Constelação: pequena antologia de poesia contemporânea brasileira – por Lia Sampaio

"Constelação é uma pequena antologia dedicada sobretudo à poesia contemporânea brasileira. Coloquei aqui o que me pareceu belo e interessante, numa seleção feita ao sabor de leituras e descobertas, sem maiores pretensões. Espero que a apreciem".

Lia Sampaio


SER POETA
Florbela Espanca

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!


É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!


É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!


E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

(Charneca em Flor, 1930)

O PODER DA PALAVRA
Foed Castro Chamma
.
Articular o verbo até medir-lhe o som,
a extensão de suas cordas, suas arestas,
as potências contidas no ritmo
interior
o colorido
seu poder de fuga
e apreensão, seu fogo
e ouro, sua hora
inflamada,
as vibrações diluídas nos dentes,
sua fluida aparência
de poliedro disfarçado,
sua aritmética de pedra
e explosão,
seu trânsito na escala rarefeita
da audiência à voz que o emite,
condensando-o em cargas – símbolos
lançados – dardo

.
O VERBO:
.
ar ao touro
não a flor para sua fúria
barbante atando os gestos
barro entre pedreiro e muro

.
liberto
.
como um risco
no corpo, como um risco
de faca, como um risco
de bala, como um risco
de espelho, como um risco

.
de ouro
que se queima nas folhas
rubras do fogo
se consome nas dobras
sujas da mente, não crepita
nem freme, sim
acende o grito
de fome

.
............................
FOGO E OURO

corcel violento com jatos
de cor
sua meta, a linha
do ar

.....................seu pasto

(O poder da palavra, 1959)

O ALQUIMISTA
Carlos Newton Junior
.
........................................a Foed Castro Chamma
.
Imerso em sua sombra, seus espelhos,
transmutando a palavra, o Alquimista
revela um labirinto sem novelos,
imagens cujo brilho cega a vista.

.
Paredes de ouro, âmbar e ametista,
ladeiam um espaço circular
sem início nem fim, pois é lugar
de todos os lugares e conquistas.

.
Amargas, as visões desse senhor,
que mais parecem obra de salmista,
provocam dor profunda, dor-de-açoite.

.
O seu rosto é tranqüilo e sonhador:
será Poeta ou Mago, um tal artista
que constrói belos versos pela noite?

(Nóstos, 2002)

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Para ler os outros poemas de Constelação clique no seu link, na coluna da esquerda

2 opiniões sobre “Constelação: pequena antologia de poesia contemporânea brasileira – por Lia Sampaio”

  1. Muito apreciei a escolha desta ” constelação ”, imagem de Mallarmé, principalmente por evidenciar para o leitor os bastidores do laboratório poético, do trabalhoso laboratório poético que exige a consciência da palavra tradutória de modos e formas múltiplas do pensar contemporâneo. Parabéns e felicidades, Maria Luiza Berwanger

  2. Lia,
    SER POETA me trouxe à memória Deolindo Tavares:
    “Sou mais pobre do que Job, / mais rico do que Salomão: sou poeta (…)”
    Parabéns pelas escolhas!

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