As Alianças Indissociáveis nos Sistemas Biológicos

"Aqueles que não têm a menor idéia de que seja possível estarem errados não podem aprender nada exceto conhecimento técnico."

Gregory Bateson

A intensidade das cores, a vibração de uma mosca na teia ou o calor emanado pelo sangue quente de um animal, trazem à tona muitas nuances, muitas paisagens na configuração de um sistema vivo. Algumas delas se conjugam, se casam. Outras, porém se dispersam, se dissociam, se dissipam. As uniões indissociáveis são um horizonte obscuro para muitos. Um universo desencadeante, porque onde houver vida haverá criação e a formação de alianças, vividas por alguns, inexistentes para o mundo próprio (Umwelt)1 dos demais que são de outra natureza, de outra espécie. As conjugações se efetuam na natureza devido à co-possibilidade dos processos biológicos. Assim, o conceito de simbiose deve abranger um entendimento profundo sobre as espécies participantes, uma vez que não pode ser justificado nem explicado apenas por sua utilidade, sua função - um fungo e uma alga = líquenes. O primeiro é um bom fermentador, e a segunda, a alga, uma especialista em produzir compostos carbonados, fotossintetizando. As descrições biológicas sobre as relações simbiônticas ou uniões indissociáveis são, em potencial, do mesmo escopo da força próton-motriz mitocondrial. A união de dois fluxos independentes: a energia elétrica (D y) desencadeando uma mudança de estado conformacional em uma proteína; o fluxo de cargas elétricas através da membrana concomitante ao giro de um motor molecular. A síntese de uma nova molécula, a molécula de ATP, é desencadeada. Surge então, um novo olhar2 sobre o acoplamento de reações químicas, tais como as fosforilações e as oxidações biológicas deslocando o vínculo material das biossínteses para o campo das intensidades, dos fluxos. A molécula de ATP do ponto de vista bioenergético é ambiguamente parte da síntese (ADP + Pi = ATP) e da análise (ATP - Pi = ADP). Energia intercambiável. Troca contínua garantida pela tendência a dissociar-se para existir de modo mais estável termodinamicamente pela formação de um híbrido de ressonância - a ressonância de elétrons. Há um plus além da molécula no decorrer das biossínteses. Há fluxos acoplados. Nos organismos simbiônticos estes acoplamentos são indissociáveis obrigando-os a viver e sobreviver em conjunto. A competição evolutiva e a cooperação entre os indivíduos sofrem uma ligeira fusão. Inimigos indigestos podem muitas vezes permanecer lado a lado por serem indispensáveis à sobrevivência. Estamos presos aos nossos prisioneiros e somos hóspedes de nossos prisioneiros. Hóspede e anfitrião são a mesma coisa3. Os pactos simbiônticos são tão íntimos e poderosos que a morte de um dos elementos da aliança significa a destruição dos aliados4.

As uniões indissociáveis são um instante infinito no finito das relações biológicas possíveis. A lentidão do observador parcial inventa as descrições dos grandes feitos da ciência que implicam em mudanças de ponto de vista, em um novo modo de ver o mundo. O problema é definir o limite infinitesimal entre os componentes de uma aliança biológica, se entre espécies ou indivíduos de espécies diferentes - ou se entre espécie/indivíduo diferentes e o mundo que nos cerca. Se a simbiose pode ser demonstrada em um curto período de tempo entre as amebas e bactérias de Jeon5, podemos então estimar, o quanto nos escapa dessa noção se estendermos os componentes das uniões biológicas para as uniões interespecíficas definindo novas espécies moleculares, cristalinas, polifônicas... A música na natureza da qual faz parte, seja ela expressa pela composição de um tordo frente ao crepúsculo6, pelos estímulos sensoriais do carrapato frente a um mamífero6 ou pelos afetos entre homens e cães trazido à tona pela literatura7 com todas as multiplicidades sinfônicas que a natureza pode compor em ponto e contraponto8

O destino de Flush8, um cãozinho cocker spaniel dado como um presente para alguém querido foi determinado por uma relação, a relação de amizade entre um cão e uma mulher.

"Flush não fazia parte daquela espécie de objetos aos quais se possa associar o dinheiro. Não pertenceria ele a uma espécie mais rara ainda, ao simbolizar tudo que é espiritual, o que está acima de qualquer valor terreno, pois se destina a ser um verdadeiro testemunho de amizade desinteressada, sobretudo se, se tem a possibilidade de oferecer a uma amiga, uma amiga que é quase uma filha..., a adorada Elizabeth Barret?"

Virgínia Woolf se apropria do mundo próprio de um cão, o que só foi possível, porque um cão já havia se apropriado do seu através de uma antiga aliança inventada pelos homens - a domesticação. Uma simbiose entre os afetos dos homens e dos cães uma vez que, não se pode imaginar o sumiço de todos os cães do mundo e nem imaginar a sobrevivência dos homens atuais sem a espécie Canis.

O significado da palavra simbiose9 deve comportar o abismo preenchido pelas relações biológicas que é atravessado por fluxos acoplados. Nos pares aliados residem as descrições morfogenéticas e fisiológicas, mas nas relações que os unem habitam as descrições ainda não inventadas que englobam algas e fotossíntese, fungos e a decomposição da matéria orgânica e mamíferos, incluindo os humanos e a beleza, com toda a complexidade que nos é própria. A individuação dos simbiontes não é homogênea e personificável, mas heterogênea e múltipla. Nosso passado celular aponta para esse caminho com o aparecimento das mitocôndrias e cloroplastos. Os citocromos são moléculas que lêem luz. A luz pode ser transduzida a biomoléculas. A imagem da fosforescência emitida pelos cromóforos marcadores da molécula de ATP é a reunião entre a biologia e a beleza. Um lugar onde poucos perambulam e onde ainda há possibilidades de simbioses entre pássaros e o pôr-do-sol.

Rosilene Rebeca
bióloga e professora da Universidade Estadual de Guarapuava, Paraná

Notas

1 Jakob Von Uexküll e Georg Kriszat. Dos animais e dos homens. Digressões pelos seus mundos próprios. Livros do Brasil. Lisboa, 1933.

2 Michtell, P. Coupling of Phosphorylation to Electron and Hydrogen Transfer by a Chemi-Osmotic type of Mechanism. Nature. 191: 144-148, 1961.

3 Lynn Margullis e Dorian Sagan. Microcosmos, Ed. Cultrix, pg. 114, 1992.

4 Jeon, KW. Genetic and physiological interactions in the amoeba-bacteria symbiosis. J Eukaryot Microbiol. 51(5):502-8, 2004.

5 Jeon, KW. op. cit., pg. 2

6 Olivier Messiaen. http://www.oliviermessiaen.org/messiaen2index.htm. Capturado em 07.04.08

7 Jakob Von Uexküll e Georg Kriszat. op. cit, pg. 1

8 Virginia Woolf. Flush - Uma biografia. Ed. Afrontamento, p. 22, 1987.

9 Lynn Margullis. op. cit., pg. 1. A definição de simbiose apresentada no glossário da obra Microcosmos Simbiose = Vivência conjunta de duas ou mais espécies durante parte do ciclo vital de cada uma delas.

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