Constelação: Tardia elegia para Sylvia Plath – Afonso Felix de Sousa

TARDIA ELEGIA PARA SYLVIA PLATH
Afonso Felix de Sousa
.
Sem bater à porta
chego à soleira
do teu delírio

.
Sem lira ou lírio
feito um verme faminto
me adentro por teus olhos
e roubo e roo
visões que se desfazem
e se refazem
e te apavoram
e te alimentam
enquanto vão te lambendo
as línguas geladas
da morte

.
Línguas do inferno
oh the tongues of hell

.
traduzo-te as palavras
e o que há por trás das tuas
palavras
(What does it mean?)
e sinto-te bela
como se estivesse entrevendo
numa rua de Londres
no outono
de mil novecentos
e cinquenta e nove
e próxima
como se nos amássemos
há três dias
há três noites
há milênios

.
Enquanto te traduzo
línguas do inferno
chegam às soleiras
do coração
da mente

.
Querem lamber-me
e queima-me a tua febre
e molha-me o suor
de tua pele
e tudo o que vês e deixas
de ver
e eu vejo
de dentro de teus olhos
vai-se cobrindo
das cinzas de Hiroshima

(Quinquagésima hora, 1976/1984)

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