A Travessia da Membrana: uma Imagem da Complexidade

Podemos dizer que a história do pensamento exibe três figuras clássicas: Eu, Mundo, e Deus; e o domínio onde operam essas noções é o campo da representação. O pensamento se daria no interior do campo da representação; o pensamento não seria portanto algo que se presenta, e sim que se re-presenta, que se faz presente duplamente.

De uma maneira brutalmente esquemática, e buscando a proximidade com nosso momento histórico, podemos delinear essa posição clássica, tradicional, como consistindo de um Mundo objetivo, a que é pertinente uma certa imagem de natureza; de um Eu representador que conhece esse mundo objetivo, ou seja, uma subjetividade que conhece a objetividade; e de um Deus legitimador do conhecimento. Tratar-se-ia, em outros termos, da Natureza, da Cultura e da Razão.

Mas, dizem nossos precursores, Deus morreu; o Eu se desconhece, e o Mundo se dessubstancializou, deixou de ter uma natureza. Portanto, o paradigma maior do que chamamos pensamento, ou seja, o próprio Ocidente, se vê acossado e questionado em suas próprias fundações, nos alicerces do campo da representação. De todos os lados, questiona-se o modelo de pensamento a que chamamos Ocidente: um apelido tão bom ou tão ruim quanto qualquer outro para este fato é Crise da pós-Modernidade. A interrogação que então se abre é: o que é o pensamento? - ou melhor ainda: o que pode o pensamento?

Mestre Cláudio Ulpiano nos ensina que na história da filosofia se reconhecem alguns negativos do pensamento, ou seja, noções e entidades que impedem o pensamento de pensar. Cada imagem do pensamento teria em correspondência, em correlação, um negativo do pensamento; cada modo do pensar configuraria um obstáculo a seu pleno exercício. No caso de Platão e Aristóteles, seriam as noções de falso e de erro que bloqueariam o pensamento. Já para o príncipe dos filósofos, Spinoza, seriam a ignorância e a superstição que suspendem o pensamento; para o filósofo mesmo de nossos tempos modernos, Nietzsche, seria a tolice.

Atrevo-me a sugerir que três formas de negativo do pensamento teriam surgido em nossa época: seriam o Indivíduo, o Eu e o Tempo. Essas três noções seriam resíduos, ruínas do campo da representação que ainda se fazem presentes em nossa existência. Têm em comum o que podemos chamar de vontade de unitariedade, uma ambição de unificação, de redução do múltiplo a uma unidade fictícia.

Essas seriam as três ilusões maiores disso que se chama o Ocidente: tratar-se-ia do Mundo com coleção de indivíduos acabados, com naturezas substancializadas; do Eu unívoco, identitário, modelado pelo vivido, voluntarioso e culpado; e do Tempo único global, universalizado, fluxo de um agora no qual habita o real. Essas três imagens seriam ilusões que impediriam o pensamento, em nossa época, de operar livremente.

Esses três domínios - o mundo como coleção de indivíduos, o eu único identitário, o tempo universal e unívoco - constituiriam o território onde atuariam o bom senso, o senso comum e o hábito. O bom senso é nossa crença de que há uma direção única nesse tempo global; o senso comum seria uma lógica que articula entre si as coisas, os seres substanciais individuados de que se compõe o mundo; e o hábito sustentaria o eu a partir de um registro da experiência, de um passado vivido.

Mas tivemos já muitas advertências! Heráclito já nos ensinou que tudo é um porque tudo é múltiplo; Nietzsche já nos demonstrou que não sabemos o que pode o corpo; Hölderlin já nos avisou que o Eu tem como núcleo uma fissura, uma fenda. Por todos os lados, a hiância, o vazio, o caos: o entendimento não pode senão se transformar em encantamento, em experiência de paradoxo.

O que teria surgido em nossa época de modo a constituir essas três entidades como obstáculos ao pensamento e, simultaneamente, apontar a necessidade de sua superação? Acredito que seja a introdução do que podemos chamar de objeto complexo.

O objeto complexo tem várias dimensões ou escalas de ocorrência. Por exemplo, na Microfísica, o mundo atômico e subatômico onde ocorre a dessubstancialização do chamamos de matéria, verifica-se a desaparição da distinção entre corpo localizado e corpo extenso; a paradoxalidade da determinação e da indeterminação coetâneas e inseparáveis. Ou na Macrofísica, na escala cosmológica, onde sucedeu a maior descoberta que o homem já fez sobre o mundo natural - a constatação de que habitamos e somos parte de um universo dinâmico, histórico, inacabado - surge a concepção de que somos uma parcela, uma fração, de uma totalidade aberta, que requer portanto um contexto. Tal concepção de um cosmos histórico, coincidente com seu próprio contexto, leva-nos a identificar o universo como o próprio reino da complexidade. Ou ainda, no que podemos chamar de escala mesofísica, ou humana, que experimentamos diretamente pelos sentidos, a recente introdução de dinâmicas caóticas que tornam a evolução de uma larga série de processos - em particular processos que participam da vida - impredizíveis, forçando assim o pensamento a abdicar de uma pretensão absurda de dominação absoluta, da obtenção de uma previsibilidade sem limites, sobre os processos do mundo natural.

A imagem que se associa à aparição do objeto complexo é a de um novo jogo, de uma nova relação (algo que se parece com uma dança?) entre duas noções que classicamente são tratadas como opostas e excludentes: ordem e desordem. Ordem sempre foi pensada a partir de um estoque primordial de organização de que algum deus dotou o mundo para que o mundo viesse a ser; e desordem, algo que se opunha à ordem: um desvio, perversão, arruinamento ou degradação. O que a introdução da noção de objeto complexo no domínio das ciências naturais nos obriga a pensar seria não uma oposição, mas uma complementaridade, uma compossibilidade, entre esses dois termos, entre ordem e, se quisermos, caos, de tal maneira que a imagem típica que hoje podemos traçar do objeto complexo é a de um domínio de ser que, ao par de hospedar a casualidade mais extremada e irredutível, expressando portanto um acaso imperador, simultaneamente - e por causa disso - constitui-se no reino da mais rígida necessidade. Não mais a clássica oposição entre essência e acidente; as formas tornam-se precárias, cambiantes; o mundo não nasceu com um estoque limitado de tipos de existência, é, ao contrário, um campo de proliferações em que a vida acrescenta novos modos de existir aos que já existem.

Nesse sentido, Deleuze e Guattari vão nos fornecer uma nova concepção do que é o pensamento: pensar é produzir novos mundos, novos caminhos para a vida. Não se reduz a representar, a re-apresentar o já existente; é meio de invenção de novos existires. Não é tão somente reduzir a vida às suas partes elementares, é multiplicar suas modalidades. Assim, filosofia, ciência e arte - que ao longo de seus respectivos trajetos de constituição muitas vezes se procurou distinguir, manter à parte, com fronteiras mais ou menos estanques - seriam agora, de direito, legitimamente, campos do pensamento. O artista, o cientista e o filósofo, portanto, seriam todos, e com igual estatura, produtores de pensamento, por serem produtores de invenções, de novos ramos de complexidade.

Quando, por exemplo, Proust se isola em seu quarto e expende seu viver procurando o tempo - não o tempo perdido de suas experiências e lembranças, de seu passado pessoal - mas um tempo que nunca passou e nunca passará, exercitando uma memória que não recorda o que se viveu, a memória de um passado puro, Proust é um pensador. Quando David Bohm investiga as correlações quânticas não-locais, de longo alcance, e concebe um nível profundo e onipresente de organização, uma ordem implícita que não cessa de se desdobrar numa hierarquia de ordens explícitas, numa ex-plicação do que era com-plicado, Bohm é um pensador. Quando Spinoza opera a separação entre vontade e liberdade, e nos lega a dádiva de uma nova imagem da liberdade, Spinoza é o príncipe dos pensadores.

A imagem da travessia da membrana: a membrana é a grande invenção da natureza; serve para separar, mas também relacionar, o dentro do vivo e o fora do vivo; é aquilo que cria, simultaneamente, um dentro que é o ser próprio do vivo, é o passado do vivo, e um fora, que é o extra ao vivo, e o seu contexto; é o futuro do vivo. A membrana opera sobre o tempo; sua matéria, sua constituição são, antes de mais nada, fios de tempo. A membrana é uma invenção temporal; é a invenção de um modo de temporalizar que a vida engaja para se des-envolver.

A Travessia da Membrana é assim a imagem que procuramos trazer para indicar essa multiplicação do que se tentava reunir, coagular, esmaecer. A multiplicidade do indivíduo, que nunca acaba de se fazer, que tem que ser pensado não por seus princípios ou destinos, mas a partir da operação mesma de individuação de que faz parte, e que não se esgota nele: a idéia de uma individuação interminável. O que obriga, simultaneamente, que o Eu não possa ser unificado; que haja sempre novos eus, materiais, formais, coletivos - muitas inteligências e muitas máscaras. Da mesma maneira, fazendo com que o tempo deixe de ser uma flecha única global, e se torne um labirinto, uma trama, um tecido de singulares. O investimento sobre a complexidade delineado aqui seria, do mesmo modo, um fazer lucidez do paradoxo, dar asas rigorosas ao encantamento, cantarolar uma nova ética.

Klee dizia que a arte é um tornar visível o invisível. O que se trata, ao atravessar tais membranas, é de buscar exercer um pensamento que se abra à multiplicidade: um pensamento que recorta novos e múltiplos mundos, mas juntando natureza e cultura; que faz proliferar as diferenças, mas unindo ordem e desordem; que torna o campo da experimentação humana um território de invenções, de tal maneira que o inumano seja progressivamente feito humano, e que o humano abranja progressivamente o inumano.

Se o pensamento tiver de estar a serviço de algo, que seja da liberdade.

Luiz Alberto Oliveira
físico, pesquisador do Grupo de Cosmologia e Gravitação do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas - CBPF/MCT.

Este texto é a transcrição da palestra de abertura da seção "A Travessia da Membrana " do ciclo Pontos de Fuga, promovido em 1995 pela Universidade Livre na Escola de Artes Visuais - EAV. Embora revisto, o presente texto mantém as vacilações, as repetições e mesmo os deslizes que caracterizam o ' estilo ' de uma exposição oral. " Múltiplos Eus ", de Claudio Ulpiano, publicado neste site em Escritos íntimos e filosóficos, também fez parte deste ciclo.

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