Constelação: Romance das lápides – Walmir Ayala

ROMANCE DAS LÁPIDES
Walmir Ayala
mmmm
As lápides do Carmo falam
de amor eterno,
de lembrança inconformada
de donzelas maduradas
com seus pálidos cadernos
de poesias grafadas
onde o possível amor
é uma frase derramada
entre o suspiro e o rubor.

mmmm
As lápides do Carmo falam
de desolados
pais, maridos, tios, irmãos,
que acalentam os finados
e rogam uma oração
de quem passar sem cuidado,
mantendo eterna a aflição
de quem ficou separado.

mmmm
As lápides do Carmo falam
de casamentos
que duraram só o instante
de um parto de sofrimento.
E há barões, feudos, altivas
famílias ramificadas
que a memória de mil mortes
vai tornando desoladas.

mmmm
Todas no chão primitivo
da igreja ficam deitadas,
e se imagina seus olhos,
suas túnicas douradas,
seus punhos de renda fina,
suas botas bem lustradas,
as cambraias com lavanda,
as pratas dependuradas,
o brilho de suas facas
passionalmente enterradas.

mmmm
São santos? Algozes? Réus?
Pelo amor com que ficaram
memorados, são pedaços
de amores que já passaram,
mas que tendo sido um dia
guardam em letra tão firme
nas lápides desgarradas
seus gemidos de agonia.

mmmm
E parece que tocamos
em seus cabelos deitados
quando sussurramos nomes
tão ardentemente amados,
de filhas, mães e donzelas
que em tempos quase impossíveis
tiveram voz e presença
no zodíaco dos fados.

(Memória de Alcântara, 1979)

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