Aula de 21/03/1989 – O novo objeto da metafísica

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[Temas abordados nesta aula são aprofundados nos capítulos 5 (A Fuga do Aristotelismo); 12 (De Sade a Nietzsche) e 15 (Ecceidade e Espinosa, o mais Poderoso dos Deleuzianos) do livro "Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento", de Claudio Ulpiano. Para pedir o livro, escreva para: webulpiano@gmail.com]

 

 


Parte I

Claudio: [...] e chegar ao final de uma forma altamente devagar.

Aluno: [fala inaudível na fita]

Claudio: É a questão dos megáricos, exatamente essa questão que vai ser levantada. [...] é a filosofia não-platônica. É isso que eu estou passando para vocês. Mas eu tenho que ser muito lento, porque primeiro eu quero que vocês dominem o tema... Dominado o tema, aí eu trabalho. Eu não trabalho antes que vocês tenham a mais integral dominação - inclusive disso, que você acabou de levantar agora. A partir da dominação integral, eu passo, então, à exposição - com a maior das lentidões... - até que vocês apreendam; e depois eu imprimo uma certa velocidade, porque aí eu entro pensando a questão. Então, vamos!

Há, na obra do Aristóteles, uma pequena confusão, uma pequena complicação. No sentido de que Aristóteles, em primeiro lugar, vai falar do real - do que ele entende como sendo real; e em seguida, vai falar sobre - o que ele entende como sendo o instrumento da razão. Ou seja: ele coloca aquilo que ele pensa do real - aquilo que ele acha que vem a ser o real; e em seguida, vai colocar o que ele acha que seja a razão pensando esse real. Bom. Segundo Aristóteles...

(Quando eu for obscuro na minha explicação, vocês me ajudem, fazendo perguntas... É só isso! Se eu for obscuro, vocês perguntam e eu procuro clarear.)

O real para Aristóteles é constituído de indivíduos. Então, para alguma coisa ser real, essa coisa tem que - necessariamente - ser individual. Não pode haver algo que seja real - que não seja da ordem da individualidade. Então, por exemplo: isto aqui [Claudio mostra um objeto] é um indivíduo... - logo isto é real; esta mesa é um indivíduo... - logo é real; este copo é um indivíduo... - logo é real.

Aristóteles não usa a palavra indivíduo. Ele usa a palavra substância. O real, para ele, é constituído de substâncias! Agora: esse real... (É muito simples, não tem nenhuma complicação teórica!) Nós, os sujeitos humanos - mas, eu posso dizer: todos os seres vivos - somos capazes de apreender esse real pela sensibilidade. Então, nós - os humanos - seriamos dotados de sensibilidade e a sensibilidade seria o meio que nós teríamos para fazer a apreensão do real. Se nós fôssemos "roubados" da nossa sensibilidade, nós não entraríamos em contato com esse real. Então, o que abre para nós as portas do real - é a nossa sensibilidade. O que eu estou chamando de sensibilidade é o que - classicamente - chamam aí de cinco sentidos !... É o meio - que nós temos - de apreender a realidade: pela sensibilidade! E esse real, que nós apreendemos, é um real individual. É isso, o real.

Agora: a partir do instante em que a nossa sensibilidade apreende o real, esse real vai - para a nossa imaginação ou a nossa memória - como imagem. Então, nós somos capazes de apreender o real pela sensibilidade e reter esse real na nossa imaginação-memória. Então, o real é retido, por nós, através da nossa imaginação-memória. Exemplo: eu olho para a O. e apreendo a O. pela sensibilidade. Daqui a pouco eu saio, vou embora para a rua, a O. retorna em mim por imagem. Então, nós aprendemos o real pela sensibilidade... e conservamos esse real em nós pela imaginação. Ficou claro? Então, é muito simples!

- O que se diz aí? O que Aristóteles vai dizer?

Nós os sujeitos humanos somos capazes de apreender a realidade e retê-la dentro de nós - mas de uma maneira muito original. Porque, quando eu apreendo o real, o real é individual. E os indivíduos reais são constituídos de matéria e de forma. Mas aquilo que eu retenho do real é a forma do real. Então, eu retenho as formas sensíveis do real. (Entenderam?) Aqui, pode-se fazer uma distinção, digamos, entre a prática da alimentação e a prática da percepção. Quando eu como uma cenoura, eu como a matéria e a forma da cenoura. Mas quando eu apreendo uma cenoura - eu apreendo apenas a forma dela. Essa forma, que eu apreendo pela sensibilidade, chama-se fantasma sensível.

Então, todos nós - humanos - podemos apreender o real e torná-lo um fantasma sensível. O fantasma sensível perdura dentro da gente porque a memória conserva esse objeto na ausência do próprio objeto. (Eu acho que foi claro. Certo?)

Em seguida, a razão entra em contato com esse fantasma sensível. Então, a razão não entra em contato direto com o real. Ela entra em contato com aquilo que a sensibilidade lhe oferece. Então, a matéria da razão é dada pela sensibilidade. A razão vai, lida com esse fantasma sensível - que é a matéria desse real que a memória deteve - e extrai do fantasma sensível o objeto racional - que é o conceito. Então, a sensibilidade apreende estas mesas. A razão vai, e extrai - destas mesas que a sensibilidade apreendeu - a semelhança e a identidade: funda o conceito de mesa. A razão não apreende "estas mesas". A razão apreende "a mesa". (Não sei se foi bem claro!?)

O que mostra que o objeto com o qual a razão lida não é real. Porque os objetos conceituais não existem no real - existem apenas na razão. Pois os objetos da razão não são individuais - são gerais ou universais. A razão lida com objetos gerais ou universais - e não com objetos individuais. Mas esses objetos - gerais ou universais - com os quais a razão lida, ela os extrai da sensibilidade. (Vejam se foi bem!? O que vocês acharam, deu para entender?)

O que vocês têm que guardar disso daqui:

A sensibilidade apreende o real. O real é o real concreto. O nosso real concreto. Mas a razão não teria dentro dela o concreto. A razão teria o abstrato. Então, por essa tese: o abstrato é um ser de razão - mas o real é concreto. (Entenderam?)

O abstrato é o instrumento pelo qual a razão categoriza e entende a realidade. Mas não existiria nenhum abstrato, nenhum geral, nenhum universal fora da razão. O abstrato pertence à razão. Diz-se: é um ser de razão. (Como é que vocês foram... entenderam bem? Todo mundo compreendeu o que eu disse?)

- Qual é a tese que eu vou retirar daqui? A tese que eu retiro é que o real é individual, concreto e apreensível pela sensibilidade. E o abstrato é um objeto de razão que - simultaneamente - é o instrumento que a razão tem para apreender o real. Então, Aristóteles vai dizer - com toda a clareza - que fazer ciência é fazer ciência do abstrato. Porque o abstrato é o instrumento que a razão tem para pensar o real concreto. Esse abstrato é o que nós chamamos na modernidade - mas, também, já na Idade Média - de conceito.

Conceito é o abstrato, é o geral, é o universal - aquilo que a razão tem para apreender o concreto real. (O que vocês acham - eu posso dar por entendido? Posso, não é? Então, vocês guardem isso, que eu agora vou passar uma tese diferente! Vou passar uma tese diferente.)

Determinados pensadores gregos vão fazer uma nova tese em cima das mesmas questões levantadas pelo Aristóteles. Vocês viram que as questões que eu levantei foram o real e o pensamento. O real é individual e apreensível pela sensibilidade. E o pensamento seria aquilo que lidaria com o abstrato , o geral, o universal.

Agora Lucrécio, que é um pensador do século I a.C., herdeiro de um pensador chamado Epicuro. Para o Lucrécio, o real é constituído de corpos. Vejam bem: o real é constituído de corpos. E aqui, ele não tem diferença nenhuma para o Aristóteles - porque o Aristóteles diz que o real é constituído de corpos.

Os corpos, para o Lucrécio, são apreensíveis pela sensibilidade - nenhuma diferença para o Aristóteles. (Tá?) Porque para o Aristóteles o real concreto é constituído de corpos; e para Lucrécio o real concreto é constituído de corpos. Para ambos, nós apreendemos esse real concreto pela sensibilidade.

O real concreto do Aristóteles é o corpo. O corpo é constituído de matéria e de forma. E aqui aparece a primeira diferença. Para o Lucrécio, o corpo não é constituído de matéria e de forma; o corpo é constituído por um conjunto de átomos.

Então, para Aristóteles, o real é o indivíduo; para Lucrécio, o real é o indivíduo. Para Aristóteles, o real é o corpo; para Lucrécio, o real é o corpo. Agora - os componentes do corpo aristotélico são a matéria e a forma. Os componentes do corpo para o Lucrécio são os átomos. Então, o Lucrécio está trazendo alguma coisa muito original - porque ele está dizendo que aquilo que compõe os corpos são os elementos atômicos. O que já traz para nós uma nova força de investigação. Porque, já que os corpos são constituídos de átomos, a nossa questão é:

- O que são esses átomos?

Esses átomos são pontos eternos: são seres eternos. E os corpos, que os conjuntos de átomos constituem - são seres temporais. Então, isso daqui [Claudio aponta um objeto] é um corpo - logo, é um ser temporal. Mas os elementos que compõem esse corpo - ou seja: os átomos - são eternos.

- Por que os átomos são eternos?

Porque para o Lucrécio os átomos não podem ser quebrados: eles são as unidades mínimas - que se mantêm absolutamente iguais pela eternidade afora. O que varia - são os corpos. Porque os corpos são conjuntos de átomos. Mas os elementos que compõem os corpos são eternos - porque não podem ser destruídos ou divididos. É possível que alguém diga: - Bom, o Lucrécio dizia isso, porque não conhecia essas grandes usinas atômicas existentes, que fazem o corte dos átomos. Ou seja: nós poderíamos pensar que a tese do Lucrécio poderia ser destruída por uma tecnologia poderosíssima - uma tecnologia que viesse dividir os átomos. Mas ele diz: não, não é uma questão de tecnologia: esses átomos são in-di-vi-sí-veis. Então, todos os corpos são temporais - porque o corpo é um conjunto de átomos. Um corpo - necessariamente - vai-se desfazer num momento do tempo: são os átomos se separando. Mas esses átomos, que compõem os corpos, são eternos e não podem ser destruídos ou divididos por nenhuma força: não há força que possa dividi-los.

Essa tese é crítica! Porque no momento em que ele coloca que os elementos que compõem os corpos - que são os átomos - não podem ser divididos, nós podemos aplicar uma crítica em cima dele e dizer: - E se no século XXXV inventarem uma máquina altamente poderosa, que venha dividir esses átomos? Ou seja, nós faríamos uma crítica à tese dele - uma crítica à eternidade dos átomos. Mas ele então vai e nos responde: - Nada disso! Esses átomos não podem ser divididos porque eles não são corpos: são os elementos que constituem os corpos - são apenas pensáveis! Eles não podem ser apreendidos pela sensibilidade. Eles são da ordem do pensamento. (Não sei se está indo bem!? Vocês estão conseguindo compreender?)

O que o Lucrécio está dizendo, é que o real não é constituído somente por corpos. Para o Lucrécio - existe um real concreto e um real abstrato. O real abstrato são os átomos. Então, ele está fazendo uma crítica à tese do Aristóteles - porque o Aristóteles diz que o abstrato - é o ser de razão; e o Lucrécio está dizendo que o abstrato - é real. (Eu quero ver se vocês entenderam... - Eu acho que eu não tenho mais nem o que dizer! Eu só posso falar em cima de perguntas que vocês fizerem... - Como é que você foi V.?)

- Quantos reais há para o Lucrécio? Dois!

Dois - um concreto; e um abstrato. Um que é apreendido pela sensibilidade; e um que só pode ser apreendido pelo pensamento. A grande questão aqui é o deslocamento do abstrato. Porque a idéia de abstrato - na linha aristotélica - é o conceito. A ideia de abstrato - na linha lucreciana - é o real. Nós estamos acostumados a utilizar a noção de abstrato como - aquilo que é um instrumento para pensar o real. O Lucrécio não está dizendo que o abstrato é instrumento para pensar o real - ele está dizendo que o abstrato - é real. Ele está fazendo um deslocamento completo na tradição aristotélico-platônica do Ocidente!

Aluno: [fala inaudível na fita]

Claudio: Só pode ser apreensível pelo pensamento. Porque se esse real abstrato pudesse ser apreendido pela sensibilidade, interpunha-se à tese de Lucrécio a possibilidade de uma tecnologia que quebrasse esses átomos! Esses átomos não são quebráveis - porque eles não são entidades sensíveis - eles são pontos do pensamento. Quase que se poderia dizer - pontos matemáticos. (Eu queria uma notícia de vocês... se foi apreendido...)

O que Lucrécio está dizendo, é que pensar - não é pensar os corpos constituídos; pensar - é pensar os átomos. Ele está deslocando a tradição da razão - porque a tradição da razão é a constituição de conceitos para pensar o mundo sensível. Ele está dizendo que a função do pensamento não é constituir conceitos para dar conta do mundo sensível; a função do pensamento é lidar com esse real abstrato.

(Eu ainda não tenho certeza que eu passei com clareza, viu? Só vocês podem me dizer! Vocês que têm que me dizer - se foi entendido, se não foi entendido, se ficou claro ou não... porque o que está acontecendo aqui - e a partir disso eu vou seguir esse plano de aula - é que nós vamos tentar pensar o real em termos de real concreto e real abstrato - ou seja: eu vou começar a introduzir uma prática de pensamento não-conceitual. Então, como nós vamos entrar numa fase muito difícil, o melhor método que nós temos é nesse momento é vocês me fazerem perguntas... - porque eu posso ter falhado na explicação!...)

Aluno: A matéria para o Aristóteles [...inaudível...]

Claudio: A matéria é infinita - mas os átomos são eternos. E indivisíveis. Que é até uma tolice deles falar isso, mas isso não importa para nós - mas eles são indivisíveis. O grande problema é que você tem aqui um corpo. Isso daqui é um corpo - certo? Esse corpo é um concreto sensível. Mas os elementos que constituem esse corpo são os átomos - e os átomos são abstratos reais. A grande questão é essa! (Eu vou tomar como entendido! Bento, não quer falar?)

Aluno: Mas esse abstrato [...inaudível...]

Claudio: Necessariamente. Porque todos os corpos são constituídos por átomos. Então, para você dar conta dos corpos, você tem que fazer uma prática de duas dimensões - pensar os corpos e pensar os abstratos. Duas dimensões. Certo?

Aqui está aparecendo uma coisa muito bonita! Esses átomos - antes de eles se organizarem para fazer um corpo; antes que o corpo apareça - eles são o puro caos. Então - por trás da ordem dos corpos - está o caos. Ou - mais grave do que isso - o objeto e a matéria do pensamento é o caos. Começa a ficar dificílimo! Porque, pelo que eles estão dizendo, o pensamento não é aquilo que tem que dar conta dos corpos. O pensamento é aquilo que tem que dar conta dos átomos. E os átomos - neles mesmos - são caos puro. A matéria do pensamento é o Caos.

Deixem-me dar uma explicação para vocês... Vocês não sabem que - no nosso tempo - há uma aproximação entre o louco e o artista? Que em toda a época da história há uma aproximação entre o louco e o filósofo? Por uma razão muito simples: porque tanto o louco como o filósofo; tanto o louco como o artista - a matéria deles é o caos. Os dois têm a mesma matéria! Só que o louco é aquele que se perde no caos; e o artista e o filósofo são aqueles que vão pensar o caos. Eles estão no mesmo limite! Ou seja: ser louco e ser pensador - é o maior risco da vida... porque é sair da ordem dos corpos. (Olha uma notícia para mim!!!... Como é que você foi, P.? Entenderam bem?)

O problema que eu levantei é simples! Eu fiz um deslocamento no pensamento. Porque... - qual é o instrumento do pensamento em Aristóteles? O abstrato! O instrumento do pensamento é o abstrato - é o conceito.

No Lucrécio, o abstrato não é instrumento do pensamento - é a matéria do pensamento. Isso em primeiro lugar. E em segundo lugar? Eu tornei o abstrato real. Há uma realidade abstrata, por trás da realidade concreta. Essa realidade abstrata por trás da realidade concreta é caos puro. (Eu não sei se eu fui bem, ouviram? Os que estão pensando aí, podem lançar uma pergunta para mim. O que você achou F.?)

Aluno: [fala inaudível na fita]

Claudio: Não só para o filósofo, mas também para a vida. Porque é exatamente isso! O pensador do caos é aquele que é capaz de fazer transformações no mundo. Se não houver o pensamento do caos - o mundo se tona sempre a mesma coisa! Porque é o enfrentamento do caos que vai fazer as invenções e a criação nascerem! Olhem que coisa mais simples! Na hora que Mozart vai fazer uma música, a matéria que ele tem não está organizada - é um caos - que ele transforma numa melodia... Se ele já tivesse uma matéria organizada, ele não seria o Mozart. Ele seria o Zequinha de Abreu! Porque ele iria apenas reproduzir alguma coisa já pronta. Um corpo pronto. A arte - a produção da arte - implica que o artista lide com o caos. É uma experiência trágica, uma experiência limite. Porque senão, ele reproduz tudo o que existe.

Eu vou dar um exemplo para vocês: se vocês me pedirem para eu desenhar alguma coisa neste quadro negro aqui, provavelmente eu vou desenhar duas montanhas - tipo Pão de Açúcar e Morro da Urca - com uma lua atrás e um riozinho por baixo. Porque são as imagens em que o mundo em que eu vivo não pára de me dar.

A função do artista é desfazer as imagens do seu mundo - para produzir o novo. E para produzir o novo... - ele tem que sair exatamente dos limites do seu próprio mundo - quebrar os limites do seu mundo - e entrar no caos. Porque senão ele está subordinado às determinações de um grupo de imagens. (Entenderam?) A criação é uma prática do pensamento: a filosofia, a arte, a ciência. Mas é um enfrentamento com o caos. Senão, você vai reproduzir todo o seu mundo. Todo o seu mundo retorna.

Se um artista fosse apenas reproduzir o seu mundo - não precisaria de artista - bastava o jornal. O artista é exatamente aquele que faz a experiência limite - além do território que lhe é oferecido - para pensar as forças enquanto tais.

Aluno: Esse artista tem que ser abstrato ou poderia ser figurativo?

Claudio: Poderia ser figurativo... Sem dúvida nenhuma, poderia ser figurativo. Ainda que... - (Vocês ouviram a questão que ele fez? Ele colocou uma questão sobre artes plásticas. Se esse artista poderia ser um [artista] figurativo. Eu respondi que sim...) Mas há uma questão na arte moderna. A grande questão da arte moderna está diretamente ligada à arte figurativa - no sentido que a arte figurativa é a representação do que existe. E o que a arte moderna quer produzir... - é exatamente o que não existe. A arte moderna não quer fazer uma prática representativa - ela quer criar novos objetos. Aí nós temos Kandinsky; temos Francis Bacon; temos o Pollock; de alguma maneira, a arte surrealista - um pouco menos, no Salvador Dali; muito no Miró - que são fugas, exatamente, do figurativo - que seria uma arte representativa. Começar a produzir o novo - em vez de apenas re-presentar o mundo como se apresenta para nós: criar outros mundos!... O que mostra que - aquele que pensa - pode inventar novos mundos.

[fim de fita]


Parte II

Se ele pode inventar novos mundos nas artes plásticas, ele pode inventar novos mundos na música, mas pode também inventar novos mundos na ética e na política. Ele pode inventar - uma nova cidade! Ou seja: todas as cidades que existem... foram inventadas! Não sei se vocês entenderam... todas foram inventadas! Exatamente por uma prática de arte. É isso - que é o homem! É isso - que é a prática do pensamento! A prática do pensamento é um enfrentamento com esse Caos! (Como é que está A.? Eu acho que está bem claro, não é?)

Eu vou parar aqui. Eu vou dar um ponto - e ver se ficou bem claro: O que eu quero marcar como franca distinção é o abstrato no pensamento e o abstrato real... Essa a grande distinção que eu quero fazer; levando - de imediato - ao surgimento de um tipo de pensamento não-conceitual - porque o abstrato conceitual é o abstrato no pensamento. Eu não sei se vocês deram conta disso que eu disse agora: é um pouco difícil! Você lá atrás - como é que você foi?

Aluno: Eu tenho uma pergunta da questão anterior...

Claudio: Qual a questão?

Aluno: Quando você fala do louco estar em confronto com o caos, aventando a hipótese de que tanto o louco quanto o artista [inaudível] do código [inaudível]?

Claudio: Não, eles não têm código! Eles vão entrar no caos. O louco é - exatamente - aquele que vai se perder no caos... o mundo dele se torna um caos!... Não há umas expressões que nós usamos muito - "Saiu de órbita!"; "Foi pro espaço!" - que é o louco? É exatamente a entrada dele no caos. E o artista é a mesma coisa! Só que o artista vai pensar aquilo - para produzir uma obra. Se nós pudéssemos tornar os nossos loucos artistas, as coisas iriam bem... - mas o que nós fazemos é tornar os nossos artistas loucos: nós invertemos o processo.

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Há uma má-fé nítida na psiquiatria. A psiquiatria vai transformar a loucura numa doença mental - ela não é uma doença mental; ela é a aventura das mais violentas da vida - a aventura do caos. Nós vamos encontrar determinados artistas - um exemplo é o Artaud, que é exatamente a mistura desses limites - da loucura e do pensamento. Artaud ora é louco, ora é pensador. Ele não para de se confrontar com o caos. Por isso, a obra de um homem como o Artaud é uma obra de alta angústia. Porque ele não é o homem comum! Porque o homem comum é aquele que se subordina ao campo de saber do seu mundo - reproduz o saber do seu mundo!

“Quero, quando escrevo ou quando leio, sentir minha alma retesar-se como na Charogne, no Martyre ou Voyage à Cythère de Baudelaire. Não gosto de poemas ou linguagens de superfície que falam de momentos felizes de lazer ou de sucessos intelectuais apoiando-se no ânus, mas sem envolver a alma ou o coração. O ânus é sempre o terror e eu não aceito que alguém perca um pedaço de excremento sem dilacerar-se por também estar perdendo a alma (...) Tudo o que não for um tétano da alma, ou não provier de um tétano da alma, como os poemas de Baudelaire e de Edgar Poe, não é verdadeiro e não pode ser aceito como poesia. (...) Baudelaire fazia saírem escarificações de afasia e paraplegia, e Edgar Poe, mucosas ácidas como o ácido prússico, o ácido do alcoolismo, e isto até o envenenamento e a loucura. Pois se Edgar Poe foi achado morto certa manhã em uma sarjeta de Baltimore, não foi por causa de uma crise de delirium tremens provocada pelo álcool, mas sim porque uns canalhas que odiavam seu gênio e detestavam sua poesia o envenenaram para impedir que vivesse e manifestasse o ditame insólito que se manifesta nos seus versos. Pode-se inventar uma linguagem própria, fazer com que a linguagem fale com um sentido extragramatical, mas é preciso que haja um sentimento válido em si, que provenha do horror - o horror, este velho servo da dor, sexo como uma coleira subterrânea de aço produzindo seus versos a partir da sua doença: o ser, e nunca tolerando que o esqueçam. (...) Amo os poemas dos famintos, dos doentes, dos marginais, dos envenenados: François Villon, Charles Baudelaire, Edgar Poe, Gérard de Nerval; poemas de supliciados da linguagem que estão se perdendo para melhor exibir sua consciência e ciência, da perda e da escrita. Os perdidos não estão sabendo dessas coisas, eles mugem e berram de dor e de horror. Abandonar a linguagem e suas leis para retorcê-la, para desnudar a carne sexual da glote de onde saem os amargores seminais da alma e os lamentos do inconsciente, tudo bem com isso, mas desde que o sexo seja o orgasmo de um insurrecto, desesperado, nu, uterino, lamentável, também ingênuo, perplexo por estar sendo censurado”.

Antonin Artaud

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Antonin Artaud

O artista e o louco - se confrontam com o caos. Eles saem do território que foi erguido para eles viverem. De outro modo: eles saem da cidade - literalmente saem! - porque houve épocas na história em que se tirava o louco da cidade, se colocava num navio, e soltava em alto-mar. Ou seja: joga-se o louco no aberto absoluto! No fora absoluto - um navio à deriva! E é esse navio à deriva que o pensador tem que dirigir. Porque as nossas vidas - todas as nossas vidas - são circundadas por esse caos.

Nós temos as nossas vidas apaziguadas exatamente porque nós vivemos num campo de saber. Nós vivemos num campo de reconhecimento. Nós reconhecemos tudo... - e isso apazigua a nossa vida. Nós nos contentamos com isso. A arte é a coragem da vida em ultrapassar o apaziguamento e enfrentar essas [...] do caos - para aí produzir alguma coisa de novo ou não produzir nada!

Um exemplo para vocês:

Há um autor do século XX - de má fama, hein? Muito má fama! - chamado Kafka, que tinha uma questão na vida dele - muito simples!... Ou eu saio para conquistar a felicidade - e conquistar a felicidade será casar-se, reproduzir-se, viver em família, viver na cidade - ou vou fazer uma experiência do Fora. Experiência do fora - fora do mundo em que ele vivia! Mas ele dizia: "Eu sou incurável! Eu só posso viver, fazendo a experiência do FORA." É como se fosse uma "praga" - ele não tinha outro modo de viver... senão fazendo a experiência absoluta da solidão e da angústia - para produzir uma obra. Para sair do modelo do homem apaziguado. Eu citei, aqui, o Maurice Blanchot, viu? Num texto sobre Kafka.

(Eu vou colocar dois pontos e abrir umas aspas... e esperar uma pergunta, para ver se está indo tudo bem. Como é, Chico? Eu estou achando que está indo bem, não é? Eu vejo algumas pessoas inquietas. E esses inquietos, eu gostaria que perguntassem... às vezes eu não expliquei bem!...)

(Então, eu vou seguir...)

Aluno: Só uma pergunta... [inaudível]

Claudio: Ele não para o caos - ele procura apaziguar, vivendo num mundo de crenças, num mundo de ilusões - que é exatamente como nós vivemos! Há, inclusive, no nosso mundo - isso é muito nítido! - temas como a morte , por exemplo, que são bloqueados por nós - porque a morte é uma dessas experiências do Fora. Experimentar a morte no pensamento - são essas coisas que são bloqueadas para nós! São feitas práticas de apaziguamento. Nós somos de tal forma apaziguados... - que nós podemos pensar: - Bom, é melhor se apaziguar, do que enfrentar isso! Mas, não! Não! A morte faz parte da vida! Ela tem que ser pensada!

Diz o Lucrécio, que a morte se tornou um terror para nós - porque nós não a pensávamos; e ela se tornou matéria de trabalho do sacerdote religioso. Na hora que o sacerdote religioso começou a pensar a morte, o que ele fez conosco? Disse para nós que depois de mortos nós estaríamos vivos: ele nos prometeu um segundo mundo - e esse é o ponto de maior atemorização que nós temos. A idéia de estarmos vivos depois da morte é o que mais nos aterroriza! E Lucrécio diz ter sido essa a grande vitória do sacerdote - imaginar seu corpo em decomposição... e ainda estar vivo! E isso se explica: porque, ao longo da história, só o sacerdote se dedicou a esse pensamento.

Aluno: [inaudível] a história da morte [inaudível]

Claudio: Lindíssimo, lindíssimo! Você vê que determinados povos, dos séculos passados, levavam a morte a uma valorização muito bonita: muito bonita! Porque aquele que ia morrer, se cercava de todos os seus familiares e de todos os seus amigos para expressar pensamentos - era de uma beleza muito grande! Somos nós que vamos tornando todos esses fenômenos da vida - tem que verificar o motivo disso! - verdadeiros horrores para as nossas vidas!

(Intervalo para o café!)

Há uma prática em filosofia - chamada metafísica. (Certo?) A metafísica é um pressuposto de que a razão (Olha o que eu falei da razão no Aristóteles! Se vocês não entenderam a razão do Aristóteles, vocês não vão entender!) Por isso, eu falei: Olhem, perguntem, perguntem! A razão do Aristóteles - para funcionar - ela pressupõe a sensibilidade? Pressupõe! Logo, a razão só lidaria com objetos físicos - que são os objetos dados pela sensibilidade. Mas a metafísica - é o encontro da razão com as idéias - sem a mediação da sensibilidade. (Vejam se entenderam!)

A razão entraria em contacto com as idéias, sem ser mediada pela sensibilidade. Por isso, um filósofo chamado Platão construiu - na sua teoria - dois mundos: o mundo da sensibilidade - onde se faz física; e o mundo das idéias - onde se faz metafísica. (Entenderam?) É a razão no encontro com as idéias.

Aluno: Não acho que seja viável você conseguir trabalhar só com as idéias sem --?-

Claudio: O Platão admite que sim!

Aluno: Ele admite, mas [inaudível]

Claudio: Olha, é melhor a gente deixar para verificar as críticas que a gente pode fazer em cima disso, porque vão aparecer! Para o Nietzsche, esse mundo das idéias platônicas é ficção - é a maior tolice! Mas quem pense isso! (Certo?)

Agora, prestem atenção: essa metafísica é a razão entrando em contacto com as ideias - que seria o segundo mundo do Platão. Teria o mundo da sensibilidade e o mundo das ideias... Quando a razão entra em contacto direto com as ideias a razão está fazendo...?

Alunos: Metafísica!

Metafísica! Quando é o encontro direto com os objetos da sensibilidade, ela está fazendo uma física. (Entenderam? Compreenderam o que seria a metafísica? Muito bem!)

- Quantos reais existem para o pensamento do Lucrécio?

Dois: o concreto e o abstrato.

O abstrato é quando o pensamento entra em contacto com o real - sem passar pela sensibilidade. Logo, esse contacto do pensamento com o real abstrato - é uma metafísica!... (Vocês entenderam? Se não , eu repito! Foi bem, Bento?)

- Por que eu chamei de metafísica? Porque não é o contacto com a matéria da sensibilidade - é o contacto com o real abstrato. Então, na hora em que o pensamento entra em contacto com o real abstrato, ele está fazendo uma... Metafísica!

O que vocês acharam? Eu tenho que saber se vocês entenderam... porque eu tenho que dar continuidade - e se vocês não entenderam, eu não posso!

Há uma diferença da metafísica do Platão para a metafísica do Lucrécio - mas muito semelhante! Porque para o Lucrécio há um real concreto - para o Platão, há o real concreto. Para o Lucrécio, há um real abstrato - para o Platão, também há um real abstrato. O real abstrato de Platão - são ideias. E o real abstrato do Lucrécio - são forças. (Ficou difícil, não é?)

O real abstrato - é constituído de átomos; e esses átomos são forças. O que aparece aqui - talvez vocês possam entender! - é que quando a gente estuda cosmologia e a gente estuda física... - são duas ciências - e todas as ciências são experimentais. A física nos fala na existência de quatro forças - da gravidade , eletromagnética , forte e fraca. Forte e fraca são as microforças. Inclusive, eu agora estou identificando a forte à eletromagnética. E há alguns físicos - incluído o meu amigo Salim - que procuram uma quinta força no universo... - mas são forças físicas! O real abstrato - é o pensamento lidando com forças metafísicas. (Ficou muito difícil, não é?)

Forças Metafísicas! (Ficou difícil?) Nós ainda não sabemos o que são essas forças metafísicas - mas estamos admitindo a hipótese de que - se existir um real abstrato - existe uma matéria para o pensamento metafísico. E essa matéria para o pensamento metafísico - são forças.

Eu vou dar um exemplo para vocês:

- Eu tenho algumas rugas no rosto? Tenho! - quase todos nós temos rugas no rosto!

- Quem produz as rugas? - O Tempo! O tempo! Então, o tempo tem força! Se não houvesse o tempo - todos os acontecimentos se dariam de uma só vez - pois é o tempo que separa os acontecimentos. O tempo é uma força que verga a matéria. O tempo é uma força metafísica. (Não sei se vocês entenderam bem.)

Por isso - para vocês entenderem - aparece no mundo moderno um pensador - chamado Bergson - que se opõe à teoria da relatividade do Einstein. Por quê? Porque a teoria da relatividade do Einstein é uma física. E o Bergson - quando pensa o Tempo - pensa em termos metafísicos. O tempo é uma força metafísica, que a razão clássica não pode compreender - porque a razão clássica é aquela que - para trabalhar - supõe a sensibilidade. O pensamento seria um poder - da vida - de pensar diretamente essas forças metafísicas.

Aluno: Não teria espaço?

Claudio: Aí seria um físico - espacializador!

- Então, o Bergson - que nesse nível seria um lucreciano - em vez de pensar o real concreto, está pensando o real abstrato - o campo das forças. Pensando as forças, enquanto tais.

Vou dar outro exemplo para vocês:

Existe um pintor - chama-se Francis Bacon. Cada vez ele fica mais famoso: suas telas já passaram no cinema - na apresentação de um filme, se não me engano, do Bertolucci - Último Tango em Paris. Ele começou a ficar famoso!

Mas se vocês verificarem a obra do Francis Bacon - ela surpreende! Porque o Bacon - é uma tentativa de pintar não as formas - mas as forças; não a força da gravidade ou a eletromagnética - mas pintar as forças metafísicas. Por isso que os objetos que aparecem na obra dele são - torcidos , retorcidos , cortados - porque são objetos fustigados pela força metafísica. (Eu não sei se eu fui bem... eu acho que eu fui profundamente infeliz, hein?)

Na próxima aula, eu vou trazer um Bacon para vocês verem, viu? Um álbum dele - para vocês olharem e eu começar a apresentar [esse trabalho] para vocês. O que eu estou chamando de pensamento torna-se uma coisa muito complexa... - porque nós nunca admitimos que um pintor pensasse para fazer a sua obra... - Pintor, pensar? Não ! Pintor copia !?... Assim que nós pensávamos! Eu estou dizendo para vocês - é nítido que é verdadeiro - que na prática das artes práticas de pensamento. O Bacon é um artista plástico - mas a arte dele é uma obra do pensamento. Não o pensamento enquanto razão clássica, enquanto uma razão que tem que dar conta do mundo sensível. Mas enquanto um pensamento que lida - com as forças metafísicas.

francis-bacon2

Questão:

- O que são essas "forças metafísicas"?

(Eu não sei se eu fui muito longe nessa fase, ouviu? Eu estou olhando os rostos um pouco perplexos, então, eu estou em dúvida...)

(Como é que você foi, T.? Tudo bem?)

Aluno: [inaudível] forças metafísicas [inaudível]

Claudio: As idéias? Em Platão, mas no Lucrécio não. No Lucrécio, é o encontro do pensamento com o real abstrato.

Eu estou dando esse exemplo, para depois começar a explicar para vocês o que é o real abstrato. A diferença aqui é que a velha metafísica trabalha com ideias. A nova metafísica trabalha com forças. Não é uma física - não é a força gravitacional! Não é nada disso! São as forças metafísicas - que nós vamos tentar entender aqui. (Fala!)

Aluno: Pois é...

Claudio: Eu ainda não expliquei... eu ainda estou começando a burilar para vocês o que viria a ser isso... Por exemplo: há um autor no mundo moderno, que é muito criticado e combatido... e inclusive desqualificado... e que muitos contra-sensos são ditos sobre ele - é o Michel Foucault. Por que o Michel Foucault é tão combatido? Porque pensam o Michel Foucault sob o modelo da razão clássica. Ele não está com a razão clássica. O mundo do Michel Foucault é constituído de duas regiões - o real concreto e o real abstrato. Não se entende a obra do Michel Foucault se não se entender isso! Não se pode dar conta do Michel Foucault reproduzindo a história e a filosofia clássicas. Só se entende esse autor se nós entendermos essa questão que eu estou levantando para vocês: real concreto e real abstrato. Então, é um movimento de aula que eu tenho que fazer com vocês, para vocês entenderem! Entenderem mesmo , compreenderem, utilizarem como vocês quiserem - fazerem com isso o que quiserem - mas passarem a entender.

(Bom. Eu não vou apertar muito aqui hoje... porque senão vocês acabam caindo no fora - a gente pira! Muito violento isso. Aos poucos, para vocês tomarem contato, viu?)

Eu vou dar outra explicação para vocês:

Há uma palavra em filosofia que se chama ontologia. É palavra básica em filosofia - básica! Fundamento de filosofia! Então - em primeiro lugar - eu vou levá-los a entender o que é ontologia; e - em segundo lugar - a entender uma ontologia clássica e uma ontologia moderna, para vocês distinguirem.

Vejam isso: os povos antigos - e isso são exercícios de historiadores que eu estou narrando para vocês - como qualquer povo, pressupunham o domínio de um certo território para viver. Eles organizavam um território como qualquer povo organiza um território: construíam uma aldeia, construíam uma cidade, etc. Mas esses povos achavam que a geografia terrestre do lugar em que eles viviam era uma cópia de uma geografia celeste. Os povos antigos viviam como se o mundo deles fosse uma réplica - uma reduplicação de um mundo celeste. Ou seja: para eles, o mundo em que eles viviam era um mundo réplica - um duplo; mas o real era a geografia celeste. Esse real é o que se chama ontologia. Ontologia é o real enquanto tal. (Entenderam?) Então - para esses povos - o mundo em que eles viviam era uma cópia de um real superior. (É muito fácil entender isso!)

Você encontra um determinado povo que vive num mundo cercado de rochas... De repente, esse povo pega uma determinada pedra e a torna sagrada... porque supõe que aquela pedra caiu da geografia celeste. (Entenderam?) Aquela pedra vem da geografia celeste para se instalar na geografia terrestre - motivo pelo qual ela é sacralizada! Ou seja: os povos antigos sacralizam o ontológico.

De outro modo, os povos antigos acham que os homens têm dois tipos de comportamento: os comportamentos físico-musculares - sem nenhuma importância; e os comportamentos rituais - originários nos heróis e nos deuses que vivem na geografia celeste. Então, até as práticas comportamentais pressupõem o ontológico. O mundo em que eles vivem é uma cópia da geografia celeste; e as práticas que eles fazem é uma cópia das práticas dos deuses e dos heróis. (Entenderam? Está bem claro, não é?)

Isso daí é uma ontologia; e é com esse modelo que vai ser feita a ontologia platônica. A ontologia moderna não é o pensamento dessa região celeste. E isso é o que se chama "esvaziar o mundo de deuses". Esvazia-se o mundo dos deuses e supõe-se que nós estamos cercados pelo caos. Essa ontologia é uma ontologia do Caos. (É a coisa mais fácil de entender!)

Os povos antigos, ao saírem de sua cidade para fazer, por exemplo, um safári, uma savana, uma viagem, ao chegarem a uma determinada região, achavam que aquela região, em que haviam chegado, não era modelada pela geografia celeste - logo, era uma região caótica: era o caos. Porque, para eles, no nascimento da região celeste, pressupôs-se que deuses e heróis tivessem posto fim ao caos. Haveria, portanto, determinados lugares ainda caóticos, na Terra - porque não seriam modelados pelos deuses e heróis. É por isso que os povos antigos chegam nesses territórios que consideram caóticos e fazem os rituais de criação: para tornar aquele lugar uma cópia da região celeste. (Entendeu, Bento?)

- Qual é a conclusão a que nós chegamos aqui?

Que quando nós lemos todas as teogonias - todas as teogonias que existem na história - é sempre a mesma luta: luta do sagrado contra o caos. Como - na história - há um domínio da religião, o sagrado se instala e o caos é recalcado. Se nós quebrarmos o religioso e o sagrado, o que existe por trás das ordens das nossas vidas é exatamente o caos. E é exatamente esse o pensamento moderno. Fazer ontologia e fazer metafísica na modernidade é fazer a metafísica e a ontologia do caos - isso é Nietzsche, isso é Bergson, isso são todos eles! (Vocês acham que eu consegui passar? Entenderam o que eu disse?)

Então, pelo que eu estou dizendo para vocês, pensar não é pensar o território que nós vivemos. No território em que nós vivemos, não é necessário pensar. Basta falar e ver - porque ele reproduz tudo do nosso mundo. Pensar é um confrontamento com esse caos. Ou então - na prática religiosa - pensar as regiões celestes.

Com a destruição das regiões celestes, o pensamento se defronta com as forças livres do caos, constituidoras dos territórios em que nós vivemos. Então, vai haver agora uma distin...

[fim de fita]


Parte III

Saber - é saber o mundo em que você vive. E pensar - é pensar o caos. Pensar as forças. Não as forças enquanto físicas - mas as forças enquanto metafísicas - porque será exatamente esse pensamento que permitirá a história, as modificações, o tempo, ou seja - tudo o que se processa no nosso mundo. (Fui muito longo, não é? Eu não consegui fechar bem não, consegui?)

- Como é que vocês ouviram isso? Ficou muito difícil, a questão do caos - pensar o caos?

Vocês têm que notar uma questão. Esses levantamentos que eu estou fazendo para vocês, mostram que a minha aula não tem nenhum objetivo de apaziguamento: ela tem o objetivo de estimular o pensamento. O meu objetivo é esse! Eu não quero levar vocês a se apaziguarem, a se acomodarem ou a terem crenças tolas. Mas a usar o instrumento mais precioso da vida - que é o pensamento. Fazer do pensamento o artista superior da nossa vida. Porque senão - a vida se torna insuportável. Ela se torna uma insuportabilidade. Por um motivo simples - porque a todo o momento em que nós pensamos, as categorias do saber, que estão sobre nós, nos destroem. Porque as categorias do saber só nos convidam para uma racionalidade cotidiana... - que nós não sabemos confrontar com as grandes questões da vida.

Aluno: [inaudível]

Claudio: É uma aventura, é uma aventura! Pensem só uma questão - que quantidade de tempo nós podemos pensar que se passou deste minuto agora, para trás? Que quantidade de tempo já passou? Eu posso dizer - um infinito de tempo? Posso: "Nós temos atrás de nós um infinito de tempo. Nós temos, para frente de nós, outro infinito de tempo." Nós somos um pequenino fôlego entre dois infinitos. Isso é a vida: a vida é isso. Mas é exatamente esse pequenino fôlego - entre dois infinitos - que é capaz de pensar. Pensar, inclusive, esses dois infinitos!

Aluno: [inaudível]

Claudio: Tá tudo ali, não é? Tanto o passado, quanto o futuro.

Aluno: Eu ainda não consegui entender exatamente o que significa pensar algo...

Claudio: Porque eu ainda não expliquei... eu vou dando [ao longo das aulas], entendeu? A única coisa que eu [já] dei, com muita clareza, é que isso que eu estou chamando de caos - que é o novo objeto da metafísica - não é um campo das idéias; é um campo de forças - que eu chamei de "forças metafísicas". (Que nas próximas aulas eu começo a explicar - porque é difícil, realmente, tentar dar conta do que vem a ser isso. Eu acredito que eu vou fazer vocês entenderem: não é tão difícil assim! Mais ou menos, salvo equívoco foi uma pergunta que o Bento fez no início da aula. Todos os corpos - que são os concretos - pressupõem neles os abstratos: são os pontos de força. São os pontos de força que constituem a nossa vida! Eu vou dar um exemplo para vocês. O Nietzsche dizia - uma coisa muito difícil de entender - [Claudio tem um engasgo e comenta: 'falar em Nietzsche é sempre um problema, não é? Produz engasgo, coqueluche, tosse...']

O Nietzsche dizia que o homem seria um ser de pouca potência. Por que ele diz isso? Porque quando nós praticamos os hábitos da nossa vida, muitas vezes fazemos e dizemos: "Eu vou fazer isso agora, mas nunca mais vou fazer! Nunca mais eu faço isso!"

O Nietzsche diz: - Haja, na sua vida, de uma maneira tal, que tudo o que você fizer, você queira que se repita pela eternidade. É uma ética terrível! É uma ética quase que impossível para nós. Nós, os homens, somos seres muito fracos! Por isso é que o Nietzsche quer que o homem desapareça e apareça o super-homem. Só agir na sua vida de uma maneira que tudo aquilo que você faz, você queira - literalmente - que se repita pela eternidade. Por isso, ele diz que se sua questão for ser preguiçoso..., leve isso às últimas conseqüências: faça isso sempre! Ele não está moralizando nenhuma prática: qualquer prática - não importa qual. Mas fazer sempre aquilo que você queira que sempre se repita. Porque , você constitui uma ética superior.

A partir do instante em que você agir dessa maneira - você constrói uma pedagogia da repetição: uma pedagogia em que todos os homens só agirão pensando que aquilo vai se repetir - para sempre! Em termos éticos - é isso a doutrina do eterno retorno do Nietzsche. A partir daí, uma preguiça é uma força. Não sei se vocês entenderam? É força - força da vida! É a força de fazer a sua vida, de cometer os seus atos. São essas as forças metafísicas - é aquilo que constrói a sua existência no mundo: a sua maneira de se compor com isso, de se separar daquilo... Porque, vocês não tenham dúvida: o homem se explica por isso! O homem se explica pelas composições que ele faz: qualquer homem! Pode-se compor com qualquer coisa... mas..., de que maneira?

Por exemplo: há um filme do Sergio Leone - e os filmes do Sergio Leone, vocês já sabem que são barra pesada, não é? Em que há um determinado gângster que se vira para um amigo e diz assim: "Olha, eu tenho que fazer isso que eu faço, porque só duas coisas me afetam: mulher e grana. Nada mais me afeta! Eu não consigo ver mais nada! Eu olho para o mundo e só vejo duas coisas - mulher e grana..."

- O que está sendo dito aqui?

É que as forças que constituem a nossa vida são os nossos afetos! O que - exatamente - me afeta, e o que não me afeta? Aquilo que te afeta, fazer uma composição para elevar ---. O Nietzsche não diria que o gângster é um mau sujeito, não!!!! É esse o afeto dele? Leve-o às últimas consequências... e aguente as consequências! Mas levar seus afetos às últimas consequências..., sabendo que os afetos e as forças que nos constituem podem ser inventados... - nós podemos inventá-los. Se você não tem um afeto... - produza-o! invente-o!

Se eu pegar hoje - por exemplo - um menino de favela, e colocá-lo para ouvir uma Ópera, ele vai cuspir... e, daqui a cinco anos, ele poderá estar composto com a Ópera!? Produzir o afeto; estimular o afeto; gerar composições. São exatamente essas as forças metafísicas. São essas forças metafísicas que explicam o que nós somos. Com o quê, nós vamos compor as nossas vidas!

Então está bom por hoje - tá? Já deu para vocês levarem pensamento à vontade para casa, não é? E eu continuo a insistir nessas teses lindíssimas - para vocês a dominarem amplamente. Eu vou trazer textos para ajudar!

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