Constelação: Meu pai – Ivan Junqueira

MEU PAI - na voz de Ivan Junqueira

MEU PAI
Ivan Junqueira
.
Eu vi meu pai nas franjas da neblina.
Eram tão frias suas mãos defuntas,
eram terríveis suas órbitas vazias.
Eu vi meu pai, a voz quase inaudível,
chamando-me ao seu colo desvalido
e a fronte me cingindo com um nimbo
de flores e de ramos já sem viço.
Eu vi meu pai. E ele sorria.
Os lábios se entreabriam como lírios
de alguma extinta e lívida ravina.
Seus pés imensos a distância percorriam,
e o que entre nós fora conflito e abismo
agora se fundia em íntimo convívio.
Eu vi meu pai. Vi-lhe a loucura, as tíbias
finas, o pigarro, o edema, a hipocondria.
E os cavalos, o baralho, o vinho.
Era ele, sim, não quem eu vira um dia
inútil e seráfico no esquife,
enfeitado de flâmulas e espinhos.
Eu vi meu pai. Era um prodígio
que encantava madonas e meninos,
e numa esfera aprisionara um grifo.
Eu vi meu pai. Era um dândi e um mendigo.
Foi-se embora à tardinha. O céu
se desfazia em púrpura e agonia.
Já se foi. Agora é lágrima e vertigem.

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(Poesia reunida, 2005)


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