Afundamentos Deleuzeanos I

1 – DA CATEGORIA DE RELAÇÃO
A categoria de relação possui algo de intrigante; não possuindo nenhum aspecto visível que possa incluí-la nas demais categorias, traz consigo um problema, qual seja: por não ser uma substância não pode sofrer geração e corrupção; por não ser uma quantidade não pode aumentar nem diminuir. A relação apresenta algo de enigmático, o próprio Aristóteles já tinha sinalizado este aspecto. Kant, por sua vez, quando admite existirem quatro rubricas pelas quais podemos pensar diversos tipos de juízos - quantidade, qualidade, modalidade e relação – destaca que esta última é a mais importante. O que seria então uma relação? No mínimo uma comparação entre dois termos, mas com o cuidado de destacar que as relações são exteriores aos mesmos. Qual seria o estatuto da relação? O presente estudo tratará de apresentar algumas nuances desta categoria que tem importância fundamental para a pesquisa deleuzeana em filosofia. As relações são exteriores aos termos, diz ele, agenciado com Hume. Todavia, devemos considerar que o pensamento de Deleuze não visa nenhuma categoria.

2 – DAS SÍNTESES DISJUNTIVAS
Deleuze, ao considerar o tema das sínteses disjuntivas, faz uma investigação em torno da idéia de Deus considerando o aspecto insólito da tese teológica de Kant. O filósofo de Konnisberg, segundo Deleuze, apoiado em Pierre Klossowski, afirma que: “Deus é o senhor do silogismo disjuntivo”. Porque Kant faria esta afirmação? De início, devemos dizer que Deus, para Kant, é apenas um conceito puro da razão, uma idéia transcendental e, aqui não nos resta outra afirmação, justamente por Kant dizer-nos que o uso transcendental da razão busca em todo o raciocínio não somente inferir, mas unificar de modo incondicionado à totalidade das condições pelo qual um predicado é relacionado a um sujeito em todo e qualquer tipo de conclusão. Mas, ainda assim a resposta não se mostra satisfatória, o que nos faz somente postergá-la. A propósito deste tema faz-se necessário dizer: é de suma importância destacar que a relação entre sujeito e predicado define tipos de juízos e obviamente tipos de raciocínios. Kant não deixa de ressaltar ao longo da Crítica da Razão Pura, sobretudo na analítica transcendental, que todas as relações do pensamento nos juízos são do tipo: predicado com o sujeito; do princípio com a conseqüência; do conhecimento dividido e de todos os membros da divisão entre si. O raciocínio sendo constituído de juízos requer a distinção entre os tipos de relações que aparecem nestes; para que possamos entender o uso transcendental da razão - quando da busca da unidade que totaliza as condições que nos permitem raciocinar – é necessário elucidar que não raciocinamos apenas mediante um determinado tipo de relação.. Kant diz-nos que assim como existem quatro rubricas pelas quais podemos compreender as relações do pensamento no juízo  - quantidade, qualidade, relação e modalidade -, também existem diversos tipos de raciocínios onde a categoria de relação sobressai, diante das demais, como aquela que determina diversos tipos raciocínios. Na concepção de Kant haverá tantos conceitos puros da razão quanto as espécies de relações que o entendimento represente mediante categorias. Kant deixa bem claro que para cada tipo de relação, a razão busca a unidade incondicionada de síntese própria a tal relação.  O que salta à vista nessas considerações kantianas é justamente a importância da categoria de relação face aos diversos tipos de juízos e raciocínios.

A problemática levantada por Deleuze em torno das sínteses disjuntivas ganha uma maior intensidade quando pensamos no que Kant afirma sobre o silogismo disjuntivo. O que seria necessário dizer do silogismo disjuntivo? A resposta obviamente incluiria o que tradicionalmente consideramos como silogismo: um conjunto de duas premissas e uma conclusão; o silogismo disjuntivo traria um traço próprio, isto é, na premissa maior apareceria uma disjunção e, neste ponto, o conectivo “ou” é índice de tal disjunção; e podemos chamar o conectivo “ou” de disjuntor. Todavia, tomaremos como ponto de partida o que o filósofo de Könnisberg mais enfatiza quando pensa o silogismo disjuntivo; a relação que aparece entre o sujeito e predicado não é semelhante àquelas que aparecem entre dois conceitos e dois juízos. Kant, no capítulo da analítica transcendental intitulado “Da Função Lógica do Entendimento nos Juízos”, assinala o seguinte: se abstrairmos todo o conteúdo de um juízo em geral levando em conta a simples forma do entendimento, enquanto função do pensamento, encontraremos as relações que aparecem nos juízos ou entre juízos. O raciocínio encontra-se dentro deste âmbito de relações entre conceitos e juízos. Kant assinala que em tais relações o sujeito e o predicado podem aparecer ligados de modo categórico, hipotético ou disjuntivo. Qual seria a distinção entre os juízos categóricos, hipotéticos e disjuntivos. No juízo categórico a relação entre sujeito e predicado indica que os dois conceitos estão ligados de modo absoluto; no juízo hipotético, os conceitos estão ligados sobre determinadas condições, não havendo reciprocidade entre eles; no juízo disjuntivo estabelece-se uma relação entre o sujeito e vários predicados. Kant deixa nítido que no juízo hipotético a relação é de princípio e conseqüência, isto é , de causa e efeito. No juízo disjuntivo a relação é de oposição lógica entre predicados; a síntese ocorre entre o sujeito e os vários predicados que se opõem entre si. O juízo serve de exemplo para explicarmos o que Kant pensa acerca do silogismo disjuntivo e sobre a oposição lógica entre predicados (como alguns predicados podem ser contraditórios quando atribuídos ao mesmo sujeito). No juízo hipotético, por exemplo, a relação entre princípio e conseqüência não nos diz nada acerca das proposições em jogo. Na proposição: “Se houver justiça perfeita, o mau obstinado será castigado”. Kant diz: “Não sabemos se as duas proposições são verdadeiras em si”. Neste tipo de juízo pensa-se apenas a conseqüência, enquanto no juízo disjuntivo entram vários predicados que, além de se oporem logicamente, entram numa espécie de comunidade. Kant explica-nos como tal comunidade se dá tomando como exemplo dois juízos sobre a origem do mundo. Kant lança a questão: o mundo existe, por cego acaso, ou por necessidade interior? Ele  mostra-nos que tais proposições são excludentes, mas que apresentam uma comunidade entre si, porque ambas em conjunto perfazem a esfera do conhecimento propriamente dito. Cada um dos juízos pertence a uma esfera do conhecimento dividido, cada uma dessas esferas é parte do conhecimento e uma complementa a outra. O que podemos dizer é que ambas constituem a totalidade do conhecimento possível sobre a existência do mundo. Kant afirma: “Excluir o conhecimento de uma destas esferas é o mesmo que colocá-lo  noutra das restantes e, pô-lo numa das esferas significa excluí-lo das outras. Há, pois, num juízo disjuntivo certa comunidade de conhecimentos, que consiste em se excluírem reciprocamente constituindo assim o todo de um só conhecimento dado. E, é isto apenas o que me parece ser necessário observar a este propósito com vista ao que se segue” ( C.R.Pura p.474-475).

Deleuze, ao indicar-nos este ponto sobre as sínteses disjuntivas, ressalta  que a comunicação dos acontecimentos vem substituir a exclusão de predicados. São as singularidades impessoais  que se comunicam de modo pré-individual  sem contudo deixar de formar entre disjunções, mas afirmando todos os termos disjuntos, ao invés de reparti-los em exclusões. Aqui, neste ponto, nos deteremos em assinalar como estas categorias - eu, mundo e Deus - deixam de ser preponderantes nas considerações de Deleuze em torno da teoria do sentido. Deleuze não está pensando o sentido de mundo, não está pensando como o mundo aparece, nem muito menos o sentido do Ser; muito pelo contrario; a sua teoria do sentido - a qual gira em torno da idéia de acontecimento - é o único meio de destituir o aprisionamento no verbo Ser. Todavia, para que possamos entrar em contato com o tema na sua intensidade precisaremos adentrar no capítulo da Crítica da Razão Pura denominado “Do Ideal Transcendental” ( Prototypon Transcendentale), no qual Kant discorre sobre a relação do conceito com predicados contraditórios. È importante destacar que, neste ponto, Kant ultrapassa a tese que mantém, desde Aristóteles, a primazia do princípio de  não-contradição. O conjunto de todos os predicados possíveis acerca de uma coisa é denominado por Kant de princípio de determinação completa. O uso transcendental da razão vem ressaltar à sua diferença para com o simplesmente lógico; o princípio de não contradição remete ao uso lógico da razão enquanto o princípio de determinação completa o uso transcendental, que permite-nos assinalar que para Kant toda determinação apresenta-se como limitação, negação e exclusão de predicados. Toda negação é uma limitação de predicados, isto quer dizer que quando determinamos uma coisa temos que limitar no conjunto de todos os  predicados possíveis alguns que lhes convêm. Deste modo, não apenas os predicados não-contraditórios devem convir à determinação de uma coisa. O princípio de determinação completa de uma coisa nada mais é do que, como nos diz Kant, a permissão para que cada coisa se compare com o conjunto de todos os predicados possíveis. O princípio de determinação completa é tão somente um ideal transcendental, e não se realiza por completo. Kant destaca que para conhecer inteiramente uma coisa é preciso conhecer todo o possível e desse modo determina-la quer afirmativa quer negativamente. A determinação completa é um conceito que nunca poderemos apresentar em sua totalidade, e funda-se pois sobre uma idéia que reside unicamente na razão, a qual prescreve ao entendimento a regra do seu uso integral. Kant faz a seguinte afirmação sobre o tema da exclusão de predicados da qual Deleuze quer tanto se afastar:

“Embora esta idéia do conjunto de toda a possibilidade, na medida em que tal conjunto subjaz como condição de determinação completa de cada coisa seja ainda determinada em relação aos predicados que podem constituir esse conjunto e, por seu intermédio, nada mais pensemos que um conjunto de todos os predicados possíveis em geral, no entanto, examinado-a de mais perto, encontramos que esta idéia, como conceito originário, exclui uma porção de predicados que são dados como derivados através de outros ou são incompatíveis entre si e que se depure a te formar um conceito integralmente determinado a priori convertendo-se assim no conceito de um objeto singular, completamente determinado pela simples idéia, e que se deve por conseguinte se chamar um ideal da razão pura”.

Kant esclarece-nos um ponto no qual podemos sentir a intensidade de Deleuze sobre a tese do silogismo disjuntivo  em todo o alcance que este possa ter em relação à exclusão de predicados. Quando Deleuze afirma que Deus é o senhor do silogismo disjuntivo está ressaltando as afirmações de Kant sobre a determinação lógica de um conceito pela razão (C.R.Pur. A572 B605). Kant, neste parágrafo, afirma que tal determinação lógica funda-se sobre um silogismo disjuntivo em que a premissa maior contém uma divisão lógica. A premissa maior do silogismo contém a divisão da esfera de um conceito universal, isto é, porque apresenta já a disjunção “ou...ou”; porém, é a premissa menor que limita esta esfera a uma parte da disjunção; a conclusão do silogismo, por seu turno, determina o conceito dentro desta parte já limitada pela premissa menor. Kant, no entanto, alerta-nos que é necessário explicar de modo mais detalhado o procedimento da razão transcendental como um silogismo disjuntivo. Kant justifica-se nos dizendo que a premissa maior do silogismo disjuntivo onde  “ou...ou” aparece de modo relevante nada mais é do que o conjunto de toda realidade. A determinação completa de uma coisa funda-se na limitação  do  conjunto desse todo da realidade. A peculiaridade deste conjunto do todo da realidade é a de ser um conceito que compreende em si todos os predicados possíveis pelos quais uma coisa pode ser determinada. A determinação de uma coisa é a limitação de um número de predicados onde alguns são atribuídos à coisa e os demais são excluídos. Kant procura destacar como este conceito de todo da realidade é uma representação. O seu argumento adverte que um conceito universal de uma realidade em geral não pode ser dividido a priori, porque sem a experiência não se conhecem espécies determinadas de realidades contidas num gênero.
Kant  esclarece-nos um ponto de extrema importância sobre o que vem a ser o Ideal Transcendental; este esclarecimento dá-nos a oportunidade de compreender a finalidade da razão em seu uso transcendental quando da determinação completa de uma coisa.  A razão para inferir a determinação de uma coisa a partir de uma totalidade incondicionada não pressupõe a existência real desse conjunto de predicados possíveis, mas apenas de sua idéia. O ideal, diz-nos Kant,  aparece como o protótipo de todas as coisas, onde todas como cópias deficientes ganham por limitação a substância de sua possibilidade. As coisas determinadas, por mais que se aproximem do Ideal, estão sempre infinitamente longe de alcançá-lo.
Deleuze, quando nos remete à leitura do Ideal Transcendental, está orientado pela tese de Pierre Klossowski acerca da teologia; a sua leitura sobre o tema da exclusão de predicados ressoa com a de Klossowski, sobretudo no que diz respeito à determinação de cada coisa. No entanto, o que mais nos chama a atenção é a repetição sobre o uso limitativo e negativo da disjunção. O tema das sínteses disjuntivas ganha aqui um aspecto de suma importância por Deleuze pensar uma coisa se relacionado com os predicados não mais de modo negativo e limitativo. O tema da morte Deus em Nietzsche é pensado deste modo: uma coisa ao abrir-se para todos os predicados possíveis perde sua identidade. Deixa de ser coisa e ganha o estatuto de acontecimento.

Leia a continuação em Afundamentos Deleuzeanos II: 3 - Do problemático; Deleuze e Maimon; Deleuze, Bolzano e Maimon: os três críticos de Kant

Luiz Manoel Lopes
doutor em Filosofia pela UFSCAR/SP e professor de filosofia da Universidade Federal do Ceará

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