Aula de 17/06/1992 – Lucrécio: verdadeiros e falsos infinitos

capa_aventura_do_pensamento_FB[Temas abordados nesta aula são aprofundados nos capítulos 2 (O Extra-Ser e a Similitude); 12 (De Sade a Nietzsche); 20 (Linha Reta do Tempo), do livro "Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento", de Claudio Ulpiano. Para pedir o livro, escreva para: webulpiano@gmail.com]

 

 

Parte I

[...] que é de uma beleza incrível! E iniciaria então a modernidade, pensando o tempo subjetivo. Em seguida, Husserl pega Franz Brentano, que fora seu professor, e analisa a fala desse filósofo acerca da origem do tempo, fazendo-lhe uma crítica - para em seguida dar início ao seu próprio trabalho. Mas a gente vê que ali se desencadeou uma questão centrada na oposição objetivo e subjetivo: a passagem do tempo objetivo para o tempo subjetivo. Se nós lermos Deleuze falando da filosofia antiga e da filosofia moderna em relação à questão do tempo, aparentemente veremos a mesma coisa. Só que Deleuze vai dizer que a filosofia antiga se preocupa com o movimento - e que o tempo ali aparece como uma consequência; enquanto que a filosofia moderna pensa o tempo, e o movimento apareceria como uma consequência. Então, a filosofia antiga teria feito o esquema movimento-tempo; e a filosofia moderna o esquema tempo-movimento. (Certo?)

A partir disso, nós temos uma instrução: que pensar a filosofia antiga é pensa-la a partir do movimento. E quando se fala em movimento tem-se que introduzir a ideia de móvel, no sentido em que o movimento é o ser; e o móvel, o ente: o móvel é aquilo que se move.

Então, pensar o movimento na filosofia antiga implica, necessariamente, o corpo: tem-se que pensar o corpo como aquilo que está envolvido no movimento. E a filosofia moderna pensaria o tempo como forma vazia, onde os corpos se introduzem.

A partir disso, temos um índice, que é exatamente o que eu disse: a filosofia antiga centrada no esquema movimento-corpo. E quando encontramos esse esquema, movimento-corpo, provavelmente, temos as três grandes filosofias que teriam se envolvido com o tempo: Aristóteles, estoicos e atomistas. E todas as três colocando o movimento como ponto de partida; e o tempo como efeito do movimento. No caso dos estoicos, o tempo como o intervalo do movimento; no caso do Aristóteles, o tempo como número do movimento; e, no caso dos atomistas, o tempo como sintoma do movimento. Então, nós teríamos esses três esquemas: intervalo, número e sintoma.

Ao longo de toda a sua obra (e que todo mundo confunde!), Deleuze trabalha com uma categoria que ele chama de plano de imanência. Plano de imanência ou máquina abstrata. Máquina abstrata é um conceito matemático, retomado pelo Chomsky. A noção de máquina abstrata não é física, é uma noção matemática, utilizada pelos matemáticos. Deleuze a retoma e introduz a noção de Plano de Imanência. Uma noção que veio pra ficar.

Plano de Imanência, com uma distribuição imensa, que eu passo a trabalhar com vocês. Plano de Imanência exatamente por causa do tempo, não é?

Então, na noção de Plano de Imanência ― o ideal, como didática, é começar na filosofia antiga, pra gente fazer o nosso desenvolvimento ― não tem outro caminho! E, evidentemente, se nós vamos pegar a noção de plano de imanência, é através desse percurso que vamos alcançar alguma compreensão. Então, o que nós vamos fazer, é alternar essas três filosofias ― de Aristóteles, dos estoicos e dos atomistas.

O atomista aqui seria evidentemente Epicuro, o grego; mas, sobretudo o Lucrécio, o romano ― que seria o mais fundamental para se compreender o que vai acontecer. Essa alternância, na minha observação, depois com a diminuição do Aristóteles, vai-nos dar uma boa noção do que vem a ser plano de imanência.

No caso dos estoicos ― o grande problema é centrar toda a questão na teoria das proposições, que nos leva para um trabalho muito difícil e cruel, porque é a passagem da teoria das proposições aristotélicas, centrada no princípio de atribuição, para uma teoria centrada no princípio de conjugação ― de que eu não preciso falar agora. (Depois eu falo, tá?)

E, nos atomistas, no caso o Lucrécio ― porque no Lucrécio nós entramos diretamente numa física. Então, o fato de ser uma física ― literalmente uma física ― quer dizer, há um campo referencial físico, forte, que faz com que o pensamento tenha um apoio para fazer o seu desenvolvimento com muita clareza. Então, primeiro, os nossos dois primeiros pontos de partida são exatamente a proposição estoica e a física do Lucrécio.

A física do Lucrécio tem como fundamento a ideia de átomo. Eu disse a ideia de átomo; eu não disse “a coisa” átomo. Eu disse “a ideia” de átomo. O átomo [tal como conhecemos atualmente], que é um nome ou um conceito muito presente na cultura do século XX, por causa da física quântica, não reproduz o átomo grego; porque o átomo da física quântica é uma estrutura. O que eu chamo de estrutura é tudo aquilo que é constituído por partes. Então, você encontra o átomo quântico e ele pressupõe elementos que o constituem: prótons, nêutrons, etc. Tá? E, aliás, a física quântica nunca ousou ― talvez sonhe! ― encontrar um elemento não estrutural, um elemento puro, e nunca encontrou...  os elementos são sempre estruturados. Então, o átomo da física quântica é uma estrutura. Que não é a mesma coisa que o átomo da antiguidade. Porque o átomo da antiguidade é uma unidade insecável e indestrutível ― no sentido de que o átomo é um elemento que não pode ser cortado.

Aluna: Átomo quer dizer isso: menor parte, não é?

Claudio: É. Você pode chamar de menor parte da matéria; mas assim ainda fica uma instrução fraca, viu? Mas é sim!... Ele é uma unidade indestrutível, insecável, incortável, porque ele não pode ser mexido, não pode ser destruído. No atomismo grego, e em Lucrécio, o átomo é algo muito surpreendente: ele é eterno; ou seja, está presente pela eternidade. O átomo (vamos dizer assim um pouco mal) é o elemento mínimo constituinte das coisas, dos corpos, etc., e, simultaneamente, ele é eterno. Mas, além de serem eternos, os átomos são infinitos. Eternos ― e em número infinito. É uma tese que quando a gente ouve inicialmente parece um jogo de palavras, mas não é isso que vai acontecer.

O átomo é eterno e em número infinito, mas se move. E aqui começa a aparecer uma coisa muito bonita! Se ele é eterno, em número infinito... e ele se move... Para que ele se mova, é necessário que haja um vazio, no qual ele se move.

Nesse momento, literalmente, eu dei pra vocês os dois únicos componentes da filosofia do Lucrécio: o átomo e o vazio. Não há mais nada!

Mas, junto a isso, apareceram dois infinitos: o infinito dos átomos; e o infinito do vazio. Átomos e Vazio formam, cada um, um infinito. E os dois juntos formam um terceiro infinito. Existem mais infinitos, mas nós não teremos necessidade deles. Nós, aqui, temos necessidade destes três infinitos: os átomos, o vazio, e a composição dos átomos com o vazio. Nós estamos em presença de três infinitos que, surpreendentemente, o Lucrécio vai dizer que são os verdadeiros infinitos. (Inicialmente, não sabemos por quê...)

Essa palavra, verdadeiro ― três verdadeiros infinitos ― tem muita importância, porque o conceito de verdade sempre foi associado com a finitude; e, aqui, o conceito de verdade está sendo associado com o infinito. E, mais gravemente (e aqui eu não vou expor inteiramente, porque não é o momento...), é que os atomistas estão falando em infinitos atuais; e o Aristóteles só falava em infinitos potenciais. Então, os infinitos atuais seriam infinitos reais: inteiramente reais! No sentido de que o potencial é que não seria real! Os infinitos atuais são: o átomo, o vazio e a combinação do átomo com o vazio.

Esses átomos se movimentam. Evidentemente, se movimentam no vazio. Não se pode identificar vazio com espaço. Espaço e vazio não são a mesma coisa. Porque se eu dissesse que o vazio é o espaço, eu diria que o vazio é constituído de alto, baixo, direita, esquerda ― ele não tem nada disso. (Certo?) Então, o movimento desses átomos é um movimento difícil de entender, pelo menos inicialmente. Nós sabemos que eles se movimentam; e que, além de se movimentarem, eles se chocam uns com os outros. Portanto, nós teríamos dois movimentos muito claros nos átomos: movimentos e choques.

Movimentos e choques!

Já é uma tese de Epicuro, que bastariam esses dois movimentos, o choque e a velocidade do átomo no vazio, para formar um sistema de pensamento. Mas o Lucrécio, que nitidamente vem do Epicuro, acrescenta um terceiro movimento, que ele chama de clinâmen.

clinâmen é bastante problemático. Nesse instante, vamos explicá-lo como “uma leve inclinação que o átomo faz a partir de si próprio”. O átomo se inclina. A inclinação seria algo como modificar a linha de movimento que ele estaria fazendo. E essa inclinação viria do próprio átomo.

Então, nós teríamos aqui, muito facilmente, a velocidade e o choque dos átomos no vazio. Esses átomos se encontram e, ao se encontrarem, começam a construir os corpos. A noção de corpo e a noção de átomo se distinguem, não são a mesma coisa. Um “corpo” é um “conjunto de átomos”. É impossível a um corpo ter uma existência eterna, porque o corpo está sujeito a choques e clinamens. E os choques e os clinamens desfazem os corpos. Por isso, aparece uma coisa muito bonita: os elementos ou germens que constituem os corpos são eternos; mas os corpos são duração ― nenhum corpo é eterno; todos os corpos duram: nascem e morrem. Isso daqui mostra que é impossível a qualquer corpo pretender a eternidade. Todo e qualquer corpo vai-se desmanchar necessariamente.

Mas agora aparece um quarto infinito. O quarto infinito é que todo átomo tem a sua configuração e tem átomos da mesma configuração ao infinito. Estranho esse fenômeno, que eu já vou mostrar o porquê deles estarem falando isso.

Mas nós chegamos a alguma coisa aqui... Nós aqui chegamos à compreensão do que são os mundos. Os mundos são constituídos pelos átomos. É indiferente... Eu posso até dizer que o átomo quântico nada mais é que um corpo. O átomo quântico é um corpo... (constituído pelos átomos do Lucrécio. Nítido, não é?). Todo e qualquer corpo é constituído de átomos ― átomos eternos, conforme Lucrécio está dizendo. Ora, a partir daí, os mundos são corpos que duram com os seus germens ou os seus elementos ― que são os átomos. Seria essa a organização do mundo que o Lucrécio constrói.

Em termos de átomos e corpos, uma catástrofe, uma destruição do mundo não seria nada demais: faria parte da própria Natureza! Mas, aqui, há um elemento, há um elemento aqui: a única coisa que pertence exclusivamente ao átomo é o clinâmen; o resto é a mistura dele com o vazio, não é? O clinâmen é absolutamente próprio do átomo. Evidentemente todos os corpos são constituídos por átomos (este maço de cigarros é um corpo, logo é constituído por átomos...) e, estranhamente, esses corpos, seja quais forem, todos os corpos que existem têm um processo de emissão: todos os corpos emitem... Mas emitem o quê? Ele poderia emitir duas coisas: vazio ou átomos.  Não se emite o vazio! Então, todos os corpos emitem átomos. Uma flor, por exemplo, perfuma o jardim porque emite átomos. Ou seja, não há sequer um corpo que não faça essa prática de emissão de átomos.

Essa emissão de átomos nos levaria quase imediatamente a concluir que um corpo, de tanto emitir átomos, tenderia a desaparecer... Mas isso não ocorre, porque...  (agora aparece uma doutrina muito difícil!) porque esses átomos estão banhados por átomos da mesma configuração, ao infinito. Então, há as emissões e há substituição. Não sei se vocês entenderam... Isso aqui, inclusive, é muito claro no pensamento das moléculas modernas. Para você pensar uma molécula, a molécula é uma estrutura constituída de partes, de elementos, e esses elementos são constantemente trocados. É a mesma coisa que Lucrécio está dizendo: que um corpo pressupõe átomos e a substituição desses átomos por outros. Por isso, nós passamos a entender que um corpo só se torna apreensível, que ele só pode ser apreensível se ele emitir átomos. Ou seja, o que nós apreendemos de um corpo é aquilo que o corpo emite. Se um corpo não emitir (provavelmente o buraco negro dá conta disso!). Se um corpo não emitir, você não o apreende. Parece muito claro isso: você não o apreende.

Então, todos os corpos são emissão. Ora, a partir daí, eu posso fazer uma doutrina dos cinco sentidos. Uma doutrina da sensibilidade humana; uma doutrina da sensibilidade viva. A sensibilidade nada mais do é que a apreensão da emissão dos corpos. O que torna a doutrina dos corpos do Lucrécio uma doutrina muito sensual. Nós olhamos e tocamos corpos. Tocamos pelo menos a emissão que é feita por esses corpos. As emissões que são feitas pelos corpos são chamadas de simulacros. Os corpos emitem envelopes, cascas, simulacros... Cascas, envelopes, simulacros são exatamente os átomos que eles emitem.

Então, Lucrécio vai fazer uma doutrina das emissões e dizer que existem emissões de profundidade e emissões de superfície. Os corpos são emissores de superfície e emissores das profundidades: átomos que vêm da profundidade, átomos que vêm da superfície. Ele constrói essas duas espécies de simulacros. O que eu estou chamando de simulacro é exatamente esse campo de emissão: todos os corpos emitem. Emitem! O que torna o corpo algo semelhante a uma cascata: fonte permanente de emissões. O corpo não para de fazer emissões. Em momento nenhum para de emitir. O corpo é uma fonte: fonte de emissões.

Agora, essa fonte de emissão dos corpos, que é ininterrupta, pode ser ou não apreendida por uma sensibilidade. Por isso, as emissões que os corpos fazem vagam no infinito do vazio. E ao vagarem no infinito do vazio, vai nascer a terceira espécie de simulacros, que o Lucrécio chama de fantasmas. O fantasma é o simulacro, emitido pelos corpos, distante das fontes.

Aluno: Corpos, aí, inclui indiscriminadamente matéria ou vida!?

Claudio: São átomos, átomos da mesma forma: tudo é átomo, não há mais nada.  Porque o que eu estou dizendo, literalmente, é que se eu pegar esta mesa que está aqui [Cláudio bate na mesa] e pegar o teu corpo, os elementos que compõem esta mesa são os mesmos elementos que compõem o teu corpo. Um ladrilho e o teu corpo também é a mesma coisa: os elementos atômicos são os mesmos, não têm diferença nenhuma! Então, é isso que eles estão dizendo: os elementos que compõem um corpo são os elementos atômicos. Agora, esses corpos emitem, são fontes ininterruptas. E quando eles emitem, determinadas emissões ― aquelas que não são apreendidas ― vagam, caminham pelo infinito. E ao caminhar pelo infinito, se transformam em fantasmas.

Fantasmas são as emissões distantes das fontes e sem possibilidades de renovação. Elas não se renovam. O Lucrécio vai chamar esses fantasmas de teológicos, oníricos e eróticos, que vagam e misturam-se pelo universo.

Aluna¹: Sem que sejam emissores de átomos...

Claudio: Os fantasmas não emitem! Eles não emitem!

Aluna²: Os fantasmas já não são emissões?

Claudio: São emissões, são emissões... Eles já são emissões!

Aluna²: Toda ideia de simulacro... isso aí para mim, eu acho que eu já resolvi pra mim... É que quando se vai avançando na explicação do Lucrécio, lá pelas tantas a gente perde o pé de que todo simulacro já é emissão, não é?

Claudio: Já é emissão. São emissões!...

O importante aqui, eu acho, é que a característica fundamental desses fantasmas é a ausência de renovação. Eles não têm mais renovação. Eles não se renovam. Não se renovam, e também se misturam!

Aluna¹: Porque Cláudio, o fato deles já serem emissões, eles não poderiam emitir?

Claudio: O emitido...?

Aluna¹: É. É isso que eu quero saber.

Claudio: Aquele que é emissão é aquele que se destaca da fonte emissora. Não sei se você entendeu... Destaca-se da fonte. Ele próprio não é fonte. Ele mesmo não é fonte!

Aluna¹: Entendi.

Claudio: Ele é como se fosse... Por exemplo: eu escrevo uma carta para você. Vamos dizer que se eu fosse um corpo lucreciano. Eu escreveria cartas para você de um em um minuto... mas as cartas não teriam possibilidade de escrever cartas... O que o corpo emite são cartas. Cartas, literalmente cartas.

Aluna²: Quer dizer, então, que na realidade essa ausência de renovação só pertence aos fantasmas ou ela pertence a todo simulacro?

Claudio: É que o fantasma é apenas o simulacro que não é apreendido. Ele se distancia da fonte. Isso é realmente muito problemático. Ao se distanciarem das fontes, eles se tornam assim como se fossem gases ― vão perdendo as formas e vão se misturando. Certo?

Aluna³: Eles se misturam, mas também não se extinguem...

Claudio: Olha, eles podem perder a configuração, podem. Pode-se fazer um exemplo assim de uma nuvem: de tanto se distender acaba se perdendo. Acabam sumindo, ficando apenas uns vagidos deles. Acabam sumindo... Mas não para ― porque não para, não é? Você vê que os simulacros de terceira espécie têm uma fonte infinita ― que são os corpos. Só se os corpos desaparecessem é que eles desapareceriam. Mas como os corpos não desaparecem... eles não param de voar por aí, não é?

Aluna²: Não para de haver emissão de fantasmas...

Claudio: Não para! É uma quantidade tão grande de emissões que é uma coisa terrível.

(Entenderam bem aqui?)

Bom. Esses fantasmas vão ser chamados de teológicos, oníricos e eróticos. Há uma narrativa do Michel Tournier que se aproxima disso aqui, porque o Michel Tournier é muito lucreciano.

Esses simulacros, esses fantasmas são a razão ― razão aqui traduzindo causa ― do mito. A emergência do mito, da superstição, estaria nesses fantasmas. Vejam bem: eles são distanciados da fonte.

No livro A gota de ouro do Michel Tournier, ele narra a história de um povo árabe que tem uma narrativa, no seu interior, dizendo que os ventos do norte trazem a morte. Segundo Michel Tournier, esses ventos do norte eram, na antiguidade, os povos nômades que habitavam o norte, que cavalgavam e destruíam tudo. Esses povos do norte desapareceram e, no mito, se transformaram no próprio vento. Nada mais houve que um distanciamento da fonte. A fonte se distancia e o mito emerge.

Então, o mito é um produto dos fantasmas ou dos simulacros de terceira espécie. E, segundo Lucrécio, a filosofia só tem um inimigo: o mito. O mito é inimigo da filosofia, é inimigo do pensamento. Mas aconteceu uma coisa terrível aqui. Esses mitos não são produto de um sujeito; esses mitos são absolutamente reais. Porque esses fantasmas de terceira espécie são absolutamente reais. Eles pertencem ao campo da Natureza. Se eu usar uma linguagem deleuziana, eles pertencem ao campo de imanência. Ou seja, o plano de imanência é penetrado de miragens: uma névoa que percorre esse plano. A miragem, a névoa que percorre esse plano, são exatamente os fantasmas de terceira espécie. São penetrados nesse plano.

Aluno: Claudio, os fantasmas de terceira espécie são os corpos ou os simulacros oníricos, teológicos e eróticos?

Claudio: São os simulacros!!! Emitidos pelos corpos e distanciados deles ― e sem a possibilidade de renovação.

(Entenderam?)

O que vai acontecer agora de terrível, é que as emissões ― de profundidade, de superfície e dos fantasmas de terceira espécie ― são velozes; mas a velocidade dos três é diferente: cada um traz sua velocidade. O mais veloz de todos são exatamente os fantasmas de terceira espécie: são eles! A alternância de velocidade produz três tipos de tempo diferentes. Porque o tempo é um efeito, uma propriedade da velocidade dos corpos. Então, o tempo seria alguma coisa que se originaria exatamente na velocidade de movimento desses simulacros, mas aqui nós começamos a encontrar o tempo como uma multiplicidade. O tempo só é unidade no dicionário. (Entenderam?). O tempo é múltiplo! É a paixão pela multiplicidade que está passando na obra de Lucrécio.

(fim de fita)

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Parte II

(...) a teoria do acontecimento. O caminho que nós temos que seguir é chamar o acontecimento de tempo: o acontecimento é o tempo. Ou seja, o acontecimento nada tem a ver com os corpos. Nada tem a ver com as velocidades. O acontecimento é um efeito. É um efeito: é isso o acontecimento! E a explicação que Lucrécio vai dar, é que são esses fantasmas que produzem o envenenamento e a tristeza da vida. Por isso, a filosofia torna-se um “para que serve?”.

― Para que serve a filosofia? Exatamente para destruir os fantasmas de terceira espécie. A filosofia passa a ser denunciativa: ela denuncia os fantasmas de terceira espécie. Porque o fantasma de terceira espécie é aquele que gera o seu séquito, os seus titulares, que são os homens religiosos. Os homens religiosos vivem a vida deles em torno desses fantasmas. Por isso, o religioso só se sustenta se produzir tristezas, paixões tristes. E as paixões tristes são produzidas por esses fantasmas. A exposição é essa.

Lucrécio escreveu a obra dele como uma física. (É uma obra dificílima!) Uma física que se pretende uma compreensão da Natureza. Compreender a Natureza. Mas a obra do Lucrécio não tem objetivo físico, não tem objetivo epistemológico. Toda a obra dele tem um objetivo prático, tem um objetivo ético. E, diz ele, se nós não afastarmos os fantasmas de terceira espécie, nós viveremos com as nossas almas perturbadas. Toda a perturbação da alma se origina nesses fantasmas de terceira espécie. A perturbação da alma atinge nível tal que, diz Lucrécio, este livro que eu estou escrevendo, De Rerum Natura (Sobre a Natureza) tem um objetivo estranhíssimo: provar que depois de mortos nós estamos mortos. Provar isso.

Por que provar que depois de mortos nós estamos mortos? Porque esses fantasmas de terceira espécie vão gerar os falsos infinitos. Aqui é o problema da nossa aula: a geração dos falsos infinitos. Os falsos infinitos têm origem na ilusão, que nós temos, da capacidade infinita dos prazeres do corpo e na duração infinita da alma. Seriam esses os dois falsos infinitos.

Olha o que aconteceu aqui:

Aluna: Você pode repetir os dois falsos infinitos, por favor?

Claudio: Capacidade infinita dos prazeres e duração infinita da alma. Depois eu vou trabalhar isso, não é? Vou fazer uma associação disso tudo com Espinosa.

Aluna: Claudio, posso fazer uma pergunta? Não sei se essa relação está certa, mas será que essa ideia de combater os falsos infinitos, como efeito da produção dos simulacros-fantasmas, teria a ver com uma leitura do Lucrécio de toda a mitologia grega? Porque, até do reino de Hades como (...)

Claudio: Mais grave do que isso, ele está colocando Platão como produto do fantasma da terceira espécie.

Aluna: Pois é, porque em Platão que vai aparecer essa (...) da imagem...

Claudio: O Ser, o Uno, a Totalidade, tudo isso, são conceitos de fantasma da terceira espécie. É um negócio de uma radicalidade terrível, terrível!!!

Eu acho que o importante aqui é nós gravarmos essas duas ideias que o Lucrécio passou: verdadeiro infinito e falso infinito. Aqui é a grande questão: verdadeiro infinito e falso infinito. Por quê? Primeiro, é que ele está trabalhando com as ideias de verdadeiro e falso. E ao trabalhar com essas ideias, ele introduz o infinito como predicado do verdadeiro e do falso. Estranho isso: verdadeiro e falso infinitos! Nós sabemos que todas as filosofias gregas trabalhavam com o verdadeiro e o falso... Sempre trabalharam com o verdadeiro e o falso. Mas o verdadeiro e o falso não estariam associados com o infinito. No caso do Lucrécio, é uma associação com o infinito... Isso vai nos levar para um caminho! Eu acredito inclusive que esse verdadeiro e falso, que o Lucrécio está levantando, se aproximam muito do verdadeiro e do falso problema do Bergson. Por quê? Porque as noções de verdadeiro e falso são noções que mostram, de um lado, a positividade do pensamento, quando o pensamento se liga com o verdadeiro; e, de outro, a negatividade do pensamento, quando o pensamento se liga com o falso.

Todas as filosofias colocaram a positividade e a negatividade ao lado do pensamento. Ou seja, todas as filosofias introduziram a noção de negativo. O negativo como o falso. O falso é o negativo. A existência do positivo e do negativo, o falso sendo o negativo, implicou um método. Os filósofos construiriam métodos para afastar o falso. Mas sempre que um método é construído, o filósofo tem que, anteriormente, construir uma imagem do pensamento.

Imagem do pensamento é “como” funciona o pensamento ― como ele funciona; com o que ele lida; e o que ele quer.

Em Aristóteles é muito claro: o pensamento quer a verdade. Quer a verdade! Mas que verdade? Que verdade é essa? Estranho, isso: que verdade o pensamento quer? Em Aristóteles, o pensamento examina o real e no real ele busca o verdadeiro; mas o real é penetrado de falsidade. E o pensamento se equivoca: às vezes, toma o falso como verdadeiro. Por isso, constrói-se um método, que é a lógica demonstrativa do Aristóteles ― para responder ao que é o verdadeiro, ao que é o falso. Na verdade, a construção dessa lógica aristotélica, desse método aristotélico mostra que as coisas não falam: quem fala é o sujeito humano. É ele que produz a verdade.

É preciso produzir um sistema de pensamento para gerar a verdade. Isso daqui é importante, porque a partir da epistemologia ou da teoria do conhecimento nós teremos a verdade. O falso e o verdadeiro não seriam do campo ontológico, seriam epistemológicos. (Não sei se foi bem aqui!?)

Enquanto que o Lucrécio está falando que o verdadeiro e o falso são reais. Verdadeiro e falso reais. Reais, ontológicos. Nós estaríamos envolvidos nesse verdadeiro e falso. Então, não há como evitar a presença do fantasma de terceira espécie: eles estão presentes aí. Inteiramente presentes! Não há como evitá-los.

O único modo que nós temos para lidar com eles é entender as leis da natureza pra saber que eles são nada mais e nada menos que fantasmas de terceira espécie. E aí, em vez de nos provocarem terrores e medo, nós passarmos a rir com eles.

Provavelmente, o que está sendo dito aqui é que se esses fantasmas de terceira espécie forem tomados como o motivo do pensamento, vai nascer a religião. Se nós os tomarmos como elementos que podem nos dar prazer, provavelmente vai nascer a arte. Provavelmente será isso: fazer a mutação desses fantasmas do campo da religião para as artes.

O importante é que a partir daqui a gente vai começar a construir o plano de imanência. (Foi bem até aqui, não foi?)

(intervalo para o café)

Aluna¹: Me diz uma coisa, (...) esses fantasmas são distantes da fonte, não é? A partir do momento em que eles são pegos ou pela religião ou pela arte... uma para provocar tristeza, outra para provocar prazer... eles não estão de novo ligados a uma fonte?

Claudio: Não, é o uso que você vai fazer deles.  É uma pragmática: é o uso que você vai fazer deles.

Aluna¹: Então, é irreversível: eles jamais têm condição de se ligar a uma fonte?

Claudio: Jamais, eles são isso que eu acabei de dizer, a ontologia deles é essa!

A primeira questão que eu coloco é se seria possível ou não aproximar esses fantasmas de terceira espécie da imaginação de Hume. Por que eu estou perguntando isso?

Porque a imaginação do Hume é exatamente a mesma coisa. É o movimento nas imagens, inteiramente caótico, inteiramente livre, inteiramente inconstante, que se dá na imaginação. É a completa inconstância que se dá ali dentro! Da mesma maneira que o Lucrécio aponta que cavalos alados e dragões de fogo vêm dos fantasmas da terceira espécie, Hume, da mesma maneira, diz que eles vêm da imaginação. Então, não há nada que me impeça de fazer essa aproximação. E ao fazer essa aproximação, eu coloco a imaginação de Hume como o negativo do plano de imanência dele e os fantasmas de terceira espécie como o negativo do plano de imanência de Lucrécio.

E o que é que eu estou chamando aqui de plano de imanência?

É que eu não necessito de nada mais que a própria natureza para tudo isso que eu estou construindo. Nada mais! Eu não necessito de nada mais! Vocês notaram que eu estou construindo tudo isso apenas com dois elementos, os átomos e o vazio? Não precisamos de mais nada. Eu não introduzi nenhum conceito absurdo pra falar sobre isso. Átomos e vazio, eu estou dando como (...).

Muito bem!

De outro lado, vai aparecer essa questão que também vai permitir que penetremos no pensamento estoico: a questão do pensamento. Porque quando o Lucrécio fala em átomo, a noção de átomo é terrível ― porque o átomo não é um objeto sensível; ele é um elemento abstrato. O átomo é um abstrato, no sentido de que não há meios de apreensão do átomo pela sensibilidade. Não por causa de uma deficiência instrumental. Não seria a falta de telescópio que faria Galileu não encontrar o átomo de Júpiter. É que o átomo, enquanto tal, não pode ser apreendido pela sensibilidade; o átomo é um elemento do pensamento.

Aluna: Ou seja, só a emissão que o átomo faz pode ser apreendida pela sensibilidade.

Claudio: Exatamente! Só os objetos sensíveis: os corpos enquanto tais.

Aluna: O átomo é a gênese...

Claudio: O átomo é a gênese, mas ele é um abstrato. Ele é um elemento do pensamento.

Eu acredito que agora podemos construir que o real, enquanto tal, é constituído de concretos e abstratos. O abstrato é o eterno. O concreto é a duração; é o sensível. Na verdade, o mundo em que nós vivemos é um mundo de ilusões. O real enquanto tal é apenas o abstrato. Nós estamos envolvidos num mundo de ilusões. Cercados por essa névoa quase enlouquecida de ilusões. E é com isso que o pensamento vai lidar.

O Lucrécio aqui está diante do problema do pensamento: o que é exatamente pensar. Pensar não pode ser nada diferente do que se dá na realidade. E o que se dá na realidade são as sínteses atômicas; as composições dos átomos. Por isso, o Lucrécio vai ser diferente de toda a tradição do pensamento grego. Porque o pensamento grego constitui uma lógica atributiva. Aqui eu vou começar a te responder, ouviu ---? O pensamento grego constrói uma lógica atributiva. Lógica atributiva é atribuir-se um predicado a um sujeito. E [acrescente-se que] a lógica atributiva é constituída pelo domínio do verbo ser na terceira pessoa do singular. É assim que se constitui uma lógica atributiva ― “o homem é bonito”, por exemplo.

E o Lucrécio, com essa figura dos átomos, constrói uma lógica conjugativa ou conjuntiva. Ele substitui o verbo ser pela partícula “e” ― tudo se conjuga!

Há, aqui, uma grande diferença. Por que uma grande diferença? É exatamente o que eu citei do Aristóteles. Quando o Aristóteles constrói o seu sistema de pensamento, o constrói numa lógica atributiva. Nós estamos entrando num momento muito difícil: Aristóteles constrói seu sistema de pensamento numa lógica atributiva.

(Está indo bem assim?)

― O que é exatamente uma lógica atributiva?

Atribuir é atribuir predicados ao sujeito.  E há duas maneiras de atribuir predicados ao sujeito: atribuir predicados essenciais e predicados acidentais. São os dois predicados que você pode atribuir ao sujeito. Por exemplo: o homem é um animal racional, ou melhor: André é um animal racional, alto, magro, etc. Quando eu digo assim, animal racional é a essência de André; mas alto e magro são acidentes. Então, os acidentes são apreendidos pela experiência. E a essência é apreendida pela razão. Na verdade, a essência nem é apreendida pela razão: ela é produzida pela razão. E só pode haver ciência dos atributos essenciais. Só há ciência do atributo essencial, que é produzido exatamente pela razão; logo, é uma projeção do sujeito sobre o mundo.

Enquanto o Lucrécio diz que o pensamento não projeta nada: ele entra no mundo; e diz o mundo exatamente como ele é. Parece que, aqui, ao romper-se com essa lógica atributiva e ao entrar-se nessa lógica conjugativa ― que é a morte do verbo ser na terceira pessoa do singular, pode-se assistir, na história do pensamento do Deleuze, à incrível briga que ele tem com esse verbo, a ponto de chamá-lo de ‘verbo tarado’. Por que ele faz isso? Porque esse verbo realmente prende o pensamento, ele segura o pensamento. E toda a história do pensamento...

(atenção que isso daqui é de uma beleza incrível, hein?)

O ser, em Aristóteles, é atributivo. O ser, em Lucrécio, é conjugativo: é conjugado; no outro, é atribuído. Isso se chama distribuição do ser. A distribuição do ser leva Aristóteles a fundar a doutrina das categorias.

Estamos começando a entrar numa dificuldade imensa: na doutrina das categorias aristotélicas. Essa doutrina das categorias aristotélicas se fundamenta na distribuição atributiva do ser ― e é isso que Deleuze vai chamar de fixo e sedentário.

(Mas ficou muito difícil! É só pra gente ir colocando o pé, para poder entrar.)

A distribuição fixa e sedentária é exatamente a atribuição. E a distribuição nômade é exatamente a conjugação. Seriam dois tipos de distribuição: duas maneiras de pensar a realidade. Praticamente, a constituição da obra do Deleuze vai ser em torno dessa diferença. A distribuição atributiva é o que ele chama de bom senso. Então, o bom senso é necessariamente fixo e sedentário, constituinte de categorias, etc.

Bom. A ideia de abstrato se opõe, é claro, à ideia de concreto. Mas a ideia de abstrato foi sempre alguma coisa pertencente à razão. A razão abstrativa constrói os elementos abstratos, por esse processo chamado abstração. Toda a história do pensamento coloca o abstrato no interior da razão. Enquanto o abstrato de Lucrécio é um abstrato real. Ora, se é um abstrato real, nós passamos a encontrar duas linhas na realidade: a abstrata e a concreta. O abstrato e o concreto ― que seriam duas realidades.

Essas duas realidades fazem uma marca radical no pensamento. Porque a razão aristotélica só tem um mecanismo: a abstração. Ela tem um funcionamento abstrativo. (Vou me servir do que eu dei:) Ela apreende os fantasmas sensíveis, que a imaginação lhe dá, e os transforma em fantasmas inteligíveis. Pelo processo de abstração, a razão abstrai a semelhança dos fantasmas sensíveis que a imaginação-memória lhe oferece ― e aí constrói os conceitos.

No caso do Lucrécio, o processo não é abstrativo. Ora, se não é abstrativo, ele precisa ter uma razão diferente da razão aristotélica. É uma razão que, digamos, é capaz de intuir: entrar em contato direto com o real. Então, nós temos aqui um mecanismo de pensamento completamente diferente. Nós não ficaríamos prisioneiros dessa razão abstrativa, que seria uma razão necessariamente dominada e determinada pelo mundo sensível. Essa razão lucreciana entra em contato direto com o mundo abstrato.

(Não sei se vocês entenderam bem isso, se ficou muito difícil o que eu disse! Eu agora preciso de informação sobre o entendimento de vocês, porque esse ponto vai-me levar adiante, vai desencadear o que vem na frente. Ficou muito obscuro o que eu disse? Eu acho que ficou!...)

Aluno: Quando você fala em “entrar em contato com o abstrato”, você está falando de um contato com esses simulacros de terceira espécie?

Claudio: Não, filho; estou falando de entrar em contato com o átomo! O que eu estou dizendo é que o real é literalmente átomos. Os corpos são compostos. A sensibilidade apreende esses corpos, mas o que o pensamento apreende são os átomos.

Aluna: Quando você diz, falando de infinito, que a ideia de verdadeiro e falso do Lucrécio se aproxima da teoria dos verdadeiros e falsos problemas e quando você diz que a razão em Lucrécio tem um princípio intuitivo, é o mesmo sentido da intuição que tem em Bergson?

Claudio: É mais ou menos a mesma coisa.

Isso daqui... é isso que eu digo pra vocês, que cada aula que a gente tiver, a gente tem que ter muita noção do que está sendo dito, e às vezes vocês podem me considerar um pouco chato, porque eu repito: Oh, vocês entenderam? Isso daqui eu estou comparando ao Kant, porque eu insisti desesperadamente que a intuição no Kant é só intuição sensível. Aqui está aparecendo uma intuição intelectual, que é completamente diferente! Porque, se a gente não fizer essas associações, a aula não tem sentido! Então, vamos fazer uma pequena pausa aqui, só para vocês entenderem.

As duas noções aristotélicas de fantasma sensível e fantasma inteligível:

― O que é exatamente fantasma sensível em Aristóteles? É uma associação que o Aristóteles faz entre a sensibilidade e a imaginação-memória. A sensibilidade apreende alguma coisa no mundo. A sensibilidade apreende os indivíduos, que permanecem na imaginação mesmo na ausência desses indivíduos. É muito simples: eu apreendo a Márcia, fecho os olhos, a [imagem da] Márcia continua dentro de mim. Então, os indivíduos ― menos a existência deles ― chamam-se fantasmas sensíveis. O fantasma sensível é aquilo que está na imaginação. É dos fantasmas sensíveis que a razão vai abstrair o fantasma inteligível. O fantasma inteligível é a geração do conceito. O conceito é o fantasma inteligível. Ou seja, o fantasma inteligível é uma ideia geral.

(Não sei se foi bem aqui...)

O que é uma ideia geral? É o fantasma inteligível. Ele só se constitui a partir dos fantasmas sensíveis. Vejam que esses dois fantasmas são fantasmas da subjetividade. Um é sensível ― as imagens na ausência dos indivíduos reais; logo, a imaginação pressupõe uma memória, que os conserva; e a razão entra ali e faz uma prática de abstração.

A prática da abstração é muito fácil: ela extrai dos fantasmas sensíveis o que neles é semelhante. E aí constrói o conceito. O conceito emerge como gênero. É um conceito genérico. (Não sei se está indo bem aqui...).

(Você entendeu Eduardo?)

 Estão nascendo os universais. E como em Aristóteles isso é completamente confuso (e dá motivos para as maiores confusões), isso vai gerar a famosa querela dos universais, na Idade Média. Ockham. Contra Ockham, exatamente por causa disso. Mas o objeto da razão passa a ser o universal ― o gênero. É isso que se chama conceito. Conceito e gênero é a mesma coisa. Então, a razão trabalharia com esse conceito ― que é o conceito genérico. E Deleuze, na obra dele, chama o gênero de conceito, (certo?). Mas a razão, além de produzir os conceitos genéricos, vai ter a necessidade de produzir os conceitos específicos ― e aí aparece o que se chama diferença conceitual.

― O que é a diferença conceitual? É um conceito genérico mais a diferença específica. Apareceu o conceito de diferença. O conceito de diferença, na especificidade. (Tá?)

A obra do Deleuze visa a encontrar não a diferença conceitual, mas o conceito de diferença, ou seja, um conceito que tenha no seu próprio interior o diferencial.

(Não ficou muito bem, não ficou não!)

Aluno¹: Claudio, isso está bem, mas você falou isso com o propósito de esclarecer ideias abstratas.

Claudio: A ideia de abstrato é que o pensamento pensa com átomos. Ao pensar o átomo, está pensando o próprio real. Ele não está representando, ele está pensando o próprio real.

Aluno²: Claudio, sabe o que ficou confuso? É quando você diz que pensar o simulacro, nesse caso, seria pensar o real...

Claudio: Não é o simulacro, é o átomo!

(final de fita)

 

Parte III

(...) Contacta...  O elemento do pensamento é o átomo. Na verdade, o átomo é a ideia. É a própria ideia; não é uma representação do espírito. É uma ideia.

Aluno¹: Seria um abstrato ontológico!?

Claudio: Ontológico! O que é importante para mim, neste momento, é nós admitirmos que o real é constituído pelo sensível e pelo abstrato. Isso que é importante para mim. Isso que é importante! Isso que eu quero ter como fundamental!

Fala lá, Jorge:

Aluno: Os simulacros oníricos, sexuais e teológicos são ontológicos?

Claudio: Eles são ontológicos! Mas eles são um negativo. Eles são aquilo que envolve o pensamento numa ilusão.

Aluno: Mas é necessário que haja um entendimento sobre eles para que isso possa se...

Claudio: Não. A única maneira de você se libertar deles é se você entender o funcionamento da Natureza.

Aluna: Eu acho que a diferença é a seguinte: você estava falando no princípio ético, não é? Que o princípio ético do pensamento tradicional grego, Platão e Aristóteles, é caçar o simulacro, é expulsar. O princípio ético do Lucrécio não é caçar, é compreender.

Claudio: É compreender ― compreender a lei da Natureza.

Aluna: Compreender. Cuidar do simulacro para não se prender nos buracos que ele causa...

Claudio: É simples! Eu acho que aqui é simples. É a coisa mais simples do mundo, Eduardo. Você pega um homem religioso e ele se submete aos fantasmas de terceira espécie. Você pega o pensador, o físico, ele quer entender a lei da Natureza. Entendendo a lei da Natureza, ele compreende a formação dos fantasmas de terceira espécie. Porque... Vocês não estão compreendendo a formação do fantasma de terceira espécie?

Aluna: Sim.

Quem os está levando a compreender os fantasmas de terceira espécie é o pensamento. Se não tivesse o pensamento, vocês não compreenderiam o fantasma de terceira espécie. Vocês diriam que o mundo é habitado por cérberos, centauros, dragões de fogo, rios Aquerontes, deuses, infernos, tudo isso estaria aqui neste mundo. É o pensamento que é capaz de gerar a compreensão do fantasma de terceira espécie. Por isso, para Lucrécio ― e aí ele é altamente espinosista ― toda a questão é o fortalecimento do pensamento. Fortalecer o pensamento: o pensamento é o instrumento que nós temos para atravessar esse plano de imanência.

Aluna: [aluna ri] É Espinosa que é altamente Lucreciano, não é?

Claudio: Dá no mesmo! As inversões são justas!...

Aluna: É verdade!

(Não entendeu não, Eduardo?)

Aluno: Eu entendi. O que fica confuso é o seguinte: é que o caminho desses simulacros se dá numa espécie de virtualidade. Nas sombras, não é?  Quando você falou onírico, a gente imagina aquela coisa caminhando no sono...

Claudio: O que eu disse é onírico, erótico e teológico. O que eu disse é o seguinte: quando nós sonhamos, diz o Lucrécio, os nossos sonhos não são produto de nossas memórias (ele não disse assim, mas eu posso dizer!). Os nossos sonhos são que esses fantasmas de terceira espécie penetram dentro de nós. Eles penetram, porque a nossa atenção está enfraquecida. Por isso, os nossos sonhos são de uma velocidade excessiva e uma mistura dos mais estranhos seres.

(Não sei se vocês entenderam...)

Não é você que está produzindo; aquilo entra em você. Agora, o problema é você passar a ser dominado por eles: jogar no bicho no dia seguinte, querer interpretar ― é isso que ele está dizendo! Você tem que conviver com aquilo alegremente; e não se submeter àquilo. Submeter-se é a prática do religioso ― que é o criminoso, o ávido, o cúpido.

Aluna: É a mesma coisa quando Nietzsche coloca os sacerdotes como formadores da má consciência...

Claudio: Muito parecido... Muito parecido, em outro plano de imanência. É muito parecido! Eles têm planos muito semelhantes.

Esses fantasmas, o fantasma onírico você não pode ver. Só quem pode apreender esses fantasmas oníricos é o nosso corpo no estado especial do sono. Eles são tênues, são finos; então, só o sono muito profundo o apreende. E aí você sonha: sonha e confunde esse sonho com alguma coisa real.

Aluna²: E a arte, Claudio?

Claudio: O que eu chamei da arte é alguma coisa que você não encontra em Lucrécio, ouviu? Que não tem muito explícito nele. Mas é alguma coisa ― e eu estou dizendo isso de modo um pouco arriscado ― que você encontra, trabalhando também com essas ficções. A arte trabalha com as mesmas ficções. Mas os objetivos da arte não são os mesmos da religião. São objetivos diferentes...

Aluna: Mas em Lucrécio não há menção da arte porque talvez, pra experiência dele, a arte estivesse misturada com a religião, não?

Claudio: É possível, é possível que naquela época não tivesse da mesma maneira...

Aluna³: No sono, no sonho o grande funcionamento seria essa intuição abstrata?

Claudio: Não, o sono apreende esses fantasmas. Porque, se vocês lerem uma teoria do cérebro ― vocês podem ler O cérebro consciente do Steven Rose, que tem tradução para o português ― vocês vão ver que no sono o cérebro adquire uma estrutura diferente de quando está na vigília. Ali entram determinadas coisas que não entram na vigília. O que entra são exatamente esses fantasmas de terceira espécie. Mas, a partir disso, você faz previsões, faz teorias, “foi mensagens de Deus”, não é? Não é nada disso! Você só começa a compreender e a se livrar do domínio desses fantasmas a partir do entendimento da lei atômica. Entendendo a lei atômica, essas coisas começam a desaparecer. Não é que o fantasma de terceira espécie vá desaparecer: você não vai deixar de sonhar, você vai continuar sonhando; mas não vai mais jogar no bicho por causa do sonho. Como, por exemplo, a história que o Guattari conta ― e que é muito bonita... Uma história assim, eu presenciei nos meus netos! O sonho contado por uma tribo primitiva, diz o Guattari, é uma narrativa de discurso indireto livre: Um primitivo começa a contar o sonho que ele teve, por exemplo: “eu sonhei que um dragão vinha me atacando”. E aí, outro primitivo interfere: “aí o Dragão mordeu a tua bunda, não é?” Eles começam a interferir, e transformam aquilo numa narrativa alegre.

O engraçado é que os meus netos contando um sonho faziam a mesma coisa. Quer dizer, é um processo em que a própria vida usa esses fantasmas de terceira espécie de uma maneira muito bonita. Mas vai ser dominado pelo religioso e tornar-se causa de paixões tristes.

Bom. A obra do Lucrécio ― por causa do falso infinito ― é constituída pelo medo da morte. Nunca um filósofo deu tanto realce a essa figura chamada “medo da morte”. O medo da morte como o constitutivo do luxo, do frenesi do capitalismo (como hoje se costuma dizer), das riquezas excessivas, da guerra... isso tudo vem do medo da morte! Esse medo da morte, então, é fundado exatamente pelos falsos infinitos. Se nós entendemos as leis da natureza, não é que o medo da morte não prossiga, mas ele vai ser pensado de uma maneira diferente. O medo da morte passa a ser a causa, a raiz de todos os sistemas despóticos: o reacionário, a violência, assim como a constituição de ciências originárias nos fantasmas de terceira espécie. As ciências a serviço do medo da morte. Eu aí apontaria para vocês lerem Massa e Poder do Elias Canetti. O Canetti é muito bonito para isso. Ele mostra ali até que ponto o homem é levado pelo medo da morte.

Aluna: E os verdadeiros infinitos?

Claudio: Os verdadeiros infinitos são o real, o pensamento os apreende! A questão do Bergson é distinguir o verdadeiro e o falso problema. A do Lucrécio é distinguir o verdadeiro e falso infinito. Precisa distingui-los. É isso que vai nos levar para constituição do homem livre. Eu não disse que é uma ética? A ética é a liberdade; a constituição do homem livre é a libertação dos falsos infinitos.

Agora vamos ver o que o Deleuze diz:

Aluno: É no capítulo Lucrécio e o simulacro na Lógica do Sentido?

Claudio: É.

É claro que o pensamento do Lucrécio é um pensamento dificílimo. Eu vou me ajeitar com ele utilizando o Espinosa, senão eu não consigo.

É uma beleza isso aqui. Olha aqui:

 “É aí que intervém uma teoria epicureana muito bonita [mas] muito difícil” (Lógica do Sentido, 1974, p. 280). Que é a teoria dos simulacros: muito difícil! É difícil de entender. Bom. “O tempo se manifesta com relação ao movimento”. (ídem, p.283). Vocês me desculpem insistir nisso. “O tempo se manifesta com relação ao movimento”. A importância disso é muito grande: foi nisso que as filosofias antigas se fundamentaram. O tempo sempre se manifesta com relação ao movimento. Deleuze, na obra dele, no Cinema 2, diz uma coisa surpreendente: que o tempo só começa a se libertar do movimento através dos movimentos aberrantes. Isso é surpreendente! É preciso que haja movimentos aberrantes para que o tempo comece a se libertar do movimento. Ora, movimento aberrante, movimento dos fantasmas de terceira espécie: absurdamente aberrante, de uma velocidade assustadora, e etc., tá? Então nós temos que verificar esse fato, que eu estou dizendo aqui, nas sínteses do tempo (que é o nosso trabalho). Esse fato de que na filosofia antiga o tempo está sempre se manifestando em relação ao movimento. Sempre! Ora, se o tempo se manifesta em relação ao movimento e se o movimento implica corpo, (porque você não pode pensar o movimento sem o móvel), o movimento sempre implica o corpo, o movimento é o presente no tempo. Isso é fundamental! Isso é que vai dar o rigor e a compreensão para a gente: o movimento é o presente no tempo.

(Vocês entenderam?)

O movimento é o presente no tempo. E é evidente, se o tempo é uma relação com esse movimento, o passado e o futuro vão emergir desse movimento. O passado e o futuro são as dimensões que surgem a partir do movimento. Não que elas estejam em movimento, mas surgem a partir dele.

Aluna: O movimento só está no presente.

Claudio: O movimento é o presente.  O movimento pode ser identificado como... A única maneira de se compreender o movimento é compreendendo o agora: o presente no tempo.

Uma tese muito difícil começa, então, a aparecer. E, a partir desse movimento, o passado e o futuro. É exatamente aí que vão começar a haver as distinções das filosofias. “É por isso que falamos de um tempo do pensamento com relação ao movimento do átomo no vazio...” (ibidem).

O tempo, o movimento, é constitutivo dos acontecimentos. O acontecimento...

                (As coisas ficam cada vez mais difíceis, e vocês têm que me dar notícias para eu saber o que eu estou fazendo. Eu tenho que saber o que eu estou fazendo!).

... O acontecimento é constituído pelo movimento. Aparece a ideia de acontecimento. O acontecimento é aquilo que se opõe ao atributo. O acontecimento é aquilo que se opõe à lógica atributiva.

Aluna¹:

Aluna²: Não é fixo, é acidental...

Aluna³: Pois é, porque quando você dá o atributo a algum corpo, você fixa esse corpo num conceito.

Claudio: É.

Aluna³: Enquanto que quando você está trabalhando com uma lógica conjuntiva, você não fixa, mas você cria nesse corpo a possibilidade de mistura com outros corpos.

Claudio: Eu acho que até o melhor que nós poderíamos fazer aqui seria opor acontecimento a propriedade.

Porque, não adianta, chega um momento de aula em que não adianta eu fingir pra vocês que sem isso vocês vão aprender ― sem isso vocês não vão aprender: [a questão] é opor acontecimento e propriedade.

Acontecimento agora passa a ser predicado oposto à propriedade. São dois predicados que você tem: de um lado, o predicado propriedades essenciais e propriedades acidentais; e de outro lado ― o acontecimento.

Está começando a possibilidade de você pensar de um modo diferente. Pensar de outra maneira. Pensar de outra maneira é pensar no nível do acontecimento e não no nível da propriedade da essência. Mas todo o modelo da lógica é o das propriedades de essências e acidentes. Essa posição conjuntiva ou conjugativa ― à diferença da lógica atributiva ― é o modelo do pensamento científico moderno. É o que se chama pensamento das relações. Já não se pensa mais atributivamente. Só se pensa agora em termos de conjugação.

“Como impedir a ilusão...” (idem, p.284).  O que quer dizer isso ― impedir a ilusão?

Nem é o problema de impedir a ilusão. É o fato de a ilusão estar inscrita num plano de imanência. A ilusão está inscrita num plano de imanência. O negativo está inscrito.

Vamos dar um exemplo: há uma teoria da consciência em Espinosa. E, segundo ela, todo o conhecimento que a consciência tem é um conhecimento inadequado. Todo o conhecimento dela é inadequado, exatamente porque a consciência é submetida às ilusões. Ela não é capaz de ultrapassar as ilusões porque é preguiçosa; é da própria essência da consciência a submissão às ilusões. Ela se submete a essas ilusões!

O Espinosa vai construir um método (Aristóteles também construiu um método...). Espinosa vai construir um método ― chamado método reflexivo ou formal ― com o objetivo de fortalecer o pensamento, para ultrapassar as ilusões em que a consciência está envolvida. Senão a consciência vai viver eternamente sob esse regime das ilusões ― com o conhecimento inteiramente inadequado. Por isso, diante do homem da consciência, “sai da frente”: lá vem asneira; só asneira! Porque o mundo dele é uma inadequação essencial.

Então, a questão do Espinosa ― que é exatamente a questão lucreciana ― é desqualificar os poderes da consciência, apontando que a consciência nunca poderá ter um conhecimento adequado da Natureza. Conhecimento adequado da Natureza, no caso do Lucrécio, é a consciência que se submete o tempo inteiro a esses fantasmas ― ela é inteiramente submetida a esses fantasmas.

Então, nitidamente, o criminoso, o religioso... O religioso não é só o homem da igreja: o religioso é o homem da consciência, produtor de superstições e de ignorância. A ignorância deixa de ser o que era antes: ignorância é o ser da consciência. A consciência ignora as leis da Natureza. Ignora completamente as leis da Natureza. Ela não tem como penetrar nas leis da Natureza. Então, o esforço que tem que ser feito é pra quebrar essas formas da consciência.

É um pensamento dificílimo, como eu estou mostrando pra vocês, em que a gente vai tentar fazer um trabalho.

Eu vou fazer aqui uma pausa ― em que eu vou dar uma pequena orientação. Não sei se o melhor seria vocês já lerem diretamente o Lucrécio ou pegarem algum livro secundário, que aponte para determinados elementos no Lucrécio, para a gente poder trabalhar. Quer dizer, isso apressa o nosso trabalho. Eu não precisarei dizer determinados conceitos simplórios, a gente já vai passando mais forte. Existem muitos de literaturas secundárias, que eu posso indicar pra vocês, dizendo os temas fundamentais do Lucrécio, para se entender isso que está acontecendo aqui.

Algo de definitivo aconteceu. De definitivo! Há uma ilusão que percorre o plano de imanência. Há uma ilusão imanente. Essa ilusão pode nos pegar, ela pode nos dominar. É preciso fortalecer o pensamento para ir além dessa ilusão.

Aluna: O que significa libertar o pensamento da consciência...

Claudio: Libertar o pensamento!

Mas isso daqui é um negócio assustador, assustador! Sempre que eu trabalhei nessas questões de plano de imanência, eu encontrei as respostas no Espinosa. Eu consegui dar conta disso por Espinosa. Realmente, aqui eu ainda me enrolo; lá no Espinosa eu consigo me resolver. É o Espinosa fazendo questão de mostrar as duas figuras: conhecimento adequado e conhecimento inadequado. Mostrando claramente a prisão que a consciência está envolvida.

Olhem como está começando a ficar rico: no momento em que o Espinosa vai fazer a construção da inadequação da consciência, ele introduz uma teoria do signo. Introduz uma teoria do signo. Por Espinosa, nós vamos chegar numa teoria do signo. Começa a aparecer uma teoria do signo para ele explicar o que é exatamente essa inadequação da consciência.   Eu insisto com vocês: o problema aqui é a consciência. Como a consciência ― por sua própria inadequação ― vai ser a condutora da nossa infelicidade. A linguagem do Deleuze em O que é a filosofia? é a opinião ― que é a mesma coisa: a opinião é a condutora da nossa infelicidade.

Bom, eu acredito que no Lucrécio não há mais nada a dizer hoje.

Aluna: Você falou que ia dar umas leituras...

Claudio: É. A literatura de apoio.

Claudio: De Rerum Natura a gente vai ler, mas a literatura secundária eu vejo depois!...

Aluno: Claudio, você destacou um ponto novo, que é a forma aprisionada. Eu antes pensava no simulacro, por exemplo, um cavalo se encontra com um homem e forma um centauro, uma coisa de imagem. Agora você liberou a coisa da forma aprisionada.

Claudio: A forma aprisionada, como?

Aluno: Como uma imagem...

Claudio: Não, eu apliquei Espinosa e disse que pelo Espinosa você vai verificar que a consciência é prisioneira desses fantasmas. Não tem como escapar!

A consciência é prisioneira.

Aluno: Essas formas aprisionantes, quando você entra no campo social, elas já se encontram presentes.

Claudio: É mais do que campo social, tá na Natureza, na Natureza!!! No plano de imanência. Ela é tão presente quanto os átomos! O negativo do pensamento é [algo] presente aqui dentro do mundo.

Bom. Chega de Lucrécio por enquanto, tá?

Aluno: Posso só falar uma coisinha, Claudio? O interdito do incesto seria uma forma natural desse...

Claudio: Não uma forma natural, uma forma convencional!

Aluno: No caso dos primitivos, por exemplo, quando eles produzem essa lei, já seria uma realidade ontológica, que ela já nasce de uma...

Claudio: Não, segundo Levi Strauss, seria um processo do inconsciente pra passar pra cultura. Segundo Deleuze, não. Mas eu não entendi por que você falou em interdito aí, fiquei um pouco perdido.

Aluno: Eu estava pensando nesse simulacro como uma coisa ontológica, uma coisa real, uma coisa que existe na natureza, fazendo parte dela.

Claudio: É real. A natureza tem uma névoa de negativo. Essa névoa está aí na Natureza...

Aluno: É muito fácil entender isso enquanto artifício, que a gente já conhece...

Claudio: Não, é da Natureza: a Natureza produz isso. Nós estamos envolvidos nisso, nesses fantasmas.

Claudio: Eduardo, é só você entender isso como real, é só isso! Não há nenhum problema...

“O falso infinito é o princípio da inquietação da alma” (idem, p. 285). A alma humana é inquieta. É sofrida, atormentada. É esse tormento da alma humana que é a questão do Lucrécio. Toda a questão que ele tem. Por que essa alma inquieta? Como ultrapassar a inquietude da alma? É o domínio desses fantasmas de terceira espécie.

Aluna: São as paixões tristes de Espinosa.

Claudio: São as paixões tristes de Espinosa... É o nascimento do homem religioso, o criminoso, tudo isso.

Nós não estamos seguindo o caminho ideal desta aula. Temos que seguir o caminho ideal da aula... O falso infinito ficar definitivo como sendo uma coisa real, e a partir daí a gente fazer um caminho!...Acho que está bem dado, Eduardo. Acho que alguma coisa está te prendendo...

Aluno: Você libera questões aqui que ficam muito marcantes!  O medo da morte como sendo uma das questões cruciais do Lucrécio. Gerando a vontade de poder. Então, o medo da morte gerando a vontade de poder, dá a impressão de que isso é uma coisa que é produzida pelo próprio homem... uma manipulação... Mas não é isso!

Claudio: Não, não é uma manipulação. É o próprio medo da morte mesmo! O medo da morte é que leva o homem a fundar muralhas, etc. Leva-o ao sedentarismo. É o medo da morte!

Aluna: Ele supõe que a morte pode ser afastada ou adiada por qualquer...

Claudio: Sobretudo por essa tese do Lucrécio, de que depois de mortos nós estaríamos vivos. É esse o grande medo da morte: depois de mortos, estarmos vivos. A capacidade infinita dos prazeres e a infinitude da alma. Isso é que produz o grande medo da morte. Se essas questões forem suprimidas, o medo da morte desaparece.

Aluna: Agora, me diz uma coisa: isso aí não vai ter uma consequência, não tem aí uma leitura crítica da teoria da reminiscência de Platão? Porque, olha só, o que funda a teoria da reminiscência de Platão não é transmigração das almas?

Claudio: Todo esse fantasma de terceira espécie vai ser identificado a Platão. Platão é produto disso.

Aluno: Pois é, porque essa duração infinita das almas se liga na...

Claudio: É claro! É isso! Todo fantasma de terceira espécie explica as filosofia do ser, do todo, da totalidade... Todas essas filosofias viriam do fantasma de terceira espécie. Isso daqui é de um naturalismo radical, radical! É uma filosofia assustadora, porque ela coloca todas essas questões que foram levantadas na história do pensamento como produtos dos fantasmas de terceira espécie. A questão que parece que está ficando...

(fim de fita)

Parte IV

Claudio: Bem, eu preciso abandonar isso aqui.

(Não sei se eu fui bem... Como é que vocês foram?)

Aluno: Claudio, eu só não entendi, mas eu estou trazendo uma coisa que não é da aula de agora, é de uma aula ontem, ---, que é então a existência de três tempos distintos nesses três...

Claudio: Qual é o primeiro tema que você tem aqui. O tempo deixa de ser uma unidade, ele passou a ser múltiplo. Você já tem uma coisa nova, que é a multiplicidade do tempo. Muito semelhante ao Proust. Proust não fala em Tempo Redescoberto, Tempo Perdido, etc.? O tempo começou a ganhar o campo da multiplicidade.  É uma expressão do Nietzsche muito bonita, quando ele critica o Schopenhauer. Shopenhauer diz que “A vontade é X”. Nietzsche diz: “Não existe ‘A vontade’; existem vontades!” ‘A vontade’ é apenas no dicionário. “O tempo” é uma ficção de fantasmas de terceira espécie. Você começa a quebrar todas essas ficções e começa a gerar um pensamento do múltiplo; o pensamento da diversidade. É essa questão do tempo que eu levantei. (Certo?). É essa a questão! É você ter agora uma compreensão do tempo como múltiplo, que é uma compreensão muito difícil! Porque nós somos dominados pela ideia de que o tempo é uma unidade! Aqui, no Lucrécio, a unidade desaparece: não tem mais unidade. Todas as unidades desapareceram. Nós estamos regidos por um princípio ― o da diversidade!  É este o princípio que nos rege!

Veja bem: a razão abstrativa não pode aceitar essa tese. Ela não tem como aceitar essa tese. A razão abstrativa tem que partir para a unidade. É preciso quebrar a razão abstrativa como sendo também produto de fantasmas. E não são? Fantasma sensível e fantasma inteligível? É só entender! A razão abstrativa precisa de fantasmas para se alimentar. É você começar a verificar como a história do pensamento é penetrada por esses fantasmas.  Eles penetram o pensamento.

Aluna: Tudo que é da ordem da consciência é penetrado por esses fantasmas!

Claudio: É penetrado por esses fantasmas...

Há um texto lindíssimo do Marcel Conche sobre o medo da morte. Eu tenho uma tradução para o português de má qualidade. Não é muito boa...

Aluna: Como é o nome do texto?

Claudio: Lembra aí, S, o nome do texto? É um texto do Marcel Conche só sobre o medo da morte.

S: O nome é Religião e Saber...

Aluna: É Religião e Saber!

Claudio: A tradução não é muito boa. Mas o texto é de uma beleza excepcional, porque está mostrando essa questão do medo da morte.

[Claudio prossegue com a leitura da Lógica do Sentido:]

“O fim ou o objeto da prática é o prazer” (Incrível, isso: a Natureza é tão sábia, que nos ensina imediatamente que nós devemos procurar o prazer e fugir da dor. A prática é de uma facilidade incrível: busque o prazer, fuja da dor!) “Ora, a prática, nesse sentido, nos recomenda apenas todos os meios de suprimir e de evitar a dor”. (A prática é suprimir e evitar a dor. Que coisa bonita!) “Mas nossos prazeres têm obstáculos mais fortes que as próprias dores: os fantasmas, as superstições, os terrores, o medo da morte, tudo o que forma a inquietação da alma” (Ou seja: o que é mais perigoso para nós não são as dores físicas, são as inquietações da alma.) “O quadro da humanidade é um quadro da humanidade inquieta, aterrorizada mais do que dolorida” (Ela sente mais inquietação que dor. A vida do homem é a vida da inquietação. É praticamente uma impossibilidade de viver. A gente brinca que pode viver: corre pra lá, corre pra cá, faz isso, vai ao cinema, faz não sei o quê..., a inquietação é violenta! É isso que ele está dizendo. Produzir um homem livre, fora dessa inquietação.) [“Mesmo a peste...”] (Isso daqui é tão nosso!...) [“Mesmo a peste se define não apenas pelas dores que transmite, mas pela inquietação generalizada que institui”]. “É a inquietação da alma que multiplica a dor; é ela que a torna invencível, mas sua origem é outra e bem mais profunda” [Lógica do Sentido, pp.279-80]: é o falso infinito!

Então, eu acho que está muito definitivo, não é? Muito definitivo! A tese dele está nítida. O que apareceu para nós? Isso eu não dei pra vocês, é o fato de o Lucrécio ter produzido o infinito real. O infinito é real; coisa que o Aristóteles não teria tido condições de colocar. Teria produzido um infinito potencial. Lucrécio produz um infinito real. E nesse infinito ele produz como falso e verdadeiro. E a experiência do pensamento é essa distinção.

Aluna: Deixa eu te fazer uma pergunta? Eu sei que a gente está falando o tempo todo e você está sempre remetendo para uma tradição no pensamento. Mas quando a gente trabalha Platão, Platão tinha a noção de infinito real, mas que o pensamento não poderia dar conta desse infinito real. Que o infinito era vago, ou múltiplo, [Claudio: Impossível dar conta dele] e que, portanto, era preciso [Claudio: Expulsá-lo] criar uma categorização sobre o infinito. Mas ele intuía que havia um infinito real?

Claudio: Ele intuiu o falso infinito. Ele nunca admitiu um infinito que pudesse ser pensado.

Aluna: Pois é. E o Aristóteles faz uma reversão desse infinito, transformando esse infinito numa ideia de abstração, não é?

Claudio: O que Platão faz desse infinito foi soterrá-lo... Soterra-o!

Aluna: E o Aristóteles manda esse infinito pra...

Claudio: Porque o Aristóteles é o herdeiro de---. Aqui a questão foi fantástica:

Nós passamos da impossibilidade do infinito ser pensado, para a única maneira de produzir a liberdade ser a de pensar o infinito! O infinito torna- se a questão do pensamento. Essa passagem para o infinito é a modificação generalizada do pensamento. Você entra no infinito e abandona as finitudes que eram o governo do pensamento.

Aluna²: Quem vai fazer isso é o Leibniz?

Claudio: Não, nós não estamos dizendo aqui que é o Lucrécio?

Aluna²: Lucrécio, sim, mais depois?

Claudio: Se vão aparecer outros filósofos que vão pensar assim? Siiiiiiiiimmmmmmm.

Aluna²: Você falou: aí vem o Aristóteles e, enfim, acaba montando outro sistema, para poder organizar a forma de conhecer. Então, como é que isso volta. Porque você falou que atualmente as ciências físicas já estão trabalhando novamente em cima desse conceito. Quem é o responsável por toda essa volta?

Claudio: Volta de quê?

Aluna²: Quem reintroduziu o infinito no modo de pensar?

Claudio: Não parou nunca, nunca parou de passar! Nunca parou de passar!

Deleuze, na obra dele, faz a distinção entre pensamento sedentário e  pensamento nômade: o sedentário expulsa esse infinito; e o nômade, não. Nunca parou de passar!

Bom. Em síntese, o pensamento lidando com o infinito... As consequências são gravíssimas, gravíssimas! Sobretudo na história do pensamento [busca-se] fazer uma prática de definição. Definir é definir o finito. O pensamento vai, necessariamente, abandonar a definição. Esses conceitos que vão aparecer em Deleuze: rizoma, etc., são originários nessa distinção. O pensamento lidando com o finito não teria nenhuma dessas questões.

Aluna¹: Ou seja: a explicação torna impossível ou torna possível

Claudio: A definição.

Aluna: E a explicação também... se a explicação passa a ser num certo sentido o...

Claudio: Olha, a explicação, não. A explicação difere da definição. A explicação tem origem no campo causal. A explicação é sempre causal. E se você encontrar uma causalidade na complicatio, você encontra uma explicação do infinito. Encontra uma explicação do infinito, que é a questão do Espinosa.

(Foi bem essa aula? O que vocês acharam? Foi bem, dentro dos limites de possibilidade? Não era até onde eu queria ir. Mas eu acho que foi bem! Dentro do possível, foi bem. O Eduardo se enrolou um pouquinho, não é Eduardo?)

Nós temos que começar a nos esforçar para aceitar certos tipos de pensamento e dar conta deles. Temos que começar a fazer isso, para fazer as passagens, senão a gente não faz.

Bom, como resto disso tudo, aqui vai ser dito que esse pensamento do Lucrécio se constituiu porque um pensador grego, Arquimedes, teria feito um método de exaustão. É um processo muito semelhante à revolução científica. O que é o marco da revolução científica é o Galileu, por exemplo, ter compreendido que com a matemática ele poderia dar conta do mundo. É a associação entre a matemática e o mundo. É fazer uma passagem do pensamento para o mundo. E não ficar preso na caixa do pensamento por processos abstrativos. É entrar no mundo!  Vias de passagem no mundo. Através desse pensamento, está surgindo aqui o problema do cálculo diferencial. Porque o Lucrécio vai pensar movimentos infinitesimais, velocidades infinitas, e, para isso, ele vai precisar de instrumentos teóricos que o conceito clássico aristotélico não dá conta.

(Foi bem assim, não é?)

Existe uma revista, em português, onde há uma explicação do método de exaustão. Uma revista, que eu não sei o nome, Silvia. Aquelas verdes...

S: Não sei o nome.[i]

Claudio: Procura explicar o método de exaustão. Porque aí vocês teriam que estudar número ― e número é muito cansativo de estudar; mas estudar a teoria dos números, compreender o que é número real, número racional, número complexo, para começar a entender essas passagens. O pensamento fazendo novas passagens; e lidando agora com o infinito!

Eu não vou falar nada mais hoje, porque eu acho que eu não fui muito feliz nessa aula. Acho que eu fui mais ou menos.

Aluna: Foi feliz, sim.

Claudio: Então está bom. Eu já estou muito cansado. Está bom!

Aluna: Está ótimo!

Fim.

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[i] Claudio refere-se aqui a uma pequena coleção de revistas publicadas pela editora da UNB: Curso de História da Matemática, Origens e Desenvolvimento do Cálculo, de Baron, Margareth E. – tradução do prof. José Raimundo Braga Coelho, 1985.

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