Aula de 20/07/1995 – Sombras e Imagens (aula com exemplos em imagens)

(...) Classicamente, considerava-se que o ERRO era o maior inimigo do pensamento. Para Espinoza, no entanto, o maior inimigo do pensamento não seria o erro, mas a IGNORÂNCIA. Quer dizer, o pensamento teria a ignorância como seu PRINCIPAL NEGATIVO, ou seja, na visão de Espinoza, a ignorância seria aquilo que impediria o pensamento de se exercer. Em função disso, esse filósofo inventa um MÉTODO ― que passa a ser o fundamento da obra dele ― com o objetivo de aumentar a potência, a capacidade da nossa compreensão.

Prestem atenção: esse método visa aumentar a nossa capacidade de entender. Ou seja, quanto mais aumentarmos a nossa capacidade de entendimento, mais afastaremos de nós os poderes negativos da ignorância; sabendo-se, inclusive, que a ignorância é o que leva a vida para o que há de mais nocivo para ela ― a SUPERSTIÇÃO. Então, o que eu estou dizendo é que aumentar a potência do entendimento, aumentar a potência de compreensão, ou seja, aprender de tal maneira a pensar, a fim de que sejamos capazes de dar conta de todos os processos da natureza, sem ficarmos envolvidos nos mitos e nas narrativas enganosas. E isso só seria possível se nós aumentássemos a potência do nosso entendimento.

Esta aula não tem explicitamente o ensinamento do método espinozista, mas é como se estivesse nas veias de minha fala todo o sangue dos objetivos de Espinoza: aumentar a nossa capacidade de entender. Sobretudo porque isso que vocês estão vendo aqui é uma tela do Turner ― a tal tela que faltou na aula de ontem ― que eu disse que seria a terceira fase do Turner. Esta tela, eu a identifico ao que eu chamei de PRIMEIRO SISTEMA DE IMAGENS, onde tudo é luz, e tudo está em contato com tudo. Este é o ponto de partida para o entendimento do que é cinema para Deleuze. Se não tivermos esse ponto de partida, fatalmente iremos nos perder.

O que eu estou dizendo pra vocês, é que no interior desse jorro de luz vai aparecer, agora com mais precisão, o que chamei de INTERVALO. O que chamei de intervalo na aula passada aparece aí; ou seja, dentro desse processo de luz que é um movimento ininterrupto, movimento infinito, numa velocidade sem fim, começa a surgir (eu vou começar a usar exatamente as expressões que o Deleuze utiliza) em pontos quaisquer, pequenos intervalos. E esses pequenos intervalos são constituídos, em primeiro lugar, de um elemento que na aula passada eu chamei de percepção, e dei o exemplo do filme do Vertov, no sentido de que ainda antes da formação do intervalo já existiria percepção aqui dentro. Por quê? Porque na aula passada eu disse que isto que está aqui é aquilo que aparece; e aquilo que aparece é o que é percebido.

(Essa noção da existência de um processo de percepção aqui dentro neste momento é muito difícil! Mais duas aulas, e eu acredito que dê para entender perfeitamente.)

Mas o que importa é que nesse processo de luz em velocidade infinita é que vão começar a surgir pequenos intervalos; e esses pequenos intervalos são como vazios que aparecem no interior desse plano de luz. Nesses pequenos intervalos ― dentro deles ― não existe movimento. O movimento, que é o que marca exatamente essa imagem ― que é um processo interminável de movimento ― não existe dentro dos pequenos intervalos.

Esse instante é um instante quase de impossibilidade pra vocês. Foi por isso que eu disse que Espinoza teria colocado a necessidade de aumentarmos a potência de nossa compreensão, porque entender os processos da natureza pressupõe um envolvimento muito intenso do pensamento. O que eu estou dizendo é que toda a dificuldade para apreender o que está sendo colocado não implica falta de cultura ou uma menor inteligência: é que esse processo de aumentar a potência do nosso entendimento não faz parte de nossa subjetivação. Ou seja, nós não somos constituídos para entender; nós somos constituídos para obedecer! O que eu estou dizendo é exatamente a composição de nossa existência. Então, a Filosofia, ou a História do Pensamento, se confronta diretamente com os processos pedagógicos que nos constituem, que nos ensinam não a entender, mas a obedecer. Por isso, quando nós investimos em temas nos quais a obediência não vale absolutamente nada ― porque, aqui, nada vale obedecer: a única coisa que importa é entender ― nós começamos a sentir a dificuldade.

Atenção para o que eu vou dizer:

Na primeira aula, eu coloquei que a função do pensamento é criar e inventar conceitos. E esses conceitos, que o pensamento inventa, ninguém tem a obrigação de conhecer de antemão. Por isso, à medida que esses conceitos forem produzidos, só serão entendidos após uma explicação. Mas às vezes parece que nós entramos no reino da impossibilidade, porque eu digo um conceito e ninguém entende; mas eu vou explicá-lo depois. E isto produz uma certa ansiedade...

Então, esta aula começa a partir de Espinoza.

Eu vou chamar o que vocês estão vendo neste Turner, sem nenhuma sustentação teórica ainda, porque nem daria tempo para isso, de a natureza antes do surgimento da vida. Ou seja, eu estou dizendo que há um momento anterior ao surgimento da vida. A vida vai aparecer aí. E a vida, vamos simplificar, eu vou chamá-la de ESQUEMA SENSÓRIO-MOTOR. Não importa qual seja o tipo de ser vivo. Qualquer vivo se constitui por esse esquema ― o esquema sensório-motor. E esse esquema é uma capacidade que o vivo tem de introduzir o que eu chamei na aula passada de cortar a ação e a reação. Então, a ação e a reação é o processo que está inscrito aqui, onde tudo o que existe age e reage ininterrupta e infinitamente. A VIDA é um processo que se dá entre a AÇÃO e a REAÇÃO. O que chamei de ação e reação foi a ação e a reação de todos os elementos da natureza que agem e reagem por todas as partes de seu corpo. Todos os elementos que estão na natureza agem e reagem. E a vida aparece cortando esse processo: a vida entra no meio da ação e da reação. Quando ela entra ali no meio, de imediato ocorre um fenômeno: a ação fica separada da reação. E o vivo é exatamente constituído por ação e reação separadas por um intervalo. Por isto, o ser vivo é esquartejado.

O que, neste caso, quer dizer esquartejado? Quer dizer que o ser vivo separa a ação da reação através de um intervalo que é gerado ali. Portanto, todo e qualquer vivo tem uma parte capaz de receber os movimentos que estão na natureza; e outra parte que é capaz de devolver os movimentos à natureza. A parte que recebe movimentos chama-se sensória; a parte que devolve movimento chama-se motora. O vivo não altera o processo de ação e reação pelo qual a natureza é constituída; mas vai fazer um esquartejamento: separar a ação da reação. O vivo não impede o processo de ação e reação, ele separa; e essa separação é o que se chama INTERVALO. Ou melhor, essa separação é o que se chama INTERMÉDIO, que é alguma coisa que está entre a ação e a reação.

A ação é a percepção. Então, todos os vivos têm a capacidade de perceber o movimento que está na natureza. E a percepção desse movimento é uma absorção que o vivo faz do movimento. O vivo prolonga essa absorção do movimento para a parte motora, que imediatamente devolve movimento. Mas como o vivo introduziu entre a ação e a reação um intermédio, um esquartejamento, separou a ação da reação, ele produziu dentro da natureza uma ralentação do movimento.

(Conseguiram entender?)

O vivo ralenta o movimento da natureza. Porque a ação e a reação, que todos os elementos da natureza possuem como essência, no vivo estão separadas.

A única coisa que o vivo introduz de diferencial ― e esse diferencial é algo violento ― é esquartejar a relação da ação e da reação. O vivo tem a capacidade de absorver o movimento por uma parte de seu corpo e devolver o movimento por outra parte de seu corpo. Nós os homens, por exemplo, costumamos absorver o movimento que vem do mundo pelo nosso rosto. O nosso rosto é uma espécie de porta-sensibilidade. Pelo rosto eu vejo, sinto cheiro, sinto gosto, eu ouço... Então, o meu rosto é o meu ponto essencial sensório, mas que não tem a função de devolver movimento. Ele recebe o movimento e passa esse movimento para a parte motora, que devolve o movimento. Quando a parte sensória recebe o movimento e a parte motora devolve o movimento, isto se chama comportamento. Para que haja o processo de recepção de movimento e devolução de movimento, vai haver o que eu chamei de pequeno intermédio. Esse intermédio é uma parte vazia, aonde o movimento, ao chegar, é avaliado, analisado e selecionado, para ser devolvido. O vivo analisa e seleciona o movimento. Não é como os seres físicos que devolvem o movimento imediatamente. O vivo não. Ao receber o movimento, o vivo analisa o movimento que recebeu e em seguida seleciona o movimento que ele vai devolver. Então, o vivo é ANÁLISE e SELEÇÃO. Ao fazer a análise e a seleção do movimento, evidentemente, o vivo introduz dentro da natureza uma diminuição do movimento.

Através desse pequeno intervalo o vivo introduz na natureza a ralentação do movimento. O vivo é, necessariamente, esquartejado.

(E agora eu vou abandonar o vivo e começar a falar “o homem”, para ficar mais fácil.)

O homem é esquartejado: porque recebe movimento por uma parte do corpo e devolve por outra. Entre a recepção e a devolução do movimento estaria o intermédio ― que é onde o movimento vai ser analisado e selecionado. A parte que recebe movimento chama-se percepção. A parte que vai devolver o movimento chama-se ação. A parte que analisa e seleciona o movimento chama-se afecção. O vivo é constituído pelo movimento; movimento esse que ele altera pela percepção e altera pela devolução, em função da análise e da seleção.

O que vai me importar hoje, se eu conseguir obter êxito, não é nem a percepção do movimento nem a reação ao movimento, mas o intermédio: a parte vazia ― a que analisa e seleciona a devolução do movimento. Esta parte que está dentro do intervalo tem a função de receber o movimento e essa recepção do movimento chama-se percepção do sujeito; e quando ela devolve o movimento chama-se ação do sujeito. Percebo, por exemplo, um predador e vou agir sobre o predador. A percepção do movimento do predador é a percepção do sujeito e a devolução do movimento é a ação do sujeito.

Para haver percepção do sujeito e ação do sujeito é necessário que nasça a relação sujeito/objeto. Cada ser vivo se relaciona com a natureza como se ela fosse constituída por um conjunto de objetos. E este conjunto de objetos é o que vai interessar a cada tipo de ser vivo. Mas acontece que quando um ser vivo está em contato com a natureza, com sua face perceptiva e sua face ativa e, no meio, aquele pequeno intermezzo, ele recebe toda essa quantidade de luz sobre ele; toda essa quantidade de luz, toda a quantidade de movimento do universo cai sobre ele; mas a percepção seleciona: só apreende da luz aquilo que lhe interessa. Por isso, ela seleciona uma parte da luz e isto se chama enquadramento. E devolve movimento em função daquilo que percebeu.

O ser vivo é banhado por toda a luz do universo, e a luz do universo que cai sobre ele, apenas uma pequena parte se torna perceptiva. E ele só devolve o movimento em função daquela pequena parte que ele percebeu. Então, toda a luz do universo fica dentro do pequeno intervalo. Ou seja, este pequeno intervalo é todo o universo dentro dele.

Vocês conseguiram distinguir aqui o que eu disse? O que eu disse foi que se eu colocasse aqui um pequeno ponto (•), um ser vivo, esse ser vivo estaria circundado por toda a luz que está no universo ― TODA ― tocando nele de todos os lados. Agora, ele tem um processo perceptivo com o qual só apreende a luz que lhe interessa. O resto ele não apreende.

Neste instante daqui, por exemplo, vocês estão apreendendo do universo aquilo que lhes interessa. O resto está passando. Se esta tela de luz dourada de Turner fosse todo o universo e eu colocasse ali um mínimo ser vivo, este vivo estaria circundado por toda a luz que está no universo, toda, tocando nele por todos os lados. Mas este mínimo ser vivo tem um processo perceptivo com o qual só apreende a luz que lhe interessa. O resto não é apreendido. Neste instante, vocês todos só estão apreendendo do universo aquilo que é do interesse de vocês; o resto está passando. Mas o que está passando entra no ser vivo, fica nele. E essa parte que fica nele chama-se AFETO: são os afetos. Esses afetos não estão no movimento, estão no pequeno intervalo.

(Não sei se eu obtive inteiro êxito... ainda que no início eu tenha citado Espinoza para dizer que a gente tem que forçar muito o entendimento para atravessar essa dificuldade!)

O que vai acontecer agora é algo surpreendente: o fato de a natureza ser constituída por movimento ― movimento de luz, movimento de matéria, movimento de imagem.

― O que é o movimento? O movimento é a passagem que um corpo faz de um lugar para outro lugar.

Ou seja, esse movimento que há dentro do universo chama-se MOVIMENTO EXTENSO. O movimento extenso é, por exemplo, aquele que o Gary Cooper faz numa rua, ao duelar com um bandido. O movimento é o deslocamento que um corpo faz de um lugar para outro lugar.

Mas quando nós vamos para o pequeno intervalo, ali não existe mais movimento: o movimento desaparece ali dentro. Desaparece o que se chama movimento extenso e vai nascer o que se chama MOVIMENTO INTENSO. Com a idéia de movimento intenso começa a aparecer um tipo de cinema: a IMAGEM AFECÇÃO. Nesse pequeno intervalo vai aparecer... [pequeno defeito na fita]

Porque, para nós, a noção de movimento é sempre de movimento extenso, no sentido em que o movimento extenso é aquele que um determinado corpo faz ao se deslocar de um lugar para outro lugar. O movimento de um avião, de um trem, de um cavalo, de uma bala, de uma nuvem, por exemplo. Não importa o quê: quando esse corpo se mover, o movimento de deslocamento desse corpo chama-se movimento extenso. Um exemplo banal pra vocês entenderem: eu sinto amor, e o meu amor por uma pessoa qualquer, não importa o motivo, pode sofrer uma variação; da mesma forma que este copo em movimento [Claudio empurra um copo sobre a mesa] pode sofrer uma variação: aumentar ou diminuir a velocidade, mudar a trajetória... Então, isso significaria alteração no movimento extenso. Mas posso sentir amor e o meu amor pode sofrer uma variação: amo mais agora, menos daqui a pouco. Quando há variação no movimento desse copo, trata-se de uma variação no movimento extenso; enquanto que uma variação no meu amor é uma variação de intensidade.

(Vocês conseguiram entender?)

Há, então, nitidamente, alguma coisa que se chama movimento intenso. Esse movimento intenso não pode, de maneira nenhuma, ser medido por uma régua ou uma balança. Esse movimento intenso é o que estaria no interior do intervalo. Ele não estaria fora, mas dentro do intervalo. Vai surgir, então, o primeiro tipo de cinema que eu vou explicar neste curso: o cinema do movimento intenso, ou o chamado CINEMA AFECÇÃO. (Ele vai nos dar trabalho até a última aula, em função da grandeza e da beleza dele). Aparecendo então a idéia da existência de um movimento no qual não há deslocamento de corpo de um lugar para o outro; mas o que eu chamei de movimento intenso.

O primeiro exemplo que vou dar é o do PRIMEIRO PLANO. E para mostrar o primeiro plano, eu vou-me servir de dois retratos feitos ― um pela pintura renascentista, e outro pela pintura barroca. Prestem atenção a este retrato (Heinrich Aldegrever – Retrato de um desconhecido), aquilo que eu quero que vocês notem nele:

Em primeiro lugar, eu acho que fica muito nítido ― inclusive se a gente fizesse um corte aqui ← que esse retrato se parece com o que nós chamamos de close: caso esse retrato fosse uma fotografia, a máquina estaria bastante próxima. O que é privilegiado nesta imagem é o rosto: o rosto é o que se destaca! E eu gostaria que vocês notassem como o pintor teve a preocupação de colocar os contornos, com uma nitidez impressionante: as linhas que contornam o boné, que contornam o rosto, o contorno do nariz, dos olhos... Então, vocês podem ver que todo esse rosto se destaca pela precisão do contorno; e a tal ponto, que entre o rosto e o fundo há uma distinção bastante nítida. A linha que define esse rosto é nítida. E eu vou colocar que este rosto está marcando aqui um primeiro plano.

Agora um rosto barroco:

Olhem o rosto barroco (Lievens - Retrato do Poeta Jan Vos): observem como as linhas de contorno sumiram ― já não se distinguem. Entre o cabelo e o rosto não há mais nenhum traço de distinção; aquele contorno claro no nariz desapareceu completamente; e um fenômeno original pode ser observado:

Notem o primeiro rosto: reparem como o rosto renascentista é todo organizado ― boca fechada, olhar firme, linhas destacadas. Agora, olhem o segundo rosto: nesse, a boca se move, o nariz parece inflado, não se distinguem bem as linhas.

Então, esses dois rostos vão ser colocados aqui como exemplos de primeiro plano no cinema, e a primeira amostra do que se chama movimento intenso. Através da noção de movimento intenso vê-se a preocupação do cineasta em introduzir algo de novo no cinema. Esse movimento intenso é o rosto, que, como eu expliquei, é uma das partes do corpo do vivo, uma das partes do esquartejamento, a parte sensória. A função do rosto não é devolver movimento; a função do rosto é receber movimento. Mas o que vai acontecer, é que no primeiro plano o rosto vai devolver movimento. Mas quando é o rosto que devolve o movimento, ele não devolve movimento extensivo, devolve movimento intensivo: amor, ódio, desprezo, martírio, sofrimento ― e isso se chama AFETO. (Conseguiram entender?)

O primeiro plano vai trazer a marca de dois grandes autores: eu vou colocar o Eisenstein, com o filme A Linha Geral e Pabst, no filme A Caixa de Pandora, onde vão aparecer esses rostos em primeiro plano. (Ainda não vai ficar inteiramente claro, porque o que eu estou dizendo ainda é muito pouco. Ainda preciso de mais umas duas aulas até que vocês possam entender completamente o que eu estou dizendo.) Mas aqui já começa a aparecer, porque o rosto não tem o poder de fazer a devolução do movimento extenso, que é feito pelo corpo, é o corpo que devolve movimento. Quando o rosto quer devolver movimento, faz essa devolução por intensidade. E aqui vão aparecer os dois mecanismos de intensidade, que, neste momento, vamos colocar assim: o renascentista e o barroco. As duas maneiras do primeiro plano, ambas retomadas pelo cinema moderno.

[youtube pc7IPKjHQCc]

G.W.Pabst - A Caixa de Pandora (1929)

O da renascença eu vou chamar de contornos; o rosto barroco eu vou chamar de micro-movimentos: micro-movimentos de intensidade. Quem já assistiu a um filme com o Gary Cooper e a Grace Kelly chamado High Noon― Matar ou Morrer em português? Nesse filme aparece um relógio e o filme se conduz para o que se chama de “momento paroxista”: quando somos conduzidos para o momento em que uma situação vai explodir. Uma determinada situação vai explodir, vai ser explodida e nós acompanhamos o seu crescimento no relógio: de vez em quando o relógio aparece em primeiro plano ― onze e meia, onze e trinta e cinco, onze e quarenta, onze e quarenta e cinco... E nós vamos vivendo, na mudança dos ponteiros, a intensidade do que está ocorrendo no filme.

[youtube MpABJHwsZG0]

Fred Zinnemann - Matar ou Morrer (1952)

Então, a partir de agora eu vou fazer a seguinte afirmação: o primeiro plano é sempre intensidade, não importa que o que apareça seja um rosto, uma mão ou um relógio. (Entenderam?).Tudo o que cair no primeiro plano entra no campo da intensidade. (Nas próximas aulas isso ficará mais forte...) Tudo o que cair no primeiro plano entra no campo da intensidade. Então, os autores que privilegiam o primeiro plano são chamados de cineastas da afecção ou da intensidade. (Foi bem aqui? Esse é o primeiro exemplo.)

Agora vamos voltar para o Turner:

Aqui está o primeiro sistema de imagens: qualquer objeto pode fazer um movimento extenso aqui dentro, porque aqui é um espaço onde um corpo pode se deslocar. Ele pode fazer um deslocamento. Agora, como nós vamos para o interior do intervalo: no interior dele, esse espaço em que as coisas podem fazer movimento vai desaparecer. E vai aparecer um espaço intenso, que vou mostrar para vocês por dois autores: um chamado Robert Bresson, que no filme Pickpocket, produz o ESPAÇO DESCONECTADO, onde, de maneira nenhuma, um corpo pode se movimentar. Em seguida, um cineasta chamado Joris Ivens que fez dois filmes que se chamam A Chuva e A Ponte, onde vamos entrar em contato com duas coisas surpreendentes: uma chuva da intensidade e uma ponte da intensidade. Ou seja, uma chuva que nada tem a ver com a chuva que nós conhecemos ― que é a chuva extensa. E nós vamos conhecer a tal da chuva intensa. E conhecer uma ponte onde não pode passar nenhum trem, por ser uma ponte cuja única finalidade é ser pura intensidade. Ainda não tenho exemplo para dar.

[vimeo 11358153 w=651&h=488]

Joris Ivens - A Chuva (1929)

[youtube Jxcpyr721qk]

Joris Ivens - A Ponte (1928)

Então, aqui, no mundo da intensidade já apareceram o primeiro plano e o espaço desconectado.

(virada de fita)

Lado B:

Em terceiro lugar, esse é o mais fácil, por exemplo, vocês devem conhecer o Nosferato do Murnau (ou mesmo o Nosferato do Herzog; o do Coppola não serve). No sentido de que esses filmes se marcam pela presença das sombras: são as chamadas SOMBRAS EXPRESSIONISTAS. O autor se liga com as sombras ao invés de se ligar com os corpos. A câmera está muito mais preocupada em seguir as sombras do que em seguir os corpos. Quando os corpos, em determinado filme, entram em contato... por exemplo, nós temos aqui dois atores, Murilo e Camila, se eles fazem uma cena em que os corpos deles entram em contato, isto se chama CONEXÃO REAL.

[youtube rcyzubFvBsA]

F.W.Murnau - Nosferatu - Uma Sinfonia do Horror (1922)

Eu agora vou contar uma história de um texto que eu li quando tinha uns dez anos de idade. Um texto em que um homem estava apaixonado por uma mulher. E ele estava num salão e a mulher em outro salão de uma mesma casa. Entre os dois salões havia uma porta de vidro, onde a imagem da mulher aparecia projetada, e ele via a imagem da mulher projetada. Aí, ele vai e muda de lugar de modo a projetar também sua imagem no vidro. E começa mover a mão até que no vidro ele toque com a projeção da mão dele a projeção da mão dela ― isso se chama CONJUGAÇÃO VIRTUAL. (A conjugação virtual não é a conexão real.) Diz esse homem que na hora em que ele tocou com sua mão projetada, a projeção da mão dela no vidro, o corpo dela, real, tremeu. A conjugação virtual é um dos mecanismos principais do chamado expressionismo alemão que é um cinema da intensidade. A conjugação virtual, também vou mostrar para vocês que é... uma vez do autor se preocupar com as conjugações reais, se preocupa com as conexões virtuais. Há um filme famosíssimo da RKO chamado Sangue de Pantera (refeito na modernidade com Natassja Kinski e o Malcolm McDowell, não sei se o título é o mesmo) em que nós vemos uma sombra de pantera projetada na parede mas não sabemos se a pantera é a real e aquela pantera começa a devorar uma sombra ― que é o que nós estamos chamando de CONJUGAÇÃO VIRTUAL.

[youtube 5nonoSAzsuE]

Jacques Tourneur - Cat People (1942)

Agora, nós vamos ter que distinguir conjugação virtual da conexão real. Então, no cinema de intensidade, nós já temos o primeiro plano, que é o rosto ou qualquer coisa que estiver no primeiro plano. Em segundo lugar, temos o espaço desconectado ou A COISA EM SI (eu vou usar esse nome, vocês deixem passar até que na próxima aula eu estabeleça um domínio sobre ele. O Jori Ivens que fez o filme A Chuva, quis fazer a chuva como ela é em si mesma: a ESSÊNCIA da chuva, ao invés das conexões reais da chuva. É como se ele quisesse nos dizer o que é a chuva nela mesma.
Então, 1) espaço desconectado ou a coisa em si; 2) o primeiro plano; 3) as conjugações virtuais ou sombras expressionistas.

Agora, 4) o ABSTRACIONISMO LÍRICO. Esse abstracionismo lírico, o grande exemplo é um autor chamado Josef Von Sternberg. O filme dele, dentre outros, é A Imperatriz Vermelha, com a magnífica Marlene Dietrich, numa época em que estava excepcionalmente bonita.

― O que marca exatamente o Expressionismo lírico? Vejam bem, eu ainda não estou dando aula de intensidade, eu estou começando a apresentar a intensidade para vocês, para na próxima aula começar a trabalhar nela, está bem?

O que vai marcar o abstracionismo lírico é um fenômeno que a partir do físico Newton começou-se a querer entender o que são as cores. Começaram a se preocupar em entender o que são as cores. E um autor, chamado Goethe, escreveu um livro que em português se chama “A Doutrina das Cores”; a tradução em português é mais ou menos, diminuída, mas é o que temos; quem lê francês, por favor, em francês a tradução é magnífica. Essa doutrina das cores nos diz que a luz tem dois processos: a) o primeiro é a luz lutando com as trevas. A luta da luz com as trevas é exatamente o cinema expressionista alemão: é o cinema da conjugação virtual. No expressionismo alemão, que é o cinema das conjugações virtuais, das sombras, o que existe é a luz lutando com as trevas. (Eu vou dar uma aula lindíssima sobre isso para vocês na semana que vem.) b) O outro é a luz branca se confrontando (olha que coisa louca!) com a transparência. O branco e a transparência. Por isso o abstracionismo lírico costuma fazer processos em que a palidez da lua se confronta com o vermelho do sol.

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Alº: Aí que começa a preocupação como entendimento das cores?

Cl: Não. A preocupação com o entendimento das cores foi a partir da física do Newton. Se eu tiver tempo eu vou explicar isso. A física do Newton não fala nas cores. Ela fala na variação da luz, tá? Agora, o Goethe vai falar nas cores. Nas cores existem em dois processos: que é o confronto do claro e do escuro, da luz e das trevas. Luz e trevas: vejam se vocês se lembram do Nosferato. Nosferato é exatamente isso. Vocês se lembram, no Nosferato o casal feliz está na luz e o Nosferato está na escuridão. Então é aquela luz, não é? Infelizmente a luz venceu!

Agora, no Sternberg o procedimento será branco sob a transparência, tá? Então, nós temos aqui os quatro componentes do chamado cinema afecção.

[youtube VarFo9EI_Uc]

Joseph Sternberg - A Imperatriz Vermelha (1934)

(Terça-feira eu vou sofrer horrores, para poder mostrar isso para vocês. O que nós vamos fazer é o seguinte: na quinta-feira eu vou dar quatro horas de aula, para quem aguentar, tá? Quem aguentar... porque nós vamos tentar dar conta desse cinema afecção. Eu tenho impressão que na semana que vem eu não vou cuidar de outra coisa, só vou cuidar dele. Porque os outros cinemas eu vou passar rápido, depois eu vou entrar no tempo puro.

Então, nesse cinema afecção já ficou colocado quatro elementos. Agora, o investimento neles. Ontem, eu fiz uma distinção para vocês entre pensamento e sujeito humano. Eu coloquei que o sujeito humano é constituído por conjunto de faculdades, que é a maneira como o sujeito humano exerce sua vida: inteligência, memória, imaginação, linguagem, hábitos, etc. E disse que o pensamento estaria no interior do sujeito humano, mas não pertenceria ao sujeito humano. Foi esse o enunciado que eu fiz, alguns dos alunos já disseram que eu tinha que prosseguir porque não entenderam bem... então, eu coloquei que o sujeito humano enquanto tal teria as suas próprias faculdades, com as quais ele exerce a sua existência: a inteligência, a memória, etc. Mas no interior do sujeito humano estaria colocada uma faculdade chamada pensamento.

As faculdades do sujeito humano trabalham com o que se chama recognição ― que é sinônimo de reconhecimento. O sujeito humano só trabalha com aquilo que ele reconhece, ou seja, entra no mundo e busca viver num mundo em que tudo o que ocorre ele é capaz não de conhecer, mas de reconhecer, certo? Por isso, se aparecer para um homem alguma coisa que ele não sabe dizer o nome, ele se assusta. O que é aquilo? Que coisa é aquilo? Por isso os monstros costumam chamar-se “a Coisa”. E isto não é brincadeira, o nome de a coisa dos monstros é muito sério, porque é o momento em que você sai do seu campo de reconhecimento. O pensamento não lida com as mesmas coisas com as quais o sujeito humano lida. O pensamento mergulha no caos da matéria. Ele mergulha nesse caos de imagem. O pensamento mergulha nesse caos de luz. Então, há uma diferença entre o modo de ser do pensamento e o modo de ser do sujeito humano. Vou clarear para vocês: um pensador do fim do século XIX, chamado Marcel Proust, constituiu um conceito chamado “Sujeito Artista”. Proust inventou este conceito. E quando a gente ouve um sujeito como esse: sujeito artista, agente tem a impressão de que o Proust está inventando um conceito, que seria o sujeito artista que teria a função de produzir arte.Não. A função do sujeito artista seria desfazer o sujeito humano, para o pensamento emergir.

(Vejam se vocês entenderam. Dificílimo?)

A função do sujeito artista seria desfazer o sujeito humano [pequena falha na gravação].

(...) quem as produz não são as faculdades do sujeito, são o pensamento. Então, se a arte não é produzida pelas faculdades do sujeito mas é produzido pelo pensamento, é preciso que o sujeito humano invente dentro dele um instrumento para quebrar o sujeito humano que domina a vida dele. Ou seja, quebrar o eu pessoal, quebrar o sujeito que nós somos para deixar que o pensamento surja e o pensamento vai lidar com uma matéria caótica e dessa matéria caótica o pensamento vai inventar novos mundos, novas regiões, novos afetos, novas linhas, novas vidas. Então, a arte seria a única maneira que nós teríamos de escapar do sufocamento da vida que vivemos.

(Entenderam?)

Então é exatamente isso que eu chamei de pensamento que está na base da construção das quatro imagens afetivas. (Ficou difícil o que eu disse? Eu estou dizendo que o pensamento, conforme eu acabei de explicar, que seria aquele quem produziria as quatro imagens afetivas: o primeiro plano, a conjugação virtual, o abstracionismo lírico e o espaço desconectado. O sujeito humano, jamais, na sua banalidade, poderia entender esses processos que muito além dele. Aqui eu estou ligando Proust integralmente a Espinoza – que a arte não é produzida para o sujeito humano, nem se endereça a ele. Aí, Proust retoma Nietzsche e diz que a avaliação de uma obra de arte nunca poderá ser feita pelo espectador. A obra de arte só pode ser avaliada pelo próprio artista. E quem é o artista? É o pensamento. (Entenderam?) O artista é o pensamento. Então, o pensamento, quando ele produz a obra de arte, o objetivo dele é construir uma linha de fuga.

O que é uma linha de fuga? É sair do território endurecido do sujeito humano. O território enrijecido do sujeito humano. E essa linha que o artista produz é uma prática. Então, essas noções de arte pela arte são completamente tolas. A arte é uma prática a serviço da vida. O que a arte objetiva quando ela se produz, é trazer para a vida alguma coisa. Mas atenção, na hora que a arte é gerada, fazendo da maneira que eu falei pra vocês... eu poderia usar o Espinoza, conforme eu usei no começo da aula. O Espinoza é aumentar a compreensão e o entendimento para superar a ignorância e a superstição. No Proust, é a produção do sujeito artista para quebrar o sujeito humano que nos governa. Quando isso ocorre, Quando o sujeito artista quebra o domínio do sujeito orgânico, desparece o que se chama a representação orgânica. A representação orgânica desaparece.

Alª: É aí que se dá a quebra do sensório-motor?

E é a quebra do sensório-motor por dentro. Quebra-se por dentro. Na hora em que se quebra a representação orgânica, nós entramos no que numa linha cristalina E essa linha cristalina é a POTÊNCIA NÃO ORGÂNICA DA VIDA.

O que significa potência não orgânica da vida? Significa que a vida está sendo pensada por essas linhas que eu estou produzindo, não como alguma coisa sinônima de organismo. Vida e organismo não estão sendo identificados. Pelo contrário, o organismo está sendo chamado de aquilo que aprisiona a vida: sujeito humano, sujeito pessoal, eu pessoal, todos os valores de um sujeito pessoal seriam exatamente aquilo que impediria a vida de fluir. Isso que eu coloquei, a noção de pensamento no Proust, é que o pensamento lidaria com isso que está aí, enquanto que o sujeito humano lidaria com territórios constituídos. O sujeito humano com os territórios constituídos e o pensamento mergulharia nessa virtualidade. E daí, desse caos de luz que está aí, o pensamento faria emergir novos mundos. Isso rompe com o processo de entendimento que nós temos de que só existe um mundo e que esse mundo nós temos que melhorar, ou piorar, não sei. E o que eu estou dizendo é que isso é uma tolice da representação orgânica. Existem tantos mundos quantos forem inventados. Nós só podemos entender isto se pudermos distinguir a noção de sujeito humano com suas faculdades e a noção de pensamento que eu estou colocando aqui. Então, a idéia de que há apenas um mundo é uma idéia que tem origem numa imagem dogmática do pensamento. Isto emerge com o nascimento da Filosofia, emerge uma idéia de que há um mundo que está pronto e a chegada do homem a este mundo trouxe para ele uma degradação. E se o homem chegou neste mundo e trouxe para esse mundo uma degradação, o homem precisa ser curado. O homem é chamado de “culpado”, é chamado de adâmico, de criminoso, porque trouxe a infelicidade para este mundo. E não estou dizendo que isto é mentira; estou dizendo que isto é absolutamente verdadeiro. Ou seja, o que precisa acontecer é irmos além do homem, produzir alguma coisa que não esteja mais submetida às representações orgânicas, porque essas representações orgânicas são exatamente os modelos do homem que tornam a impossível a constituição de um objeto de arte.

Vamos ver agora alguma parte de “A Linha Geral” de Eisenstein e “Jack, o Estripador” de Pabst. Em “Jack, o Estripador” alguma coisa de abstracionismo lírico vai aparecer. Então, alguma coisa de luz, muita luz vai aparecer. Então, vocês vão entrar, a primeira vez ainda sem a compreensão integral, com a questão do primeiro plano.

Esta é a terceira aula do curso Filosofia e Cinema - módulo: Imagem-Movimento, realizado no Castelinho do Flamengo, no inverno de 1995. As outras cinco aulas de Imagem-Movimento, e as cinco aulas de Imagem- Tempo, podem ser encontradas em Aulas Trasncritas. As aulas que faltam estão ainda em processo de transcrição.

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5 opiniões sobre “Aula de 20/07/1995 – Sombras e Imagens (aula com exemplos em imagens)”

  1. Elucidante a aula para as questões que envolvem a percepção humana no âmbito de sua psique. Concordo que o homem precisa ampliar sua percepção para libertar-se do sujeito humano e ‘acessar’ o seu ‘sujeito artista’, eu vou além e digo que essa definição limita o homem a apensas duas dimensões, a física e a emocional. Acredito que haja um terceiro passo extremamente importante para a evolução humana. A necessidade do homem quebrar o domínio do ‘sujeito artista’ para ter acesso a sua terceira dimensão, o ‘SUJEITO ESPIRITUAL’. Assim como o pensamento possibilita a quebra do sujeito homem permitindo o acesso ao sujeito artista, a oração permite a quebra do sujeito artista e o acesso ao sujeito espiritual. Existem ‘intervalos’ também na esfera emocional do homem. Estamos recebendo a ensinamentos espirituais a todo momento, por todos os meios possíveis de percepção. Mas só aprendemos aquilo que nos interessa, como no processo de ampliação do nosso entendimento em busca da erradicação da ignorância. O que não entendemos no processo de recepção de ensinamentos espirituais através do sujeito artista eu chamo de ‘intervalos de espírito’ que só podem ser quebrados através da oração. Espero ter conseguido me fazer entender. 🙂

  2. Agradeçendo todo este maravilhoso trabalho que vcs disponibilizaram para os que não tiveram a oportunidade de conhecer o Claudio Ulpiano.

    Parabéns!!! Os textos, as aulas, os videos, enfim todo o material tem sido muito consultado por mim e tenho aprendido bastante.

    Muito obrigado por este movimento criativo de compartilhar e organizar as aulas, videos, fazer este site maravilhoso.

    Isabel

  3. Há alguma aula do Cláudio, postada ou não, m que ele distrinche a filosofia do Peirce?
    Seria interessante, uma vez que numa das aulas ele fala do tipo de afeto que remete a esse autor (falando tb de Biran e Dufrenne) e o relaciona ao problema das “singularidades”.
    Abç.

  4. Organidor@s do site,
    muito obrigada mesmo por terem disponibilizado todo esse material, sem ele eu não entenderia nem metade do que estou entendendo agora ao ler os livros do Deleuze sobre cinema.
    Ficam registrados os meus agradecimentos e admiração pela iniciativa,

    Abraços,

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