Aula de 19/05/1994 – A filosofia do ser e a filosofia do extra-ser: Platão, Aristóteles e os estoicos

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Bergson morreu em 1941, mais ou menos aos oitenta e um anos de idade ― façam os cálculos para saber quando ele nasceu. Freud nasceu e também morreu mais ou menos na mesma época que Bergson.

Aluna: Freud morreu em 39, bem pertinho.

Claudio: E Edmund Husserl, alemão, também viveu nessa mesma época.

Bergson, desencadeador desta aula, escreveu um livro, chamado Matéria e Memória, que pode ser considerado a obra prima dele ― esse livro existe em português. Num determinado momento do nosso curso, ele vai ser lido ― alguma coisa dele vai ser lida. Neste texto, Matéria e Memória, algo de muito original vai acontecer.

(Prestem atenção como há uma originalidade e uma dificuldade nisso que eu vou dizer.)

O Bergson vai começar falando sobre o mundo antes de a vida aparecer; como se pode falar de alguma coisa que não se experimenta? Geralmente, quando se fala de alguma coisa que não se experimenta, chama-se a essa coisa de METAFÍSICA.

Então, o Bergson começa por falar do mundo, do universo anterior ao surgimento do ser vivo. Eu não falei homem, falei ser vivo. Então, ser vivo pode ser uma molécula... Se o vírus for vivo, pode ser o vírus. O Bergson está falando de antes da aparição do ser vivo. Então, antes do ser vivo só existiria, no universo, matéria sem vida. Vamos marcar esse nome: classicamente, a matéria sem vida é chamada de MATÉRIA DESORGANIZADA. Mas o Bergson vai fazer alguma coisa de muito forte. Ele vai identificar MATÉRIA a LUZ. Então, quando o Bergson falar matéria, ele está, ao mesmo tempo, falando luz: para ele, matéria e luz seria a mesma coisa! Mas agora, utilizando Bergson e dizendo que o universo anterior à vida é matéria ou luz ― logo matéria iluminada ― então, para o Bergson, antes do surgimento da vida, o que existiria seria MATÉRIA ILUMINADA. E matéria iluminada é a mesma coisa que IMAGEM. Porque se vocês abrirem a televisão o que vocês vão ver vai ser matéria iluminada. Então, para o Bergson, antes da vida aparecer, o que existia era... matéria iluminada ou ... imagem.

(Vocês entenderam?)

E essa imagem seria... como se diz a televisão. Mas eu posso adiantar mais para vocês; é quase que um excesso: imagem, mas imagem simultaneamente ÓTICA e SONORA ― no sentido de que o sonoro também é uma imagem. Ou seja, se nós gostarmos de cinema nós vamos conhecer o mestre do sonoro no cinema que se chama Nino Rota, que trabalhou com o Visconti, com o Fellini, mas também com Maurice Bejart. Nino ― marquem o nome dele ― Nino Rota, que é o mestre de uma imagem. Qual? Da imagem sonora.

Então, o Bergson está nos falando que antes da aparição da vida o que existia era uma matéria iluminada ― que era o ótico e o sonoro, sem nenhuma lei de governo sobre essa imagem. Se não havia lei ― quando alguma coisa existe e a existência dessa coisa não está governada por lei esta coisa é anárquica ou caótica. Então, essas imagens originárias ― anteriores ao nascimento da vida ― seriam imagens caóticas; seriam o caos.

― Como funcionariam essas imagens? Segundo Bergson, elas estariam em VELOCIDADE INFINITA. Quando Bergson fala em velocidade infinita, ele está se aproximando de um filósofo mais ou menos da época dele chamado Kierkegaard. Então, essas imagens estão em velocidade infinita, mas não têm nenhuma lei regulamentando-as. E aquilo que está em velocidade infinita (se ficar difícil, vocês coloquem), o que está em velocidade infinita está simultaneamente em todos os lugares ao mesmo tempo (certo?). Então, esse universo bergsoniano é dessas imagens infinitas e Bergson dirá nitidamente: nesse universo de imagens anteriores à vida... anteriores à aparição da vida... onde a vida ainda não apareceu... as imagens são caóticas e labirínticas, em velocidade infinita e sem centro; não há centro no interior delas ― elas são acentradas. E agora eu vou tentar um enunciado que não foi dito por Bergson, mas que eu vou colocar, aí vocês tentam alguma coisa em cima dele: essas imagens estão em movimento, porque elas estão em movimento infinito, movimento que eu vou chamar de MOVIMENTO ABERRANTE.

― O que quer dizer movimento aberrante? Movimento aberrante quer dizer o movimento onde não há centro. Desde que não haja um centro, o movimento é aberrante. Então, os movimentos dessas imagens são movimentos aberrantes, movimentos anormais (Certo? Todo mundo foi bem?). Isso vai-se chamar PRIMEIRO SISTEMA DE IMAGENS. (Vamos marcar esse nome!)

Alª: Você fala que esses movimentos são sem centro, mas o que seria o movimento com centro?

Cl: Vamos ver o movimento com centro? Aparece... Agora nós passamos da existência dessas imagens, que eu chamei de matéria iluminada, antes da aparição da vida, e agora nós vamos pensar essas mesmas imagens quando a vida já apareceu. Na hora em que a vida aparece, a vida traz com ela, o ser vivo traz com ele, uma prática chamada percepção. A percepção é que o vivo centra tudo na sua percepção. Então, para o vivo, toda e qualquer imagem é centrada na sua percepção ― ele inclui o centro.

(Não ficou bem isso não? Hein, Vera? Se não ficou, fala).

Veja bem, olhe pra mim, você está centrando a minha existência na sua percepção. Você me centra. Todo o universo é centrado na sua percepção. O vivo introduz o centro, o centramento, que é, simultaneamente, a normalidade e o desaparecimento do movimento aberrante.

(Acho que ficou difícil, não é? Não? Ficou, Vera?...)

Alº: Como se fosse um breque nesse movimento infinito, não é?...

Cl: Alexandre, a vida traz esse centro... Ela introduz uma centralização, porque o ser vivo, qualquer ser vivo: pode ser uma molécula, se a molécula for viva, a molécula virótica, por exemplo, qualquer ser vivo centrifica demais tudo que ele...

Alª: Formalizar?

Cl: Olha, a palavra formalizar é fraca, Cacau. É melhor centrar, mesmo. O vivo observa as imagens segundo ele. Ele é um centro de observação.

Alª: Quer dizer que anteriormente, então, o que aconteceria é que as imagens são caóticas porque não têm....

Cl: ... não têm centro de observação. Você quer voltar ao caos? Mata toda a vida que existe. Aí você volta ao caos. Mas no momento em que você introduziu a vida, a vida vai trazer um SEGUNDO SISTEMA DE IMAGENS. Esse segundo sistema de imagens é a emergência do centro.

Alª: Ou seja, seria uma tendência a querer organizar?

Cl: A vida organiza, é centro. Ela centrifica! Todo ser vivo ele vê. Vê é uma palavra falsa, ele percebe. Pode perceber acusticamente, sonoramente, seja lá como for, ele percebe essas imagens segundo ele.

Alª: Segundo seus atributos, também. Quer dizer, a maneira como eu vou centralizar vai ser diferente da tua, vai ser diferente da formiga...

Cl: Vai. As espécies... a formiga... se entrar uma formiga aqui ela vai ver esse universo segundo ela.

Alª: Formiguicamente, não?

Cl: Formiguicamente, claro. Por isso, nós e a formiga podemos conviver, sem nenhum problema ― porque nós não vemos o mesmo mundo. Isso se chama MUNDO PRÓPRIO. Cada ser tem o seu mundo próprio. Cada espécie tem o seu mundo próprio. Mas se eu for à casa dos Abreu e encontrar a Cacau e a Márcia ― cada uma delas tem o seu mundo próprio. (Entenderam?).

Ou seja, o mundo próprio é constituído não só pela espécie, mas também pelo indivíduo.

Agora, uma vez acabada a vida, o que acontece? O caos retorna!

Um pintor austríaco, chamado Paul Klee, se coloca como um artista que ao invés de centrar a sua visão do mundo em cima da sua percepção ele quer apreender o mundo segundo o que ele chama de PONTO GRIS. (Marquem esse nome).

Ponto gris é um nome meio português meio espanhol meio francês... Como o Paul Klee é austríaco, seria diferente. Ponto gris. É como se ele apreendesse o caos. Ou seja, pra ele o artista não apreende (vou usar a Cacau) uma matéria formalizada. Porque a percepção só apreende matéria formalizada, só apreende imagens formalizadas. O Paul Klee apreenderia o que ele está chamando de ponto gris. O ponto gris é uma matéria caótica.

(Foi bem assim? O ponto gris?...)

Alª: Mas esse ponto gris, então, não vai ser um ponto de centramento?

Cl: Não. Não é centro. A partir desse ponto gris, o Paul Klee vai erguer um mundo. (Vejam se vocês entenderam...) Ele ergue um mundo! Porque, para o Paul Klee, a partir do seu ponto gris, o sujeito artista ― cada sujeito artista ― ergue o mundo que quiser. O ponto gris é o caos. É o primeiro sistema de imagens. É uma complicatio, onde tudo está complicado e de onde ele retira um mundo.

Alº: Poderia usar assim um paralelo para entender um pouco esse ponto de vista, o Aleph do Borges?

Cl: Pode... O Aleph do Borges me parece prejudicado, eu não sei se eu posso dizer se isso é real, é que o Aleph de Borges são mil imagens diferentes, mas cada uma tem uma forma. Será que é isso? Eu acho que é!

Alª: É. Eu acho que é. É um ponto de multi-centros...

Cl: Multi-centros, mas cada um já tem uma forma. Mas esse ponto gris não tem forma. Ele tem esse ponto gris e desse ponto gris ele vai produzir --- habituais estabelecidas de uma espécie. Sempre que ele penetra nesse ponto gris ele retira desse ponto gris um mundo novo. (Entenderam?).

Alª: Ele ainda está criando alguma coisa!

Cl: Ainda está, não; ele está criando!

Alª: Quer dizer, ele está só erguendo, mas o caos absoluto, o caos sem a vida seria impossível de ser captado, não é?

Cl: Mas é nesse caos sem a vida que ele está penetrando.

Alª: Mas ele está soerguendo alguma coisa.

Cl: Tá, ali ele está soerguendo alguma coisa... Ele está construindo, vamos dizer, um conto, uma novela ou um romance. Se fosse o seu caso... Mas eu estou dizendo que, no seu caso, na hora em que você for entrar para produzir uma novela ou um conto, como você faz, o que você tem que fazer é penetrar num ponto gris semelhante a esse ponto gris do Paul Klee, porque é de lá que você vai erguer o mundo estético, como em arquitetura, que se diz que se ergue alguma coisa. Alguma coisa se ergue ali, uma composição se ergue.

Alª: Extrair... Esse soerguer...

Cl: Olha... Não, não é extrair, porque se ele extrair ele extrai caos. Ele tem que entrar ali e gerar alguma coisa. Ele gera alguma coisa pra ele. (Não sei se já está bem aqui... O que você acha? Fala Márcia...)

Alª: Veio-me uma imagem dos fractais...

Cl: Fractais?... Olha, os fractais no caso ainda são frágeis, porque os fractais são... Fractais quer dizer frações, isso que são os fractais, são frações, mas essas frações já são formalizadas. Ainda que sejam frações e não sejam unidades. Não são fractais; são muito mais do que fractais. Ele está entrando mesmo no aformal, no que não tem forma nenhuma; e dali ele está erguendo alguma coisa. Então, para ele, o sujeito artista só pode executar a sua obra na hora em que ele penetra nesse ponto gris e desse ponto gris ele...

O que é um ponto gris? O ponto gris é a mistura do preto e do branco: o ponto gris é cinzento. É ali o preto e o branco, ou a ausência de preto e branco ― e dali ele tira todas as cores. E como esse ponto gris é simultaneamente ótico e sonoro, ele constrói dali um mundo musical e um mundo pictórico. É por isso que a obra do Paul Klee é uma mistura do sonoro e do pictórico.

(Eu não sei se isso já está dado bem aqui. Esse vai ser o modelo da nossa aula. Nós vamos modelar essa aula de hoje, por isso que a partir disso eu vou penetrar, secamente, na filosofia. Não tem outro jeito, eu vou penetrar na filosofia. Vamos lá... se eu já posso ir. Acho que sim, não é? Hein, Márcia?... Tá?).

Vamos agora fazer uma experiência fictícia: ficção, pura ficção. Vamos dizer que Platão (todo mundo sabe quem é, não é?) nasceu no século V a.C, na Grécia; que era muito bonito; que as origens dele eram poéticas; que era homossexual... mas homossexual à grega ― fazia poemas para o seu amado; até que uma viagem o transforma num filósofo. Vamos dizer que o Platão tenha mergulhado nesse ponto gris. Então, ele mergulha nesse ponto gris e de lá o que ele quer trazer?

Aluno: O caos...

Cláudio: Não, ele não quer trazer o caos; trazer o caos pra quê? Ele quer trazer um mundo. E ele traz um mundo! Ele vai trazer do caos o que, em filosofia, se chama ― o SER. Ele traz o ser. De onde ele traz o ser? Do caos. (Entenderam?). O ser. Vamos colocar o ser como sinônimo de “aquilo que existe”. O ser como sinônimo daquilo que existe.

Então, Platão vai retirar o ser do caos. E ao retirar o ser do caos, ele o divide em dois: em SENSÍVEL e INTELIGÍVEL. (Aí, eu vou começar a aula. Vocês perguntem, porque a nossa aula começa agora. Agora nós vamos enfrentar...)

Alº: Sensível e inteligível?

Cl: É... E ele arrancou isso de onde? Do caos.

― Platão é o filósofo do ser? Ele é um filósofo do ser, porque ele arrancou o ser do caos. Agora, ele dividiu o ser em quantas partes? Em duas. Então, a partir disso, a filosofia vai ser sempre filosofia do ser e sempre subsidiária ao sensível e ao inteligível, (que eu vou passar a explicar a vocês o que é).

Alº: Claudio, olha só, o ser é sinônimo daquilo que existe...

Cl: É, vamos colocar assim.

Alº: Mas ele retirou aquilo que existe do caos. Eu posso então considerar que aquilo já existe no caos?

Cl: Os seres inteligíveis? Não! Não! Se existissem no caos o ser seria caos! Platão vai lá no caos... ele é um sujeito artista, ele modela ― no caos ― o ser. Só que ele vai dizer que não foi ele quem fez isso. Quem fez isso para ele chama-se DEMIURGO. Demiurgo em grego quer dizer ARTESÃO DIVINO.

Alº: Porque aquilo começa a existir a partir do momento em que...

Cl: A partir do momento em que o artesão divino ― que é o demiurgo ― o produz.

Al: Mas até o demiurgo já é uma produção do Platão, não?

Cl: O demiurgo é uma produção platônica. Mas acontece que para Platão o demiurgo é aquele que produz, no caos, o ser.

Alª: Mas ele ainda está inventando o mundo, não é isso?

Cl: Quem está inventando o mundo?

Alª: O Platão.

Cl: Ele está inventando o mundo que ele diz não ter sido ele que inventou; quem inventou foi o demiurgo. (Não é isso?). O que o demiurgo arrancou do caos? O ser. E o ser se divide em sensível e inteligível. Então, a história da filosofia vai ser marcada por isso. A história da filosofia vai ser sempre a filosofia do ser. E o ser, vai ser dividido em sensível e inteligível.

Se o ser vai ser dividido em sensível e inteligível, é preciso que, nesse universo, apareçam os seres vivos, que entram em contato com esse ser inteligível e sensível. Então, os seres vivos ― que vão entrar em contato com o inteligível e com o sensível ― vão ser dotados de estruturas para apreender o sensível e o inteligível. Essas estruturas que apreendem o sensível e o inteligível (isso, vocês não vão encontrar em Platão; sou eu que estou marcando) chamam-se FACULDADES.

― Para que servem as faculdades?

Als: Para apreender o sensível e o inteligível.

Cl: Para apreender o sensível e o inteligível. (Entenderam? Então, nós temos aqui, prestem atenção... Vamos fazer assim:)

O ser para Platão é sensível e inteligível. Quando se está falando do ser está-se fazendo uma prática chamada ontológica. Falar do ser é fazer ONTOLOGIA. Agora, falar daquele que apreende o ser é EPISTEMOLOGIA.

― Quem é que apreende o ser? Quem apreende o ser é o sujeito vivo. Então, o sujeito vivo é dotado de faculdades para apreender o ser. Mas acontece que o único vivo que é capaz de apreender as duas metades do ser é o homem. Porque os outros seres vivos, que não o homem, só apreendem uma metade do ser ― que é o sensível.

(Eu acho que está tudo muito bem! Tudo muito bem!)

Então, os outros ― que não são o homem ― apreendem a metade do ser que é o sensível; enquanto que o homem é dotado de uma faculdade que os outros vivos não têm. Essa faculdade de que o homem é dotado chama-se RAZÃO. A razão é a faculdade especifica para apreender uma metade do ser. Qual a metade?

Alº: Inteligível...

Cl: Inteligível!

(Entenderam?).

Vejam o que Platão está dizendo: que o homem é um ser privilegiado porque o ser se apresenta com duas metades. Essa é a ontologia platônica e esse ser que apresenta essas duas metades ― o homem ― tem as faculdades exatas para apreender tanto o sensível quanto o inteligível. Essas faculdades...

― O que é a faculdade? É a coisa mais simples entender o que é faculdade? Faculdades são: imaginação, sensibilidade (por enquanto, por enquanto é simples, depois vai complicar). Sensibilidade é uma faculdade? Imaginação é uma faculdade? Memória é uma faculdade? Razão é uma faculdade? Tudo isso são faculdades. Então, a diferença do homem para os outros seres vivos é uma só: que o homem é dotado de uma faculdade, que os outros seres vivos não possuem, que se chama... (Als: Razão).

Por isso, a definição clássica de homem é ANIMAL RACIONAL. Qualquer homem é animal racional, porque é dotado de razão. Então, Platão está dizendo que o homem apreenderia as duas metades do ser.

Agora, o homem é um ser composto de alma e corpo. E o que tem as faculdades é a alma. A alma é que tem as faculdades. Então, vai aparecer aqui uma coisa muito bonita, que é o mito que Platão faz, dizendo que a alma é um carro ― é uma biga, (não é?) Aquela biga antiga...

(Todo mundo entendeu o que é biga?).

Então, nessa biga existem DOIS CAVALOS: um BRANCO e um PRETO. O branco representa, vamos colocar assim ― a área eterna, vai ficar um pouco duro pra vocês... Vamos dizer: o branco representa a VIRTUDE e o preto a SENSUALIDADE. Então, o cavalo preto são as faculdades sensuais e o cavalo branco são as faculdades da virtude. E o COCHEIRO é a RAZÃO.

(Entenderam?)

Essa alma costuma fazer uma procissão nos céus, acompanhando os deuses: Lá vai ela, acompanhando os deuses!... As almas, as múltiplas almas. Quando essas múltiplas almas chegam aos confins dos céus aparecem as ESSÊNCIAS. As essências são os inteligíveis. A parte do ser chamada inteligível são as... (Als:) Essências.

Então, antes de as essências aparecerem nos confins do céu, só havia o sensível. (Ou não entenderam?).

Alº: Não compreendi muito bem, quando você contou essa coisa da biga,eu me perdi pelo caminho.

Cl: A alma é cavalo preto, cavalo branco e cocheiro. Então, elas vão junto com os deuses viajando no céu. A biga tem uma asa, um par de asas, vai batendo as asas... Aí, chega aos confins dos céus, a alma vai contemplar as essências que estão lá. Então, até então só existia o quê? O sensível. Porque essas essências é que são o inteligível.

(Entendeu, Cacau? Ou ficou difícil?).

Alª: Mais ou menos...

Cl: Não pode ser mais ou menos, não. Tem que ser entendimento total. Se não deu para entender, vamos voltar à explicação.

Quem, no Platão, apreende o cavalo branco, o cavalo preto e o cocheiro são as três partes da alma. Então, a alma é composta de três partes: a sensual, a virtuosa e a racional. A racional é o cocheiro. Então, quando a alma chega lá no alto, ela para, junto com os deuses, para contemplar as essências ― que são os inteligíveis. Certas almas, no entanto, têm os cavalos pretos indóceis, ou seja, a sensualidade muito forte, muito violenta. E como o cocheiro fica tomando conta do cavalo negro, não contempla as essências. Então, Platão vai dividir as almas em “almas que viram muito” e “almas que viram pouco”. Quais as almas que viram pouco? As que são perturbadas pelos cavalos pretos.

(Não sei se foi bem...).

Depois que perdem as asas, essas almas entram nos corpos. Quando elas entram nos corpos, as almas que viram muito viram filósofos; e as almas que viram pouco, sofistas e demagogos.

(Está certo?).

Mas Platão pôde construir tudo isso, porque ele arrancou o SER do ponto gris... [Atenção, porque não há ponto gris em Platão, viu?]; porque ele arrancou do ponto gris o SER ― que ele divide em sensível e inteligível. Então, o sensível e o inteligível, para ele, é aquilo que é apreendido pela alma. O homem superior é aquele que apreende o inteligível. Aquele que fica apenas do lado do sensível, o máximo que ele pode fazer é poesia, música, pintura, arte... E a arte, para ele, é menor. E o artista é, inclusive, aquele que perturba a cidade, e, por isso, deve ser expulso dela.

(Entenderam?)

Então, Platão acabou de construir a filosofia dele. Eu posso chamar a filosofia de Platão de a filosofia do ser? E de a filosofia do ser esquartejado? Porque dividido em duas metades, a metade sensível e a metade inteligível!

(Acho que foi muito bem, não é?).

Em seguida, Platão vai dizer que a metade sensível (aqui é de uma importância incrível!) é composta de dois componentes; ou melhor: ele divide o sensível em duas metades. Então, quantos esquartejamentos ele faz? Dois: o sensível e o inteligível; e agora ele esquarteja o sensível em outras duas metades. Uma das metades do sensível, ele diz que é a metade LIMITADA; e outra, é ILIMITADA. Numa linguagem mais moderna, a limitada chama-se CÓPIA; e a ilimitada chama-se SIMULACRO.

Então, essa metade chamada simulacro ― essa metade ilimitada que é o ilimite no infinito ― não pode ser constituída como saber.

(Vocês entenderam isso, ou ficou difícil?)

Então, como o saber se constitui? Somente no limite. Só há saber no limitado. E o ilimitado, o infinito, não pode ser constituído como saber. Por isso, para Platão, a metade ilimitada tem que ser recalcada para o fundo dos oceanos. Recalque o ilimitado, recalque o infinito... Que é a mesma coisa: expulse o sofista da cidade ― porque o sofista é exatamente o ilimitado. E ele diz que o sofista é o Proteu de Cem Cabeças: não há como defini-lo, porque você define uma cabeça, e ele aparece com outra. (Não sei se entenderam bem). Então, ele escapa, ele foge. E por isso, para o platonismo, é necessário expulsar o sofista e ficar apenas com o ser, com o sensível enquanto limitado, enquanto mensurável. E o sensível é mensurável e limitado porque ele se submete às FORMAS CAUSAIS DO INTELIGÍVEL.

(Não há mais o que dizer aqui... é para vocês perguntarem... porque eu vou abandonar o Platão. Vou parar um pouquinho e ouvir as perguntas.).

Alº: Você pode repetir o final?

É que o sensível se abriu em dois ― em cópia e simulacro. A cópia é o limitado e o simulacro é o ilimitado. Essa cópia, esse limitado é limitado porque é submetido às formas do inteligível. São as formas do inteligível que tornam uma parte do sensível limitada. Mas existe outra parte do sensível que não se subjuga ao inteligível. Essa outra parte que não se subjuga chama-se simulacro. Não se pode constituir saber em cima dela. Então, é preciso expulsá-la, jogá-la para debaixo dos oceanos. Ele a chama de Proteu de Cem Cabeças. Ou seja, com a filosofia de Platão, fica estabelecido para o Ocidente que o saber só é saber do limitado. Por isso que quando nós queremos saber alguma coisa, a primeira prática que nós fazemos é definir. DEFINIR, quer dizer: dar limites.

(Vocês entenderam? Isso tudo é Platão!)

(Eu gostaria que vocês perguntassem...)

Alª: Na constituição do saber, Cláudio, entraria essa parte do limitado, o limitado no sensível, que estaria submetido às formas causais do inteligível. Agora, onde mais que o inteligível vai entrar na constituição do saber?

Cl: Só aí.

Alª: Só aí... Ou seja, ele vai fornecer essas formas causais?

Cl: Ele fornece as formas causais ao sensível, o sensível se submete a ele e aí o sensível se torna limitado. Mas só há saber se a sua alma entrar em contato direto com o inteligível. Porque saber no sensível não existe, você só tem saber se entrar em contato direto com o inteligível. Mas a única parte do mundo sensível que pode ser constituída como órgão do saber é o sensível submetido ao inteligível. A parte do sensível que não se submete ao inteligível, e que se chama simulacro, escapa: ela é ilimitada, ela é infinita, ela não se submete a uma definição. É fantástico!

Numa obra do Platão, quando ele vai definir o sofista ele faz sete ou oito definições. E são insuficientes, porque você não consegue definir o ilimitado, então, como você não consegue definir o ilimitado, não há saber possível do ilimitado, por isso o ilimitado deve ser expulso. E isto vai se tornar um modelo do Ocidente. Quais são os modelos do Ocidente? Filosofia do SER: primeiro modelo; segundo modelo: só há saber do LIMITADO.

(Agora vocês coloquem perguntas para a gente sair disso daí. Platão está encerrado... pelo menos hoje, não é?).

Al: ----- só é possível criar poesia, música, pintura... Eu não entendi muito bem.

Cl: Porque eu disse que a poesia, etc. ― a arte ― estaria (depois eu vou explicar mais...) do lado do lado do ilimitado. Isso tudo está do lado do ilimitado. Você pode encontrar uma poesia do lado dos limites. A questão platônica é que tudo que estiver do lado do ilimitado, do lado do simulacro, tem que ser expulso, tem que sair da cidade, é elemento perturbador, elemento enlouquecedor. Por exemplo, a Carolyn Carlson ele expulsaria. Não serviria para ele, não serviria, não serviria de maneira nenhuma. Porque todo saber se constituiria por esse limitado.

O que eu queria que vocês fizessem (e essa é a organização brilhante, a organização potente!) é dar conta disso: que com Platão nasce a filosofia e a filosofia tem dois modelos ― filosofia do ser e filosofia dos limites. Se vocês derem conta disso, estou satisfeitíssimo: filosofia do ser e filosofia dos limites. (Está bem, Márcia?). O ser, para Platão tem quantas partes? Sensível e inteligível, mas poderia ter uma só. O que importa é que ele inaugura a filosofia do ser.

Sinônimo de ser: aquilo que existe. E qual é a outra parte? O saber só se constitui naquilo que estiver limitado. E quem é que dá limite às coisas? O inteligível, porque o inteligível, o ser do inteligível é o limite. O ser do sensível, não; o sensível é ilimitado nele; a matéria nela mesma é ilimitada. Então, é preciso submeter e subjugar a matéria às formas do inteligível. Mas alguma parte da matéria escapa a essa subjugação, continua ilimitada ― e essa parte tem que ser expulsa! Chama-se simulacro, o Proteu de Cem Cabeças, o sofista ― que deve ser enterrado debaixo dos oceanos.

Al: Seria o mundo possível?

Cl: Esse mundo do ilimitado? Você pode chamar de mundo possível. Platão subjuga o ilimitado, o expulsa. Não o quer.

(Eu vou sair, já vou mudar. Tá? Acho que está tudo bem, não é?

É muito bonito isso aqui... Bonito e poderosíssimo!

Platão vai ter um grande herdeiro: chama-se Aristóteles. Com Aristóteles não tem conversa, não tem “papo furado” ― é só filosofia do ser, formalizado.

(Eu vou descansar dois minutos, enquanto vocês tomam um café)

[Claudio faz uma introdução à filosofia estóica:] [...] Isso não é pra rir, isso é sério, é seríssimo! Os estóicos não só anteciparam o Jim Morrison, como anteciparam, talvez não, seguiram o Aldous Huxley, que escreveu um livro famosíssimo ― vários! Qual deles? As portas da percepção. Tem tudo a ver com a nomenclatura do Jim Morrison. Porque, na verdade, o The Doors nada mais é do que a quebra da percepção banal. Logo, é a penetração no Ponto gris. (Entenderam?). É isso que o Jim Morrison faz, e de lá ele arranca The end.

Então, agora nós estamos diante de uma filosofia que vai emergir no século III a.C., chamada estóica ― ou estoicismo. No estoicismo há um pensador mais destacado, chama-se Crisipo. É uma delícia! Ele é uma delícia, uma delícia ― o Crisipo!

Os estóicos vão começar por fazer uma filosofia do ser. Estão ou não imitando Platão? Estão.

Então, eles começam a fazer uma filosofia do ser. Mas, quando começam a fazer essa filosofia do ser ― e todo mundo está satisfeito porque está tudo em paz: lá vem a mesma filosofia do ser... ― subitamente eles produzem a filosofia do EXTRA-SER. Então, os estóicos introduzem duas novas metades: o ser e o extra-ser.

No ser, é incrível, tem o inteligível e o sensível. Mas além da filosofia do ser eles vão produzir a filosofia do extra-ser. Qual é o sinônimo do ser? Aquilo que existe. Então, eles ao produzirem a filosofia do extra-ser, eles vão produzir a filosofia do que não- existe.

Então, nós vamos agora entrar ― realmente ― nas portas da percepção, porque, ao lado da filosofia do ser, estaria a filosofia do não-ser. A filosofia do que existe e a filosofia do que não existe. Numa outra linguagem, especificamente, magnificamente estoica... (é isso que eu quero que vocês marquem, porque ela é magnificamente estoica) a filosofia do ser eles chamam a FILOSOFIA DOS CORPOS e a filosofia do extra-ser eles chamam de FILOSOFIA DO INCORPORAL. Então, nós vamos começar a conhecer... o Incorporal.

Alº: Incorporal não tem nada a ver com a alma, não é?...

Cl: Não! Nada! A alma... Não, a pergunta é boa Hailton, [para esclarecer questões do tipo (- Por que então é a alma? Então, é a filosofia da alma?)] Não, porque os estoicos dirão: a alma é CORPO! Olha: a alma é corpo. Porque se eles não dissessem que a alma era corpo, a alma teria que ir para onde? Para o extra-ser. (Entendeu aqui, Márcia, Cacau?).

Então, eles estão produzindo a filosofia do extra-ser e esta filosofia do extra-ser não é... corpo. Vamos ver então, assim, numa avant-première, o que seria o extra-ser. O extra-ser seria o TEMPO PURO.

Então, vocês dizem: quer dizer que o Aristóteles e o Platão não pensaram o tempo? Pensaram... Mas identificando o tempo ao... ser. E os estoicos vão dizer que o tempo não é... ser. O tempo é extra-ser. Não só o tempo como o VAZIO. Então, nós vamos começar a conhecer dois incorporais dos estoicos, um se chama tempo, o outro se chama vazio.

E agora começam a surgir pontos que tiram o fôlego: eu já estou sem ar! Começam a tirar o fôlego da gente... (agora vai ser dificílimo pra vocês e pra mim!)

Porque os estóicos vão introduzir no extra-ser (logo naquilo que não existe!) uma criatura altamente surpreendente chamada AFETO. Incrível, o afeto não é ser, o afeto é não-ser.

Vocês sabiam que, no século XX, um psicanalista brilhante, chamado André Green, dedicou a obra dele ao afeto e, de alguma maneira, ele compreendeu que afeto é um extra-ser. Ele compreendeu isso. E daí todo o confronto que há entre o André Green e o Lacan. Está exatamente aí o que é a psicanálise do André Green e o que é a psicanálise do afeto. (Depois eu volto a isso).

Então, eu acabei de constituir o povo do extra-ser. O povo do extra-ser chama-se afeto. E esses afetos que habitam o extra-ser são múltiplos.

(Atenção para isso, que vocês não sabem as grandes questões da filosofia...)

Aqui está surgindo uma grande questão da filosofia: o extra-ser é povoado por múltiplos afetos. Então, no extra-ser existe uma multiplicidade de... afetos. Mas no ser também existe multiplicidade de... INDIVÍDUOS. Então, você teria no ser uma multiplicidade de indivíduos. Por quê? Porque, depois de muita dificuldade a filosofia vai dizer que a única coisa que existe é o indivíduo. Então, a única coisa que pode povoar o universo do ser é o indivíduo. Então, nós vamos ter dois povoamentos: o povoamento no ser que é povoado pelos indivíduos, que vai ser chamado de ORDEM NUMÉRICA. O povoamento do ser é o povoamento pelos indivíduos; e o povoamento do extra-ser é o povoamento pelos... afetos.

Então, quantas multiplicidades nós temos? Duas: a multiplicidade do ser e a multiplicidade do extra-ser. A multiplicidade do ser é a multiplicidade dos indivíduos, a multiplicidade do extra-ser é a multiplicidade dos afetos. Vamos dizer que os estoicos agora vão dizer: se nós quisermos fazer ciência, nós vamos fazer ciência com a multiplicidade dos indivíduos; se nós quisermos fazer filosofia, nós vamos fazer filosofia com a multiplicidade dos afetos. Mas, a partir daqui, nós nos libertamos de uma ficção platônica, porque o Platão achava que esse universo se dividia em uno e múltiplo, mas não há uno nem múltiplo: o que há são duas multiplicidades ― a multiplicidade dos indivíduos, que se chama multiplicidade numérica e a multiplicidade dos afetos.

Eu estou falando da multiplicidade dos indivíduos como multiplicidade numérica, porque a matemática tem a função de dar conta da multiplicidade numérica e a matemática nada pode fazer com os afetos. Por quê? É isso que nós vamos estudar a partir dessa nova pausa, porque... sai da frente! Não é?

Perguntas – as perguntas estão todas abertas... (Márcia?)

Alª: Música é matemática?

Cl: Música?

Alª: É.

Cl: Olha, eu já tentei mostrar, com muita dificuldade pra vocês ― e se tivesse um dos meus assessores musicais aqui, já ficaria todo irritado ― é que nós vamos tentar encontrar uma música do lado do ser, que se chamará de música formal; e vamos encontrar uma música do lado do extra-ser, que será uma música aformal ou ― numa outra linguagem ― uma música do indivíduo e uma música das singularidades. (Não sei se está claro isso que eu disse...). Tentarmos encontrar isso, vai ser realmente difícil... Uma prática de música que não seria música do ser ― e isso aqui nós teríamos certas tentativas, realizadas no século XX, que é onde nós vamos trabalhar: de um lado o Pierre Boulez, o Messiaen (que vocês não conhecem... e vão conhecer...) mas, eu acredito, sobretudo, o Stockhausen com a música eletrônica. O que nós podemos tirar da música eletrônica? O que nós podemos fazer com a música eletrônica, pra retirar a música eletrônica do campo do ser e lançá-la no campo do extra-ser? (Isso vai ser duro! Mas nós temos que fazer esse trabalho...) Então, eu estou dizendo, tentando te responder, Márcia, que toda e qualquer arte poderá ser arte das singularidades.

(Não sei se foi bem... Bateu mal. O que vocês acharam? Bateu mal? Olha... Vamos aqui, antes de seguir:)

Eu sou um platônico: sou um filósofo do ser? Ou não? E no ser, eu encontro duas metades? Quais são as duas metades que eu encontro no ser? Sensível e inteligível. Agora eu sou um filósofo estóico: eu tenho duas metades? Quais são? Ser... (Alº:) e Extra-ser. Cl: É essa a filosofia que nós vamos seguir.

Ou seja, nós vamos entrar na filosofia do ser ― que é a filosofia dos corpos (Vocês aqui vão entender pouco!), regulada por todos os princípios clássicos da filosofia: princípio de não-contradição, princípio de identidade, princípio de causa eficiente, princípio de terceiro excluído, etc.

E nós vamos entrar na filosofia do extra-ser, onde nenhum princípio do ser pode regular. Ou seja, no extra-ser, nós vamos entrar no universo pleno dos paradoxos. Posso até dizer pra vocês que quem convive com a filosofia do ser é a sensibilidade e o intelecto; e que quem convive com a filosofia do extra-ser é o pensamento. Eu, então, estou distinguindo pensamento de intelecto. Mas estou dizendo uma coisa mais grave: se vai haver arte do extra-ser, arte das singularidades ― pouco importa se uma arte sonora ou ótica, pouco importa! ― vai haver uma arte da singularidade, vai haver uma ciência da singularidade, vai haver uma filosofia da singularidade. Logo, arte, ciência e filosofia implicam o pensamento. Começar a excluir essa tolice, que a filosofia analítica inundou o século XX, de que arte não é prática de pensamento: não há arte sem pensamento!

(Então, pronto, perguntem, para eu descansar um pouquinho... Porque eu falo com muita velocidade: cansa!...).

Alº: Você pode dar exemplo de afeto?

Cl: Dou. Eu vou te servir mais Hailton. A filosofia do ser... (Olha, quando bater o problema vocês coloquem. Ninguém deixe... ah! bateu um problema, fico com vergonha de perguntar... Não tem dessas coisas não. Quem tem vergonha, morre! Não tem isso.)

A filosofia do ser, gerada em Platão, vai ter seu herdeiro fundamental que é o Aristóteles. E quando o Aristóteles aparece, um dos temas centrais da obra dele é a fundamentação da linguagem.

― O que Aristóteles vai fundamentar? A linguagem articulada à filosofia do ser. Vamos chamar essa linguagem articulada à filosofia do ser (vamos marcar!) de a linguagem do significante e significado. (Certo?). Mas vai haver uma linguagem do lado do extra-ser e essa linguagem do extra-ser vai ser fundamentada pelo sentido. Então, sentido é sinônimo de significado?

Alº: Não.

Cl: Por quê? Significado do lado do ser, sentido do lado... (Ih! Está ficando difícil... o pessoal... calou todo mundo aí).

Lancei duas filosofias da linguagem: uma filosofia da linguagem que tem como modelo o significante e o significado, que é do lado do ser; uma filosofia que tem como modelo o sentido, que é do lado do extra-ser. (Facilmente entendido!). A psicanálise adotou a linguagem do ser, que é a linguagem do significante e significado.

Al: Haveria uma terapia do extra-ser?

Cl: Evidente! Evidente! Evidente! Evidente!

Eu agora vou até lançar mais. Apertar mais, mas com cuidado. Se você está do lado do ser, você está do lado de uma filosofia do poder. Se você está do lado do extra-ser, você está do lado de uma filosofia da potência. Fantástico! Um filósofo chamado Espinosa, no XVII, entende isso e divide as palavras latinas em: potestas e potentia. Potestas do ser e potentia do extra-ser. Então, sim, uma terapia do poder e uma terapia da potência. Essa terapia da potência que gerou a discutida e paradoxal esquizoanálise do Guattari. Logo, a esquizoanálise é um confronto direto com a psicanálise, porque a psicanálise é uma terapia do poder.

(Risos...)

(Ainda é muito cedo, mas alguma coisa pode ser marcada aqui, sobretudo pra Márcia, (que ela viu), a dança da Carolyn Carlson.)

O que marca a dança da Carolyn Carlson é a música minimalista. A música minimalista é baseada na repetição, uma repetição narcótica, (porque a repetição narcotiza, (não é?)... pam... pam... pam... pam pam Daqui a pouco vocês está assim [Claudio faz um gesto de quem está tonto], em vinte minutos da Carolyn Carlson dançando eu já estava assim [tonto]: estava que não podia mais... me segura!...) Aquilo vai jogando você numa narcotização. Eu poderia dizer que a repetição é, literalmente, uma categoria do extra-ser. A repetição não é bem vista na filosofia do ser. (Isso tudo a gente vai examinar).

Então, eu estou dizendo que o Platão é um filósofo da repetição? Não. Ele não é um filósofo da repetição, ele é um filósofo da generalidade. Agora, a repetição emerge ― com uma violência tremenda! ― cá na filosofia do extra-ser. Então, Philip Glass, Velvet Underground, tudo isso estaria cá do lado do extra-ser, e o século XX, trazendo isso com uma magnificência incrível, (não é?) tentando sem que... eu não vou dizer que um músico sabe essas coisas que estou dizendo, mas ele começa a produzir uma obra de arte inteiramente articulada com o extra-ser.

(Posso descansar só um minuto? Podem passar perguntas, durante dez minutos para eu não expor nada, para eu recuperar as forças... Mas perguntem mesmo, não fiquem olhando pra mim, não, porque eu tenho uma vergonha danada!).

Alª: Queria que você explicasse melhor a linguagem do significante...

Cl: Quer isso? Eu explico. Vou parar e vou tocar um significante e significado em confronto com o... sentido.

Sentido em grego chama-se lekton. A filosofia do lekton contra a filosofia do semaion. A filosofia do semaion contra a filosofia do lekton... os apaixonados pelo grego. O sentido de um lado, significante e significado de outro.

(Eu vou entrar nisso. Tá? Mas vou descansar cinco minutos...).

Alª: O Cláudio, o simulacro rejeitado por Platão, dá pra entrar nisso?

Cl: O simulacro, que é rejeitado por Platão, essa questão dela é coerente? Inteiramente, não é? Nós temos que examinar como Platão compreende o simulacro e como o estoico compreende o simulacro. Não é a mesma coisa. Vai ter diferença. É muito interessante isso, que essa palavra simulacro foi apreendida no século XX pela sociologia. Os sociólogos apreenderam essa palavra simulacro e só falaram asneiras. O Deleuze foi e a abandonou. Não trabalha mais com o simulacro.

Al: Tá, mas então, eu mudo a pergunta. O ilimitado...

Cl.: Mas tá bom, não faz mal.

Cl: Nós vamos ver o ilimitado do lado do Platão e o ilimitado do lado dos estoicos.

Al: Aí muda?...

Cl: Muda. Muito bonita a pergunta!

A única coisa que a gente já sabe é que esse ilimitado do lado do Platão, (vê se fica bem), o ilimitado do lado do Platão pertence aos corpos? O ilimitado platônico são os corpos? É...é...é! São corpos. É, está embaixo, corpo é limitado e ilimitado. O ilimitado... Quem leu, por exemplo, a Melanie Klein? Seio Bom e Seio Mau. Você sabe que ela está falando sobre esse ilimitado platônico? Rugem, no interior de nossos corpos, forças ilimitadas e loucas. É isso que está sendo dito. O Platão vai expulsar esse ilimitado e vai ficar somente com o limitado. Agora, quando nós passarmos para o extra-ser, esse limitado platônico vai reaparecer, mas como uma criatura completamente diferente chamada, segundo a brilhante exposição que o Chico fez na segunda-feira passada, SUPERFÍCIE METAFÍSICA.

Superfície metafísica seria o nome do ilimitado estóico, à diferença do ilimitado platônico, que eu vou chamar de seio mau. (riso) Seio bom e seio mau. Olha, o ilimitado platônico é mais do que isso, são gases, esses gases que explodem nos nossos corpos; que a gente fica com vergonha deles; que a gente não tem domínio sobre eles: são essas as forças ocultas do corpo.

(Eu vou descansar aqui aqueles tais dois minutos e vou dar entrar em serviço direto à Cacau).

(intervalo)

[...] Sendo um filósofo do ser... (vamos ver se vocês recompõem o que eu já havia dito)... ele trabalha com três elementos. O sensível faz parte da filosofia do ser? O inteligível faz parte da filosofia do ser? Mas tem outro componente que faz parte da filosofia do ser ― AS FACULDADES. Então, a filosofia do ser... Vamos dizer o que é que tem na filosofia do ser:

(Hein, Chico? O Chico é uma espécie de especialista nisso.)

Na filosofia do ser você tem ― o sensível, o inteligível e as faculdades. Então, na filosofia do ser existe a razão? Sim. Por quê? A razão é uma faculdade. O que é a razão em Platão? É o... cocheiro (Está certo?). Então, no Aristóteles a razão é uma faculdade e evidentemente é a faculdade principal. E qual é a função da razão na filosofia do ser aristotélica ou em qualquer filosofia do ser nesse nível que está aí? É fazer REPRESENTAÇÕES. (Vamos marcar isso). O que a faculdade da razão representa? O que ela representa? Representa o ser. E o que é o ser?

(fim de fita)

Cl: Em Aristóteles só existe um ser! Qual é o ser para ele?

Alª: O sensível.

Cl: Então as faculdades são para apreender o quê?

Alª: Para apreender o sensível.

Alª: Então, para o Aristóteles o ser é o sensível e as faculdades?

Cl: O sensível e as faculdades.

Mas acontece que o que Aristóteles chama de sensível é toda matéria formalizada (Difícil aqui!). Ele está dizendo que no sensível não existe nenhuma matéria que não tenha... forma. Toda matéria tem... forma. É matéria; logo, tem forma. Não há outro jeito: toda matéria tem forma!

(Está indo bem aqui?)

E a Faculdade tem a função de reproduzir dentro dela esse sensível formalizado. Então, o instrumento que nós temos para apreender esse sensível formalizado é a PERCEPÇÃO. Então, com a minha percepção, eu apreendo aquela aluna chamada Pérola? Ou não?

― O que é a Pérola? Eu sei que ela é uma mulher e que ela é a mãe de Alexandre; mas não é isso que eu estou perguntando.

― O que é a Pérola? Ela é um sensível formalizado, que a minha percepção... apreende. (Cacau, está bem aqui?) Quem é que apreende o sensível formalizado? Alª: A percepção. Então, a percepção representa dentro dela o sensível formalizado. Mas olhem só: eu olho para a Pérola. Eu estou fazendo uma representação formalizada dela? Sim. Agora, eu viro para cá. Eu parei de perceber a Pérola? Logo, a representação que eu fazia dela desapareceu? Alª: desapareceu. Mas aí você vai usar uma outra faculdade...

Cl: Vão aparecer outras faculdades: a imaginação e a memória.

Alª²: Você acha que virando de costas você para de perceber?

Cl: Claro, preste atenção: eu percebi a Pérola pela percepção; vim para o lado de cá ― e já não a percebo mais! Mas, agora, vão aparecer duas outras faculdades em mim: a memória e a imaginação ― que vão manter a Pérola percebida dentro de mim.

(Entenderam?)

Cl: Então, na hora que eu me viro para o outro lado, eu deixo de perceber a Pérola, mas as faculdades da imaginação e da memória conservam a Pérola dentro de mim, essa Pérola, dentro de mim, chama-se Fantasma Sensível. Então, quando eu chegar a casa e me deitar, e a Pérola, a Cacau e a Márcia vierem à minha cabeça, estarão vindo três fantasmas sensíveis à minha cabeça.

Então, o que mantém a realidade dentro de nós, são a faculdade da imaginação e a faculdade da memória ― que geram os fantasmas sensíveis.

(Entendido? Todo mundo entendeu?)

Cl: Agora, eu vou perceber que cada um dos fantasmas sensíveis são diferentes uns dos outros. Por exemplo: O fantasma sensível de Pérola é diferente do fantasma sensível de Zé Luíz; o que regula os fantasmas sensíveis é a diferença entre eles. (Certo?). De repente, entra uma nova faculdade em funcionamento ― a faculdade chamada INTELECTUAL. Ela entra, e vai pegar como matéria de trabalho os fantasmas sensíveis. E vai extrair dos fantasmas sensíveis, por um processo chamado ABSTRAÇÃO, o fantasma inteligível. O FANTASMA INTELIGÍVEL, na nossa linguagem, chama-se CONCEITO. O fantasma inteligível é retirar dos fantasmas sensíveis aquilo que nesses fantasmas sensíveis é semelhante.

Tirar dos fantasmas sensíveis a semelhança. O que é semelhante em Pérola, Márcia e Cacau ― é a RACIONALIDADE. Esses três fantasmas sensíveis têm racionalidade. Então, o meu intelecto tem a função de abstrair dos fantasmas sensíveis a SEMELHANÇA. E ao extrair a semelhança dos fantasmas sensíveis, o intelecto produz o fantasma inteligível, que vai se chamar (marquem!) GENERALIDADE ou CONCEITO. (Entenderam?). (Quem trabalha melhor nisso? HUME: Hume esgota isso!)

― O que é um conceito, Hailton? Um fantasma...

Alº: Um fantasma inteligível.

O conceito é um fantasma inteligível. Sinônimo de conceito: generalidade ― todos os fantasmas inteligíveis são genéricos, porque são os elementos que são semelhantes nos fantasmas sensíveis.

(Conseguiram?)

Alª: Não.

Cl: Não? Isso daqui é um problema gravíssimo em filosofia: porque o fantasma inteligível não é um indivíduo; é uma generalidade: é um GÊNERO ou uma ESPÉCIE.

(Eu vou fazer o seguinte, Cacau. Eu não vou parar pra explicar gênero e espécie, não, porque nós vamos perder a aula toda. Deixa aqui, todo mundo faz um esforço, numa próxima aula eu explico.)

Os fantasmas inteligíveis são gênero e espécie. E os fantasmas sensíveis são... indivíduos. (Tá?). Então, o fantasma inteligível é um conceito. Ele representa o que é semelhante num conjunto de indivíduos. O que é semelhante num conjunto de indivíduos chama-se espécie.

(Tá difícil? Tá tão lindo!...)

A espécie é a unidade inteligível. Então, o conceito é sempre uma... espécie. O conceito representa as semelhanças dos fantasmas sensíveis. Então, o conceito passa a ser a primeira unidade racional.

― Qual é a primeira unidade racional?

Als: O conceito.

Cl: O conceito, que tem a função de representar a semelhança entre os fantasmas sensíveis.

Em seguida, eu pego um conceito; vamos ver o nome de um conceito? Hailton é um conceito? Cacau é um conceito? Cacau é um fantasma sensível; Hailton é um fantasma sensível; Pérola é um fantasma sensível; Mas, O HOMEM ― é um conceito.

― O que é o homem? São as semelhanças existentes nos fantasmas sensíveis. (Ficou muito difícil?)

(Cacau e Márcia ― ficou duro, não é? Não se preocupem não, porque mais tarde a gente manda isso mais forte.)

Então, o fantasma inteligível chama-se o... conceito: o conceito é a primeira unidade da razão; o conceito tem a função de representar os fantasmas sensíveis. Mas, em seguida, as faculdades ― a faculdade conceitual do fantasma inteligível ― vai ser substituída por uma outra faculdade chamada FACULDADE JUDICATIVA.

A faculdade judicativa é uma faculdade que JULGA. Ela vai JULGAR.

(Aqui é extraordinário!)

― O que faz essa faculdade judicativa? Ela vai pegar conceitos e juntar esses conceitos através do verbo ser na terceira pessoa do singular, e vai dizer: O homem é bonito. O homem é bom. Ou então vai articular ao verbo ser na terceira pessoa do singular o negativo não, e dizer: O homem não é bonito. O homem não é bom.

Então, o juízo ― que é produzido pela faculdade judicativa ― é o primeiro momento na história do homem em que surge o VERDADEIRO e o FALSO. Porque um juízo tem que ser necessariamente verdadeiro ou falso. Quando eu digo: O homem é bonito e o homem não é bonito ― um dos dois é verdadeiro e o outro é falso.

― Então, quando é que surgiu o verdadeiro e o falso? Quando nasceu o juízo, com a faculdade judicativa. Se o juízo gera o verdadeiro e o falso, com o juízo nasce a CIÊNCIA. Porque a ciência é sustentada, não só pelo verdadeiro ― a ciência é sustentada pelo verdadeiro e falso.

(Estão entendendo?)

Então, o juízo é a segunda prática representativa. Qual é a primeira prática representativa? O conceito. O conceito é a primeira representação; o juízo é a segunda representação.

A terceira prática representativa, ou terceira representação, chama-se RACIOCÍNIO.

Todo homem é mortalum juízo.

Sócrates é homemoutro juízo.

Logo, Sócrates é mortaloutro juízo.

Quando estão num raciocínio, os juízos chamam-se PREMISSAS e CONCLUSÕES.

Alª: Isso é lógica?

Cl: É Lógica. O raciocínio é o nascimento da Lógica.

― Quais são os três elementos da razão?

Conceito, juízo e raciocínio ― esses são os três elementos da razão.

Mas acontece que, ― e aqui é notável! ―, se nós temos essa capacidade racional de representar o mundo por conceitos, por juízos e por raciocínio, nós também temos que ter o poder de expressar o conceito, expressar o juízo e expressar o raciocínio ― e nós expressamos o conceito, o juízo e o raciocínio pela LINGUAGEM. Então, a linguagem não tem a função de representar. A linguagem tem a função de SIGNIFICAR o conceito, o juízo e o raciocínio. Logo, para Aristóteles, a linguagem nunca fala do mundo: a linguagem fala do conceito, do juízo e do raciocínio; a linguagem é do campo da SIGNIFICAÇÃO.

Aí, Aristóteles vai dizer uma coisa incrível: o significado é o conceito; e o significante são as palavras, divididas em significante oral e significante escrito.

― Quantos significantes? Dois: o oral e o escrito.

O oral é superior ao escrito, porque o oral está mais perto da alma, mais perto da razão ― mais perto do conceito, do juízo e do raciocínio. Por isso, para Aristóteles, o oral é o significante I e o escrito, o significante II: S¹ e S².

Alº: Lacan é aristotélico?

Cl: O que você acha? Hein?

Alª: Altamente aristotélico!

(Foi bem aqui?)

― Qual é o significante 2? A escrita. Porque a escrita significa a oralidade. E o oral significa a razão; e a razão representa o ser. Olha que coisa bonita! A escrita significa o oral; o oral significa a razão; e a razão representa o ser. A razão não é significativa ― é. Então, a razão não é significativa, é representativa. A linguagem não é representativa, é significativa.

(Entenderam bem?)

Então, nós temos que destacar e distinguir entre significação e representação. É isso que nós vamos ter que fazer.

― Quem representa? A razão.

― Quem significa? A linguagem.

(Está bem aqui?)

(Vou descansar outra vez. Perguntem para eu ver se foi bem. Agora eu vou sair e vou para o sentido...)

Alª: O inteligível em Platão era transcendente. Aqui ele deixa de ser?

Cl: Deixa. Porque... (Olhem a pergunta que ela fez: o inteligível em Platão era transcendente.) E, inclusive, essa transcendência platônica, eu não vou trabalhar hoje, ouviu? Porque a transcendência platônica não é o que se chama uma transcendência absoluta. A transcendência absoluta é a transcendência oriental. Eu vou explicar depois. A transcendência de Platão é uma transcendência na imanência. É um pouco diferente. Mas sim. O inteligível em Platão é transcendente, apreendido pela... contemplação! Não é a contemplação da razão que apreende o inteligível platônico?

Alª: Ah! Tá, tá.

Então, o inteligível platônico é apreendido pela contemplação. Agora, e o inteligível aristotélico, também é apreendido pela contemplação? Não. É extraído do sensível pela abstração. Então, no Platão― contemplação; no Aristóteles, abstração. (Entenderam?) Os modelos estão claríssimos aqui: Platão trabalha com a contemplação, Aristóteles trabalha com a abstração.

Então, eu vou parar um pouquinho com Aristóteles, vou descansar outra vez dois minutos para ver se vocês perguntam para eu fechar alguma coisa e vou passar para os estoicos. ― Aristóteles fez uma filosofia do ser? Als: Fez.

― As faculdades do Aristóteles só apreendem o ser? Só apreendem o ser. Representam e significam o ser: só trabalham com o ser. Perguntem, ― porque eu agora vou passar para os estoicos, pra fazer um pouco de filosofia do sentido. E essa é que vai ser... olha!... É aí, inclusive, que nós podemos chamar... (Tá muito barra pesada aí, duplinha?). Nós vamos fazer o seguinte: nós vamos chamar todo esse campo linguístico do Aristóteles de SEMIOLOGIA. E todo o campo linguístico dos estoicos, quando eles aparecerem, de SEMIÓTICA. Vamos fazer essa distinção: entre a SEMIOLOGIA e a SEMIÓTICA. (Porque essa semiologia aristotélica, aqui eu sei que a maioria não sabe disso...)

Alª: Saussure

Cl: Gera Saussure! Gera Saussure e as famosas dicotomias saussurianas. Enquanto que a Semiótica...

Alª: É o Peirce.

Cl: Vai gerar o Peirce com as suas tricotomias. É exatamente isso. Vocês vêm que ela sabe, não é? Mas vocês ainda não sabem bem isso, então vai ficar um pouco difícil.

(Pequena pausa, para eu descansar, tomar um café e um copo d’água...)

Vamos colocar assim: Inicialmente, uma mistura de Platão e Aristóteles; e depois uma carga pesada, que a gente sai dos dois, não é? Mas há uma mistura; a gente pode chamar de mistura. Os estoicos vêm depois do Aristóteles.

― Qual é a filosofia dos estoicos? E qual é mesmo a de Platão? Filosofia do ser, sensível e inteligível. A de Aristóteles, sensível, faculdades, pela abstração as formalizações, certo? Agora, estoicos, filosofia do ser e do extra-ser. Na filosofia do ser, eles têm que produzir as faculdades. (Agora que é o segredo, hein?)

― Existem faculdades nos estoicos? A mesma coisa que no Aristóteles: existem as faculdades para dar conta do sensível e para dar conta do inteligível, que faz parte do ser. As faculdades estoicas, então, apreendem o sensível, e por um processo que eu não vou perder tempo em explicar, porque agora não tem a menor importância, os estoicos vão chegar ao inteligível, mas não pelo processo de abstração. O processo deles vai ser outro. Mas eles também chegam ao inteligível.

― Então, os estoicos fazem uma filosofia do ser? Fazem.

― Existem as faculdades apropriadas para fazer a filosofia do ser? Existem. (Certo?) Apreendem tanto o sensível quanto o inteligível. O processo é um pouco diferente do aristotélico ― isso pouco me importa!

Mas os estoicos, além de fazerem a filosofia do ser, fazem a filosofia do ser sem ter uma necessidade semelhante à do Aristóteles para fazerem uma teoria da linguagem. (Entenderam?) A teoria da linguagem do Aristóteles não é uma teoria constituída para servir ao sistema representativo das faculdades aristotélicas ― conforme eu expliquei? ― porque as faculdades são representativas e a linguagem é significativa? Então, Aristóteles constrói toda uma teoria da linguagem em função da filosofia do ser. Os estoicos, não. Os estoicos no momento que eles penetrarem na filosofia do extra-ser, é na filosofia do extra-ser que eles vão sentir a necessidade de construir a filosofia da linguagem.

Nós vamos ter a filosofia da linguagem do Aristóteles originária no ser; e a filosofia da linguagem dos estoicos originária no extra-ser. (Certo?). Agora, o extra-ser, não adianta você entrar com as faculdades que apreendem o ser ― no caso, imaginação, memória, intelecto, etc. ― pra apreender o extra-ser, porque as faculdades que apreendem o ser não apreendem o extra-ser.

Alª: É aí que vai entrar o uso transcendental?

Cl: É aí que vai entrar o uso transcendente. (Tá?) Eu não vou falar nisso hoje.

O que vai acontecer agora é que nós temos que apreender o extra-ser. Para apreender o extra-ser (Aqui vai aparecer muito provisório, para se transformar depois!), vai ser construída uma faculdade para a apreensão do extra-ser. Essa faculdade que apreende o extra-ser chama-se PENSAMENTO.

Então, o pensamento só apreende o extra-ser. O extra-ser não é como o ser ― porque o ser ou é fantasma sensível ou... fantasma inteligível. Tanto o fantasma sensível quanto o fantasma inteligível são duas imagens. Agora, quando nós entramos no extra-ser, não há imagem: nós estamos diante do VAZIO. Nasce uma NOVA IMAGEM DO PENSAMENTO. Uma imagem do pensamento em que a matéria na qual se trabalha não tem imagem ― é o vazio. O que Deleuze vai chamar na obra dele de TERCEIRA SÍNTESE DO TEMPO. (Tá bem aqui? Tá danado, não é?). Então, o pensamento vai entrar agora em contato com o extra-ser, e, no extra-ser, a matéria com a qual o pensamento vai lidar chama-se SENTIDO.

Aqui, a primeira coisa que nós temos que fazer é separar o sentido do significado. O significado está do lado do ser; e o sentido está do lado do extra-ser. O sentido é um INCORPORAL; o significado é CORPO. Tá do lado do ser! Tudo o que está do lado do ser é corpo. È por isso que o Saussure pode dizer 3000 anos depois que o significado é um conceito mental. Mas acontece que o sentido não é um conceito mental.

Agora, eu vou passar para uma outra fase e eu vou encerrar, porque senão vocês não vão dormir esta noite...

Tudo o que estiver do lado da filosofia do ser chama-se representação.

Questão: ― O Aristóteles faz uma filosofia da representação? Melhor dito: o Aristóteles só faz uma filosofia da representação? Sim.

― Os estóicos fazem uma filosofia da representação? Fazem. Mas eles fazem uma que não é da representação e que nós vamos chamar provisoriamente de filosofia da EXPRESSÃO. Então, nos estoicos vai ter uma filosofia fora da representação, que é essa filosofia da expressão, que tem como matéria o Vazio do extra-ser. Esse vazio do extra-ser é o sentido.

Há um acontecimento estranho durante a obra de um estoico do século XIX-XX chamado Bergson, que encontrou um homem com o cérebro vazado por um pedaço de ferro. E, ainda que vazado por esse pedaço de ferro, esse homem pensava. Logo, esse homem pensava sentidos-vazios e não imagens cerebrais. Não sei se ficou claro isso que eu disse. O que eu estou dizendo é que, com a emergência da filosofia do extra-ser, nós vamos começar a encontrar um novo capítulo do pensamento ― que é o TEMPO PURO e o VAZIO. É exatamente isso, criaturas, que é dramático e trágico: o pensamento lida com o vazio. Então, não é muito bom pensar. É bom ficar lá do lado do ser, tomando coco-cola – compra lá uma dúzia de coca-colas - ---- Agora, a filosofia do extra-ser é a penetração no sentido, penetração no tempo puro: se você não penetrar no tempo puro, você não faz nem conto nem novela. A essência do conto e a essência da novela é o tempo puro.

O que então eu estou dizendo pra vocês é que a arte vai ser penetrada por esse extra-ser. A matéria linguística do extra-ser chama-se sentido e incorporal. Vou dar um exemplo de sentido e de incorporal e vou terminar a aula, porque eu não agüento mais. Tá?

Lula e Dudu vão viajar para a Europa pela Varig. Então, eles vão para o avião. Vejam uma coisa: avião pertence à filosofia do ser? Sim. Por quê? Porque é um... corpo. E Dudu e Lula pertencem à filosofia do ser? Sim. Por quê? Porque são corpos. Mas no momento em que o Dudu e o Lula se sentam no avião, eles se transformam em passageiros. Passageiro não é um corpo ― é um incorporal; um extra-ser. É o sentido que eles recebem. (Vocês conseguiram entender?). É o sentido que eles recebem.

Então, estão essas duas grandes figuras ―um jurídico-platônico e o outro viscontiano ―sentados no avião como dois passageiros, penetrados de extra-ser; penetrados de sentido. De repente, entram no avião quatro árabes malucos e dizem: estejam sequestrados. E nesse instante, quando eles dizem isso, Dudu e Lula se transformam em reféns. Ou seja: isso se chama TRANSFORMAÇÃO INCORPORAL. Mudou o sentido, ainda que os corpos sejam os mesmos.

Alº: Sentido tem a ver com função?

Cl: Não. Sentido tem a ver com a constituição de um novo mundo. Porque quando esse avião levantar vôo e o Dudu e o Lula, que eram passageiros, se transformarem em reféns, e se esse avião for ficar 100 anos no céu, os seqüestradores vão produzir uma Paidea, logo, uma pedagogia dos seqüestrados. Vão ensinar pra todo aquele povo do avião a se comportar como refém. Não tem muita diferença para o nosso mundo, pois que nós vivemos numa sociedade de controle. A nossa sociedade nos controla o tempo todo, porque ela nos produziu como reféns incorporais.

Alº: No primeiro instante, eles não são mais corpos, eles...

Cl: Não, eles continuam sendo corpos o tempo inteiro. Mas, com um sentido diferente.

Então, veja bem: o sentido deles é passageiro. Aí, o Lula quer urinar. Ele é passageiro. Ele chama a aeromoça, dá uma olhada nela e diz: Onde é o banheiro, menina? Ela diz onde é, e lá vai ele fazer o xixi dele, podendo até fazer uma carícia mais ousada nela. Depois ele volta e senta.

Agora ele é refém. Ele chama a aeromoça? Não, porque ela é tão refém quanto ele. Ou seja: o sentido do mundo mudou, o comportamento mudou, a atitude mudou ― novos medos, novos amores, novos terrores, novas televisões.

(Entenderam?)

O sentido é aquilo que vai organizar o seu mundo. Ou seja, vai organizar o modo como o corpo vai atravessar a sua vida.

Alº: Você tinha feito uma consideração antes mesmo deles se tornarem reféns. No momento em que eles entravam no avião e sentavam faziam parte do avião, não?

Cl: Passageiros. Eles já tinham um sentido incorporal. Presta a atenção, Ricardo: quando a aeromoça te oferece uísque, é porque você é passageiro. Porque se você estivesse lá na gare, ela não te ofereceria uísque não, de jeito nenhum. Ela só oferece porque você é passageiro. Pois ali é uma formalização pedagógica, porque o sentido vai dar formalizações pedagógicas. Por exemplo, no fim do século XVIII, começou-se a produzir o sentido de uma nova família ― a chamada família nuclear. A antiga família desaparece. Começa a surgir a família nuclear ― que é pai, mãe e filho. É nessa família nuclear que é possível o nascimento de Édipo. Porque é somente na família nuclear que a criança vai ser alvejada como objeto de poder. Ou vocês não sabem que os pais dizem: “Todo o meu sofrimento é você, porque eu trabalho todo o tempo para você!” O que vai produzindo uma criança culpada ― edipiana, propriamente dita. Não é a psicanálise que produz isso. A psicanálise não tem esse poder. O que produz isso são os poderes do campo social. A psicanálise vai apenas servir. Vai dizer: É edipiano, deixa comigo! Deixa comigo, que agora eu vou trabalhar em cima dele.

O que eu estou dizendo pra vocês é que Édipo é um príncipe que começa a visitar o século XX, a partir da produção da família nuclear. Antes, não tinha lugar para ele.

Alº O enunciado do Foucault é o sentido?

Cl: É o sentido. Você vê que quando o Foucault trabalha na categoria de sentido a grande questão dele é separar enunciado de frase e proposição. Para se entender o enunciado de Foucault, esta aula que eu dei é insuficiente. Porque o enunciado de Foucault está muito ligado às questões de um autor chamado Roussel, que é por onde você vai compreender, (ouviu?). São categorias chamadas repetitivas. Mas o problema inicial para você entender o enunciado do Foucault é separar enunciado, proposição e frase. Frase gramatical, proposição lógica e o enunciado nesse campo do sentido. Na verdade, os grandes historiadores de Grécia ― nós temos três: Jean-Pierre Vernant, Vidal-Naquet, Marcel Detiènne. Eles começaram a fazer um trabalho em cima da Grécia, porque eles liberaram a noção de enunciado. Ou seja, você pode produzir enunciados em uma determinada época, mas em outra época você não pode produzir.

(Não sei se vocês entenderam...)

Mais ou menos o seguinte: no século XVII você não poderia ----- (fim de fita) Não houve ainda constituições incorporais para que esse enunciado fosse produzido. Isso eu poderei dar uma aula pra vocês, eu pediria a Lula que estude e dê essa aula pra vocês na próxima vez, para garantir isso que eu estou dizendo. Certos enunciados só podem ser produzidos, quando determinadas transformações incorporais se dão ― senão não podem ser produzidos; não podem ser ditos; ninguém dirá! Quem disser é um idiota. Um cara no século XVIII dizer “O louco é um doente mental... Ninguém vai dar a menor importância a isso... porque no século XVIII não existe nem louco! Porque no século XVIII o louco não pertence ao campo social: ele perturba o campo social. Perturba o campo social ― o campo social gera polícia para excluí-lo.

Então, no século XVIII, todos os perturbadores do campo social são excluídos. É excluído o louco, é excluído o homossexual, é excluído o perverso, é excluído o ladrão, é excluído o feio... Porque feio lá não era brincadeira não ― era feio mesmo: batiam aquelas doenças brabas. E no princípio do século XIX, no meio do século XIX, vai haver um acontecimento inaudito, que é a liberação de todos esses excluídos do campo social, que serão excluídos da masmorra. Menos um. Quem? O louco. Esse fica. Por quê? Porque ele não entra na produção! Ele não entrou na produção capitalista. “Fica aí cara!” No momento em que ele fica, é só no momento em que ele fica que ele se torna objeto do saber. Porque, para produzir alguma coisa como objeto do saber, tem-se que separar aquela coisa, que, não se produz quando estiver misturada. Então é isso: novos sentidos, novos enunciados!

Está bem, Ricardo? Se você está trabalhando na música de Schöemberg, na música atonal, é porque num determinado momento, nessa época, o Schöemberg fez um confronto ― talvez ele não tenha isso nem muito claro nele. Ele não fez um confronto simplesmente com a questão cromática ― ele fez um confronto com a questão do hábito. Porque nós temos determinados hábitos que nós pensamos serem a nossa natureza. Não são! Você pode quebrar o hábito e fundar novos mundos. (Entenderam?) Nós confundimos muito isso! Aliás, nós matamos e morremos por causa dos nossos hábitos. O hábito não tem nada a ver com a natureza. Nós somos construídos para defender com unhas e dentes a virgindade das meninas, porque um hábito se constitui em nós. Um outro mundo desfaz esses hábitos e as meninas tranquilamente não precisam conservar a virgindade, que é uma prática inclusive anti-higiênica.

(Então está bom, tá?)

(Podem perguntar, vocês perguntem o que vocês quiserem, a aula acabou.)

Al: Como é que fica a produção de um grande pensador, capaz de sentir essas mudanças de sentido, aí...

Cl: Não!!! Em primeiro lugar você tem que saber o que é um grande pensador. Em segundo lugar, você tem que saber o que é o pensamento. Porque o modelo do pensamento na filosofia do ser é que o pensamento tem como natureza a procura da verdade. Quando você passa por tudo isso que eu estou colocando, o pensamento não tem natureza nenhuma. Ou melhor, vocês podem conhecer a natureza do pensamento na obra do Rimbaud: o pensamento é preguiçoso e mentiroso. Para ele trabalhar, só na porrada. Forças, muito violentas, pegam o pensamento e botam-no para funcionar. Então, você começa a sofrer traumas muito grandes quando você começa a conhecer isso daqui. Não sei se vocês sabem que a grande dramaticidade do Artaud foi essa. Ele dizia “Eu não consigo pensar. Não consigo pensar. Não consigo pensar.”

E não consegue mesmo! Porque a função do pensamento não é o que a filosofia do ser dizia, procurar naturalmente a verdade. O pensamento tem uma impotência de natureza. É preciso que uma força que venha de fora ― na aula que vem eu falo sobre isso ― faça funcionar.

Vocês querem ver uma coisa? Arranja um namorado ou uma namorada e sente ciúme dele(a). No dia seguinte você está pensando. O namorado faz um gesto e ela diz assim: ele fez esse gesto porque fulaninha estava não sei o quê, não sei o quê. Você começa a examinar todos os signos. Os signos do ciúme. Geram pensamento! O ciúme é epistemológico! Ele quer conhecer tudo!

Vocês pode ver o Swan, (não é?). Que segundo o Alexandre, sou eu: Jeremy Irons. Não sei se vocês viram esse filme: Os caminhos de Swan. Swan e Odette de Crecy.

Al: Claudio, produzir novos mundos é produzir novos sentidos?

Cl: Sim, produzir novos mundos é produzir novos sentidos. Aqui você pode ligar isso a Proust, porque Proust sempre diz que existiriam três signos que nos levariam a pensar: os signos sensíveis, os signos amorosos e os signos mundanos. Mas nenhum desses signos nos permite produzir novos mundos. É um quarto signo, que ele chama de signo da arte. É esse signo da arte que gera uma subjetividade espiritualizada, que vai gerar os mundos possíveis.

Olha, nós vamos começar a ler Proust... todas as leituras que nós vamos fazer... é tudo muito bonito, muito dominado... Então, ninguém precisa ficar triste com o que não entendeu hoje, porque isso daqui é como um filme do Alain Resnais. Se vocês forem ver Providence e vocês entenderem tudo que vocês virem em Providence, significa que vocês não entenderam nada. No filme é preciso que não se entenda alguma coisa, para se entender tudo.

Aprender isso: é bom que não se entenda alguma coisa, para se entender aquilo. Imagine se de repente eu virasse um príncipe encantado e fosse namorar a Márcia e entendesse tudo de Márcia. Que coisa chata! Você não teria mistério, não teria diferença...

Então, é isso. Pensar não é tornar tudo claro. Tornar tudo claro é uma questão do poder, que os franceses chamam de pouvoir, os latinos chamam de potestas. A questão do pensamento não é nada disso. A questão do pensamento é a potência.

Alª: Isso é o ilimitado, (não é?).

Cl: Caminhar com o ilimitado. Caminhar dentro do ilimitado. Dentro do infinito. É esse “dentro do infinito” que gerou essa menina que está aqui: o cálculo infinitesimal. Se não fosse a questão do ilimitado, ela não estaria sentada aqui. Bonita como ela é, ela estaria lá fazendo outras coisas... Ela resolveu fazer matemática, exatamente a grande matemática que ela é, porque o ilimitado no nosso século começou a ser acompanhado.

*

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5 opiniões sobre “Aula de 19/05/1994 – A filosofia do ser e a filosofia do extra-ser: Platão, Aristóteles e os estoicos”

  1. Brilhante! Simplesmente brilhantes.

    Comecei a ler durante o trabalho e só parei no final do expediente. Fantástico! Cada reflexão é um mundo de descobertas; cada movimento é revolução em tudo o que ele já havia dito.

    Brilhante! Simplesmente brilhante.

  2. Delicia! Terminei de ler… Estou fazendo um estudo sobre melville e lembro-me que existe uma aula do claudio falando sobre bartebly e o capitao… devir animal e outras coisas, sera que consigo ouvir esta aula? abraços mil

    Estevão

    1. Caro Estevão

      As aulas estão sendo organizadas por um arquivista, mas é um trabalho a longo prazo. Enquanto isto, para achar uma aula específica, temos que contar um pouco com o acaso. Às vezes dá pra descobrí-la; outras vezes temos que esperar que ela caia nas nossas mãos… De todo modo, vamos ficar atentos para esta aula, pode deixar!
      Um abraço, Os Editores

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