos movimentos que o sensório apreendeu. (Compreenderam?)

Então, todo homem é constituído de um CORPO e esse corpo tem um ESQUEMA SENSÓRIO-MOTOR. (Certo?) Logo, o homem é um ser que age e reage aos movimentos do mundo. Ou seja: o homem é um ACTANTE. Ele é ativo: ele recebe movimento - pah! - devolve o movimento. Esse é o modelo do cinema realista. (Tá?)

Agora: quando você pega a parte sensória - ela se chama PERCEPÇÃO. Quando você pega a parte motora - ela se chama AÇÃO. Então, todos os filmes chamados FILMES DE AÇÃO são filmes onde a parte motora predomina. (Entendido até aqui?)

Agora: esse pequeno intervalo - que está entre o sensório e o motor; entre a percepção e a ação ou reação - chama-se AFECÇÃO.

Alª.: o que está entre o quê?

Cl.: O que está entre o sensório e o motor.

Alª.: O cérebro?

Cl.: Pode ser o cérebro, mas, aqui, vamos tirar esse cérebro para não dar complicação. Chama-se afecção.

Então, por exemplo: eu percebo um movimento no mundo. Quem percebe esse movimento no mundo chama-se a parte sensória. Essa parte sensória passa esse movimento imediatamente para a parte motora. Mas antes desse movimento chegar à parte motora, ele passa pela parte afetiva: ele passa pela AFECÇÃO. Essa afecção é o sentimento que nós temos do NOSSO PRÓPRIO CORPO. (Vocês entenderam?)

A parte sensória apreende os corpos que estão fora. A parte motora devolve movimento ou reage aos corpos que estão fora. A afecção apreende o nosso próprio corpo. (Tá?)

Então, eu vou dizer pra vocês, que existiriam três tipos de cinema: o CINEMA PERCEPÇÃO, o CINEMA AÇÃO, e o CINEMA AFECÇÃO. Existiria o sensório, o motor e a afecção. Agora, vamos entender isso:

Quando você pega o indivíduo... ele possui os três elementos. Ele possui o motor, o sensório e a afecção. Então, quando você se encontra com o indivíduo, ele está sendo afetado, ele está recebendo movimento e está devolvendo movimento. Então, você vai ver esse indivíduo se movimentando no bloco de espaço-tempo. Esse bloco de espaço-tempo pode ser um meio geográfico gelado, pode ser um meio geográfico sólido, pode ser uma ilha do Havaí, pode ser o que for. Esse indivíduo vivo está se movimentando ali dentro. Isso se chama AÇÃO do indivíduo. (Está claro?) É esse o processo que se dá.

Agora: o cinema vai inventar uma prática que as outras artes - mesmo a pintura, mas a pintura conseguiu! - tiveram dificuldade. Que é o quê? É sair do que se chama MOVIMENTO EXTENSO.

- O que é movimento extenso?

É o movimento que vem do mundo e o sensório pega, e o movimento que o motor devolve - a nossa parte motora. O movimento que vem do mundo e o sensório pega - chama-se movimento extenso. O movimento que a parte motora devolve ao mundo - chama-se movimento extenso. (Entenderam?) São DOIS tipos de movimento extenso. Só pode haver movimento extenso se houver um bloco de espaço-tempo. (Tá?) Senão não há movimento extenso. É com esse movimento extenso que a física trabalha.

O ROSTO do homem é SENSÓRIO. Ele é a parte sensória. Então, essa parte sensória - que é o nosso rosto - não está preparada para devolver movimento. Ela está totalmente preparada para receber movimento. Ela recebe movimento! (Vocês entenderam aqui?)

- O nosso rosto recebe o quê?

Als.: Movimento!

Cl.: Movimento, não é isso? E quem devolve movimento? O resto do corpo! A parte do rosto não está preparada para fazer a devolução do movimento, (tá?)

Agora, você pega o rosto, isola esse rosto do corpo, fica somente com esse rosto e tenta - através desse rosto - devolver movimento! Você tenta devolver movimento através do rosto. Como é que esse rosto vai devolver movimento? Ele vai devolver movimento POR AFETOS: um olho de ódio, um gesto de boca enraivecido, um nariz subido, um olho apaixonado. Ou seja: esse rosto devolve um [tipo de] movimento que se chama: MOVIMENTO INTENSO. Então, há uma diferença entre movimento intenso e movimento extenso. Esse movimento intenso só se dá - quando o rosto responde aos movimentos que vêm de fora; e ele responde por esses movimentos [chamados] intensos. Esses movimentos intensos é toda a questão do primeiro plano.

Na verdade, o primeiro plano não se preocupa somente com o rosto. TUDO o que se colocar no PRIMEIRO PLANO vira - imediatamente - MOVIMENTO INTENSO. (Vejam se vocês entenderam?) Entrou no primeiro plano - vira movimento intenso!

Se vocês quiserem ter uma comprovação MUITO BONITA disso, vejam um filme do ZINNEMANN chamado MATAR OU MORRER - em que o primeiro plano é o RELÓGIO.

O que eu estou explicando pra vocês é que o primeiro plano é a presença do que se chama MOVIMENTO INTENSO. E no movimento intenso não há bloco de espaço-tempo.

(Agora, vocês perguntem pra ver se houve compreensão.)

Você vai pegar grandes artistas do primeiro plano. Por exemplo, Bergman é um deles; Cassavetes é outro deles. Então, quando você trabalha com o primeiro plano, a sua questão não é o bloco de espaço-tempo, que o cinema do espaço-tempo é EXTENSÃO. A questão do primeiro plano é a INTENSIDADE. A única coisa que o primeiro plano faz...

Parte 2

O inseto caçador e o inseto caçado nunca se viram e não se conhecem. (Vejam se entenderam?) Eles nunca se viram e não se conhecem, ou seja, o inseto que está caçando nunca experimentou o outro inseto em sua experiência. E a experiência que seus antepassados tiveram não lhe foi transmitida. O que significa que o inseto que caça tem dentro de si uma parte do inseto caçado. (Vocês entenderam isso ou não?) Ele contém uma parte do inseto caçado - essa parte faz parte dele. É como se o inseto caçador trouxesse - em seu interior - um MAPA ou uma CARTOGRAFIA dos AFETOS e das FORÇAS do inseto caçado. Isso é que se chama POLIFONIA. (Vocês conseguiram entender ou ficou difícil?)

Alª.: Como é o nome?

Cl.: Uma polifonia, no sentido que polifonia é um PONTO e um CONTRAPONTO. O inseto caçador traz dentro de si pedaços do código do outro inseto. Ao ponto, de que ele é capaz de agir com a mais integral perfeição. E essa perfeição [com] que ele age - se não agisse - a espécie do inseto caçador desapareceria. Então, quando a Natureza cria alguma coisa, imediatamente cria [também] o seu contraponto. Ela nunca cria um elemento só - cria sempre uma COMPOSIÇÃO!

E aí vocês viram que coisa interessante: para o inseto caçador, a relação com o inseto caçado é uma COMPOSIÇÃO. Para o inseto caçado, é uma DECOMPOSIÇÃO. (Vocês entenderam?)

Mais agora há coisas mais notáveis! Você encontra na Natureza uma relação estranhíssima, por exemplo, entre uma abelha e uma orquídea. A orquídea constrói - dentro dela, com aquele tecido vegetal - um SIMULACRO de corpo de abelha. Para que a vespa se excite com aquele corpo, mergulhe na orquídea e se suje de pólen, e carregue aquele pólen para outras orquídeas. Então, a abelha e a orquídea fazem na Natureza o que se chama núpcias contra natura. Ou invente uma sexualidade que não é bi, hétero, nem homo. E isso daí são as composições que a Natureza, na sua POLIFONIA, produz.

Al.: E o que é a Essência?

Cl.: Não seria para agora. Agora, não, que vocês não vão entender! É impossível! Eu estou dando a NOÇÃO COMUM, a coisa mais incrível do mundo da noção comum, o que é fantástico na noção comum é que nós pensamos que a Natureza de cada coisa, por exemplo a do cachorro, só se relaciona com o cachorro. Eu estou dizendo que não! A Natureza é constituída de inúmeras [relações] que se chamam CONTRANATURA. Que são esses pontos e contrapontos os mais estranhos possíveis. Então, o Espinoza está mostrando (eu ainda não estou usando as palavras técnicas dele!) que o modelo que nós temos da Natureza é um modelo teológico. Na hora que você encontra um processo sexual entre uma abelha e uma orquídea, ou entre uma gota d água e uma folha, ou entre uma formiga e uma árvore ou entre uma mosca e uma aranha, você encontra as composições mais incríveis possíveis. Você começa a romper com a compreensão que você tem da Natureza constituída como um conjunto de possíveis. Porque você começa a se encontrar com composições que são inteiramente PARADOXAIS. (Entenderam aqui?) As composições mais paradoxais possíveis, porque esse inseto que eu citei, quando ele anestesia o outro inseto, ele é mais preciso que o mais preciso dos neurocirurgiões humanos. Ele é mais preciso que uma máquina laser. Ainda que ele nem conhecesse aquele outro inseto. E ele não conhece nem mesmo os seus instrumentos. O que mostra que a Natureza ergue um universo de composições e de decomposições - que eu chamo de NOÇÕES COMUNS. (Entenderam?)

E começa a aparecer pra nós - ainda vagamente - todo um sistema de Natureza que nós sequer poderíamos imaginar.

Por exemplo, agora para a C--: Se eu pusesse essa posição que eu expliquei para vocês que é dessas composições notáveis que a Natureza faz - o que eu chamei de NÚPCIAS CONTRA-NATURA - se eu colocasse essa questão para debate, vocês nunca chegariam ao entendimento dela. Porque quando nós entramos e constituímos um PROBLEMA, ou seja: eu constituí um problema pra vocês - a POLIFONIA; constituí outro problema - a NOÇÃO COMUM; constituí um problema concreto - que são as NÚPCIAS CONTRA-NATURA, o que vocês têm que fazer agora é procurar entender o que está acontecendo aqui. Por exemplo, no momento em que aquele inseto pica o outro, esse processo que aquele inseto está fazendo é um processo do mais completo entendimento. Significa que o inseto que picou entende - com a maior perfeição - o sistema nervoso do inseto que foi picado. Ele entende com a maior perfeição! Como é que isso pode se dar na Natureza?

Al.: Sem conhecer!?

Cl.: Nada, ele nunca viu! Nunca viu e nunca verá! Porque, inclusive, o tempo de vida desse inseto é de um dia, dois dias no máximo! Ele morre! Porque ele pica o inseto para deixá-lo como alimento pros ovos. Ele deixa aquele alimento pras larvas! Se o inseto tiver vivo, ele foge. Se tiver morto, apodrece e os alimentos não servem. Então, se ele errar na picada ele ameaça o desaparecimento da sua espécie. Então, a Natureza traz um processo que eu estou chamando de Núpcias Contra-Natura. Mas essas Núpcias Contra-Natura é mais grave do que vocês estão pensando. Não são Núpcias Contra-Natura entre uma abelha e uma orquídea. Não é isso! É que dentro do código genético da abelha tem partes do código genético da orquídea. Então, a Natureza constrói esses estranhos contrapontos. Ou seja: o que você vai ver no interior da Natureza são essas composições que a simples observação - que eu ainda não estou em Espinoza, estou longe de Espinoza: apenas pequenos exemplos... - Mas essa simples exposição, essas simples bodas contra-natura não quebram o modelo que a sexualidade é hétero ou homo? (Ou vocês não entenderam?)

No momento em que você se envolve com as forças da sexualidade natural, esse modelo humano da sexualidade imediatamente se desfaz.

Al.: Pela própria Natureza!

Cl.: Pela própria Natureza!!

E nós constituímos - vejam o que é obediência e o que é ignorância: nós constituímos as nossas alegrias e os nossos sofrimentos pelos valores que se põem em cima da nossa sexualidade! Ou seja: nós passamos a nossa vida submetidos a MITOS. E a única maneira de se confrontar com esses mitos é o ENTENDIMENTO.

Somente com o entendimento que você começa a desmanchar essas forças míticas que caem sobre nós e impedem que a nossa vida se processe. Então, Espinoza está mostrando que o saber humano - aqui também ainda vai ficar um pouco difícil! - é modelado por aquilo que a consciência - a nossa consciência - estabelece. Todo o nosso saber é estabelecido por aquilo que a nossa consciência estabelece.

Espinoza diz: a consciência é sinônimo de ignorância. Consciência e ignorância para ele é a mesma coisa. No sentido de que a consciência nunca poderá entender as relações da Natureza - a NOÇÂO COMUM. Por quê? Porque as noções comuns são as forças causais da Natureza. E a consciência não entende de causas. Ela só entende de efeitos.

Então, não é que a nossa consciência esteja impedida de conhecer. Não!!! É porque a essência da própria consciência não lhe permite conhecer [as relações causais da Natureza]. Então, a única maneira, diz o Espinoza, que nós temos para nos confrontar com a nossa consciência - que é aquela que quer constituir debates, quer constituir disputas, quer constituir lutas, confrontos... para nós nos confrontarmos com ela, só há uma maneira - aumentar a POTÊNCIA da nossa compreensão.

Então, aumentar a potência da nossa compreensão é o principal processo da obra do Espinoza. Porque nós então vamos começar a distinguir o que é entender as relações de força e os mecanismos míticos que funcionam na consciência - que é o final de aula que eu vou explicar pra vocês. (Tá?) Como é que a consciência funciona.

Alª.: O instinto está dentro dessa noção que a gente tem de consciência ou está fora?

Cl.: O instinto (deixa eu só responder pra ela!?) O instinto é alguma coisa... - prestem atenção! A vida inventou o instinto. Prestem atenção! Quem inventou o instinto? A vida.

Por exemplo: vamos ver outra vez: Quem inventou a ligação do Pão de Açúcar com o Morro da Urca: foi um sujeito qualquer, que eu não sei o nome, (tá?)

Agora: Quem inventou o instinto? A vida inventou o instinto. Então, a vida inventou o instinto pra quê? Pra que a vida inventou o instinto? Ela inventa o instinto para que ele satisfaça as tendências do ser vivo. Então, você tem um ser vivo que tem uma tendência, por exemplo, a se alimentar, a força que vai levar à realização dessa tendência chama-se instinto. Mas acontece que existe um ser vivo que não tem instinto. Sabe como se chama esse ser? HOMEM. Então, como o homem não tem instinto, a Natureza vai inventar alguma coisa pra satisfazer as tendências dele.

- Quem é que satisfaz as tendências do mosquito? O instinto! Quem satisfaz as tendências da cobra? O instinto! Quem satisfaz as tendências do homem? As INSTITUIÇÕES! O homem inventa as instituições para satisfazer as suas tendências. (Você entendeu?) Então, o instinto nada mais é do que uma invenção da vida. Da mesma forma que a vida inventa a instituição. Então, por que eu posso te dizer isso? Porque eu me esforço para aumentar a potência do meu entendimento. Distinguir exatamente como é que as coisas funcionam.

Agora eu vou dar uma explicação ainda não-espinozista - ainda muito sem rigor - do que vem a ser a consciência. O que é exatamente a consciência.

A consciência não é uma entidade. Ela não é uma coisa, como por exemplo o estômago é uma coisa; ela não é um órgão, como por exemplo um coração é um órgão. Mas a consciência é o conjunto de marcas que um homem tem ao longo da sua vida. Por exemplo, eu sou um homem, uma criança: aí eu meto a mão no fogo; ao meter minha mão no fogo, ela se queima. Imediatamente uma marca aparece em mim. Qual a marca que apareceu em mim? Mão no fogo, queima! Essa marca fica; então, para Espinoza a consciência são as nossas marcas. Toda a nossa vida se processa exatamente pela constituição de uma série de marcas. Essas marcas que vão aparecendo em nós, nós as vamos relacionando pelos hábitos. Por exemplo: quando morre um parente de um homem ocidental, ele imediatamente o sepulta. Quando morre um parente de um homem africano, antes de tudo ele retira as suas vísceras. É isso que está dando problema com o vírus do Ébola, é isso! É isso que está fazendo com que o vírus se propague. Então, eu estou dizendo pra vocês que a consciência nada mais é que um conjunto de marcas organizado pelos hábitos. Por exemplo: na minha sociedade, todas as mulheres que comem narizes dos homens devem receber um cascudo. Na minha sociedade, sempre que eu encontrar uma mulher comendo o nariz de um homem, eu lhe dou um cascudo. A nossa consciência é o resultado das relações dos corpos. Ela é o resultado. E a maneira como ela funciona, é pelos hábitos. Ela apenas reproduz os hábitos.

Alª.: Você fala de consciência... a gente está acostumada com o termo em psicologia, né? Inconsciente, consciente... nesse caso aí é tudo junto: consciência... tem separação?

Cl.: Não! O que eu estou chamando de... eu não falei a palavra inconsciente!

Alª.: Mas existe também aí....

Cl.: Claro! A consciência... o importante é você compreender o que é a consciência. Entender o que é a sua consciência: você chega em casa, e examina. A consciência - a nossa consciência - é um conjunto de marcas. A essas marcas, nós damos nomes: nós nomeamos essas marcas! E essas marcas se relacionam - algumas se relacionam e outras se distanciam. O que faz essas marcas se relacionarem são os hábitos! Por exemplo: de manhã, M-- se levanta, lava o rosto, escova os dentes, veste uma roupa e sai para a rua. Quem é que fez isso? A consciência! Em função de quê? Dos hábitos! Os hábitos que organizam todas essas práticas. Então, a consciência é apenas as marcas. Ela não tem nenhuma força. Ela não tem poder de força nenhuma. Então, cada marca que ela tem, ela produz uma relação. Essas relações chamam-se hábitos.

- Como é que você produz os hábitos de uma consciência? Isso se chama EDUCAÇÃO. Você educa um povo constituindo um conjunto de hábitos naquele povo.

Al.: --

Cl.: É, você educa a sua gata? Exatamente! Você dá uns tapinhas nela, não é? Mas, provavelmente você não sabe, hoje estamos te dando uns tapinhas, sem você saber, (tá?)

Nós passamos a nossa vida - eu ainda não entrei em Espinoza, eu estou brincando com Espinoza! - nós passamos a nossa vida governados pela nossa consciência. E a nossa consciência...

- Sabe qual o nome que Espinoza dá a nossa consciência? A IGNORANTE! Ela é ignorante! Ignorante quer dizer: ignora as relações causais, as noções comuns e as essências das coisas. Ela ignora tudo! Por isso, a nossa consciência só age determinada pelos hábitos. Ela é tão ignorante que ela julga que os nossos hábitos são a nossa natureza. Ao ponto de que, quando ela encontra alguém que tem hábitos diferentes, ela quer destruir aquele que tem hábitos diferentes! E são apenas hábitos diferentes!

Então, a noção que Espinoza tem de consciência é a mais poderosa de todas. Ele considera que a consciência é exatamente aquilo que impede a vida de alcançar a liberdade. A consciência adora discutir, adora debater, ela adora essas coisas. Sabe por quê? Porque ela não entende nada. Só se debate, quando não se entende! Porque no momento que você entende, você não debate!

Vamos ver se você vai entender: 2+2=4. Vamos debater? Você vai debater o quê? Debater o quê? Quando um artista produz uma obra, você vai debater o quê? O que você tem que examinar naquilo que é produzido... - isso vocês devem marcar, porque isso é altamente espinozista! - O que você tem que examinar, naquilo que é produzido, é se o problema que foi constituído foi gerado com coordenadas excelentes! Você constitui um determinado problema - se aquele problema que foi constituído traz com ele as coordenadas principais, você segue aquele problema. Se não, você abandona! Ao invés de fazer um universo da tagarelice, das discussões tolas, dos debates sem sentido, das trocas de opinião - modelo televisão, modelo interview - você passa a quebrar essas forças dominantes da consciência e investe pra produzir novas noções comuns, afirmando a sua própria essência - e não buscando os equívocos e as tolices que a consciência produz.

Eu acho que foi bem esse processo de aula..., não é? Eu queria que vocês entendessem aqui... Há duas figuras pra nós voltarmos na próxima aula: A consciência são marcas. MARCAS. Eu vou até usar uma coisa muito fácil: é uma estrutura líquida. O cérebro é uma estrutura líquida, (não é?) É uma estrutura líquida! Então, as marcas chegam, batem e se desfazem. Mas nós temos uma coisa chamada memória. Memória de longa duração. A memória são as marcas que se solidificam. Isso que são as memórias que nós temos - são marcas solidificadas! Quando aquelas marcas se solidificam, elas viram hábito. Aí nós confundimos - aí é o homem tolo, o homem ignorante: ele é repugnante! Ele é simplesmente repugnante! Eu não o tolero! Porque ele confunde que as marcas dele são a própria Natureza! Então ele é asqueroso, nauseante, porque ele está sempre achando que aquelas marquinhas, que ele tem, são as coisas mais importantes que existem. Então, esse tipo de homem, eu estou falando isso pra vocês, se ele tomar o poder, ele se torna uma coisa terrível! Porque ele vai impor aquelas marcas em cima da própria vida.

Então, o que nós temos para estudar Espinoza, ainda num processo muito simplório para nós, é já termos uma noção do que ele está chamando de consciência. Então, eu acho que já na próxima aula eu posso dar uma apertada nas noções de consciência, nas noções de hábito, de noção comum e de essência.

Vocês entenderam bem o que eu chamei de consciência, como sendo... A consciência não é um órgão, hein? Não existe consciência - o que existe é o conjunto de marcas! Olha só o que eu vou dizer pra vocês: esse conjunto de marcas - que nós chamamos de consciência - é associado pelo hábito. Se você quebra a força do hábito, essas marcas se misturam delirantemente. Elas viram um DELÍRIO! Um delírio ASSUSTADOR!

Alª.: E o poder de dedução, como é que fica nisso?

Cl.: O poder de dedução ainda é da consciência.

Alª.: ---- cai na cabeça de todo mundo, um dia cai na cabeça do homem...

Cl.: O que você está perguntando, minha filha, não é o que é dedução. Você está perguntando é o que é IDÉIA GERAL, é isso que você está perguntando! Sua pergunta foi confusa. A dedução é uma prática chamada prática do raciocínio, que só pode se instalar se for construída alguma coisa chamada idéia geral.

- O que é uma idéia geral?

Eu expliquei, na aula passada, o que é idéia geral. A diferença de "a cadeira " para "esta cadeira ". A Cadeira é uma idéia geral! Vocês se lembram que eu expliquei isso na outra aula? "A cadeira " é uma idéia geral!

Alª.: Universal?

Cl.: É a mesma coisa! Então, o UNIVERSAL é um processo que a consciência tem de constituir a idéia universal através de um processo - que eu não vou explicar agora porque vai ser dificílimo, vai ser muito longo! - ela produz essa idéia geral, mas a essa idéia geral não corresponde nenhuma realidade. Nenhuma realidade corresponde a isso. Elas são inteiramente abstratas! Inteiramente abstratas! Então, nós temos que começar a aprender - agora colocando a questão dela - é se eu estou condenando (Estou!) a consciência? Eu não estou fazendo uma condenação da consciência, como sendo um conjunto de hábitos, ou melhor, um conjunto de marcas organizado por hábitos! Então, tem que haver alguma força além da consciência. Pode-se chamar INCONSCIENTE ou pode-se chamar PENSAMENTO. Ao invés de fazer da sua vida uma conseqüência da consciência, você faz da sua vida um PROCESSO DE PENSAMENTO.

Alº.: ------- passado do Freud?

Cl.: Não, até que o Freud - pelo contrário! Isso que eu disse aqui, que o que se chama memória seriam marcas da consciência endurecida, é freudiano! Foi Freud quem disse isso; muito bem dito! Porque o que nós chamamos de memória são apenas marcas que se endurecem! Isso que é a memória que nós temos. Então, tem um acontecimento na sua vida - no domingo aconteceu alguma coisa com você. Então, aquele acontecimento, você pode ou não se lembrar dele. Quando é que você vai se lembrar? Quando aquela marca SE ENDURECER; é isso que se chama MEMÓRIA DE LONGA DURAÇÃO! Nós, os homens, somos constituídos por memórias de longa duração.

No Universo do Nietzsche, essa memória de longa duração chama-se FACULDADE DO SOFRIMENTO O que nos faz sofrer muito é essa memória de longa duração! Essa incapacidade que nós temos de nos esquecer. Nós nos lembramos demais! Por isso, nós sofremos, nós odiamos, nós queremos vingança! Então, é preciso quebrar o poder da consciência, quebrar essa memória de longa duração, pra produzir uma vida superior. Isso apenas num início de aula...

(Acho que foi bem, não é?)

Als.: Foi ótimo!!!

Eu agora queria encerrar, dizendo pra vocês o seguinte: eu vou passar, não sei quanto tempo - não posso prever - trabalhando assim, livremente, sem entrar na conceituação teórica do Espinoza, ou [mesmo] entrando, sem anunciar pra vocês, até que num momento [qualquer] eu entro, [mas então] vocês vão se sentir perfeitamente confortáveis! Vou reproduzir: se eu começasse a dar Espinoza pra vocês, pegasse todo aquele aparato espiritual dele e passasse pra vocês, seria altamente desconfortável. E o pensamento é idêntico à nossa bunda: precisa de conforto. É preciso que a gente se conforte, no sentido de sentir-se bem com o nosso pensamento. Às vezes a gente evita dizer alguma coisa, porque aquilo vai quebrar o fio do processo que vocês estão usando, (tá?)

Então, essa aula foi isso! Nesta aula eu não utilizei nenhum conceito espinozista, a não ser o de NOÇÃO COMUM. Eu só usei esse conceito do Espinoza, mas sem nenhuma preocupação especial de explicá-lo, embora eu tenha dado um exemplo. O exemplo que eu dei foram as Núpcias Contra-Natura.

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3 opiniões sobre “Aula de 15/05/1995 – Movimento extenso e movimento intenso: indivíduo e singularidade”

  1. Ulpiano SABIA DAR AULA, ou melhor sabe – tenho aprendido mais com ele que muitos que estão vivos: é bem verdade que a materia nao é nada.

  2. estou delirando..rs…bom…mas,” lutar” contra toda uma história da existencia das “marcas”, dos “habitos” ( consciencia)…não é tarefa facil…ate por que mesmo “ciente” daquilo q aprisona o “pensamento”…ainda sim…preferimos o conforto dos hábitos ao exercicio da liberdade pelo “delirio”..sei lá..talvez uma outra forma de educaçao…bom…muito bacana..essa aula…nao vou ficar nessa de que o Ulpiano deveria estar vivo, presente em carne e osso…por que..cada aula que leio aqui, cada palavra, sinto o “desvio”Ulpiano presente..de qualquer forma…ele vive e ainda “afeta” a muitos como eu..

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