Constelação: Alegoria – Kátia Borges

ALEGORIA
Kátia Borges
*
Toco as costas da moça nua,
deitada a meu lado na penumbra,
e sinto a sua pele mansa,
como ovelhas na montanha
da nuca que se insinua.

*
Sob o lençol macio, um mundo pulsa,
e minha mão desliza, inteira
sobre ela, moça nua, elo perdido
entre o que sou e o que flutua.

*
Sem dizer nada, sinto que peço
que me devolva a paz da infância,
e que me mostre o mundo, a substância
do que é vida dentro de mim.

*
Sem dizer nada, sinto que impeço
que ela se abra e me devore
e coma o fruto que ofereço,
em sumo, carne, língua, dedos,
fluido etéreo do amor que teço,
terço que rezo, prenhe de sim,
nu de razões ou de adereços.

(Ticket zen, 2010)

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