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Em memória de Alexandre Ackerman


Quem se lembra da atmosfera singular, fabulosa, que reinava em torno das aulas de Ulpiano, na casa da rua dos Oitis, sempre repleta de alunos e amigos, com certeza terá bem nítida na memória a imagem de Alexandre Ackerman. Havia muita gente circulando em torno do Claudio; muitos artistas: músicos, atores, bailarinos... e também estudantes, professores, psicanalistas, economistas, biólogos... Todos os campos do saber estavam expressos naquela pequena multidão, todos se misturavam em incríveis e inesperadas conjugações. Havia livros por toda parte, havia filosofia e arte no ar, como eletricidade. Muitos chegavam, assistiam às aulas, partiam; outros ali permaneciam a noite inteira. Alguns falavam muito, eram barulhentos e animados; de outros mal se ouvia a voz. Havia os cerimoniosos, os tímidos, os irreverentes. Alexandre fazia parte destes, dos irreverentes...

No curta-metragem acima apresentado, "O Copista", de Eduardo Goldenstein - uma adaptação da novela “Bartleby, o escriturário”, de Melville -, é Ackerman quem faz o papel de Bartleby. Esta novela, tão apreciada por Ulpiano, acabou sendo filmada por um dos seus alunos, com outro aluno como ator principal. Foi durante as filmagens, certo dia, que Claudio, em casa, não encontrou seus sapatos.  - “Me lembro desse dia”, disse Renata. “Eu estava com o Alexandre. Era uma época em que ele estava sempre lá em casa. Nós morávamos na Gávea. Claudio não encontrou seus sapatos e depois descobrimos que o Alexandre os pegara para atuar no filme do Dudu”.

- “Sim”, completa Silvia, “os sapatos do Claudio sumiram. Procuramos pela casa inteira, em todos os cantos, durante muito tempo, e não os encontramos. Um mistério... Uns dias depois o Dudu os trouxe de volta. O Alexandre tinha levado os sapatos para fazer o Bartleby”.

Assim, em "O Copista", um raro encontro se realiza. Lá estão, em composição, Herman Melville, Eduardo Goldenstein, Bartleby, Alexandre Ackerman e os sapatos de Claudio Ulpiano.

No dia 21 de julho Alexandre nos deixou. Esta é a homenagem que o Centro de Estudos Claudio Ulpiano faz ao amigo de longa data, detentor de alguns dos múltiplos fragmentos dessa memória de dias tão especiais. Que estas imagens partam web afora em infinitos devenires.

Os Editores

Uma personagem Original – aula em vídeo de Claudio Ulpiano (meados dos anos 90)


"Uma personagem original (escreva aí, original com O maiúsculo). É aquela que escapa da lei..."
Ulpiano inicia a aula explicando que o seu objetivo é trazer entendimento para o conceito de imagem-pulsão, mas que uma aula será sempre mais extensa do que um tema. Ele vai falar sobre a tese dos gnósticos – o deus dos puros espíritos e o demiurgo –, sobre as figuras do demônio, do anjo e do profeta, justiceiro e vingativo; sobre o nihilismo e o tempo negativo, sobre o mal radical, sobre o realismo, o naturalismo e a literatura de Melville, sobre o movimento e o tempo no cinema. Por que um homem escreve uma obra literária? O que é o cinema pulsional? “Esta não é uma aula linear. Pois estamos trabalhando com temas muito sofisticados, e uma progressão linear mataria o próprio ser da questão” – afirma Ulpiano.