Constelação: Estas mãos inquietas – Antonio Carlos Villaça

ESTAS MÃOS INQUIETAS...
Antonio Carlos Villaça
.
Servir foi teu destino.
Se descobres uma pequena mancha,
ou um botão ausente,
logo te levantas,
com tuas mãos inquietas,
disposta a servir.
Serviste longamente.
Teu destino foi servir.
Queres limpar os sapatos,
queres costurar as roupas,
queres lavar o que está sujo,
as meias,
os corações.
Caminhas pelo mundo como um anjo.
Nasceste para ajudar.
Com que delicadeza,
com que pressa,
te levantas e te debruças,
ó infatigável enfermeira,
ó ser misericordioso e humilde.
És tão prestativa,
tão solícita,
tão serena em meio a todos os pesares,
tão fiel a ti mesma, a teu destino.
Tens o gosto do próximo,
do pobre,
do sofrimento que ninguém viu
e tu vês, tu descobres,
ó humana criatura.
Como um anjo serviste.
Insaciável, tu prossegues.
Tens a vocação do serviço –
- a pequena mancha,
o botão caído,
o sapato a engraxar ou a limpar,
a cotidiana tarefa, que ninguém percebe,
tu cumpres tudo isso,
como um ritual secreto,
que é a vida de tua vida,
a essência de ti mesma,
a verdade do teu destino,
leve,
gracioso,

...........verdade nítida.
.
(Poema inédito, 11-09-1968)

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Uma opinião sobre “Constelação: Estas mãos inquietas – Antonio Carlos Villaça”

  1. Inquietas mãos, andarilhando inéditos e irepetivéis caminhos. Acontecimentalizando por entre singularidades.
    Desterritorializando-se de suas funções servis, lançam-se na experimentação expressiva. E no porvir encontra-se em devires… Mãos que um dia apoiavam-se na terra, e que antes, nem mãos tu eras, e agora anda por ai à acenar, a dedilhar orifícios sonoros, a tocar a existência e sentir-se viva, liberta para contraefetuar tua existência.

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