Aula de 19/01/1996 – A força imaterial da vida

[ Os trechos entre aspas correspondem à leitura de um texto escrito pelo Claudio para este curso ]

Primeira Parte

[...] uma linha do Artaud, uma linha do próprio Deleuze e de outros pensadores, em que eles não apenas dirão que a vida não se equivale ao organismo; dirão uma coisa a mais: que o organismo aprisiona a vida. Esse enunciado - que o organismo aprisiona a vida - é importantíssimo, porque a VIDA não é ORGÂNICA. Por enquanto [---], nós tiramos a equivalência; eu tiro a equivalência da vida com a força plástica... porque, na aula passada, eu fingi que vida e força plástica eram a mesma coisa - mas não são!

- Quantas forças estão aparecendo aqui? Duas - a FORÇA ELÁSTICA e a FORÇA PLÁSTICA. Mas também alguma coisa imaterial - uma força imaterial, que eu chamei - vagamente - de ALMA; e essa alma seria aquilo que não se equivale ao organismo. O melhor que vocês podem fazer agora é abrir as duas trilhas e não identificar; não equivaler a VIDA ao ORGANISMO.

(Vamos lá, hein?)

"Se for dito: uma potente vida não orgânica, então a vida não é equivalente à força plástica, embora o organismo seja equivalente à força plástica - organismo e força plástica é a mesma coisa." (Então, eu vou voltar... parece que nem todos apreenderam com perfeição o que estou dizendo). O que eu estou colocando é que a matéria é absolutamente NEUTRA. A matéria não tem nenhuma qualidade - ela é neutra; mas ela nunca aparece como neutra - porque ela é perpassada por duas forças: uma FORÇA ELÁSTICA - que constitui as relações físico-químicas da matéria; e uma FORÇA PLÁSTICA - que constitui a matéria orgânica. .. Em seguida, eu digo que a vida não se identifica ao organismo - não querendo dizer com isso que a vida não passe também pelo organismo.

" Enfim, vida e organismo não são a mesma coisa." Esse enunciado é básico pra nossa trilha: a vida e o organismo não são a mesma coisa! Eu vou passar a fazer uma oposição entre ORGÂNICO e CRISTALINO. Eu vou usar um sinônimo: cristalino seria a vida não-orgânica.

"O gótico, aquele que através da rosácea (as rosáceas das catedrais) colhe a luz do sol, e filtra a luz do sol nos vitrais como a luz de Deus." Então, como se a luz de fora fosse a luz do sol, e a de dentro da catedral fosse a luz de Deus. Essa luz é cristalina: já é um processo que o gótico usou para alterar a luz - ele altera a luz... através dos vitrais.

Agora vai aparecer o enunciado principal: "O homem gótico possui uma vontade espiritual que o coloca fora do organismo ". Ou seja: o que está sendo dito é que há um HOMEM ORGÂNICO, cujo destino é [integralmente] o próprio organismo - é o homem da falta, o homem da representação, um homem que não consegue suportar suas próprias inquietações. E um homem que eu estou dizendo ter uma VONTADE ESPIRITUAL - e essa vontade espiritual faz dele um homem diferente do homem orgânico.

Então, a tese básica é de que o homem orgânico é o responsável pela arte clássica - e o modelo que eu vou utilizar da arte clássica é a estatuária grega. A estatuária grega como o modelo da arte clássica; e o gótico e o barroco como aqueles que têm uma vontade espiritual; e tendo uma ' vontade espiritual ', eles quebram - em si próprios - o domínio do organismo.

"A espiritualidade gótica (agora vem um enunciado poderosíssimo! ) desfaz o princípio de individuação do organismo."

- O que é isso? A vida - quando aparece neste planeta - aparece como orgânica; e, aparecendo como orgânica, vai produzir em cada vivo, vai tornar cada vivo um INDIVÍDUO: cada vivo é um indivíduo. Por exemplo, você encontra quinhentas mil moscas - cada uma é um indivíduo; ou seja, a individuação é um principio que está atrelado à força plástica.

(Vamos voltar?)

O princípio de individuação está atrelado à força plástica. Logo, quando nós estávamos na força elástica, não havia princípio de individuação.

(Vamos voltar aqui?)

(Levantem o dedo a partir do instante em que vocês não compreenderem integralmente!)

Eu estou dizendo que a vida orgânica introduz um princípio de individuação: todo vivo é um individuo! Logo, a individuação aparece com a força plástica; mas - com a força elástica não existe individuação. Então, o enunciado é: "a espiritualidade gótica desfaz o princípio de individuação do organismo " - como no filme Persona, de Ingmar Bergman, em que o rosto perde os seus contornos:

- Quem viu esse filme? É com a Liv Ulman e a Bibi Andersson [respectivamente nos papéis de Elisabeth Vogler e da enfermeira Alma] O que acontece com elas [ali], é que o Bergman, em todo o processo do filme, vai retirando a individualidade das duas. Ele faz um processo de des individuação. E esse processo de desindividuação é a I coisa que retirar delas o domínio do orgânico, (viu?) Ou seja, o orgânico implica um principio de individuação.

Essa noção de principio de individuação é um conceito grego, é aristotélico, mas é retomado e perfeitamente formulado pelo medieval. Essa noção de princípio de individuação está associada à força plástica e ao organismo. Então, quando você pega um artista gótico ou neo-gótico; ou um artista barroco ou neo-barroco, a questão deles é fazer um processo de de-sin-di-vi-du-a-ção... (Vocês já vão entender isso!)

(Eu os aconselho a assistirem o filme [em cartaz na ocasião]: é uma experimentação, que eu ainda não posso mostrar perfeitamente; vamos esperar mais um pouco. Assistir a esse filme fortalece o entendimento da aula, porque vocês vão saber exatamente o que vai se processar ali; e eu posso trabalhar com o cinema, em termos de exemplo pra vocês).

Eu estou dizendo, então, que o Bergman é um neo -gótico - no sentido de que ele rompe com o princípio de individuação. E ele faz esse processo através do rosto da Liv Ullman e da Bibi Andersson - duas atrizes com que ele trabalha.

" Mundo gótico, que dota as coisas de uma vida não orgânica." Eu agora vou citar, vou entrar com o cinema, da mesma forma que eu fiz com a música, na aula passada, e vou fazer ainda mais com o cinema. Eu vou citar um diretor de cinema chamado Jori Ivens, que fez muitos curtas inteiramente góticos - no sentido de que todo o objetivo dele era produzir uma des individuação. Há um filme dele que se chama A Chuva (eu já passei para alguns alunos aqui.) Nesse filme, "a chuva goteja silenciosamente e hesita, em seus encontros com a vidraça, formam-se variações visuais, vertigem de águas, afetos e clarões intensivos ".

Cheguei ao ponto que eu queria: Afetos - Espinoza; Clarões - Leibniz.

O que acontece com a arte gótica e com a arte barroca, ou o que acontece com esses artistas que eu estou chamando de neo -góticos, é que eles vão produzir clarões intensos, clarões intensivos - que eu vou passar a explicar o que é. Ou seja, o artista gótico visa romper com o domínio das formas orgânicas, e como essa exposição que estou fazendo pra vocês é inteiramente original, inteiramente nova, - como eu disse na primeira aula - , então, não haveria como alguém dizer que não sabia o que eu estava dizendo e que depois iria adquirir um saber inteiramente novo; não se trata disso! Eu não estou dando pra vocês a explicação de alguma coisa que já existe. Essa aula é uma criação: eu estou criando alguma coisa de novo - a idéia de neo -gótico ou essa idéia de neo -barroco. Essa idéia é a produção, e por isso estou explicando continuamente para vocês o que vem a ser CLARÕES ou RELEVANTES em Leibniz, para vocês compreenderem o que vem a ser clarões intensivos, clarões histéricos, clarões góticos, ou seja, o mundo da arte é desvinculado do mundo orgânico da utilidade e dos interesses. Isso vai chegar a tal extremo da liberação do organismo que vai passar até nas práticas sexuais. Tentar produzir uma sexualidade não orgânica até nas práticas sexuais.

Alª.: Sexo histérico, poderia chamar assim?

Cl.: Sexo histérico, sexo histérico! Esses exemplos vão fortalecer a compreensão do que eu quero colocar, ou seja, sobretudo mostrar que nós caímos numa ilusão muito grande de que nós somos enclausurados no organismo: é falso! Nós sermos enclausurados no organismo é inteiramente falso; quer dizer: pode passar outra linha de vida, muito mais potente, sem os valores orgânicos.

Esta postura das duas linhas - a orgânica e a cristalina - levou os filósofos da Idade Média, todos eles santos, a misturarem Filosofia e Teologia. Mas os filósofos da Idade Média acusavam os filósofos gregos de pecadores - por serem pagãos; e, por serem pagãos - de não conhecerem a redenção; e, por não conhecerem a redenção - de não serem bem-aventurados. E há uma diferença, diziam esses filósofos medievais, entre o entendimento do bem-aventurado e o entendimento do pecador. O entendimento do bem-aventurado seria cristalino, o do pecador seria orgânico. Esse trabalho é feito de forma admirável pelos filósofos da Idade Média! Eu ainda não vou explicar pra vocês a diferença disso aqui; estou apenas assinalando que essa diferenciação passa em todas as linhas de pensamento. De um lado, essa colocação do orgânico que os medievais chamam de pecadores...

- Por que os gregos são pecadores?

Porque eles não conheceram a redenção!

E do outro, os cristãos - que conheceram a redenção, tornaram-se bem-aventurados e, por isso, são capazes de produzir um entendimento que o pagão jamais poderia produzir. Dentre eles, ver Deus cara a cara.

O único dos professores que francamente eu tive na minha vida (Não vou nem citar o nome dele hoje, tá?), quando estava perto de morrer, me disse assim: " Eu vou ver Deus cara a cara ". Ele era um bem-aventurado, (não é?) embora fosse muito pecador... (risos)

Então, é como se esse homem gótico, esse homem cristalino, esse homem bem-aventurado... HOMEM e BEM-AVENTURADO formam um choque, uma contradição - porque o homem é por natureza pecador, (certo?) Mas, por enquanto, eu vou usar assim...

Esse " homem " bem-aventurado é constituído por forças invisíveis - " como se o artista formasse um corpo glorioso, intensivo, para erguer no céu ou no inferno do homem figuras de sensação ", ou seja, o artista é mais ou menos a maçã do Cézanne.

Vejam bem, tudo o que eu estou citando - a maçã do Cézanne, os pecadores, os bem-aventurados - é absolutamente necessário. Esses enunciados, que estou trazendo, mesmo sem poder ainda expô-los com perfeição - porque essa segunda aula é a aula crítica, em que nós estamos fazendo a passagem para o infinito... Quer dizer, nesta aula, eu estou desencadeando todo um processo através do qual, na próxima, nós iremos penetrar no infinito.

Então, pra penetrar no infinito, é preciso que não seja orgânico, é preciso que seja cristalino, é preciso que seja bem-aventurado, porque as experimentações do infinito não podem ser feitas pela razão clássica - a razão clássica tolhe a passagem do infinito!

Agora, nesta aula, eu vou marcar pra vocês o fundamento de tudo que eu falo - é Deleuze. Deleuze é filósofo, é ele que percorre o infinito - como responsável pela beleza desse infinito! Então, toda a minha aula é centrada no Deleuze; e a busca da criação de conceitos.

Agora, eu paro aqui, e a aula volta ao normal! O que eu fiz - nesse esforço tremendo - foi, em menos de "15 minutos ", deixar passar pra vocês a idéia de que o organismo não equivale à vida, de que o organismo não esgota a vida, ou seja, de que a força plástica não é igual à totalidade da vida. (Certo?)

Na aula passada eu coloquei: força elástica, força plástica, ou melhor, coloquei inorgânico e anorgânico. E o ANORGÂNICO, eu disse que seria a força imaterial da alma, que é a mesma coisa, que eu estou colocando, como a vontade espiritual dos góticos. A partir de agora, eu vou começar a fazer um pouco diferente. Mas o fundamento de tudo são essas duas linhas - o cristalino e o orgânico.

Será que eu posso dizer pra vocês que ainda que o cristalino e o orgânico sejam duas linhas - que isso não constitui uma dualidade? Vejam bem: de um lado, o cristalino; e do outro, o orgânico - mas não formam uma dualidade, porque o conceito de dualidade, o conceito de contradição, o conceito de oposição pertencem ao mundo orgânico, ou seja: quando nós estamos mergulhados no mundo orgânico, uma série de conceitos - oposição, contradição - desencadeia-se desse mundo. Então, quando você usa esses conceitos, eles pertencem a esse mundo orgânico. Quando eu falo cristalino e orgânico, entre os dois não há uma oposição - porque a oposição pertence ao orgânico.

A base da aula (foram menos de "15 minutos " para explicar) é a distância que existe entre uma vida CRISTALINA e uma vida ORGÂNICA.

Eu vou tentar dar exemplos, utilizando-os com o máximo de suavidade; mas não posso sustentar esses exemplos sem explicação - porque a maioria não os conhece. Por isso vou trabalhar com m u i t a suavidade, para que vocês possam fazer - junto comigo - essa " passagem para o infinito ", que nós iremos fazer na terceira aula!

Eu agora vou citar um cineasta japonês chamado Ozu - um cineasta das décadas de 1930, 40. Pode-se dizer que o Ozu está para o cinema japonês assim como o Orson Welles está para o cinema americano; ou melhor, o que se diz do Orson Welles para o cinema enquanto tal, pode-se dizer a mesma coisa para o Ozu: esse japonês é um dos pontos mais altos do cinema. O Ozu faz do cinema dele...

Agora todos nós juntos - lentamente - sem nenhuma precipitação, para que vocês possam verificar o experimento que Ozu faz com o cinema:

O cinema - vocês sabem - é uma tela e uma imagem em movimento. Se vocês compararem o cinema a uma pintura, a pintura é a imagem parada; o cinema, a imagem em movimento. E a experiência que o Ozu faz no cinema busca tornar sensíveis duas coisas: o TEMPO e o PENSAMENTO.

- O que é tornar sensível? É fazer com que as coisas apareçam para sua experiência.

Por exemplo, quando você vai ao cinema ver esses filmes horrorosos que se costuma ver por ai, o que esses filmes tentam fazer é despertar em nós sentimentos abomináveis - tristezas insuportáveis, angustias intoleráveis. São esses " sentimentos " que o cinema comum procura despertar em nós!

O que o Ozu quer - com o cinema - é mostrar a farsa do tempo e a farsa do pensamento; ele quer tornar o tempo e o pensamento presentes para a nossa observação.

Vejam bem: quando eu digo tornar o tempo e o pensamento presentes para a nossa observação, muita gente pode pensar " mas pra quê tornar o tempo presente para observação... se eu tenho o relógio para olhar? Não! O relógio não é expressão do tempo! Estamos fazendo referência à EXPRESSÃO PURA DO TEMPO - porque essa passagem que vamos fazer para o infinito, vamos fazê-la nas asas do tempo. Então, o que o Ozu tenta fazer com o cinema dele é absolutamente original - mostrar o TEMPO e mostrar o PENSAMENTO como eles são. Então, o cinema de Ozu, não é um cinema que está atrás de assassinatos, atrás de incestos..., toda a questão dele é desencadear - através da tecnologia possível do cinema - a presença do tempo e a presença do pensamento. Isso se chama EXPERIÊNCIA CRISTALINA. Isso é uma experiência cristalina. Porque o homem orgânico - usando aqui um pleonasmo, uma tautologia, já que o homem é necessariamente orgânico - não faz essas experiências; pois ele sequer pode atingir o tempo puro, preso, que está, a uma série de componentes que o impedem de atingir aquilo que a vida cristalina pode atingir. O que estou dizendo, é que o Ozu pode ser classificado como um pensador neo -gótico.

Há um livro em português, chama-se " Ozu " (não me lembro a editora) com textos magníficos sobre ele. O Ozu, pelo o que estou dizendo pra vocês, é um pensador do tempo - e os grandes pensadores do tempo não foram muitos: Santo Agostinho, no século XX, Heidegger, Bergson, Maurice Blanchot, Deleuze e alguns cineastas, alguns literatos... Então, o Ozu se inscreve entre esses grandes pensadores que colocam o tempo como objeto de demonstração, como seu objeto de mostra, ou seja: ele quer fazer com que o tempo seja um CLARÃO.

Vejam agora: muitas das coisas que se passam nas nossas vidas, passam-se na mais completa obscuridade - nós não temos contato com muitas das coisas que se passam na nossa vida em termos de PERCEPÇÃO CLARA; inclusive os mais importantes afetos de nossas vidas, como o amor, como a tristeza, como a alegria, aparecem para nós CONFUSAMENTE! Então, o artista cristalino é aquele que quer - numa linguagem espinozista - tornar esses " afetos " PERCEPÇÕES absolutamente CLARAS. É como se você entrasse num filme do Ozu ou entrasse num texto, por exemplo, do David Herbert Lawrence - The Fox - e lá você tivesse claramente, para sua observação, as forças e as formas do tempo puro. É como se você ganhasse, na vida, uma postura impensável para o homem comum, ou seja: a quebra das suas amarras orgânicas para alcançar as EXPERIÊNCIAS SUBLIMES, atingindo níveis que quebram o domínio da representação orgânica.

( Eta, aula difícil! Sabe por quê? Porque nesta aula eu não posso senão transitar nas coisas - eu não posso mergulhar nelas - sob pena de nós nos perdermos...)

O que estou dizendo - agora numa linguagem quase que política, quase que jornalística, não que vocês precisem de uma linguagem desse tipo para compreender, mas em determinados momentos aquilo um conforto pra nós! O homem entrou no século XX com a soberba de que ele teria todas as suas questões resolvidas. Ele entrou com a soberba do inconsciente freudiano e da revolução marxista, (não é?) Os sinos bateram no inicio do século... e os homens acharam, então, que concluiriam o século com todas as suas questões resolvidas! Foi exatamente o contrário: foi o século dos fracassos, das decepções. Então é exatamente isso que estou apontando  - é a vida! Qual é a saída da vida? Todas as saídas da vida pela representação orgânica fracassaram e fracassarão, quer dizer, A VIDA SÓ TEM UMA SAÍDA: encontrar-se com ela própria - encontrar-se com sua postura cristalina. É isso que eu estou dizendo!

A ARTE é CONTINGENTE. Esse enunciado - a arte é contingente - está associado com o que eu disse na aula passada   - que cada um de nós tem que ADMINISTRAR sua própria vida - no sentido de que uma obra de arte - se ela não for produzida... ela simplesmente não foi produzida! Se o artista não a produzir, ninguém a produzirá! Se o artista recebe os meios para produzir, quer dizer, para produzir alguma coisa nova para a humanidade e não a produz - ninguém a produzirá! A arte é contingente: ela não tem que aparecer; ela aparece - se for produzida! Então, todos aqueles que têm uma potência, uma possibilidade ou um sonho, uma inquietação, uma inclinação para mergulhar nos mares do cristalino... que o faça!

- Mas o que são os clarões? São PERCEPÇÕES CLARAS (Agora vou passar um conceito de compreensão). Quando nós temos uma percepção clara... por exemplo: vocês estão ouvindo a aula que estou dando e a aula que vocês estão ouvindo, até certo ponto, vocês estão entendendo: isso se chama PERCEPÇÃO CLARA ou APERCEPÇÃO. Apercepção quer dizer uma percepção com consciência. Por exemplo, eu chego diante do mar e ouço o rumor do mar - aquele rumor das ondas do mar! Esse rumor das ondas do mar me aparece como aperceptivo: eu tenho percepção clara daquilo. Mas as gotas que se reúnem para formar aquela imensa trovoada e eu não tenho percepção delas - chamam-se MICRO-PERCEPÇÕES INCONSCIENTES.

Então, a nossa vida se dá por esses dois processos: as micro-percepções inconscientes, que nós temos; e as apercepções. As apercepções são percepções claras (Para ficar até mais compreensível do que isso) cada homem tem a capacidade (Eu vou limitar, hein? Eu vou limitar, porque é na aula que vem que eu vou entrar no infinito!), cada um de nós aqui nesta sala tem a capacidade de perceber inclusive movimentos moleculares. Mas esses movimentos moleculares, que nós estamos percebendo, não chegam a se tornar apercepções - eles ficam como pequenas percepções inconscientes que não chegam ao limiar da consciência. Então, a nossa vida se constitui pelas APERCEPÇÕES e pelas infinitas MICRO-PERCEPÇÕES.

Al ª: A apercepções se dão através do pensamento?

Cl.: Não. A apercepção você pode ter por um afeto ou por um clarão; por exemplo, você está aí sentada e, de repente, sem que você perceba, movimentos de falta de gordura no seu corpo, movimentos nas suas células - porque está havendo falta de gordura no seu corpo; movimento nas suas células - porque está havendo falta de sal no seu corpo; essas duas " faltas " você não percebe, mas quando elas se reúnem você tem a apercepção clara: estou com fome! Quer dizer: pra você dizer "estou com fome ", é preciso que mil micros movimentos se deem no seu corpo, ou seja, mil pequeninas fomes - que você não tem a apercepção. Então, não é preciso o pensamento; é preciso o que se chama uma RELAÇÃO DIFERENCIAL: é preciso que esses pequenos elementos se reúnam e apareçam para nós como uma apercepção.

Outro exemplo: você está com uma pessoa no saguão de um aeroporto, aí essa pessoa sai para ir ao toalete. Digamos que você goste dessa pessoa! E quando a pessoa sai, pequenas ansiedades começam a se formar no seu corpo, mil pequenas ansiedades; e a pessoa está no toalete e você não está se dando conta de que essas mil pequenas ansiedades estão com você, você fica assim... não sabe o que está se passando! De repente - se a demora é demais - e aquelas mil pequenas ansiedades se juntam - nasce a ansiedade como uma apercepção: você tem a percepção clara de que está ansiosa. A apercepção é isso: para se constituir, ela necessita das micro-percepções; as pequenas percepções têm que se juntar para que uma apercepção se dê. As apercepções são o que se chama o RELEVANTE. Nós só temos o relevante quando as micro percepções se juntam umas com as outras - falta de gordura, falta de sal, falta de iodo - tudo isso se junta, se relaciona, e aí eu digo - " Puxa, eu estou com fome!".

Ou então, o, meu corpo começa a se balançar nessa cadeira pra lá e pra cá, ai eu digo assim - " Puxa, esta cadeira está incomoda!" Quer dizer, aquelas micro relações se juntam e tornam-se um clarão - uma percepção clara! As nossas percepções claras pressupõem as micro-percepções!

Há um texto - The Fox - que eu acabei de ler ainda agora, de um autor chamado David Herbert Lawrence (D.H.Lawrence), em que há uma personagem, uma mulher, que só tem um relevante na cabeça - uma raposa: mais nada, mais nada! É a única coisa - quer dizer, [o repertório dela] é menor do que o de um carrapato [que tem três relevantes]: é o único relevante que aparece nela, e muitos homens... - nós somos assim ao longo de nossas vidas... há determinados momentos em que uma percepção clara aparece em nós... Então , prestem atenção:

A alma humana - o que eu chamei de força plástica, força elástica e chamei de alma: orgânico, inorgânico e anorgânico. .. A alma - o ser da alma - é PERCEBER; o ser do corpo - é MOVIMENTAR-SE. É essencial, essa definição! O corpo é aquilo que se movimenta; a alma, aquilo que percebe. A alma percebe! Mas quando a alma percebe, ela tem - ao mesmo tempo - uma inquietação: a alma humana ou a de qualquer ser vivo é inquieta; e essa inquietude é o que faz com que a alma mude de percepção. Eu vou dar um exemplo pra vocês, reproduzindo William Burroughs: ele diz que drogados de heroína perdem a potência da inquietude. De tal forma, que ele conhecia drogados que ficavam olhando, durante 40 horas, para o dedão do pé, sem se mover! Quebra -se a inquietude! A alma é - por essência; por natureza - percepção e inquietude; e, sendo inquietude, ela está sempre declinando para uma nova percepção. Ou seja, nós estamos integrados numa percepção, mas - pela inquietude - já tendemos a passar para outra percepção.

Então, eu vou marcar a alma como sendo esses dois elementos: percepção e inquietação. A inquietação é aquilo que permite que nós saiamos de uma percepção e entremos em outra: se não houvesse essa inquietação - nós ficaríamos congelados, como um " vídeo tape ", numa percepção só.

Alª.: [--?--] tem alguma relação dessa inquietude com [--?--]

Cl.: É exatamente o oposto! Porque o Leibniz tem uma formação de filosofia oriental muito grande, ele tem até um texto sobre a filosofia zen - e o que ele está dizendo é que a natureza da alma é inquieta - ela é inquieta; ela é uma TENSÃO. Uma tensão da vida - ela tende para essa inquietude! Por isso, o VIVO está constantemente abrindo novas superfícies: ele vive abrindo novas superfícies! Quando um " ser vivo " ou " um homem " cai numa tristeza profunda - ele perde a inquietude: é a possibilidade da morte! Então, Leibniz se opõe a esse budismo que prega uma quietude impossível pra alma; impossível pra alma! A alma é como um nadador - um " nadador " sem mar: ela quer mergulhar, ela quer conhecer as ondas! A vida é isso! A vida é isso! A vida é uma paixão pela inquietude. É uma paixão pela inquietude; é um desejo - quase permanente - de variação. Isso é vida! Quando esse processo se congela - é a crise da morte!

Cada alma, ou melhor... Nós temos apercepções (Acho que vai ficar claro o que eu vou dizer. Apercepções, vocês entenderam? Apercepção = percepção com consciência. Por exemplo, um " pequeno " animálculo me dá uma mordida - me fere! Mas ele é tão pequenininho, que eu não sinto a mordida dele - isso é uma percepção inconsciente; não é uma apercepção. A apercepção é quando a gente sente. Por exemplo:

(O que eu vou citar agora não é meu, é do Sócrates: )

- Quando nós temos uma frieira e a coçamos - nós temos a apercepção do prazer e da dor ao mesmo tempo, e ficamos inteiramente confusos - como é que pode? E não queremos curar a frieira... [risos!]

(Olha, eu vou retornar pra vocês:)

A Filosofia - da maneira que eu dou - ocorre uma coisa muito estranha, porque o futuro das nossas aulas vai alterar o passado. Isso que vocês estão entendendo agora - a partir da sexta ou sétima aula - quando vocês retornarem a esses textos, vocês vão entender de uma maneira diferente. É como se vocês penetrassem cada vez mais fundo - no texto.

Cada alma expressa o mundo inteiro. Cada alma expressa o mundo inteiro. (Acho que vocês poderiam tomar nota disso!) Cada alma expressa o mundo inteiro, mas essa expressão não é inteiramente aperceptiva; a expressão ela é - eu vou usar números idiotas! - 99,9% percepções inconscientes; 0,01%, uma apercepção. Mas a nossa alma - a alma de cada um de nós - expressa o mundo inteiro.

- Por quê? Porque a natureza é constituída por um principio (é só marcar!), um princípio chamado HARMONIA UNIVERSAL. A natureza é um princípio de harmonia - porque o barroco é musical... e esse princípio da harmonia universal é que todos os elementos estão ligados a todos os elementos. Se você perceber um elemento, você percebe o infinito do mundo inteiro; porque... o mundo inteiro é toda uma conjugação! Então, cada uma de nós tem a capacidade de perceber o mundo inteiro - mas só uma pequena parte aparece como apercepção. (Eu queria que isso ficasse bem nítido, porque isso é um processo de compreensão do pensamento que estou passando pra vocês.) Todos nós temos a capacidade de perceber, de expressar o mundo inteiro. Surpreendam-se: nós apreendemos um movimento molecular em Júpiter! Nós apreendemos tudo; nossa alma apreende tudo, mas ela só torna clara uma pequena parte - a aperceptiva.

Eu vou passar a chamar as almas - não interessa quem ou o que são essas almas - eu vou dar a elas - a essas almas - o nome de MÔNADAS, que quer dizer UNIDADE. Está surgindo - pela primeira vez - um conceito do Leibniz.

Eu vou chamar a mônada de ALMA. Cada mônada carrega consigo o mundo inteiro! Então, aparece uma coisa notável: as mônadas são finitas - mas contêm dentro delas o infinito do mundo inteiro. Portanto, cada mônada - por sua existência - expressa o mundo inteiro. Em termos de apercepção, no entanto, é apenas uma pequena parte.

A grande questão de vocês agora - nós vamos fazer isso do modo mais lento possível - é distinguir entre apercepção e pequenas percepções. A apercepção é a zona clara da consciência: é aquilo que percebemos... e que temos consciência de que estamos percebendo. Por exemplo, eu vou transformar uma pequena percepção de vocês em uma apercepção - o ventilador! Só eu falar, que vocês perceberam! Ele estava passando... e ninguém estava percebendo! Ele se torna apercepção no momento em que você joga sua atenção para ele. Por exemplo, um dos melhores processos para nós dormirmos - é dificílimo! - é a gente criar várias zonas, vários acontecimentos - um jogo de futebol, uma dança, uma música - e dividir a atenção entre todos aqueles acontecimentos que nós produzimos: a atenção jogada nos três... torna-se mortiça - e ela vai-nos dando sono. Porque a nossa atenção apreende apenas um bocado do mundo. A atenção de vocês está inteiramente dirigida para a minha fala. Estando dirigida à minha fala, vocês perdem os movimentos universais que estão passando ao lado de vocês: todos os movimentos se tornam pequenas percepções! Dizem que quem mora ao lado de um moinho a água, jamais ouve o barulho do rio... é que, exatamente, ele sai do campo da percepção. Isso daqui é pra vocês compreenderem que temos uma pequena camada de apercepção e um infinito de pequenas percepções - essa noção é o primeiro mergulho no infinito [...]

Lado B

[...] Nós somos seres mergulhados no infinito!

Nós já chegamos a uma hora de aula, sem praticamente entrar em nenhum mergulho difícil, e nessa uma hora de aula, o primeiro conceito do Leibniz - mônada - apareceu. Então, por enquanto, a palavra mônada - acho que isso vai ser definitivo - é sinônimo de alma. Mônada é sinônimo de alma.

Nós vamos começar uma das viagens mais bonitas do pensamento, perseguindo a mônada - que nós somos.

" Cada alma expressa o mundo inteiro, mas obscuramente, confusamente."

Cl.: Obscuramente e confusamente é igual a? Pequenas percepções! Por exemplo, cada um de nós nesse momento está mergulhado em coisas que a idéia de INFINITO pode nos fazer compreender. Por exemplo, se eu beijo a mulher amada eu sinto um prazer - e é um prazer como clarão, é um prazer como percepção clara, é uma apercepção - eu sinto prazer! É uma apercepção... Ou, então, quando sinto uma dor de cabeça - eu tenho a apercepção da dor de cabeça! O prazer e a dor são aperceptivos. Mas neste instante em que estou dando aula para vocês, eu não estou sentido nem prazer nem dor. É porque eu estou mergulhado nos semi -prazeres, e nas semi -dores - nós estamos mergulhados nos semi-prazeres e nas semi-dores! Quando esses semi-prazeres se juntarem... viram um prazer; e se as semi-dores se juntarem... viram uma dor. Então, a nossa vida se dá nesse mergulho, que nós fazemos, no que estou chamando de semi-dores e semi-prazeres. Esse enunciado não é difícil de entender, porque se nós prestarmos atenção ao nosso corpo, nós não passamos com o nosso corpo, em nosso cotidiano, nem no prazer nem na dor! A gente não sente nem prazer nem dor; o prazer e a dor são momentos de clarões, são momentos aperceptivos. De repente, você está assim, sentado, aí bate um vento em cima de você e você diz: " puxa, que delícia, que prazer!". O prazer tornou-se um clarão, mas você estava sentindo dor? Não, você estava mergulhado no que estou chamando de semi-prazer. Quando você puxa um pedaço de pau e vai bater num cachorro, na hora que você faz isso, o cachorro, que está mergulhado nos semi-prazeres e nas semi-dores, já começa a ter nele a evolução das dores, e passa pra percepção clara da dor.

" São essas percepções obscuras, confusas, que compõem nossas macro-percepções, nossas apercepções conscientes claras e distintas. Uma percepção consciente jamais aconteceria se não integrasse um infinito de pequenas percepções ".

Ou seja, você só constitui uma macro-percepção, você só constitui uma percepção consciente se você integrar   - integrar é relacionar - as pequenas percepções, as micro percepções.

A nossa vida - e ai vocês podem fazer um exame - se dá por clarões que emergem da confusão em que nós vivemos mergulhados. Nós estamos sempre mergulhados na confusão! De repente, salta um braço assim - zuc - sobe um foco de luz e ai forma-se aquela percepção clara. Muitas vezes o mergulho nessa confusão se dá e o retorno é difícil; o retorno, muitas vezes, é difícil! São esses momentos que a gente precisa de um auxílio terapêutico - a gente não consegue fazer o retorno, sair da confusão; mas essa " confusão " é o solo comum da nossa vida.

Alª: Existem também os micro-clarões!?

Cl.: Micro, o que você chamaria de micro-clarão, por exemplo? Por exemplo, aquilo que chamei de falta de gordura, isso seria um micro clarão, mas você não percebe! Seriam as pequenas fomes, as pequenas ansiedades - mas o clarão, eu estou chamando de apercepção.

Alª.: As pequenas... é.. quase um clarão.

Cl.: É um conceito bonito, que você está dizendo... um quase clarão. É, por exemplo, quando você... no meu caso - no meu caso antigamente, (não é?) - quando eu olho uma mulher bonita e... passa um quase clarão, quase um clarão. É mais ou menos isso! É bonito o que você está dizendo - quase clarão. Usa esse conceito: é teu; você criou esse conceito. " Quase clarão " é - quando a gente quase entende; quando a gente quase ama; quando a gente quase sofre... é bonito isso! É muito lindo isso! É verdade: n ós vivemos mergulhados no quase sofri; no quase amei; no quase tive raiva; nós vivemos mergulhados nisso,(não é?) Aquilo, de repente, se desfaz...

A nossa alma é essa confusão de micro-percepções. O que nos permite dizer que a nossa alma é constituída por um fundo sombrio. Eu queria que vocês marcassem esse conceito - FUNDO SOMBRIO. É assim o fundo da nossa alma! Os barrocos diziam fuscum subnigrum. A nossa alma é isso: um fundo sombrio. Ela é... os murmúrios do povo, as orações dos crentes, os volteios das ondas, o barulho das estrelas, os gritos das moléculas - isso é o fundo da nossa alma! Ela é, então, um fundo sombrio - e esse fundo sombrio é exatamente aquilo que os pintores barrocos colocavam no fundo dos seus quadros. Você pega uma tela do Caravaggio: o fundo da tela é marrom e vermelho; e marrom e vermelho é o fundo sombrio. Ou melhor, todos os pintores barrocos produziram fundos sombrios nas suas telas - porque queriam mostrar que daquele fundo sombrio se ergueriam as percepções claras. Davi segurando a cabeça de Golias, de Caravaggio. Então, fundo sombrio é um conceito definitivo e a gente saber disso - [ saber] transformar o fundo sombrio em conceito claro - torna a nossa vida mais bonita! Nós sabemos que somos constituídos por uma noite infinita e escura; e que dessa noite infinita e escura saem pequenas luzes que formam a nossa vida consciente.

Então, todos nós nos identificamos no fundo sombrio e nos diferenciamos nas percepções claras. A partir disso, eu estou dizendo pra vocês que existem infinitas mônadas, mas nenhuma mônada é igual à outra - porque elas variam nas suas percepções claras; elas diferem nas suas percepções claras!

Se você olha para um bloco de mármore, - e esse olhar é um olhar de Phídias, ou um olhar de Brancuzi, ou mesmo de Rodin - , esse olhar vai ver naquele bloco de mármore infinitas estátuas em potência; e o bloco de mármore ter infinitas estátuas em potência - é a expressão do que é a alma. A alma é isso! A alma são infinitas potencialidades. Infinitas potencialidades - é exatamente aquilo que define uma alma! Então, essa idéia, que estou passando, do bloco de mármore com infinitas... Olhem para um bloco de mármore: o bloco de mármore é cheio de veias, o mármore é cheio de veias. Aquelas veias são caminhos que as forças plásticas e as forças elásticas fazem no mármore. Mas as estátuas que estão em potência no mármore são as almas do mármore. E é exatamente isso que é a nossa alma! A nossa alma - ainda que ela seja finita - contém dentro dela o INFINITO do mundo inteiro.

Então, ela contém esse imenso mundo todo dentro dela - TODO DENTRO DELA! Não sei como a gente não se engasga!? Aliás... a gente se engasga: dá pra engasgar! A gente sente que alguma coisa grandiosa atravessa a gente... A gente sente isso!

"As pequenas percepções..." - Atenção! Acho que está clara a noção de pequenas percepções.

"As pequenas percepções são os componentes de cada percepção, elas são como que alfinetes, aguilhões,  - as pequenas percepções - , que constituem o estado da alma por excelência, a inquietude." Nós estamos aqui dentro de uma percepção clara, mas dentro de nós estão piscando as pequenas percepções como aguilhões, estão alfinetando nosso corpo, pra que a gente mude de percepção. Por isso, na nossa vida, a gente está eternamente em estado de passagem, sempre em estado de passagem, nós nunca estamos propriamente localizados, nós estamos em corredores de luz, prontos pra passar para outro tipo de percepção.

Alº.: [--?--] desenvolver nessa aula a capacidade de [---] de aprender [---]

Cl.: Aí, a sua pergunta... (marque o conceito que vou colocar!)...a sua pergunta levou o Espinoza e o Leibniz a constituírem um conceito chamado AUTÔMATO ESPIRITUAL (marque esse conceito!), que é um conceito dificílimo pra vocês compreenderem. Autômato espiritual. Sobretudo o Espinoza, porque ele produz um método para aumentar a potência do nosso entendimento, para que nós aumentemos a potência do nosso entendimento, para aumentar o poder dos nossos clarões! Isso se chama autômato espiritual - lá pela quinta aula eu volto a isso...

Essa questão do autômato espiritual são forças que vêm de fora - e que aumentam a potência do nosso entendimento. Por exemplo, vou fazer uma questão:

- Para que serve o cinema? Para enriquecer burguês? Para fazer crescer o capitalismo? Não, o cinema não nasceu pra isso, o cinema se desviou pra isso! Mas o cinema seriam vibrações que viriam de fora para aumentar o poder do nosso entendimento. A arte é isso! A arte - quando você ouve uma ópera, Der Ring des Nibelungen, do Wagner, quando você ouve uma ópera, quando um filme, quando você uma tela, quando um texto - aquilo libera vibrações do seu espírito, e ai o seu espírito aumenta a capacidade intelectual e se apaixona, cada vez mais, pelos caminhos de luz!

Alº.: Em que livro o Espinoza trata dessa questão?

Cl.: Na Ética, o livro principal do Espinoza é o Livro V, é o livro base do Espinoza; mas você vai encontrar o trabalho de Deleuze fazendo um longo exercício em cima do autômato espiritual, quer dizer, nenhum pensador, talvez o Darbon, que é um dos grandes comentaristas do Espinoza, e o Deleuze - que fizeram um grande trabalho no autômato espiritual. Hoje, o autômato espiritual é trabalhado pelos grandes teóricos do cinema do Cahiers de Cinema - são eles que procuram trabalhar isso daí.

Alª: Você podia repetir o que você acabou de dizer sobre o cinema - esse conceito no cinema?

Cl.: Eu estou dizendo cinema... Eu estou praticamente reproduzindo um enunciado do Artaud. .. O Artaud fez um roteiro (eu estou esquecido do nome do roteiro, viu?), e o roteiro caiu nas mãos de uma menina - uma cineasta chamada Germaine Dulac - e ela deu um caminhou para o roteiro do Artaud. .., encaminhou o roteiro dele pra uma linha que o deixou indignado. É aí, então, que ele vai dizer que o cinema são vibrações para nos forçar a pensar. Ele via isso no cinema; embora o cinema tenha sofrido um desvio - um desvio propriamente fascista, um desvio de Hollywood. Desviou-se completamente! Mas ele, como todas as artes...

A arte não é aquilo com que se lida apenas com fins de entretenimento e para ter pequenos prazeres orgânicos. A arte é cristalina. A arte é pra entrar em composições de vibrações e fazer com que você pense. A arte é para produzir pensamento! É para produzir um homem superior! Fazer da arte um campo de entretenimento é uma ilusão, é uma tolice orgânica - uma tolice orgânica insuportável! E é isso que vocês conhecem; que vocês sabem que existe, (não é?) A arte orgânica não é arte! É apenas alguma coisa que se faz antes do jantar, pra ganhar fome: você vai ao teatro, vai ao cinema, vai não sei o quê... e depois vai jantar. A arte não é isso! A arte é uma das experiências mais trágicas da vida - no sentido em que a arte força o pensamento a pensar. Não há aquele que leia um aforismo de Nietzsche e não peça - " por favor, um lápis, eu quero escrever " - é imediato! É como se fosse a única saída que você encontrasse. E a arte é isso, é essa vibração. (Eu vou voltar a essa questão, viu?)

(Vamos parar uns dez minutos e distribuir os textos...)

[---] relaciona... eles se chamam relações diferenciais. Então, quando se constitui a relação diferencial, aparece a SINGULARIDADE - que é o relevante. Então, o relevante se constitui pelos ordinários. Os ordinários são os elementos com o que o relevante se constitui - mas esses ordinários precisam entrar em relação diferencial. O melhor exemplo para vocês entenderem é o exemplo que eu dei de uma pessoa que está... por exemplo: um homem com a sua mulher amada. A mulher sai. O ato de a mulher sair, já produz nele uma inquietude - uma inquietude micro perceptiva - que ele não tem como relevante. Se ela demorar... aquelas micro percepções, aqueles ordinários se juntam... e formam um relevante - um CLARÃO - e ele se torna ansioso. É o melhor exemplo para vocês entenderem! O que quer dizer que todos os relevantes são constituídos por ordinários. Os ordinários são percepções que você não percebe - não percebe!

E agora eu volto a citar aquele cineasta chamado Ozu. O Ozu diz que a nossa vida cotidiana é feita de um conjunto de séries de ordinários, uma série de ordinários; ou seja: a nossa vida cotidiana é feita da série do almoço, da série do sono, da série do descanso, da série do ouvir a música, de ouvir as notícias do rádio, de conversar com um amigo, de olhar pela janela... Cada série dessas é uma série de ordinários que nós sequer damos conta do que estamos fazendo. E o Ozu, esse cineasta japonês, diz que esse é o processo da vida cotidiana e que se os homens conseguissem fazer de suas vidas uma série de ordinários - sem tornar nenhum ordinário relevante - eles nunca sofreriam. Por quê? Porque o que nos produz sofrimento é uma determinada série de ordinários [para a qual] nós damos grande relevância: a doença, a morte - tudo isso são séries de ordinários. O cinema de Ozu é simultaneamente uma Estética e uma Ética - porque o que ele quer mostrar [com o cinema dele,] é que o que complica a vida do homem é que ele mistura a série de ordinários: é a hora da filha - e nós misturamos a hora da filha com a hora do dinheiro; misturamos a hora do dinheiro com a hora do amor; misturamos as séries, e aquilo produz em nós uma profunda confusão, um profundo sofrimento. Se nós fizermos do nosso cotidiano séries de ordinários - nós buscaremos relevantes em outros lugares; por exemplo, na ARTE.

O que estou colocando pra vocês é uma coisa também do Leibniz, que diz que o homem é o único ser vivo que complica as séries - por isso o seu grande sofrimento! O homem sofre porque complica as séries: na hora da série do amor, ele atravessa com a série do dinheiro; na hora da série da tristeza, ele atravessa com a série da ansiedade - complica tudo! Não é preciso dizer isso pra vocês, porque vocês sabem mais do que eu, basta vocês se olharem... (Não é?)

A questão do Ozu e a do Leibniz é a mesma - de que esses sofrimentos que nós temos na vida são por não sabermos conviver com as séries dos ordinários, e vivermos querendo tornar relevantes coisas que não são. De um lado, então... O que eu vou dizer agora é inteiramente filosófico! De um lado, nós temos os agenciamentos de afetos do Espinoza; e, de outro, as relações diferenciadas do Leibniz: afetos em Spinoza e relações diferenciadas no Leibniz.

" O carrapato, o famoso carrapato, explica-se pelo Spinoza e explica-se pelo Leibniz, no Spinoza é um mundo com três afetos, com três afetos somente, no fundo da floresta inteira (Então, o carrapato está mergulhado numa floresta imensa!) e surge para ele aquele pequenino clarão. O resto é a noite imensa e infinita da floresta. Então, a alma contenta-se com poucas percepções claras e distinguidas."

Agora, eu passei a chamar a percepção clara - a apercepção - de percepção clara e distinguida.

O que estou dizendo para vocês, por exemplo, quando um de vocês vai escrever um texto, vai fazer um trabalho intelectual, aquele trabalho pressupõe uma percepção clara e distinguida. Se você não tiver uma percepção clara e distinguida daquilo que você está fazendo, a confusão começa a se constituir ali em cima: você começa a se perder e o texto vai embora. Ou então, você já está mergulhado na confusão e o texto vira aquela balburdia de 99% dos textos que conhecemos - aquela balburdia entristecedora, não é? Ele não é nada!

As nossas percepções claras - todas elas - são referidas ao nosso organismo! Por quê? Porque o organismo... (A força? Als: Plástica!) O organismo tem interesses, ele tem necessidades, e ele tem que efetuar a sua existência em termos de utilidade. Então, o organismo constitui para ele um conjunto de hábitos, que é o que a gente chama de reconhecimento. Por exemplo, os homens de uma mesma sociedade, quando se encontram, se reconhecem uns aos outros - porque estão mergulhados no hábito. Ou seja, a percepção esta mergulhada no hábito. Essa percepção mergulhada no hábito chama-se - clichê. A nossa vida é uma reprodução de clichês: nós vamos reproduzindo clichês o tempo inteiro. O tempo todo nós vamos reproduzindo clichês... porque na hora que nós sairmos dos clichês, nós não somos reconhecidos pelo outro: o outro não nos reconhece. Então, até por comodidade, nós nos mantemos nesses clichês.

Agora, quando você pega um artista, um filósofo, um cientista. .. (Vou dar o artista como exemplo:) A questão do artista é um confronto direto com os clichês. Ou seja, o artista: um pintor - não tem uma tela em branco; um escritor - não tem um papel em branco; um músico - não tem uma partitura em branco. O que o ARTISTA tem a tela em branco, o papel em branco, a partitura em branco - mas a alma penetrada de clichês. Então, vou citar um pintor - Francis Bacon (não sei se vocês todos conhecem...) - que faz da vida dele uma luta permanente contra os clichês. Ou seja, lutar contra os clichês, para não produzir uma arte dos hábitos - uma representação das utilidades e dos interesses. Então, através disso - A tenção: vai passar alguma coisa altamente gótica, altamente barroca - em função da " luta contra os clichês " do Francis Bacon, ele projeta o CAOS sobre a tela. (Eu só vou citar, não vou explicar como ele faz!) Eu não sei se algum de vocês conheceu um pintor que esteve aqui no Brasil, creio que na década se 1960, chamado Mathieu - lembram-se do Mathieu? Ele foi ali para a Cinelândia (antes do Brizola!) e fez um sucesso extremo, porque ele colocava a tela ali, pegava a tinta e - pá! - jogava a tinta na tela. Aquele povo da Cinelândia vibrava, era emoção total! Esse jogar de tintas, que ele fazia, tinha o objetivo de quebrar clichês. Ou seja, deixar que a própria tinta desse a linha da pincelada que ele iria dar (certo?) para não ser dominado pelos clichês. Isso daí chama-se tachismo - que em português quer dizer mancha. Isso tem origem no expressionismo abstrato, daquele grupo Pollock, Newman, etc.

Então, é o artista em confronto direto com os clichês - o artista ou o filósofo ou o cientista, em confronto com o clichê; ou seja, a luta que cada um de nós faz, quando quer criar alguma obra, é contra os clichês que nos dominam; clichês contra os quais não sabemos lutar, por acreditarmos que eles são a nossa proteção. Nós achamos que se sairmos dos clichês nós cairemos no caos - sair no clichê-cair no caos - e é exatamente isso! Sai do clichê, mergulha no caos. Mas sair do clichê e mergulhar no caos não é infelicidade. A infelicidade é permanecer nos clichês! O que nos faz sofrer exatamente é que nós fazermos da nossa vida uma reprodução constante dos mecanismos do hábito. É isso que causa em nós um sofrimento insuportável, porque os hábitos, os clichês trazem uma unidade de congelamento que não suportam as passagens e os processos. Então, como a vida da gente é uma permanente passagem, um permanente processo, nós nos resguardamos nos clichês, ou seja, nós nos resguardamos nesses campos do reconhecimento, como se isso trouxesse pra nós uma proteção. Atenção, esse guarda-chuva dos clichês não nos protege, mesmo que em cima do guarda-chuva esteja escrito CAOS. A gente escreve em cima do guarda-chuva CAOS, abre o guarda-chuva e fica protegido. Não adianta! Eu estou dizendo pra vocês que a única experiência possível para produzir uma libertação e uma alegria, é o confronto com o CAOS - que eu vou mostrar pra vocês na próxima aula. Eu coloco um confronto com o infinito, ou seja, a única saída para nós é nos tornarmos criadores.

O Leibniz - eu coloquei isso na aula passada - se defrontou com um escritor da razão humanista - não falei isso, o Voltaire? Ele se confrontou com o Voltaire, porque o Leibniz dizia que esse mundo que nós vivemos é o melhor dos mundos, e o melhor dos mundos porque neste mundo aqui pode haver CRIAÇÃO, ou seja, todos os homens têm o poder de criar e de inventar. Agora - só há possibilidade da criação e da invenção se você quebrar as forças do clichê.

Uma percepção como a de Cézanne é semelhante à do Ozu. O que o Cézanne queria ver nas suas naturezas mortas e nas suas maçãs eram as vibrações do tempo e do pensamento: o tempo e o pensamento vibrando. Ou seja, o grande artista, o " artista enquanto tal ", não tem como questão representar aquilo que observa, mas liberar o INVISÍVEL da natureza - e esse invisível são as FORÇAS DO TEMPO e as FORÇAS DO PENSAMENTO. Então, para você fazer essa experimentação, você tem que quebrar todos os clichês instalados na sua alma. Dá-se a isso o nome de percepto. Há, então, uma diferença entre percepto e percepção: a percepção é utilitária, é interessada. Eu aqui posso até citar pra vocês, porque assim fica fácil para se compreender, certas experiências com drogas. As drogas tiram o homem da percepção utilitária - porque elas alteram o tempo. Só que a droga não te conduz para a arte; não conduz! Eu vou colocar pra vocês... O que a prática do percepto faz, é romper com o domínio das percepções utilitárias; e no momento em que o domínio do utilitário, o domínio do clichê se rompe, você mergulha como que no CAOS, você mergulha no caos, e lá - no caos - você vai fazer duas coisas - erguer alguma coisa nova ou se perder nesse caos. Não sei qual dos dois é mais trágico ou mais bonito: perder-se ou erguer alguma coisa! Viver em torno dos hábitos jamais fará isso, você estará sempre achado, mas - ao mesmo tempo - sempre perdido; porque você não consegue liberar-se da sua individualidade e do sujeito que você é!

Dá-se o nome de percepto..., como John Cage, que batizava uma partida de xadrez de concerto. Para Cage, uma partida de xadrez era um concerto. Evidentemente, se você disser isso a um homem comum, ele vai dizer: " Esse cara tava pirado " - mas ele não estava pirado! É porque o John Cage tornou o silêncio um clarão na obra dele. Você ouve, por exemplo, dois temas de Beethoven: o primeiro toca... acaba! E ai você fica na expectativa do segundo tema... Essa expectativa é o silêncio entre o primeiro e o segundo tema. A questão do Cage é fazer do silêncio não uma expectativa, mas um tema! Ele faz do silêncio um tema. Então, para ele, o xadrez pode ser um concerto.

[Essa parte da aula é acompanhada pela exposição de slides com alguns trabalhos dos autores que Claudio vai citando ao longo da aula]

Ou o Duchamp - que transformava um urinol em escultura. Nesse caso do Duchamp é uma coisa muito simples: é pegar um objeto do cotidiano (por exemplo, " isso daqui ", um papel, uma cadeira), retirar esse objeto do contexto, e colocá-lo no museu - e ele irá receber uma qualificação nova. É isso o Duchamp: ele fazia isso - ele tirava as coisas do contexto, como o caso do mictório. Entendido Duchamp (Né?).

Isso é o Cage outra vez, lindo! Olhem o Cage, (hein?) como ele é leibniziano. " Ou melhor, o problema das micro-percepções do desejo, o desejo do Cage ouvir um dia todas as fugas do Cravo bem temperado. " O sonho dele era ouvir todas as fugas do Cravo bem temperado. Ou seja, mergulhar no infinito do mundo inteiro e tornar tudo apercepção e percepção clara. "Essas pequenas percepções não são partes da percepção consciente, mas requisitos ou elementos genéticos da percepção consciente, pois o que é relevante deve ser constituído de partes que não são relevantes." Ou seja, não são partes relevantes porque são os ordinários. Então, a nossa percepção é constituída pelos ordinários e pelos relevantes. "As partes que não são relevantes chamam-se ordinários: a relação é de ordinário a relevante."

Então, eu vou voltar outra vez:

O barulho desse ventilador - quando vocês não dão atenção pra ele, é um conjunto de ordinários: micro movimentos ordinários, que você não percebe. Mas que, quando você se volta pra ele, torna-se relevante. Então, a relação de ordinários e relevantes não é uma relação de parte e todo. (Deixem esse conceito, vai ficar mais difícil pra vocês apreenderem agora - é na relação de ordinários e relevantes que se constitui o sistema de percepção! O que se sabe, já: o movimento no corpo corresponde a uma percepção da alma. Então, eu vou colocar dessa maneira: a força plástica produz o corpo orgânico. E o corpo orgânico é movimento! Isso é fundamental para vocês marcarem - o corpo orgânico se define pelo movimento e a alma se define pela percepção. Uma percepção na alma, um movimento no corpo; um movimento no corpo, uma percepção na alma.

Bom. Essa aula foi uma aula de primeiro tema pra segundo tema: o objetivo dela foi abrir uma expectativa para o infinito. Qual infinito? O infinito das micro-percepções, o infinito do mundo inteiro. A brir uma perspectiva pra dizer pra vocês que o pensamento - na modernidade - é necessariamente um mergulho no infinito. O infinito é o pensamento antigo. A nossa questão é o infinito - é mergulhar no infinito. A questão do pensamento moderno é mergulhar no infinito.

Cada mônada - a mônada é a alma! - tem dentro dela o infinito do mundo. Cada mônada contém, dentro dela, o infinito do mundo inteiro. E sempre que essa mônada se manifesta - ela expressa esse infinito do mundo inteiro. Mas ela expressa esse infinito do mundo inteiro em pequenas percepções e em raras percepções claras. Sempre que nós nos expressarmos, no entanto, é o mundo inteiro que está sendo expresso por nós. Então, o conceito de MÔNADA, que é o conceito do mergulho no infinito que nós vamos fazer na próxima aula... Nós vamos começar a mergulhar no infinito; vamos fazer a primeira experiência de infinito; nós vamos encontrar aqueles que tentaram impedir esse mergulho, Platão, etc., através dessa noção de mônada que estou colocando. A mônada é alguma coisa finita que contém o infinito do mundo inteiro. Então, é o paradoxo total! Cada um de nós carrega consigo o infinito do mundo inteiro, no sentido de que as coisas presentes estão grávidas de futuro.

Alº.: [--?--]

Cl.: Todas, todas! Cada mônada carrega todas as mônadas com ela. Isso se chama Harmonia UNIVERSAL ou Harmonia PRÉ-ESTABELECIDA. Ou seja, há uma harmonia na natureza. Se você tocar numa coisa - eu toquei nessa mesa - significa que eu toquei no universo inteiro - porque todas as coisas estão conjugadas umas com as outras. Isso se chama harmonia universal. Então, cada um de nós, no seu fundo sombrio (Olha, agora são os conceitos exatos, hein!?) tem um marulho - o ruído, o rumor - do universo inteiro. Então, à noite, quando nós começamos a desocupar a nossa alma e a alma vai se abrindo, nós mergulhamos no fundo sombrio, ou seja, nós mergulhamos no UNIVERSO INTEIRO. Um mergulho assim de uma beleza excepcional.

Então, eu vou concluir aqui, porque as micro-percepções estão aqui se juntando... e eu estou tendo a percepção clara de que estou ficando cansado! (Risos).

Eu vou concluir pra vocês fazendo uma coisa muito rara que eu faço - mas eu tenho essa necessidade, apenas de fixar como percepção clara na memória de vocês, que quarta-feira nós vamos mergulhar no infinito. ..

Então, até quarta-feira!

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