Asas do desejo, signo de amor

“Eu próprio fui um discípulo do amor da humanidade, não por motivos sentimentais ou em busca de um ideal, mas por motivos desapaixonados e econômicos, porque, sendo as nossas pulsões e o mundo que nos cerca o que são, não poderia deixar de considerar esse amor como não menos essencial para a sobrevivência da raça humana do que coisas tais como a tecnologia.”

S. Freud 1

Berlim cinzenta. Um anjo a observar do alto. Quer voar até a cidade, onde homens massificados perderam sua condição desejante. Servos da civilização atual, os homens apresentados por Win Wenders estampam em seus rostos a desumanização, a condição de mortos-vivos em que nos encontrávamos neste final de século. O que vemos na tela são seres submergidos em suas identificações imaginárias, buscando ideais supremos e privatizados em detrimento do desejo de apenas manter vivo o próprio desejo.

Nesta busca frenética de ideais falicizados perderam o pulsar do desejo, o vigor de seus corpos, a possibilidade de encontro com o Outro, com a diferença. O mal-estar que vigora na civilização torna-se visível ao anjo e a nós, que acompanhamos a câmara que passeia sobre Berlim. Ela, a câmara, é o olho que enxerga todas as cidades do mundo.

Damiel, o anjo, decide voar até a cidade, onde outros anjos já se encontram, visíveis apenas às crianças que são aquelas que não sucumbiram à perda do desejo. “Quando a criança era uma criança...”, desliza um mão que escreve numa folha de papel na primeira cena do filme, “...ela não sabia que era criança, tudo para ela tinha uma alma...”. 2 Ao descer à cidade, as asas de Damiel tornam-se invisíveis, mas presentes em seu olhar, em seu corpo, em seus gestos, sobretudo em sua escuta, cujo intuito angelical se percebe no silêncio que se impõe diante da emergência da palavra do Outro.

Damiel junta-se a um outro anjo Cassiel, e o dois passam a percorrer o cotidiano berlinense. Observam os milhares de seres humanos; não somente podem vê-los, mas lêem seus pensamentos, escutam seus monólogos.

Por vezes intervêm na batalha que os homens se encontram, entre a vida e a morte. “O que os norteia, em sua decisão de intervir, é o estado de vitalidade dos corpos e não qualquer espécie de critério moral: só decidem interferir (...) quando o ensimesmamento (...) chega a tal ponto que se converte em puro movimento de morte.” 3 Assim apenas com um toque na cabeça ou no ombro daquele que acompanham, podem fazer pulsar mais fortemente a vida do sujeito. Algumas vezes fracassam em seu intuito, quando a decisão de morte tomada pelo sujeito é irreversível.

Passam então a seguir distintos personagens, representados por opostos, velho-novo, presente-passado, corpo-espírito, que encenam os dramas de cada um de nós, submergidos na tragédia do coletivo perverso. Suas escolhas nos dão a dimensão de que, no homem, a linguagem se restringe ao fato de que só podemos falar do amor e da morte.

Cassiel, numa escuta silenciosa e portanto neutra, promove no personagem que acompanha (um velho contador de histórias de guerra e destruição) o advento da associação livre, isto é, o livre curso de suas histórias, que de livre nada têm, pois na verdade, a associação livre é a revelação da clausura do determinismo. Assim, velhas histórias de guerra, paradigmas do ódio e da indiferença que habitam os homens, contados pelo historiador, apontam uma origem do estado mórbido em que se encontram os seres humanos.

Mas Homer o contador de histórias, velho e cansado, se põe uma questão: “Meus heróis não são mais os guerreiros e os reis, mas as coisas da paz. (...) Por que a paz não pode ser exaltada, por fim não se deixar contar?” Quer deixar de ser um contador de histórias de guerra: “E se algum dia a humanidade perder seu contador, ela perderá instantaneamente sua infância.” Se a morte é o destino, que pelo menos ela possa ocorrer na dignidade.

O anjo Damiel segue um outro percurso, a vertente do amor. Vai nos falar do amor, não do amor narcísico, onde a cegueira impede o reconhecimento do Outro, da diferença, mas o amor enquanto suplência ao que há de absolutamente real: a morte.

Fala-nos de um amor que não se dirige a nenhum objeto senão àquele objeto inapreensível do desejos. Acompanha Marion, a jovem trapezista, que ao contrário de Homer não possui história para nos contar. Sem reminiscências, sem pátria, sem família, tem seu futuro imediato ameaçado: perder o emprego num circo itinerante ameaçado de falência.

Marion tem medo: “o medo, medo da morte...”, nos diz. Não sabe ainda de seu desejo, quer se afirmar em sua singularidade, mas é difícil desvencilhar-se de suas amarrar imaginárias. O medo a toma, inibe o pulsar do desejo. Diferentemente de outras mulheres, está triste, mas sabe que seu estado é conseqüência do vazio de desejo. Não busca a plenitude, descarta a fusão com o outro, não sofre de carência de objeto ao qual atribua algum dom imaginário, nem se contenta com as eventuais seduções que alguns homens lhe fazem para abandonar a tristeza. Como diz Marion: “É isto que não cessa de me deixar desajeitada, a falta de prazer. Desejo de amar...” Busca a solidão para poder amar. Quer estar só, inteira, para que o encontro com o outro seja da ordem do simbólico.

Damiel a localiza no circo, usando um par de asas postiças, quando ensaiava desajeitadamente no trapézio uma cena de anjo. Fascinado, decide acompanhá-la. Marion aos poucos começa a sentir sua presença invisível, que embora fora do alcance de seu olhar, lá esta inteira. Paradoxalmente, é a falta de um encontro imaginário, que se dá através do olhar, que possibilita a Marion explicar seu desejo, que não é desejar o outro mas desejar o desejo do Outro. O mundo visível é atravessado pelo domínio da invisibilidade.

Numa seqüência magistral de cenas, o cineasta mostra primeiro o anjo tocando com seus dedos no corpo da jovem trapezista; depois, numa cena em preto e branco, Marion sentada, nua, de costas, com o corpo exaurido, retraído e desvitalizado, faz percorrer sua mão direita em seus ombros, lugar tocado por Damiel, como se ela estivesse percebido o toque de anjo. Finalmente, as imagens em preto e branco lentamente se colorem, o corpo de Marion adquire vigor, suas espáduas delineiam-se como duas asas. Torna-se mulher-anjo. “Ser para as cores (...) desejo de amor”, pensa Marion.

Passamos, então, nós os espectadores e o anjo, a assistir a possibilidade infinita do colorido da pulsão, e a ouvir sua inesgotável melodia. Momento de esplendor exibido pela beleza plástica do filme e enredo comovente.

O anjo, extraordinariamente, se apaixona por Marion. Sua feminilidade, no que é puro enigma, desencadeia em Damiel um assombramento. Decide tornar-se mortal para ter acesso ao desejo, “para ter uma história, para agir”. 4 Quer despertar de seu divino-imortal adormecimento, conhecer a temporalidade humana. Cansou-se da neutralidade dos céus, de viver eternamente no espírito. Percebe a possibilidade de um para-além da escuta em seu encontro com Marion, para sentir em seu corpo as cores do desejo. Desencarna-se enquanto anjo e encarna um homem-anjo, aquele que, por ter descoberto o desejo, 5 foge do sinistro pacto de morte com o outro.

Morto, enquanto anjo, passa a sentir o efeitos das pulsões que se inscrevem em sua fala: “um gosto... começo a compreender...” Descobre a cor de seu sangue e o calor de um café para esquentar o corpo. Sai em busca de Marion, mas ela desapareceu. Encontra-se no local de onde há pouos instantes Marion tinha saído. Dá-se conta, como diz aos dois garotos que dele se aproximam, que sofre de uma “falta”, mas sabe, como diz a Cassiel, que neste momento o acompanha, que reencontrará Marion, pois a pressão do desejo que pulsa em seu corpo o levará até ela.

Marion, por sua vez, não tem mais medo: conquistou a angelitude ao perceber que a vida e os objetos que nela desfilam são apenas transitórios, mas nem por isso menos belos. Decide levar adiante o exercício de seu desejo, pois sabe que somente através dele encontrará possibilidade de contínua construção de sua feminilidade. Procura Damiel sem saber quem era ele, que rosto tinha. Sabia apenas, intimamente, da possibilidade de um encontro que preservasse sua convicta solidão. “Solidão significa: afinal estou inteira”, diz Marion.

Encontram-se, finalmente, num pacto de amor, pois que ambos não buscam a mediocridade da felicidade eterna, mas sim a manutenção da chama do desejo e das possibilidades infinitas de vida ao se deixaram levar por ele. Um encontro da ordem da diferença se dá entre os dois, pois que, amoroso, faz com que cada qual reconheça o exílio do outro. Propõem-se a seguir um caminho desejante até que a morte os junte: Damiel segura com firmeza a corda para que Marion crie novas formas em seu espaço desejante. Reconhecem-se porque no amor, sob o signo do desejo, o sujeito fica tomado pela alma, ama com alma, 6 e o que resulta desta ato de entrega entre os dois é o amor pelo amor.

O filme está terminando, Damiel desliza a pena sobre o papel: “Eu... sei... agora... o que... nenhum anjo sabe.” O que Damiel sabe é que a condição de mortal faz o sujeito buscar a imortalidade no desejo.

E Cassiel, que escolheu continuar no céu, escuta a voz de Homer: “Nomeiam-me os homens, mulheres e crianças que me procurarão;;; eu, seu contador, menestrel e porta-voz, porque precisam de mim, mais do que... qualquer coisa no mundo.” Posto que, seres humanos, buscamos sempre uma palavra para o que pulsa em nossas almas.

“A seguir”... palavra final (?), pois que a vemos surgir na última cena sobre Berlim distante. O expectador segue... sob o impacto de uma obra de arte. Diante do real segue-se... porque nós que abrigamos em nossos corpos o invisível-indizível da pulsão nos tornamos contadores de outras histórias a partir do que acabamos de assistir.

Notas

1 FREUD, S. “Breves escritos” in Obras completas. Rio de Janeiro, Imago Ed., 1976, vol. 20, p.232.

2 Todas as falas do filme aqui reproduzidas foram retiradas do roteiro do filme Asas do desejo, publicado no livro Les ailes du désir, de Peter Handke e Wim Wenders. Paris, Jade-Flammarion, 1987.

3 ROLNIK, S. “Asas do desejo, o cinema vôo”. “Folhetim”, Folha de São Paulo, 11/3/1989.

4 WENDERS, W. “Win Wenders faz sucesso em Paris”, de Caio Túlio Costa in Folha de São Paulo, 26/9/87.

5 ROLNIK,S. Op.cit.

6 LACAN, J. “Letra de uma carta de amor” in Mais, ainda, Seminário 20. Rio de Janeiro. Zahar Ed., 1982, p. 113.

Betty Fuks
psicanalista

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