Constelação: Mamute – Davino Ribeiro de Sena

MAMUTE
Davino Ribeiro de Sena
.
As longas presas se viam
longe da cabeça do deus.
O radar delimitou a área
onde dormia a carcaça.
Com marretas e picaretas
destacamos do gelo o poema.
Era um bicho gigantesco
com toneladas de desprezo.

.
O fogo descongelou o corpo
em osso e vento decomposto.
A memória se esforçava
para compor a carcaça.
Talvez precise de mais
para recompor o animal.
Como trazer de volta o tempo
sem metáfora, osso e vento?

.
O mamute é quase igual
ao elefante atual, que vemos.
Urdir o que não vemos
é o que importa no final.
Célula, óvulo, útero.
Erros de peso e medida.
No fim da clonagem, o que temos?

.
O corpo, a imagem, o tempo.
O que chamam genética
usa tesoura, ética e cola:
vamos desenrolar uma fita
para reconstruir a vida
e expor sob o órfico céu
o monstro sorumbático
que o passado ofereceu
e do vidro foi arrancado.

.
Eu disse: mamute, sois
um deus afastado do sol.
Respirai o ar congelado
para nos dar esperança!
Vossas presas recurvas
são a alegria do recluso.
A hirsuta sombra do deus
ergueu-se na amplitude.

.
Mamute, agora sabeis
a solidão de ser único.
Talvez uma lei vos declare
primeiro e último de uma raça.
Pior, mamute, nada entendereis
do mundo, do homem que mente.
Quando acordardes, sereis
um poema, rouco e indigente.


(O lento aprendizado do rapaz que amava ondas e estrelas, 2009)

[print_link] [email_link]




Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *