Constelação: Um consanguineo de Ícaro – João Pinto da Silva

UM CONSANGUINEO DE ÍCARO
João Pinto da Silva
Sobrevieram-me, então, necessidades de asas...

Este lindo verso, tão expressivo, tão doce, é do nosso pobre e doloroso Marcello Gama. Vem na Via Sacra, depois da comovida história de umas quantas angústias e de umas quantas revoltas.
Necessidades de asa!
É a necessidade universal e milenar. Todos nós a sentimos, como tu a sentiste, meu malogrado poeta dos olhos verdes! Todos nós, ao menos uma vez na vida, desejamos ser irmãos dos pássaros. Todos nós repetimos, um dia, a súplica ansiosa de Rückert: “Asas! Dêm-me asas!”
Voar, é a mais velha das inumeráveis aspirações humanas. Data do momento em que Eva enterrou os dentes brancos e miúdos, pela primeira vez, na polpa da maçã interdita e tentadora... Quero dizer: data do instante em que fomos abandonados pelos Deuses...
Que grosso e pesadíssimo volume não formaria a reunião das páginas que até hoje têm sido dadas a lume, sobre o assunto, por infinitas gerações de prosadores e poetas... Terrível volume! Para erguê-lo, transportá-lo dum lugar para outro, seria necessária a intervenção de um guindaste, ao qual deveria ser adicionada uma intorcível mão de aço, com os dedos movidos a eletricidade. Essa mão mecânica encarregar-se-ia de abrir o livro, virar-lhe as folhas, etc...
Ninguém, entretanto, interpretou melhor o grande desejo humano do voo, do que o suave e divino Eurípedes. O magnífico Paul de Saint Victor, que tão profunda e sutilmente penetrou os segredos todos do teatro grego, apresenta Eurípedes como o homem em cuja alma a aspiração à vida alada é uma radiosa idéia fixa.
O luminoso estilista, para exemplo, cita um dos Coros de Ifigênia em Taurida. As companheiras da filha dolorida e linda de Agamenon suspiram pela Pátria perdida. “Ave, que sobre os rochedos do mar cantas o teu destino lamentável, Alcyona, cuja voz, bem compreendida pelos sábios, chora sempre, eu misturo os meus gemidos aos teus; sou uma ave triste como tu, porém, ave sem asas! Ah! não ter asas! Não poder percorrer o hipódromo resplandecente do céu, e voltar, voltar, enfim, à casa paterna, para tomar parte no coro das danças, lá onde, virgem destinada a um nobre hymeneu, animei, sob os olhos de minha mãe, o bando de moças da minha idade!”
Aí, o desejo de voar é como que uma emanação da nostalgia, uma fosforescência elegíaca da saudade.
Todas as dores morais têm a virtude de avivar em nós esse desejo congênito.
Porque quando tudo nos é hostil, em derredor, é que nós experimentamos, com mais viva ansiedade, com estremecimentos inéditos, a necessidade de andar no espaço livre, acima dos mares, acima dos charcos, das montanhas, de tudo, - acima de nós mesmos...
Convien ch’uom vole...

*
Pelo tempo fora, desde o início do  mundo, os consangüíneos de Ícaro vieram se multiplicando, com tenacidade, e morrendo, com heroísmo.
A desastrada experiência icárica, serviu para provar que as asas não podem ser adaptadas aos nossos ombros. Os visionários desistiram de imitar os pássaros: resolveram a construção de um aparelho que os transportasse pelos ares.
Era menos poético, mas era mais prático.
E surgiram máquinas de todos os feitios, máquinas bizarras, que só subiam para cair, matando os fabricantes.
A princípio, contentou-se o homem com a navegação aérea à mercê dos ventos. O essencial era voar, ou melhor, andar lá em cima, longe, mais perto do céu.
Depois, veio o desejo de dominar os ventos, no alto: percorrer o espaço vencendo a resistência das correntes aéreas.
Mais ainda: o aeronauta já não queria transportar-se apenas a si próprio. O seu sonho, sonho generoso, era associar à sua inaudita felicidade os outros homens, todos os homens que tivessem coragem para afrontar a morte.
E as barquinhas foram crescendo, crescendo...

*

Para a realização desse ideal, ninguém contribuiu mais do que Ferdinando von Zeppelin, falecido, há pouco, em plena glória.
Os seus dirigíveis são, talvez, os que proporcionam com menor dose de perigo, a quem o quiser e puder, a divina felicidade de viajar no espaço.
De todos os irmãos de Ícaro, - um dos quais, e dos maiores, nasceu entre nós, e fez a Europa curvar-se ante o Brasil, pela primeira vez, como berram horrivelmente, de cima das mesas, esses medonhos instrumentos de tortura que são os gramofones, - de todos os irmãos espirituais de Ícaro, poucos foram tão felizes, até agora, como Zeppelin.
Soldado de cavalaria, foi provavelmente no ímpeto épico das disparadas, em cargas arrasadoras, que ele experimentou a delícia de se sentir como que com um par de asas sobre os ombros. Foi assim, talvez, que se revelou a sua vocação...
Porque o galope do cavalo, dá ao cavaleiro a impressão dum esboço de voo, um voo raso, mas voo, em todo caso. Upa! Upa! E tudo, mal aparece, vai ficando para trás, assombrado, ilusoriamente veloz, até mesmo na inércia. Upa! Upa! E já o cavalo, de tão rápido, não é cavalo: é uma espécie doméstica, inofensiva, de grifo, de dragão, monstro amável das Mil e uma noites. Sei lá... Tem asas! Voa! Voamos sobre ele! Upa! Upa!
O indizível “frisson”!

*

Ferdinando von Zeppelin, - como todos os seus companheiros de ideal, - deu-nos qualquer coisa dos atributos dos Deuses...
Já não somos homens, tão somente, ó Prometeu!
Sim! Também nós podemos andar, como andavam os Deuses, lá no alto, quase entre as nuvens, na vizinhança dos astros, olhando, com ingratidão profunda e com profundo desprezo, a Terra flagelada e sombria...


(Bolhas de espuma: crônicas 1916-1919, Editores: Barcellos/Bertaso & C./Livraria do Globo, 1920)

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