A Missão: diversidade cultural

Para o desenvolvimento de uma reflexão sobre o lugar da mídia na nossa sociedade escolhi como ponto de partida o filme norte-americano A Missão, produzido em 1986, dirigido por Roland Joffé, tendo como atores principais Robert de Niro e Jeremy Irons e trilha sonora assinada por Ennio Morricone. A Missão ganhou a Palma de Ouro em Cannes no ano de 1987.

O final do século XV e início do XVI é o período em que a Europa começa a se questionar sobre quem habita o outro lado do mundo. É a época das grandes navegações, das grandes " descobertas ", do encontro com o outro. É também o período embrionário da antropologia, disciplina que se constitui fundamentalmente a partir da noção de diferença. As missões religiosas provenientes do Velho Mundo fazem parte deste contexto histórico e de uma visão européia ainda bastante etnocêntrica.

A ordem missionária jesuíta, que é fundada em 1534 por Santo Inácio de Loyola e envia ao Brasil seus primeiros missionários em 1549, apresenta três características marcantes: a primazia da obediência, o sentido de organização e a espiritualidade como ação. Acho importante ressaltar aqui essas características para uma melhor compreensão do papel dos jesuítas na disputa econômica que estava em jogo, embora fundamentalmente sua função principal fosse a evangelização. Seu objetivo, sua MISSÃO era propagar a fé cristã, catequizando os índios; para tal, aprendiam suas línguas, criavam escolas e desenvolviam as artes, especialmente a música e o teatro.

É interessante pensar no papel dos jesuítas na colonização brasileira, por exemplo. Eles construíram estradas, atuaram no ensino, nas artes, na medicina, na agricultura. Foram perseguidos e participaram diretamente dos conflitos, tanto com os colonos que queriam escravizar os índios quanto (na parte final do filme) com o poder político representado pela figura do Marquês de Pombal - primeiro-ministro do Rei D. José de Portugal -, que tomou medidas drásticas contra a Companhia de Jesus. Pombal conseguiu a expulsão dos jesuítas de Portugal e de suas colônias em 1759. Mais tarde, em 1773, fez com que a instituição religiosa fosse extinta pelo Papa Clemente XIV.

O filme conta a história da disputa entre espanhóis e portugueses pelo território onde se localizam as missões jesuítas. Os protagonistas da trama são: um jesuíta recém-chegado à região, que começa naquele momento a entrar em contato com os indígenas, e um ex-mercenário e traficante de índios escravizados que adere à causa jesuíta e à evangelização dos índios. Ambos pertencem à mesma ordem religiosa, apesar de ocuparem posições opostas. Padre Gabriel está do lado dos índios, contra os mercenários, mas se opõe à força e à violência, opção de Dom Rodrigo. Diferentemente dos colonos que vêem os nativos como inferiores e os qualificam como não humanos, sem alma e portanto passíveis de escravização. E portanto se opõem radicalmente aos missionários, em seu objetivo de salvar almas e conquistar adeptos para a fé cristã.

O título do filme aponta para duas acepções da palavra missão. Em primeiro lugar este conceito estaria estritamente relacionado à instituição missionária jesuíta, cujo objetivo era propagar a religião cristã; em segundo lugar, à idéia de função, que aponta para a possiblidade de interferência dos padres missionários na realidade, particularmente na defesa dos índios.

Na verdade, muitas vezes os chamados " filmes históricos " estão tratando simultaneamente de dois tempos distintos - o tempo da história e o tempo em que o filme foi feito. Ele é fruto de um olhar datado, de um olhar do século XX sobre o século XVI. É um olhar subjetivo sobre um momento específico do passado. A grande questão é saber o que está sendo enfatizado pelo diretor, pelo roteirista, pelos produtores ao se narrar aquele " fato histórico ".

Um aspecto interessante para se pensar o argumento de A Missão e nos ajudar, inclusive, a compreender o sucesso de público e crítica do filme, é relacioná-lo com o contexto em que foi produzido. O filme fala de um passado " aparentemente " muito longínquo onde os conflitos com o " outro " - o " estranho " e o " diferente " - são intensos. Entretanto, o que ocorria nos Estados Unidos e na Europa em meados dos anos 80 eram conflitos raciais e étnicos de grande violência. Nos EUA brancos e negros viviam uma relação intensamente explosiva. Já na Europa, a imigração de grandes contigentes de população de países que foram antigas colônias era fonte de extremadas disputas e divergências. A dificuldade de convivência pacífica entre grupos, etnias, religiões e culturas diferentes não parece algo que ficou no século XVI.

No Brasil, uma característica do contexto social e político dos anos 80 foi a polêmica atuação de alguns membros do clero brasileiro, em especial do Frei Leonardo Boff, um dos criadores da Teologia da Libertação. Esta teologia, em linhas gerais, não afirma a supremacia ou superioridade da fé cristã nem exige a submissão dos fiéis à ordem superior da Igreja, ressaltando que o Reino dos Céus começa aqui na terra, como fruto e consequência das nossas ações e atitudes em prol de uma transformação social. Ou seja, busca tirar a Igreja e sua doutrina do papel de confortadora e amenizadora dos problemas sociais vividos por grande parte das populações da América Latina, região onde se passa o filme e local de grande presença das Missões Jesuítas.

A Missão tem muitos pontos interessantes a serem analisados como a belíssima fotografia, a atuação de Robert De Niro e Jeremy Irons, o roteiro, além da própria direção. Decidi focar minha atenção na música porque acredito que ela tem uma dimensão que pontua e ilumina o entendimento do filme, da própria história das missões e do olhar do diretor sobre elas.

A música serve não só de fundo para o desenrolar da história como em diversos momentos se torna o centro da cena. Poderíamos interpretá-la como uma espécie de fio condutor da narrativa. Por um lado, ela aborda o contato que se estabelece entre jesuítas e indígenas; por outro, explicita o conflito entre brancos e indígenas. Ela é fundamental tanto para os jesuítas quanto para os índios.

A música surge no filme como um elemento que não parece ser um fruto da cultura ou de culturas. Ela dá a impressão, ao contrário, de fazer parte da natureza. Parece exterior ao homem ao mesmo tempo em que é criação sua, quase um elemento de "universalidade" do homem, que possibilitaria uma união e um encontro para além de todas as diferenças e impossibilidades de comunicação. Como uma espécie de linguagem dos grupos humanos, compreendida de maneira universal por todos eles.

A cena do encontro do padre Gabriel com os índios é marcada pela música. Ele toca flauta no meio dos nativos, que acham-no estranho e não conseguem entender sua língua. Como o jesuíta também não conhece a língua dos índios, há um estranhamento inicial mútuo. Mas a música rompe com isso e possibilita o encontro, o diálogo. A música não apenas os aproxima; na verdade, parece integrá-los a toda a humanidade.

Há um outro filme norte-americano, de 1977, onde a música como encontro e possibilidade de diálogo é um elemento de grande impacto. Trata-se de Contatos Imediatos de Terceiro Grau, dirigido por Steven Spielberg. Nele, o personagem do cientista, vivido por François Truffaut, tenta se comunicar com os extra-terrestre através de uma escala musical com seis notas, que são repetidas e em seguida respondidas pela nave espacial.

Estamos diante da mesma lógica no que diz respeito ao papel da música como instrumento de aproximação entre culturas e seres os mais diversos, sejam índios e missionários ou norte-americanos e extra-terrestres. Ainda que cada cultura possa produzir os seus próprios instrumentos e a sua própria melodia, é como se a música fosse a expressão da " essência " do humano.

A criação musical, a fabricação dos instrumentos e o ensino da música aparecem diversas vezes ao longo da história. Na maioria delas são os jesuítas que ensinam os indígenas a tocar seus instrumentos e a cantar da " sua " maneira. A música é o ponto de aproximação, mas também de aprendizado da cultura. Aprendizado, para os índios, da cultura e dos valores dos brancos e jesuítas. Não aparecem padres tocando ou aprendendo melodias com os índios. O que se dá, o tempo todo, é exatamente o inverso.

Uma das imagens finais de A Missão é um violino e um castiçal embaixo d' água, depois da dizimação da Missão de São Miguel pelos portugueses, que enfrentam a resistência e a permanência dos jesuítas. Os dois objetos são emblemáticos da missão jesuíta, a qual, além de catequizar os índios com o objetivo de expandir a fé católica, incute neles os valores da cultura européia.

Gostaria de destacar um aspecto analisado pela antropóloga Maria Cláudia Coelho (1998) em um artigo sobre o mesmo filme. Ao afirmar que os missionários são os heróis do filme e os bandidos os caçadores de índios, ela discute os conceitos de genocídio e etnocídio à luz da obra de Pierre Clastres. Os dois conceitos vão opor corpo e alma. O " genocídio é a destruição física do diferente ", enquanto o etnocídio pode ser entendido como a " destruição da cultura do diferente: em suma, o genocídio assassina os povos em seu corpo e o etnocídio os mata em seu espírito ". (1982:54).

Para Clastres a sociedade moderna pós-industrial tem uma " vocação etnocidária". Ele destaca principalmente o aspecto da produção econômica das sociedades modernas em oposição à "improdutividade" das sociedades tribais.

Creio que é possível pensar esta vocação etnocidária das sociedades modernas a partir da Indústria Cultural. A Indústria Cultural, com sua capacidade de pasteurização e homogeneização da sociedade, pode ser compreendida como um instrumento de destruição de culturas distintas, negando a elas espaço e presença em seus produtos.

Em que medida os jornais, rádios, TVs e mesmo o cinema tratam dessas sociedades? Salvo no caso dos filmes etnográficos, realizados muitas vezes por antropólogos, os índios são uma ausência. Pode-se afirmar, então, nesse sentido, que a Indústria Cultural assumiria o lugar de uma entidade etnocida, que não extermina fisicamente uma sociedade, mas a impede de se expressar em seus veículos, e portanto de permanecer viva, com sua cultura e sua complexidade, para além dos estereótipos redutores.

Uma das grandes preocupações da antropologia é com a relativização - perceber a diferença ao invés de transformá-la em hierarquia. Lévi-Strauss enfatiza que a humanidade não evolui em um sentido único, ou da mesma forma (1980:78). " Quando estamos interessados num determinado tipo de progresso, reservamos o mérito dele para as culturas que o realizam no grau mais elevado e permanecemos indiferentes perante as outras." Um exemplo disso é a necessidade de informatizar o mundo e os computadores serem sinônimo de progresso. Ele afirma ainda que " progresso é sempre o máximo de progresso num sentido pré-determinado pelo gosto de cada um.".

As culturas não diferem entre si do mesmo modo, nem no mesmo plano. A diversidade, portanto, é fundamental. E não apenas a diversidade entre culturas, mas a diversidade dentro de uma única cultura. Entende-se assim a catequese como uma visão de mundo. Vale lembrar a frase do cardeal que narra a história no filme. Ele comenta que os índios certamente lamentariam a chegada dos brancos. O que esta chegada significou para eles? Não só um contato entre culturas, mas uma transformação, um domínio e um etnocídio, além do próprio genocídio ocorrido em alguns momentos específicos, como no fim das missões.

Em Caminhos e Fronteiras Sérgio Buarque de Holanda recupera de forma minuciosa o legado dos indígenas nas Entradas e Bandeiras. E destaca o quanto o conhecimento dos índios foi fundamental para o sucesso daquela empreitada; para os caminhos e fronteiras que estavam sendo constituídos. Um belo exemplo é o capítulo Veredas de Pé Posto, onde Sérgio Buarque analisa o sistema de estradas dos índios e a relação dos mesmos com o meio ambiente, tão inóspito e ameaçador para o português. Este fato é muito bem explorado no filme, onde a selva e os rios são uma ameaça constante para o homem branco. A cartografia indígena, em contraposição, mostra um pleno conhecimento e domínio do território pelos nativos, ainda que estes façam parte de uma sociedade ágrafa. A precisão, a perícia, o exercício de andar, a agudeza dos sentidos na percepção de um animal ou inimigo, a destreza e a capacidade de triunfar sobre o meio são exemplos do conhecimento e da " superioridade " da sociedade nativa.

Não é à toa que Sérgio Buarque de Holanda demonstra seu encantamento com a enorme capacidade de representação gráfica dos nativos, apontando para uma sofisticada percepção do meio-ambiente. Também não é por acaso que o traçado de muitas estradas de ferro segue o dos velhos caminhos de índios e bandeirantes. Um outro aspecto destacado pelo historiador e que é apresentado em A Missão é "a espécie de solidariedade cultural que logo se estabeleceu aqui entre o invasor e a raça subjugada" (1994:60). Embora o pesquisador esteja se referindo a índios e bandeirantes, parece-me que o diretor do filme parte da mesma idéia para abordar a relação entre os índios e os missionários.

Mas se os jesuítas tinham uma " missão " muito clara e definida e suas consequências aparecem nitidamente no filme, qual a " missão " da Indústria Cultural? Qual a " missão " do profissional da mídia? É realmente " catequizar " para conseguir mais audiência, mais público? E a informação - onde entra? Informar o quê para quem?

Pierre Bourdieu em Sobre a televisão analisa o papel da imprensa na sociedade moderna, o lugar da Indústria Cultural e o quanto ambas estão vinculadas ao poderio econômico. Sua crítica é aguda tanto aos meios de comunicação quanto aos seus profissionais. A seu ver, a mídia busca apenas sucesso financeiro, transformando quase tudo em fait-divers. O sociólogo francês lamenta o fato de ter a TV perdido a oportunidade de se tornar um extraordinário instrumento da democracia. Ao se preocupar em atingir a todos, buscando por isso o espetacular e o sensacional, ela acabou gerando uma uniformização e uma banalização da informação.

Bourdieu destaca também o quanto a mídia, reforçando a dificuldade de compreensão da complexidade dos problemas e questões sociais, reduz situações e perspectivas. As sociedades modernas encaram quase sempre a diversidade como um obstáculo a ser ultrapassado. O filme A Missão, mais do que fazer um relato histórico das missões e do relacionamento entre culturas diferentes, aponta para a possibilidade de discussão destas questões, que de maneira alguma ficaram resolvidas no passado. Ao contrário, continuam sendo problemáticas. O desafio que a Indústria Cultural precisa enfrentar é trazer para suas páginas e telas a riqueza dessa diversidade.

É Lévi-Strauss (1980:97) quem diz: " A necessidade de preservar a diversidade das culturas num mundo ameaçado pela monotonia não escapou certamente às instituições internacionais. Elas compreendem também que não será suficiente, para atingir esse fim, animar as tradições locais e conceder uma trégua aos tempos passados. É a diversidade que deve ser salva, não o conteúdo histórico que cada época lhe deu e que nenhuma poderia perpetuar para além de si mesma. É necessário, pois, encorajar as potencialidades secretas, despertar todas as vocações para a vida em comum que a história tem de reserva; é necessário também estar pronto para encarar sem surpresa, sem repugnância e sem revolta o que estas novas formas sociais de expressão poderão oferecer de desusado. A tolerância não é uma posição contemplativa dispensando indulgências ao que foi e ao que é. É uma atitude dinâmica, que consiste em prever, em compreender e em promover o que quer ser. A diversidade das culturas humanas está atrás de nós, à nossa volta e à nossa frente ".

Isabel Travancas
antropóloga e professora da Escola de Comunicação da UFRJ

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