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aulas gravadas ministradas por Claudio

Aula de 22/08/1995 – Ícone e simulacro (ENKRATEIA – Estética da existência)

A humanidade se constitui pelo processo de imitação. Dentro de uma sociedade, sempre o processo de imitação vai ser o modelo. Se você introduz o simulacro, você rompe com o modelo. Eu vou chegar lá na polícia e vou dizer: - A quem que eu imito?
Mas, nesse momento, aparece uma das coisas mais bonitas aqui:
No momento em que você não sabe o que faz, é o momento em que você tem que se constituir. É a experimentação da liberdade sua. Ou seja, você já não tem mais nada pra copiar, você próprio tem que se tornar o seu próprio modelo. Você próprio tem que constituir... produzir um novo ser.
 
Claudio Ulpiano
 
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Esta aula está em Aulas Transcritas como ENKRATEIA - Estética da existência
 
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Aula de 01/11/1994 – Nietzsche: forças ativas e forças reativas

"Além do indivíduo há outra coisa. Essa outra coisa chama-se singular.
 
Entenderam? Não?
 
O singular seria um elemento que junto, quando você juntasse um conjunto de singulares, o que apareceria? O indivíduo. O indivíduo é um conjunto de singulares.
 
Isso eu estou falando de uma maneira até bruta, como se fosse um diamante, para vocês poderem entender. São são dois elementos que reagem. São duas realidades: a realidade do individual e... qual é a outra realidade? Do singular.
 
(...)
 
O Nietzsche, quando ele vai falar em singular, ele não usa a palavra singular. Ele utiliza a palavra força.
 
Mas Nietzsche diz que uma força nunca vai aparecer isolada. Uma força sempre aparece em relação com outra força. E quando duas forças estão com relação você tem um corpo.
 
(...)
 
Então um corpo é a relação de duas forças. Isso é definitivo na obra de Nietzsche, é o ponto de partida. Você não tem um corpo se você não tiver as forças.
 
Essas forças são a singularidade. São elas que são as intensidades. Todas as forças são singulares e intensas.
 
Segundo Nietzsche essas forças seriam ativas ou reativas. Isso é definitivo na obra dele.
 
‑  Então um corpo é constituído por duas forças, quais?
 
‑  Ativas e reativas.
 
Isso é definitivo. É facílimo entender o que ele está dizendo. Em seguida ele diz uma coisa também de uma facilidade incrível: a força ativa, ela comanda. A força reativa obedece.
 
‑ Então o ser da força ativa é?
 
‑ Comandar.
 
‑ E o ser da força reativa é?
 
‑ Obedecer.
 
Mas isso não implica em que não possa haver um corpo no qual a força reativa domina.
 
faixa-doacaoNo momento em que você tem um corpo, você tem as duas forças; mas pode acontecer que neste corpo a força reativa (a força da obediência) esteja dominando. É o que se chama “rebelião dos escravos”. Vocês entenderam?
 
‑ O corpo pode ter a força reativa dominando dentro dele ou não?
 
‑ Pode.
 
Este corpo quando tiver a força reativa dominando dentro dele, isso não significa que a força ativa deixou de existir. Porque se a força ativa deixa de existir, desaparece o corpo. [Isso quer dizer que] pode haver uma situação em que a força reativa domine; mas nem por isso a força ativa deixa de existir. Entendido?
 
Então, no homem, isso que nós chamamos homem, há um domínio das forças reativas. Aquela força que nasceu pra obedecer, que nasceu pra ser escrava, ela passou a dominar a força que nasceu para dominar e ser ativa.
 
No homem o que domina é a força reativa. Entenderam?
 
Então quando você encontra um indivíduo onde a força reativa domina, você usa essa expressão: neste ser há uma vida reativa. Ou seja, o homem é um ser que tem uma vida reativa. Por que essa vida é reativa? Porque as forças reativas, que são as forças feitas para obedecer, elas passaram a comandar. Então o homem passou a ser um ser que tem a vida reativa."
 

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Aula de 25/08/1994 – Nós, os homens: qual a causa da nossa infelicidade?

(...) eu começo a entrar em novos mundos, novos universos, inclusive novas palavras. Porque, se eu vou trabalhar com novos mundos, eu não posso reproduzir as palavras deste mundo em que nós vivemos.
 
Tudo o que eu tenho feito até agora, na verdade, são preparativos. Não é dizer que daqui a duas aulas eu já tenho competência e vocês já têm competência para, juntos, nós começarmos a trilhar a filosofia do Deleuze ¬que é uma Filosofia originalíssima e dificílima. Mas eu conto que o início já vá se dar talvez na próxima aula; aí que vão começar a surgir novos conceitos ¬conceitos assim que você nunca ouviram falar: ritornellos, clinâmen¬ e aí vocês vão começar a compreender e isso vai mostrar para nós que é uma ilusão a gente pensar que só existe esse tipo de mundo, que só existe esse tipo de espaço, que só existe esse tipo de tempo. Vocês vão começar a compreender que existe uma multiplicidade de tempo, uma multiplicidade de espaço; que os nossos afetos podem ser modificados e as nossas maneiras de vida também.
 
Essa aula de hoje, ela vai... ela tem todo um objetivo; se eu obtiver sucesso de conduzir vocês para estes novos caminhos. (...) Numa linguagem universitária deficitária [esses novos caminhos] chama-se constituição de novas subjetividades.
 
Eu, aqui nessa aula, eu fiz uma menção ¬ não sei se vocês devem estar lembrados¬ entre subjetividade material e subjetividade espiritual. Eu fiz essa distinção. Eu não levei à frente essa distinção, mas é uma distinção deleuziana; no sentido de que a subjetividade espiritual, ela já conviveria com novas forma de tempo, com novas formas de arte, novas formas de pensar.
 
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De uma outra maneira, ao utilizar os instrumentos do Foucault ¬que eu nunca utilizei nessa aula¬ é... o poder político, ele não é administrador; como classicamente nós pensamos, segundo o modelo marxista. O poder político é produtivo. E o poder político é sempre uma subjetividade, que eu chamo de subjetividade material.
 
Então essa distinção entre subjetividade material e subjetividade espiritual apareceria em qualquer tipo de Arte... apareceria na Música, no Cinema, no Teatro, na Pintura, na Literatura.. O que não seria 'a realidade', seriam 'duas maneiras de viver um mesmo processo'. Certo?
 
(...) essas questões, eu acredito que todos vocês vivem e têm dentro de vocês um gérmen do que eu estou dizendo: que um mesmo processo pode ser vivido de maneiras diferentes. E a marca disso pra nós vão ser essas duas subjetividades ¬conforme eu estou colocando: uma subjetividade material e uma subjetividade espiritual.
 
continua
 

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Aula de 19/05/1992 – A arte tem que lidar com a aurora do mundo

A nossa preocupação com a matéria, ao longo da nossa existência, é permanentemente a mesma: que o presente reproduza o passado. Porque se o presente não reproduzir o passado, não reconheceremos o que estamos vendo. E o reconhecimento é o fundamento para ultrapassarmos o caos objetivo, assim como as regras da associação de ideias são o fundamento para ultrapassarmos o caos subjetivo. Esse caos objetivo e subjetivo é anterior ao homem. (...) O homem vai nascer dotado de uma percepção, mas tudo nele – a própria percepção, a memória, o hábito, a afecção, a ação – será comandado pelas regras e pela semelhança. Veremos o mundo a partir destas regras, ou então do reconhecimento exterior. Nossa constante preocupação – terrível – é de que o passado possa não coincidir com o presente. Imaginem se amanhã o Roberto entra aqui na aula e não é mais o Roberto; se o Roberto da terça-feira passada não coincidir com o Roberto de hoje. Estes princípios do sujeito humano o afastam do caos. (...) Falemos de Cézanne, agora. O ponto de partida da obra dele é definitivo: só posso fazer uma obra de arte se fizer uma prática de desumanização. O que seria esta desumanização? Seria sair destas regras, sair do reconhecimento, voltar ao caos. Ele diz: a minha percepção de maneira alguma me dá o caos original, o caos irisado, o mundo anterior aos homens, a aurora do mundo. A arte tem que lidar com a aurora do mundo, o mundo antes de ser governado por estas regras. Para Cézanne, então, a primeira coisa que tem que ser quebrada no artista é a percepção, porque a percepção está regulada pelo princípio da semelhança.

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