Aula de 23/02/1996 – A vida criativa e a construção de um estilo

Parte I

Eu vou partir de um diretor de cinema chamado John Cassavetes - que já foi citado neste curso. Alguns de seus filmes encontram-se nas locadoras. E após a exposição do Cassavetes, que vai ser inteiramente filosófica, vocês começarão a penetrar no que eu estou colocando para vocês. O cinema do Cassavetes ― por ressonância, nunca por modelo ― expressa, por exemplo, todo o sonho filosófico do Espinosa. No sentido de que Espinosa é o marco da filosofia onde o corpo deixa de ser aquilo que impede o pensamento, onde o corpo deixa de ser um obstáculo para o pensamento e vai se tornar aquilo que deve ser pensado.

Eu disse que durante toda a história da filosofia a mesma questão sempre se repetiu: o corpo aparecendo como um obstáculo ao pensamento. O corpo, com seus erros, suas paixões, seus delírios, com suas loucuras, seria um obstáculo à prática do pensamento. Com Espinosa há uma inversão radical dessa posição: o corpo, que era o obstáculo do pensamento, torna-se o objeto do pensamento. No sentido de que a única coisa que o pensamento tem para pensar é o corpo, porque o corpo carrega com ele a própria vida. Então, essa inversão se manifesta...

Que inversão? A inversão clássica de um corpo como obstáculo do pensamento, como a causa dos erros, como o negativo do pensamento; o corpo como aquilo que deve ser banido com experimentações assépticas, por insensibilização... até que ele, o corpo, se torna a matéria prima do pensamento. E é isso, exatamente, que vai ser o cinema do Cassavetes.

Cassavetes é americano, morreu creio que em 1990 (por aí), é da Escola de Nova Iorque e é considerado assim, digamos, pelo maior avaliador de cinema do planeta, que é o Cahiers du Cinéma, como um dos maiores diretores de cinema que já existiu. Então, o cinema do Cassavetes (e é por ele que eu estou encaminhando a aula) é um cinema do corpo. Quer dizer, é um cinema voltado para as questões do corpo, mais nada. Assim como poderia haver um cinema voltado para a questão da ação, um cinema voltado para a questão do crime, um cinema voltado para a questão da música (como, por exemplo, a comédia musical), o cinema do Cassavetes é um cinema voltado para o corpo. Então, o primeiro componente que aparece para a compreensão do que é o pensamento do corpo em termos de filosofia, mas também em termos de cinema é que, para se pensar o corpo, o primeiro componente que se tem de extrair do corpo, erradicar no corpo é a história, a história pessoal.

Quando nós vamos ao cinema, o que, comumente, nós requisitamos de um filme, é que ele tenha uma história; o que nós podemos chamar de enredo. O screenplay, etc. Então, há uma história que nós acompanhamos: a história do filme. O que o Cassavetes coloca como fundamento de sua obra ― e que é toda a sua questão ― é fazer um cinema do corpo. E para fazer um cinema do corpo, a história tem que ser extraditada. Ou seja, não há história!

Eu cito dois dos seus filmes: um chama-se Husbands e o outro Faces. (Vocês poderão assisti-los, porque eles existem nas locadoras!)

Então, esses dois filmes têm o mesmo objetivo: mostrar o corpo. Mas não o corpo como resultado de uma história. Porque o corpo como resultado de uma história é o que se chama corpo orgânico: um corpo constituído pelos hábitos, pelos objetivos orgânicos... O corpo do Cassavetes não é isso, não é um corpo orgânico.

O corpo do Cassavetes é um corpo do espetáculo; é um corpo cerimonial. Então, você entra num filme dele (os dois que eu estou citando são os melhores para se compreender isso – o Faces e o Husbands...) e você vai ver ele empregar dois processos para passar essa ideia de cinema-corpo: no Faces, o primeiro plano, que é a base do filme; e no Husbands, ele usa o que se chama espaço-qualquer. Ou seja, ele cria, no filme, uma situação, um meio qualquer que não tem nada a ver com o meio comum dos homens. E, nesse meio, o que os homens têm que fazer, ou seja, os intérpretes, o que os atores fazem, a única coisa que eles fazem é o que se chama gestus.

O gestus é um conjunto de posturas e de atitudes. É como se vocês estivessem entrando numa aula marciana, quer dizer, nalguma coisa totalmente fora dos quadros cinematográficos clássicos. O ator é uma conjugação de posturas e de atitudes e a presença dele no filme não é como a de uma personagem clássica num filme qualquer. O encadeamento de uma personagem clássica é feito pela história. No filme do Cassavetes o encadeamento é feito pelo gestus.

No encadeamento feito pelo gestus, são as atitudes e as posturas que vão se encadeando. E, nesse encadeamento, nasce o cinema que eu estou chamando de cinema do corpo. Você está diante de um filme em que a personagem não tem absolutamente nada a ver com a história, ela não tem nenhuma história, ela apenas manifesta as posturas possíveis de um corpo – em gritos, cantos, falas, gestus... Então, não é nada mais do que isso o que acontece no cinema do Cassavetes. E quando entramos em contato com ele – os nossos hábitos de cinema, que são do cinema de Hollywood, de um cinema-ação, de um cinema que é a repressão do corpo – nós temos dificuldade de entender.

(Deixem de lado!)

Em segundo lugar, eu vou citar um escritor, que também é de cinema, mas eu vou cuidar dele apenas como literato. Ele se chama Robbe-Grillet. Toda a questão do Robbe-Grillet, na literatura dele, é o rompimento com a literatura clássica. A literatura clássica se constrói pela constituição de um determinado plano: as personagens estão dentro desse plano e fazem a sua história no interior desse plano único. Então, quando você pega uma literatura clássica você sempre encontra um narrador descrevendo ou reproduzindo a estrutura diegética da obra em termos de uma narrativa clássica. Porque ele vai do começo ao meio e ao fim. Você lê um texto do Balzac, um texto do Émile Zola, pouco importa, qualquer literato clássico é sempre uma história que tem personagens, as personagens principais da história. E o autor focaliza aquelas personagens em sua passagem por um determinado plano, em sua passagem por um determinado meio. Esse processo chama-se literatura realista. Em sua literatura, o escritor descreve, narra o que vai acontecendo com aquelas personagens. Robbe-Grillet não adota esse procedimento.

O Robbe-Grillet pega uma, duas ou três personagens, não importa quantas e, ao invés de mantê-las num plano único e fazer a narrativa dessas personagens dentro desse plano, ele coloca a mesma personagem em vários planos diferentes. Então, a mesma personagem, vamos dizer, a personagem X na literatura realista clássica, o que ela faz é um processo, um processo histórico, eu chamei de diegético, que a narrativa clássica cobre completamente, dizendo o que está acontecendo com aquela personagem: ela envelheceu, casou, ficou gripada... Todos os acontecimentos da sucessão da história de alguém.

No caso do Robbe-Grillet, ele pega uma mesma personagem... Agora vai ficar um pouco mais sofisticado! Ao invés de pegar exatamente uma personagem ele pega uma moldura, ele constrói uma moldura, ele constrói uma espécie de moldura e, dentro dessa moldura, ele vai, pelas palavras, construindo uma personagem. Ele constrói a personagem no interior de uma moldura, que seria como o quadro a priori da existência daquelas personagens. Então, uma mesma personagem é descrita de uma maneira naquele plano; ele gera outro plano, descreve-a de outra maneira; gera mais outro plano, descreve-a ainda de outra maneira... Então, nós saímos do estágio clássico da literatura, que é sempre encontrar uma mesma personagem com sua história pessoal e com a suposição de que aquela personagem tem uma existência prévia ao narrador.

No caso do Robbe-Grillet, ele rompe com a história e a personagem é observada sob diversas perspectivas. Ou melhor, sob diversos planos. Ao invés de ser várias personagens em um só plano, é uma personagem em planos diferenciais. Nesses planos diferenciais, a cada maneira que você investe sobre aquela personagem, esse investimento é completamente diferente do outro. O que quer dizer que a personagem na obra do Robbe-Grillet não depende de uma história, ela é inventada no momento exato em que ele constrói o plano. Ele constrói um plano, inventa a personagem. Desfaz aquele plano, faz outro plano, inventa outra personagem.

O melhor romance para vocês lerem dele... eu vou indicar dois, todos os dois existem em português. Um chama-se Ciúme e é fantástico! Agora, é um texto muito cruel, porque ele é muito teórico, no sentido de que ele não deixa margem a nenhum limite da literatura clássica. Ele passa um processo em que o narrador descreve a mesma personagem sob ângulos os mais diversos. Ou então, vocês leiam outro texto dele, que é maravilhoso, chamado Djinn.

Djinn é um texto verdadeiramente extraordinário, onde se encontra exatamente o componente fundamental do que estou dizendo para vocês. É uma mesma personagem convivendo em diversos planos ou convivendo em diversos pedaços diferentes de tempo. Ou seja, o tempo é inteiramente alterado. Altera-se a estrutura linear do tempo e ele, o tempo, aparece como planos que se sobrepõem uns aos outros. (Atentem para isso!). O que o Robbe-Grillet está fazendo, no caso dele, não é simplesmente uma modificação nas estruturas narrativas da literatura. O que ele está fazendo é uma nova compreensão do tempo. Ou seja, ao invés dele entender o tempo como classicamente nós entendemos, o tempo como uma sucessão, ele vai entender o tempo como sendo planos que se colocam sobre planos. Ora, se são planos colocados sobre planos, da mesma forma você não teria mais o mesmo elemento, como não teve no Cassavetes, que foi a história.

A história desaparece. A história é uma estrutura linear, é uma narrativa linear que, num plano só, conta uma passagem da vida de uma determinada personagem.

Então, no Cassavetes, todo o objetivo dele é a constituição do que ele chama de corpo cerimonial: o corpo do espetáculo. O corpo cerimonial é um corpo voltado para suas posturas e expressões... Toda a questão do corpo, aqui, é se expressar e não se submeter às determinações habituais de uma história, como nós fazemos com o nosso... Nosso corpo nada mais faz do que reproduzir a história na qual estamos incluídos: nossa postura, nosso modo de andar, nosso modo de ver, nosso modo de ouvir, nosso modo de manifestar são sempre representações de um processo histórico qualquer. Ou seja, os nossos hábitos governam o nosso corpo. A questão do Cassavetes é romper com isso, romper com o corpo do cotidiano. O corpo do cotidiano é o corpo que nós trazemos conosco, é o corpo orgânico, esse corpo que nós usamos na nossa vida o tempo inteiro. Esse corpo é dependente de uma história, é dependente de um campo social, é dependente de uma representação orgânica, é dependente de uma estrutura do hábito... O Cassavetes rompe com isso e coloca como fundamento da obra dele o que estou chamando de corpo cerimonial. É um corpo sem história: ele não tem história. Toda a questão desse corpo são posturas e atitudes ou gestus.

Na literatura filosófica, com a qual eu trabalho, um corpo que se manifesta por atitudes, posturas e gestus chama-se corpo expressivo. É o mesmo corpo do pássaro do Messiaen, o mesmo corpo que eu chamei de corpo territorializante... Um corpo que você não pensa mais por seus órgãos ou pela função dos órgãos. O objetivo não é compreender o corpo enquanto orgânico e com suas funções orgânicas ― é um corpo inteiramente expressivo. É exatamente esse corpo que representaria a vida, porque já não seria um corpo submetido às leis do organismo. Então, de alguma maneira, acho que de toda maneira, Cassavetes cumpre os objetivos espinosistas, que é libertar o corpo da história e dos hábitos.

No caso do Robbe-Grillet, o processo é muito semelhante. Rompendo em sua obra com a história, a narrativa linear e, segundo ele, sim, isso acontece tanto na literatura quanto no cinema, ele liberta o tempo.

Se o Cassavetes produz o corpo que eu chamei de cerimonial, um corpo sem história, e o Robbe-Grillet também está produzindo o rompimento da história nesses planos temporais, ambos têm o mesmo objetivo: inserir no corpo o tempo. Inserir o corpo no tempo. Esse é um enunciado bastante surpreendente, eu sei, colocar tempo no corpo, que toda a questão desses pensadores é essa, é fazer do corpo... tirar do corpo as categorias que o governam... (Se eu agora fosse citar a filosofia, essas categorias que governam o corpo clássico seriam as categorias aristotélicas). Então, é retirar do corpo essas categorias e dar ao corpo outro modo de apreensão, que seria pelas formas do tempo. E inserir o corpo no tempo. E, nessa inserção do corpo no tempo, eu usei o Cassavetes e o Robbe-Grillet.

E agora eu passo para a filosofia e vou utilizar o Nietzsche. Quer dizer, o Nietzsche é na verdade o fundo e a razão de ser de toda essa aula. Mas isso não quer dizer, de forma nenhuma, que o Cassavetes e o Robbe-Grillet sejam inferiores. Não. Cada um, nas suas dimensões próprias, um no cinema, o outro na literatura, objetivou e alcançou o que queria. O que eles queriam? O Cassavetes, colocar o tempo no corpo. E o Robbe-Grillet, também colocar o tempo no corpo. Isso que eu estou dizendo para vocês ainda é difícil de a gente transformar em compreensão para a vida. Mas é a arte, no caso do cinema e da literatura, tentando fazer do corpo e da vida o objeto do pensamento, a grande questão do pensamento.

O Nietzsche... eu reservei o Nietzsche apenas pela maior popularidade dele. Não é porque eu esteja dizendo que ele seria superior ao Cassavetes ou ao Robbe-Grillet, embora eu o considere assim. Em Nietzsche (eu vou usar a palavra conceito) aparecem dois conceitos muito difíceis, geralmente mal compreendidos, inclusive pelos especialistas. São os conceitos de vontade de potência e de eterno retorno, fundamentais para se entender o que é a obra dele. Conceitos, que eu vou expor para vocês, pois todo o objetivo desta aula é falar no Nietzsche. Da mesma maneira que Cassavetes e Robbe-Grillet, Nietzsche é um pensador do corpo.

Não sei se vocês se lembram de uma aula em que eu falei na díada, a díada infinita. Lembram-se? Nietzsche seria alguma coisa semelhante. A questão dele é pensar o corpo, mas na hora em que ele se coloca como pensador do corpo, o que ele descobre é que todo corpo é constituído por relações de forças. Então, ele introduz um conceito vitorioso na história do pensamento, que é o conceito de força. Um corpo é uma relação de forças. Para o Nietzsche, não existe o corpo de um lado e as forças do outro. Forças e corpo, para ele, são a mesma coisa.

Então, a natureza (é praticamente esgotante esse princípio de aula), a natureza, para o Nietzsche, são relações de forças. Ou seja, o que você encontra na natureza, no infinito do tempo, é sempre a mesma coisa: são as forças em relações; mas em relações inteiramente caóticas, em relações de acaso. Forças completamente enlouquecidas, forças delirantes, sem nenhum objetivo, se encontram; e, no encontro dessas forças, o que nasce chama-se corpo. Então, a natureza, para Nietzsche, não tem mistério nenhum, não é recoberta por mistérios religiosos, mas ela se explica exatamente pelo que eu estou chamando de relações de forças. E essas relações de forças seriam (o que foi o marco deste curso) o caos de Nietzsche. (Da mesma forma que os átomos e os vazios do Lucrécio, a matéria luminosa do Bergson, o fundo sombrio do Leibniz...)

Essas forças estariam em relações, elas seriam relações. E essas forças seriam caóticas. Então, a natureza seria um caos, seria um caos de forças. Esse caos não tem diferença nenhuma para o caos dos outros filósofos que eu coloquei. E o que constituiria, nessas forças, o crivo, seria a vontade de potência. A vontade de potência seria exatamente o crivo do Nietzsche.

(Agora eu vou fazer uma pausa e dar uma explicação um pouco lateral, mas para que vocês possam fazer uso, como herança deste curso).

Quando a gente estuda filosofia, essa noção que foi a noção principal deste curso, a noção de plano de imanência, você dificilmente... É quase impossível, encontrar um filósofo qualquer falando nisso. Você não encontra um filósofo falando nisso. O que Deleuze diz, quando Deleuze fala em plano de imanência, não é que os filósofos têm que fazer uma exposição do plano de imanência. O que Deleuze diz é que toda filosofia pressupõe um plano de imanência. Então, quando a filosofia se constitui, o plano de imanência já está pronto. A partir do plano de imanência é que começa a produção dos conceitos naquele campo filosófico.

No caso do Nietzsche, seriam as forças, o caos, as forças seriam o caos e a vontade de potência seria o que eu chamei de crivo. Então, a vontade de potência mais as forças. E no momento em que há essa relação de vontade de potência e forças, aparecem quatro elementos ou quatro conceitos... Porque o que eu estou dizendo é o seguinte: Nietzsche, como todos, começa com o caos. O caos dele são as forças, são as relações de forças. Essas relações de forças podem ser musicais, podem ser pictóricas, pouco importa, de qualquer âmbito, são forças em relação e, então, emerge um corpo. Esse corpo pode ser um corpo musical, pode ser um corpo plástico, pode ser um corpo orgânico, não importa. Agora, em cima desse corpo apareceria o que eu chamei de vontade de potência, como sendo o crivo. E esse crivo – vontade de potência – faria gerar quatro conceitos. Ou seja, vontade de potência, mais forças – resultado: quatro conceitos. E nesses quatro conceitos o Nietzsche desencadeia a filosofia dele. Esses quatro conceitos são: ativo, reativo, afirmativo e negativo.

O que Nietzsche vai dizer é que toda força é necessariamente ativa ou reativa. Toda força é ativa ou reativa. Isso daqui é definitivo na obra dele. Não abre. Necessariamente as forças têm esse processo de serem ativas e ordenar; e de serem reativas e obedecer. Olhem a conclusão.  A que conclusão você chega? Se as forças são necessariamente ativas e reativas e um corpo se constitui por forças, necessariamente um corpo tem partes ativas e partes reativas. Partes que comandam e partes que obedecem. É isso que Nietzsche está dizendo.

Se um corpo é constituído por forças, essas forças se relacionam e o corpo emerge... Sendo a força ativa ou reativa, qualquer corpo, necessariamente, é ativo e reativo. Todo corpo tem forças ativas e forças reativas.

Essas forças reativas – usando tudo que eu venho falando para vocês neste curso – eu vou chamá-las (vou chamar assim) de forças orgânicas. São as forças conservativas de um corpo. Todo corpo tem suas forças conservativas ― suas forças orgânicas. E tem as forças ativas. Essas forças ativas são forças conquistadoras, criadoras, inventivas. O destino delas é prévio: antes delas se ligarem, seu destino já está dado. As forças ativas são sempre selvagens e conquistadoras; e as forças reativas são sempre conservativas e preservadoras.

A história da vida, aqui no Nietzsche (agora eu faço um corredor da maior simplicidade para se entender), a história da vida é a relação dessas duas forças. Por exemplo, o que marca o homem, diz Nietzsche, é uma inversão das imagens. Inversão das imagens no sentido em que, quando você pega um corpo, o corpo tem forças reativas destinadas à obediência e forças ativas destinadas ao comando. O que acontece com o homem é uma reversão: as forças reativas passam a dominar. As forças reativas passam a dominar as forças ativas e o homem torna-se um animal necessariamente conservativo. O homem torna-se um animal conservativo e em função dessa conservação ele vai começar a inventar... Todos os processos que ele inventa são de objetivos conservativos: uma religião conservativa, em que haja vida depois da morte,  é uma religião do corpo conservativo... uma cidade cercada de muralhas... a introdução das leis dentro da estrutura de governo da vida do homem... Então, o que Nietzsche está dizendo é que esses processos... a lei (estou simplificando ao máximo), o processo da lei, o processo das religiões, o processo da organização política no interior de uma cidade... refletem o domínio do corpo conservativo ou do corpo reativo, que seria um corpo inteiramente voltado para a preservação da sua existência. Ele é voltado para a preservação e no momento em que as forças conservativas se tornam dominadoras, as forças ativas se voltam contra o próprio sujeito. As forças ativas se voltam contra o próprio sujeito e (...).

(...) a partir do domínio das forças conservativas o homem se torna um animal voltado para a preservação, voltado para a conservação... Ou melhor, voltado para a culpa, voltado para o pecado, voltado para os crimes. Ele se volta para os crimes.

Aluno: Crimes?

Claudio: Os crimes que você conhece tão bem na nossa história (não é?).

Quer dizer, o homem está incluído na história, o homem está todo mergulhado na história, todo mergulhado na representação orgânica... E o Nietzsche fala – e ele próprio é um exemplo – que meteoricamente muitos corpos seguem diretrizes ativas, muitos corpos seguem as forças ativas. O Espinosa seria um exemplo de um homem que pensaria o corpo enquanto força ativa. Aqui (---) para nós.

O que eu citei do Cassavetes, o que eu citei do Robbe-Grillet se explica por isso daqui. O que o Cassavetes está querendo mostrar, quando ele fala em corpo cerimonial, é o corpo ativo. O que o cinema comum mostra é o corpo conservativo. É o corpo da ação, o corpo do orgânico, o corpo da representação, esse serial killer: tudo isso que vocês estão vendo no cinema é o corpo conservativo. E o objetivo do Cassavetes é mostrar o corpo ativo. Como nós temos muito pouco conhecimento desse corpo ativo, um corpo que tem o tempo inserido dentro dele, nós sentimos certa dificuldade de entender esse tipo de cinema.

Nietzsche, todo mundo deve saber, produziu uma obra chamada Zaratustra. O Zaratustra... as pessoas fazem uma certa confusão com essa obra do Nietzsche. Zaratustra é o segundo momento da obra dele. A obra de Nietzsche teria como que três momentos: o primeiro, é o momento da força conservativa dominadora, é o momento da história, da força conservativa, o momento da culpa, do pecado, da vergonha, da representação... E o Zaratustra surgiria como sendo a metamorfose, o Zaratustra seria a metamorfose, a metamorfose, no caso, de corpo reativo para corpo ativo. Mas o próprio Zaratustra não faz a metamorfose: ele aparece como um ancestral, como aquele que vai anunciar o surgimento de outro tipo de vida. Esse outro tipo de vida que o Zaratustra anuncia é que se chama eterno retorno. Como o Cassavetes, que mostra o corpo cerimonial, o Zaratustra passa toda a obra dele anunciando que alguma vai acontecer... ou o Robbe-Grillet, que desfaz a ideia de um único plano, a ideia de um tempo único, a ideia de orgânico... é uma maneira inteiramente nova de pensar o corpo e a vida. Então, o corpo e a vida estão sendo pensados, usando novamente o Nietzsche, sem os modelos da representação orgânica, sem os modelos do corpo reativo.

Da mesma forma que um corpo pode ser ativo ou reativo, uma vontade pode ser afirmativa ou negativa. Então, aqui é que estão os dois segredos da obra de Nietzsche, são essas quatro qualidades. As quatro qualidades são o segredo da obra dele. O ativo e o reativo do corpo, o afirmativo e o negativo da vontade. Nietzsche, quando expõe esse processo, mostra um acontecimento que se duplicou na história da humanidade, que é o niilismo grego e o niilismo moderno. Então, Nietzsche, para explicar toda essa postura que ele está exibindo e que [se] dá no Cassavetes e no Robbe-Grillet, diz que dois niilismos dominaram a vida dos homens.

O primeiro niilismo é o niilismo antigo, ligado à filosofia de Platão e à religião judaico-cristã. Nietzsche chama esse niilismo de vontade de nada. A vontade de nada. Essa vontade de nada é um dos momentos mais cômicos da história do pensamento. Porque o que o Nietzsche está chamando de vontade de nada... ele dá essa categoria – nada – como sinônimo de ficção. E os homens tiveram necessidade de produzir impérios do tipo: céu, inferno, vida depois da morte, mundo das essências... E Nietzsche diz: eles fizeram isso porque eles tiveram uma vontade de fazer isso. Mas essa vontade era uma vontade de ficção. Vontade de ficção é a mesma coisa que vontade de nada, quer dizer, inventaram o império religioso, o império das essências, que é exatamente nada: uma pura ficção. Você vê que a vontade de nada não está ligada às forças, está ligada à vontade, é uma vontade negativa.

Essa vontade negativa é o que Nietzsche chama de primeiro niilismo. O primeiro niilismo foi o domínio incessante que essa vontade de nada teve sobre os homens, fazendo com que eles abandonassem as especulações da sua própria vida, abandonassem as suas linhas de pensamento, as linhas do seu espetáculo, as linhas dos seus planos de tempo, para voltar o  pensamento para coisas religiosas, platônicas, ficções assustadoras, governando as suas vidas. Quer dizer, isso aconteceria em função de sua própria vontade. A própria vontade de potência do homem, que ele chama de vontade negativa, uma vontade de nada. E essa vontade de nada não foi expulsa da história, ela apenas enfraqueceu. Esse primeiro niilismo enfraqueceu. Niilismo quer dizer nihil que vem de nada, em latim. Então, a vontade de nada é uma vontade de alguma coisa que é inteiramente fictícia. E essa vontade de nada gerou a filosofia e gerou a religião.

Quer dizer, a filosofia e a religião, para o Nietzsche, nascem governadas pelo corpo conservativo, pelo corpo reativo. E sendo governadas pelo corpo reativo, sendo governadas pelo corpo conservativo – aqui é muito fácil de se entender – a primeira coisa que o corpo reativo recusa, porque o processo dele é conservação, o que ele primeiro recusa é a forma do tempo. A força reativa recusa as formas do tempo. Por exemplo, se vocês lerem a obra de Platão, a obra de Platão é toda uma recusa do tempo. Se vocês lerem a obra do Einstein, no século XX, a obra dele é toda uma recusa do tempo. Se vocês lerem a religião, a religião é toda uma recusa do tempo. Então, esse corpo reativo, esse corpo conservativo, essa vontade negativa, essa vontade de nada, o ponto de partida dela é a recusa do tempo. A denegação do tempo. Ela recusa o tempo, ela retira o tempo do corpo. E é retirando o tempo do corpo que você pode, inclusive, pensar num corpo que sobrevive depois da morte.

O segundo niilismo apareceria no século XIX. E esse segundo niilismo é um niilismo assustador, porque é o momento em que a vontade de nada começa a decair, é o nascimento do ateísmo europeu, o surgimento de filosofias como a hegeliana, filosofias que desabam aquele mundo das essências platônicas e, aparentemente, todo mundo pensaria assim; desaparecendo a vontade de nada, então, as forças ativas e a vontade afirmativa iriam triunfar. Mas o que aconteceu foi exatamente o contrário. Quer dizer, a queda da vontade de nada foi o surgimento do que Nietzsche chama de nada de vontade. Primeiro a vontade de nada, depois o nada de vontade.

O nada da vontade é o exemplo do homem moderno. Não há o que fazer, nós vamos morrer e tudo vai acabar, só resta sofrer, só resta se angustiar... E à diferença do homem da vontade de nada, que era um homem que acusava todos de lhe fazerem mal, esse homem do nada de vontade inclui a si próprio como o grande culpado de tudo. Nasce a figura chamada a culpa é minha, que é do nada de vontade. Aí ele assume como sendo a causa de todos os males do mundo. Por exemplo, se eu quisesse saber quais são os males do mundo, eu não teria a menor preocupação, apontaria para vocês: cada um se julga o mal do mundo.

Porque o homem perdeu o poder, perdeu a vontade de construir mais alguma ficção, já não tem mais vontade de ficção. Então, ele entra nessa figura do nada de vontade que tem muita semelhança com o budismo, que é uma espécie de niilismo total, não há nada a fazer. Vamos esperar a morte, se possível, sem respirar. Então, essas duas forças seriam as forças constituintes (Atenção! É assim que a gente pode entender.), constituintes da história, constituintes da representação orgânica, constituintes do cinema da imagem-ação, constituintes da obra literária e obra teatral do realismo. Então, todo o nosso universo espiritual: na física, a física laminar; na biologia, uma biologia físico-química... toda a nossa vida é governada por esse modelo do niilismo. Toda a nossa vida é dominada por esse modelo do niilismo, porque as forças do homem estão inteiramente voltadas para a sua conservação e a sua preservação.

É nesse momento que vocês podem compreender o que é a presença, no planeta, de forças meteóricas. Determinados meteoros ― como Espinosa, Schumann... ― que atravessam a natureza. Esses meteoros que cortam a estrutura orgânica.

Mas o Nietzsche, na obra dele (é isso que eu estava enunciando!), através do Zaratustra ele faz a anunciação. O Zaratustra é a metamorfose, a metamorfose. É o momento em que o Nietzsche anuncia que pode-se fazer uma passagem do niilismo para outro mundo. Esse terceiro mundo é o mundo do eterno retorno. O eterno retorno seria, então, a terceira figura de Nietzsche. E essa terceira figura de Nietzsche é uma figura grandiosa e muito difícil, porque, inclusive, o Nietzsche não chegou a escrever sobre isso completamente. É alguma coisa que tem que ser completada por aqueles que leem Nietzsche. A que visa o Nietzsche enfim? Por que estou usando o Nietzsche nessa aula? É corpo sendo pensado como corpo expressivo e como um corpo que traz, dentro de si, o tempo.

(Então agora vocês tomem um café para eu concluir essa aula. Está bem, não é, Silvia?)

Aluno: Você acha que Hegel seria um retorno da ficção?

Cláudio: O marxismo... Você vê que toda a questão do Marx não é virar o Hegel de cabeça para baixo? Você não cansou de ver isso? É para sair da ficção!

Aluno: É para sair da ficção?

Cláudio: É para sair da ficção! A ficção do Hegel é o nada de vontade. O Marx não quer reproduzir isso não! O Marx não quer reproduzir o Hegel. De jeito nenhum.

Aluno: Mas ele não cai novamente num niilismo?

Cláudio: Os marxistas caíram todos!

Aluno: Isso eu queria entender... Quer dizer, essa mistura que é errada. Mas os marxistas caíram (---)

Cláudio: Inteiramente! A força conservativa, reativa, histórica, insuportável... trouxe só miséria para a vida...

Aluno: É isso que eu senti. Porque agora, nesse momento do muro de Berlim (---)... filosoficamente falando, não é?

Cláudio: É isso mesmo, é isso mesmo. Aliás, para você entender a questão do Marx com Hegel tem que ser muito preciso, porque o Marx sempre diz: O Hegel bota tudo de cabeça para baixo.

Aluno: (---)

Cláudio: Tem que virar o Hegel. Ele não para de falar isso.

Aluno: Agora me deu um nó, porque eu estou sentindo que a queda do muro, de uma certa maneira, trouxe de novo a gente, de uma maneira mais banal, ao segundo niilismo, ao Hegel, não é?

Cláudio: Ao nada de vontade?

Aluno: É.

Cláudio: Nós vivemos nele. Vivemos nele. Nós vivemos entregues a ele. Esse nada de vontade me levaria (eu poderia, se eu tivesse tempo nessa aula) a explicar Marx e Freud. Que essa é a questão do embaixador [referência a um aluno]. Pelo nada de vontade explicar o Marx e o Freud. Eles veem aí. Eles veem embalados aí.

Aluno: (---). Isso fica para O que é a filosofia II. Está ótimo!

(Intervalo)

Parte II

A diferença do homem da vontade de nada para o homem do nada de vontade é que o homem do nada de vontade desfaz os mundos superiores. Não há segundo mundo para ele.

Quer dizer, aquele modelo platônico (ou o modelo cristão) é desfeito e já não há mais aquelas forças extraterrenas, extraterráqueas que construiriam seus territórios aqui na terra: os territórios da Igreja, os territórios do Estado, os territórios da Filosofia Clássica... E, em seu lugar, entra o que eu chamei de homem da vontade de nada.

Esse homem da vontade de nada já não submete mais suas maneiras de pensar a representações de entidades divinas. Ele substitui essas entidades por leis, generalidades, condutas de representação...

Então, a mudança é apenas aparente. É apenas uma mudança aparente. Porque aquilo que era subsidiário no mundo da vontade de nada se torna primacial no mundo do nada de vontade.

Para que vocês entendam, o Nietzsche é um permanente anunciador da morte do homem. E o homem é coberto pela vontade de nada e pelo nada de vontade. Essas duas vontades cobrem a ideia de homem. E o Nietzsche, na ideia de morte do homem, todo o objetivo dele é muito simples: é liberar o caos e crivar o caos. (Vejam se me entendem!). Liberar o caos em termos de eterno retorno. Esse é um momento teórico muito difícil! Trabalhar no eterno retorno é quase que para alguns privilegiados no planeta. Há dificuldades extremas nessa noção de eterno retorno do Nietzsche... O que ele quer com essa noção de eterno retorno se assemelha muito, até com uma maioridade, ao Leibniz e ao Bergson, no sentido de que o que o Nietzsche quer produzir é um mundo em que se pode criar e inventar. Ou seja, não é um mundo ao modelo platônico ou mesmo ao modelo hegeliano... um mundo de restauração – é um mundo de criação. E esse mundo de criação começa a ser compelido... Para construir esse mundo... eu não sei se vocês se lembram de uma aula que eu dei do Leibniz, em que eu confrontei o Leibniz com o Voltaire. Eu fiz um confronto do Leibniz com o Voltaire, mostrei que o Voltaire tinha compreendido de uma maneira um pouco desequilibrada a ideia de melhor dos mundos, melhor dos mundos possíveis e todo o objetivo do melhor dos mundos possíveis do Leibniz era um mundo no qual pudesse haver a criação. Isso parece um universo simplório. Mas não! A história do pensamento humano é a história do contra-criação. É exatamente a história de um mundo em que você não tem o poder de criar, o poder de inventar. Tudo é um processo de representação.

Então, desses pensadores que tentam construir um mundo, um mundo no qual possa haver criação e invenção, sem excesso, o Nietzsche é o principal. O Nietzsche é o principal pensador... porque ele considera que a vida consegue definitivamente se curar, consegue definitivamente encontrar a sua liberdade, a partir do instante em que ela puder criar e inventar. Por isso o Nietzsche é um grande pensador da vida. A vida como... criadora, a vida como inventora.

Outro elemento principal, teoricamente também difícil, que o Nietzsche coloca é a noção de eterno retorno. (Eu vou tentar explicar um pouquinho essa noção de eterno retorno para vocês como... como uma gentileza possível, viu?).

Eterno retorno é um conceito antiquíssimo, é muito antiga a ideia de eterno retorno. É uma ideia oriental...  Existe um autor, Micéa Eliade, que tem um livro (traduzido em português) chamado O Mito do Eterno Retorno. Esse livro é uma obra suprema para se entender o que é o antigo eterno retorno. Este eterno retorno antigo é a ideia de que tudo sempre se repete da mesma maneira. Quando o Nietzsche vai trabalhar no eterno retorno, a questão dele é quebrar esse modelo, romper com o eterno retorno antigo. Porque o eterno retorno antigo diz que a natureza repete os seus acontecimentos eternamente. O Nietzsche diz: não! A natureza não repete suas leis e suas obras eternamente. A natureza repete, eternamente, o caos. Repete o caos. É uma afirmação difícil ainda para se compreender. O eterno retorno é um processo de repetição, mas o que ele repete é o caos.  É como se não houvesse, segundo o que Nietzsche está dizendo, nenhuma possibilidade de se introduzir as velhas teorias da vontade de nada e do nada de vontade, pelo simples fato de que a natureza é eterna. É eterna porque ela nunca constitui nada. Ela é sempre o caos. O caos se repetindo. Esse caos se repetindo ― e ele se repete sempre ― as forças que estão nesse caos são crivadas pela vontade de potência e aí emerge o processo de criação.

Então, para o Nietzsche, a vida seria um processo que, desde que ela apareceu neste planeta, foi profundamente envenenado. A vida foi envenenada, a vida foi perseguida, no sentido de que os homens da vontade de nada, diz o Nietzsche, eram profundamente apaixonados pela vida ― mas por uma vida fraca. Apaixonados pela vida, mas por uma vida fraca...

E essa vida fraca era uma vida que precisava de orientadores. Por isso, o Nietzsche se opõe radicalmente ao cristianismo, porque o cristianismo pregaria uma vida enfraquecida, quer dizer, de pessoas que necessitariam constantemente de auxílio de outras.  Para ele, a vida é forte nela mesma. Ela tem que ser forte... É uma questão dramática, o que eu vou dizer, porque nós temos os dois caminhos: a vida enfraquecida e você procurar recurso nos modelos conservativos para dar conta dos sofrimentos da sua vida conservativa; ou uma vida afirmada, no sentido da vida ser um processo criativo, mais nada.

É difícil dizer isso: ela ser um processo criativo. Então, a vida se torna, imediatamente, uma procura de estilo. Enquanto a vida conservativa é uma vida em que se busca conforto e segurança. A vida ativa é uma busca de estilo. Buscar o estilo! Não só para você, através do estilo, produzir uma obra, mas produzir a sua própria vida. Não há nenhum objetivo, não há nenhuma finalidade, mas a única saída para a vida, diz o Nietzsche, seria a construção de um estilo.

O estilo é uma figura muito difícil na história do pensamento. O primeiro grande pensador do estilo foi um romano chamado Quintiliano e, se vocês observarem os grandes artistas, todos eles têm a mesma questão – a busca de um estilo.

O estilo... aqui começa a se clarear toda a aula, toda a aula começa aqui. Eu disse que a vontade afirmativa busca o estilo, a vontade de nada busca a conservação e o repouso.

Então, a busca desse estilo passa a ser a busca da vontade afirmativa – produzir novas maneiras de pensar. Produzir o estilo é buscar novas maneiras de pensar. Quer dizer, quando você se propõe a fazer alguma coisa, não importa o que, quando você se propõe a fazer alguma coisa, se você não quiser se manter numa posição de plágio ou de reprodução, a primeira prática que você tem que fazer é a procura de um estilo. O estilo é o rompimento do que está estabelecido. O estilo é uma complexão de contrastes, de confrontos, de alteridades, de diferenças... Por exemplo, você... (acho até que eu já falei isso para vocês) você faz uma descrição marítima de um objeto terráqueo, então o estilo é os confrontos das contrariedades, os enfrentamentos dos diferentes. O estilo é quando o homem rompe todas as regras que o governam, para se tornar um criador.

O que Nietzsche está dizendo aqui é facílimo de se entender. Ele está dizendo que qualquer homem tem duas linhas para seguir. Ele tem a linha conservativa e a linha afirmativa. E essa linha afirmativa se define pela produção do estilo. Porque se você não consegue obter esse estilo na sua vida, você não consegue produzir a sua obra.

Daí é que nasceria... (eu vou fazendo essa cadeia, essa cadeia daqui chama-se cadeia de gestus...) daí, por causa desse estilo, começa-se a desenvolver, nos pensadores nietzscheanos, uma nova compreensão do que é inconsciente. Eles começam uma compreensão do inconsciente, quer dizer, rompendo a ideia de inconsciente como se inconsciente fosse uma estrutura qualquer, uma estrutura de linguagem, uma estrutura qualquer... o inconsciente passa a ser uma força. Uma força selvagem, uma força violenta, uma força dominadora...  Tudo que essa forca pretende encontrar é um estilo para tentar se expressar.

Por isso, quando nós encontramos uma obra do Deleuze, que seria a expressão mais clara dessa exposição que estou fazendo para vocês, um pensador da criação, um pensador da vida, um pensador do estilo... tudo o que mostra a obra do Deleuze, são aqueles que de alguma maneira inventaram um estilo para constituir a sua própria vida.

É com um confronto pequeno que eu vou concluir o nosso curso. Um pequeno confronto! São duas linhas possíveis de vida: uma linha conservativa, uma linha reativa, em que você reproduz tudo o que está estabelecido, você não bota em crise nada do que está estabelecido; ou uma busca do estilo e pela própria busca do estilo você bota em crise tudo que está estabelecido. É a simples busca do estilo, no sentido de que o estilo é uma possibilidade que só surge nas filosofias que afirmam que esse mundo daqui é o melhor dos mundos possíveis. Em todas as filosofias que são reguladas pela lei e pelo bem, nada disso aconteceria.

O Nietzsche... (vou concluir, ouviu? Dentro das possibilidades de uma última aula...). O Nietzsche é um arauto do pensamento que eu chamei de estilo. A busca de um estilo para constituir a própria liberdade e um modo de vida como fundamento de uma filosofia que tem o Deleuze como pórtico.

(Muito bem! Nós fizemos esses encontros; foram doze dias... onze dias...).

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Esta é a última aula do curso "O que é a filosofia?", ministrado por Claudio Ulpiano no verão de 1996. no solar dos Oitis, na Gávea.

As aulas deste curso que já estão transcritas são: A força imaterial da vida - 19/01/1996; Corpo orgânico e corpo expressivo - 24/01/1996; Degradação e criação: duas questões do tempo - 02/02/1996.

Esta aula foi postada no facebook em abril de 2014, dividida em 30 capítulos, fazendo parte do projeto:  Facenovela Filosófica.

Uma opinião sobre “Aula de 23/02/1996 – A vida criativa e a construção de um estilo”

  1. Notável a forma como Cláudio Ulpiano encaminhava as suas aulas. Seguia um rumo que não visava a simplificação dos conceitos nem, tão pouco, a sua descomplicação. A sua estratégia é a da soma. Aos poucos ia dando mais e novas formas de abordar os conceitos que introduzia e…quase como por magia, o resultado dessa soma surgia inesperadamente na forma como o aluno tomava para si e em si esses conceitos.
    Obrigado pelo vosso empenho em persistirem em manter vivo o “espírito vivo” desse grande professor do mundo.

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