O cristianismo difuso de Walter Salles

O filme de Walter Salles, Diários de Motocicleta, parte de um pressuposto difícil mas sedutor, pede ao espectador que esqueça por um tempo toda a mitologia em torno de Che Guevara, esqueça o que significou a experiência radical da Revolução Cubana, esqueça o ícone pop planetário, signo de resistência e rebeldia. Despido da boina e das palavras incendiárias, poderíamos vê-lo como personagem de fábula: um garoto latino-americano comum que descobre a pobreza e a injustiça. Mas seria possível ver um filme sobre, digamos, a adolescência de Hitler ou de Cristo, sem a tentação de conectá-la com seu futuro?

Proposta difícil, mas não impossível, como vemos na primeira parte do filme. Em tom leve, de comédia e road movie, Walter Salles realiza aqui o que sabe fazer com talento, vai "mimando" seu público, criando uma identificação com a dupla Ernesto e Granado (Fluser e Mial). Adesão imediata e não-problemática a uma fábula global: a viagem de formação (o turista aprendiz que descobre o Nordeste brasileiro, a Índia, ou a América Latina), Mas o filme não pára ai, colado nesse imaginário juvenil da descoberta do outro, com uma mochila e incertezas nas costas. Aos poucos vai caindo na tentação de mostrar a gênese do mito Che.

Ernesto vai se desenhando como uma figura unidimensional: sincero,honesto, ético, sensível ao sofrimento, generoso, como vários personagens masculinos do cinema de Walter Salles (Pablo de Terra Estrangeira, Josué de Central do Brasil, Tonho em Abril Despedaçado), prontos a se sacrificarem por um mundo mais justo, "walter-egos", sem dúvida e sem desmérito. A "busca da identidade" (que já virou um clichê do cinema contemporâneo, ao lado da "busca da identidade nacional" e da "busca da identidade latino-americana") é uma mera afirmação dessas qualidades "inatas", seja de Ernesto ou da civilização latino-americana.

Todos os personagens de Diários são, sem exceção, bons.

Daí,particularmente, me tocar muito mais os ataques de asma de Ernesto, sensoriais, trabalhados cinematograficamente, com o som abafado e terrível, do que suas inquietações humanísticas diante da fome e da geografia latinas, filmadas em parte com a câmera frontal e fixa, no estilo "natureza- morta" das fotografias de Sebastião Salgado, citado explicitamente. Estética que não se adéqua, ao meu ver, a proposta inicial de um filme mais sujo, mais inquieto e que vai aos poucos se engessando sem produzir qualquer novo entendimento ou sentimento diante dos temas que escolheu.

O jovem Ernesto, estudante de medicina vai se tornando um missionário ou voluntário exemplar, culminando com a cena clímax do filme, em que faz a travessia às cegas de um rio na Amazônia peruana para ser recebido como herói ou Cristo milagroso por uma legião de leprosos que o abraçam. Uma retórica grandiloqüente, em que a música e o tom extrapolam e santificam o personagem.

Esse cristianismo difuso está em toda a obra de Walter Salles, um Che-Cristo cheio de compaixão e piedade. De turista aprendiz, Ernesto se torna uma espécie de Madre Tereza de Calcutá. Esse olhar médico-assistencialista é uma tomada de posição do filme, onde política é entendida como "revelação" e sacrifício individual, drama intimista.

No final do filme, a miséria latino-americana é mostrada como uma "lepra" a "doença" tropical do continente. Depois das paisagens deslumbrantes a visão (metáfora) da pobreza é o grande leprosário onde a feiúra e a dor do mundo foram exiladas e o jovem Ernesto chega para aliviar o sofrimento, distribuir afeto, limpar feridas, abraçar e viver com os leprosos, revelar sua "beleza interior", não como um jovem qualquer, mas quase como portador de um "dom". Walter Salles tem talento cinematográfico, os atores estão excelentes, mas não consegue se livrar desse look Sebastião Salgado, desse tom de marketing social, de correção política e bom mocismo.

O humanismo piedoso tem mesmo alguma potência, tem alguma força de transformação?

Ao contrário do seu Ernesto, o diretor não tira as "luvas" que o protegem da violência da pobreza. Proteção estética do filme de arte para grande público. Um cinema que tem seu encanto melancólico, como uma certa poesia de médico e de assistente social, mas que diante das imagens contemporâneas de violência e miséria, insuportáveis, no meio das crises atuais e da vitalidade dos movimentos sociais na América latina é um cinema um tanto conformista, que afirma "nada mudou" e não corre realmente o menor risco de contaminação.

Ivana Bentes
jornalista e professora da Escola de Comunicação da UFRJ

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