Lua de Mel de Assassinos

A HISTÓRIA

Martha Beck (Shirley Stoler) enfermeira chefe de profissão, inicia, através do "Clube da Amizade da Tia Carrie", uma relação amorosa, forte e exacerbada, com Raymond Fernandes (Tony Lo Bianco) cuja a ocupação é seduzir mulheres solitárias para extorquir dinheiro. São duas pessoas aparentemente normais que passam a provocar uma à outra, numa loucura crescente, que termina por jogá-las no caminho do assassínio. Apesar do insucesso comercial quando do seu lançamento, tornou-se um dos mais significativos cult movies da nossa época. Foi refilmado mais duas vezes: em 1996, pelo diretor mexicano Arturo Ripstein; chamou-se "Profundo Carmesi". Ripstein dedica o filme a Martha, Raymond e Leonard. Em 2006, pelo canadense Todd Robinson, com o título original "Lonely Hearts", recebendo no Brasil o título de "Os Fugitivos". A história tem por base o processo Lonely Hearts Killers, um caso mediático que apaixonou a América nos anos 40.

Mas será o filme apenas isso?  A história?

OS PERSONAGENS



Raymond Fernandes (Tony Lo Bianco)

É latino, elegante, com aparência de uns trinta e tantos anos. Vice de extorquir mulheres solitárias carentes, e manterá uma correspondência com Martha durante uns três meses antes de encontrá-la. Não age precipitadamente, sempre espera o momento certo para atacar.



Martha Beck (Shirley Stoller)

Mulher de idade em torno de 35 anos, com aspecto físico bem avantajado tanto na altura como no peso. Mora em Móbile City, no sul dos EUA, no Alabama. É enfermeira supervisora de um hospital onde controla seus subalternos com todo rigor. É solteira e vive com a mãe, aparentemente viúva. Martha tem uma amiga, Bunny, que serve como acompanhante de sua mãe. Martha é solitária. Quando tensa, tem uma fome compulsiva.



Mãe de Martha, Mrs. Beck (Dortha Duckworth)

Uma velha senhora que fica com Bunny durante o período de trabalho de Martha. Reclama sempre que é maltratada por Bunny. Gostaria que a filha tivesse um namorado.



Bunny (Doris Roberts)

É amiga e vizinha de Martha. Com pena da solidão da amiga a inscreve no Clube da Amizade da Tia Carrey, e consegue convencer Martha a enviar o seu perfil para o clube.



Doris Acker (Ann Harris)

Uma velhota solitária, que mora no distrito de Morris, New Jersey, também sócia do clube da amizade, onde conhece Ray e casa-se com ele. A lua de mel será em um apartamento, futura moradia do casal. Doris não entende porque a “irmã” de Raymond, Martha, tem que acompanhá-los. Gosta de cantar hinos americanos enquanto se banha na banheira.



Myrtle Young (Marilyn Chris)

Mulher de vinte e cinco anos, mora em Little Rock, em Arkansas, é também é sócia do Clube da Amizade. Com a desculpa de que está grávida, contrata Ray, que falsifica o nome para Charles Martin, por US$ 4.000,00, para casar com ela no Missouri, pois se o pai descobre que ela está grávida, perderá a herança. Ray a encontrará, mas com Martha ao lado.



Evelyn Long (Bárbara Cason)

Como Mirtle, não é tão velha; é loura e esbelta. Encontrou Ray no Clube da Amizade. Mora numa pensão em Pittsfield, Massachusetts, cidade famosa pela vida cultural.



Janet Fay (Mary Jane Higby)

Aparenta ter uns 70 anos, viúva, mora Albany, Vermont, noroeste de Nova York. Católica praticante, é artesã, confecciona seus chapéus. Tem algum dinheiro, mas usa-o de forma controlada; tem uma filha, mas largará tudo para ir com Charles Martin (codinome de Ray) para NY, onde acredita que ele se casará com ela.



Delphine Downing (Kip McArdler)

Viúva de militar, que aparentemente morreu na guerra (existe uma fotografia de um soldado em cima de uma mesa redonda em um canto da sala). É de meia idade, tem uma filha, cultiva a história americana, tem uma águia em cima da lareira. Não fica claro onde mora, mas parece que próximo a Grand Rapids, Michigan, no norte do EUA. É de classe média, tem algum dinheiro e um seguro enorme para receber.

AS CENAS

A primeira cena começa com o seguinte texto escrito:

"O incrível e chocante drama que vão assistir é talvez um dos mais bizarros episódios dos anais do crime americano. Estes acontecimentos inacreditáveis são baseados em artigos de jornais e registros judiciais. Trata-se de uma história verídica."

O texto surge na tela em completo silêncio. É substituído pela imagem de uma ambulância do Móbile City Hospital com o fundo musical de Mahler. Leonard Kastle, o diretor, é também autor de óperas, de um concerto para piano, de sonatas para piano e violino e de três roteiros não filmados: " Wedding at Cana", " Change of Heart" e "Shakespeare's Dog".  Este é o único filme que dirigiu, e quando o dirigiu era um homem de 40 anos. O filme não tem grandes inovações estéticas, mas o roteiro é impecável; nenhuma cena é gratuita, e todos os elementos estão cuidadosamente dispostos e relacionados, como uma grande produção operística.

O diálogo inicial acontece logo após uma pequena explosão no laboratório do hospital. A enfermeira supervisora, Martha, sai de sua sala para ver o que ocorreu e encontra no local onde ocorreu a explosão um casal. Martha está do lado esquerdo. Jackson em cima de um banco abrindo as janelas do lado esquerdo; no fundo, no meio da tela, Severns. Uma  lâmpada fluorescente no teto produz uma claridade super exposta, que incomoda e deixa difusa parte do cenário. Este recurso Leonard Kastle usará em todo o filme.

Martha — Que aconteceu?
Jackson (enfermeiro, em pé, em cima de um banco abrindo as janelas) — Alguém cometeu um pequeno engano e juntou cloro com amoníaco. Não voltará mais a acontecer.
MarthaSeverns (enfermeira),você de novo? Está bem?
SeverrnsAcho que sim, Miss Beck, não vi que era amoníaco.
JacksonFoi bom eu estar aqui, ela podia ter se machucado..
MarthaE o que estava fazendo aqui, Jackson? Por que não está em sua enfermaria? Agora já estou entendendo  o que aconteceu. Não me interessa o que fazem fora deste hospital, mas aqui, são como o amoníaco e o cloro. Saia já daqui,  Jackson. Isto é o laboratório do hospital e não um quarto de motel. Não quero vê-lo aqui de novo, entendeu?
JacksonAcho que sim, Miss Beck. (e sai)
Na porta, outras duas enfermeiras assistem a repreensão. Quando Martha as vê, diz:
MarthaTudo Bem. Voltem para os seus lugares.
Vira-se para Severns e diz: — Severns, cuido de você  mais tarde. Já me fez perder muito tempo. Amanhã de manhã quero-a no meu gabinete.
Severns Lamento, Miss Beck.
MarthaVai lamentar ainda mais, se sair da linha de novo.

Logo depois assistimos a Martha chutando um red wagon; ela vem carregada de compras de supermercado. Para ajudar a definir quem é Martha, Kastle usa os pequenos detalhes desta cena, onde vemos os pés de Martha, chutando o carrinho, e o seu rosto, com a câmera que se levanta até fixar-se nele. A cena dura pouco mais de um  segundo, 40 quadros para sermos mais exatos (lembramos que em vídeo 30 quadros tem um  segundo).

Uma seqüência que, a nosso ver, merece especial atenção, é a troca de cartas entre Martha e Raymond. Tudo começa em abril. Quando Martha entra em casa, voltando do hospital, depois do chute no carrinho, abre a porta e comenta com Bunny

— Meu Deus! Como está calor! E só estamos em abril...

Ao entrar em casa pega a correspondência que chegara naquele dia. Nela, está uma carta do Clube da Amizade da Tia Carrey. Ela não quer se inscrever, mas Bunny insiste. É assim que ela conhece Raymond.

Numa próxima cena, vemos uma carta aberta do Clube da Amizade, a câmara em close corre até uma mão que está abrindo uma gaveta, pegando uma folha em branco, colocando-a sobre a mesa. Corte. Aparece o rosto de um homem de uns 30 anos, moreno, de feições latinas, falando o que escreve:

Cara Martha e Espero que não se importe em que eu a trate assim. Para lhe ser franco,  não sei como começar esta correspondência (a câmara começa a se deslocar,  mostrando sobre a mesa uma grande quantidade de fotografias de mulheres, em diversos tipos de porta-retratos), pois é a primeira vez que escrevo uma carta deste tipo.

Corte. Aparece Martha lendo a carta que Raymond estava escrevendo: Gostaria de saber um pouco sobre mim?

Tenho 34 anos e dizem que não sou feio!
Trabalho com importações da Espanha, o meu país natal.
Vivo num apartamento grande demais para um celibatário, mas um dia, espero vir a partilhá-lo com uma esposa.
Por que a que escolhi para me iniciar neste Clube?
Porque é enfermeira, e por isto deve ter bom coração, e uma grande capacidade para reconfortar e amar.
Seu amigo,
Raymond Fernandez

Marta responde para Ray:

Confesso-lhe que suas cartas têm animado minha vida. Aparece Ray colocando uma fotografia em uma carta. Corta. Aparece uma fotografia de Martha no hospital com outras enfermeiras, como as fotografia de colégio primário no Brasil. A última enfermeira do lado direito está fora de foco por excesso de luz, recurso que o diretor usará em todo o filme, como já comentamos acima. Sobre esta foto está escrito: Obrigada por enviar esta fotografia. É exatamente como eu o imaginava. Aqui lhe envio uma minha, apesar de não me fazer justiça.

Ray escreve, (25 de abril) Gostaria que me chamasse de Ray. Só uma mulher o fez, um amor de infância, há muito falecida.
Martha responde (5 de maio) No dia que recebo carta sua, tudo melhora.
Ray (12 de maio) Mande-me uma madeixa do seu cabelo.
Martha (18 de maio) Querido Ray, a écharpe é linda.
Ray (25 de maio) Tentarei ir visitá-la e à  sua mãe.
Martha (4 de junho) Estou desejosa que chegue.
Telegrama de Ray: Chego a estação de trens de Móbile na terça-feira. Ray

Estas cartas vão tornando visível o tempo da correspondência, e ajudando a compreender os dois personagens principais: ele, mentiroso, bonachão e envolvente; ela, carente, obcecada e ansiosa. Estes temperamentos os levarão às suas próprias destruições.

O Clube da Amizade

Kastle, de uma forma comportada, critica o "American Way of Life", presente em quase todas estas mulheres solitárias, desde a que canta na banheira hinos patrióticos, a que espera a herança dos pais, a que confecciona chapéus horríveis bem típicos dos americanos, até a que é viúva de um soldado que deve ter morrido na guerra, e ensina com orgulho a história americana para a filha, tendo sobre a lareira do living uma águia. Seu filme atravessa de sul a norte os EUA, sempre pelo interior, todos os personagens moram em cidades pequenas onde o espírito americano é mais forte, Martha que é a primeira mulher de Raymond no filme, mora em Móbile City, no sul dos EUA, no golfo do México, e Delphine Downing, que é a última, mora no Michigan, no norte do país. São mulheres carentes, solitárias, desejosas de amor carnal.

O FILME

A nosso ver, Leonard Kastle fez um filme onde o menos importante é a história, que é uma história comum dentre as de tantos thrillers. Cada elemento, nesta obra, tem uma função estética. A música de Mahler ajuda a criar a atmosfera trágica do filme. A composição das cenas, mesmo comportada,  várias vezes inverte a linguagem tradicional do cinema. O contre-plongé, usado geralmente para mostrar  superioridade, e que mostra o enfermeiro em inferioridade frente à Martha, também é usado para mostrar Martha em completo desespero. Em todo o filme, a luz está super exposta, principalmente quando vem do exterior, que aparece sempre desfocado quando é visto do interior. A super exposição de luz fica mais clara ainda quando Ray, em sua casa em Valley Stream, subúrbio de Nova York, olha pela janela onde nada se vê e diz:

— Chamam a isto Valley Stream. Que piada! Prisões seguidas, com dez  metros de relva entre elas. Valley Stream! Odeio isto aqui.

Este último fotograma mostra a casa de Delphine, o que ela vê da janela. Sua filha e Raymond estão chegando em casa, mas só conseguimos enxergar vultos. A janela está aberta e o dia está muito claro, mas para quem está em casa, a luz que vem do exterior não permite ver o que acontece lá fora. É preciso olhar muitas vezes para que as formas e composições se revelem. E a cada vez que olharmos, mais coisas serão descobertas.

Uma grande obra de arte nunca acaba ao final de sua apresentação.

Honeymoon Killers - EUA - 1970 - 108 min. Direção: Leonard Kastle. Elenco: Shirley Stoler, Tony Lo Bianco, Dortha Duckworth, Mary Jane Higby, Doris Roberts, Kip McArdler, Marilyn Chris, Barbara Cason.

Julio Cesar de Miranda
engenheiro civil aposentado do DNER, e desde criança está perdidamente apaixonado pelo cinema. É gerente responsável da Polytheama - Central de Vídeo - desde 15/03/1990, o dia em que a loja foi aberta

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