Nós dois – entrevista com Deleuze e Guattari

Por Rober Maggiori. Publicado no jornal Libération no dia 12 de setembro de 1991

Como se pensa a dois? Os autores de O que é a filosofia? retraçam a história de uma amizade sem intimidade, que funciona por “agenciamento” e “conexão maquínica”.

Eles têm poucos amigos em comum. Fora de suas sessões de trabalho, raramente se vêem. Enquanto um escreve sozinho um livro, não fala dele com o outro. Um é filósofo, o outro, psicanalista. Um nasceu em 1925 e o outro é cinco anos mais jovem. Assinaram a quatro mãos O Anti-Édipo que os tornou célebres, em seguida Kafka, por uma literatura menor, Rizoma e Mil Platôs. E, agora, O que é a filosofia? Neste livro curto um estranho “personagem conceitual”: o do amigo, nascido na Grécia ao mesmo tempo que a filosofia. Amigos, Gilles Deleuze e Félix Guattari certamente o são. Mas de um modo tal, que explica suas produções teóricas comuns e torna compreensível o fato de que uma obra filosófica, fato raro, possa ser “co-assinada”.

GILLES DELEUZE. 1925-1995. Filósofo. FÉLIX GUATTARI. 1930-1992. filósofo e clínico. Obras escritas em comum: O Anti-Édipo (1972), Kafka, por uma literatura menor (1975), Rizoma (1976), Mil Platôs (1980) e O que é a filosofia? (1991).

Gilles Deleuze e Félix Guattari se conheceram em 1968. “ Quando encontrei Félix, diz Deleuze, eu havia feito história da filosofia, crítica literária e dois livros de filosofia, Lógica do sentido e Diferença e repetição. Meu encontro com Félix se deu a partir de questões da psicanálise e do inconsciente. Félix me trouxe uma espécie de campo novo, me fez descobrir um domínio novo, embora eu já houvesse falado de psicanálise antes e era isso que lhe interessava em mim. Nosso trabalho comum se deu principalmente entre 1970 e 1980. Em seguida houve uma parada e cada um de nós começou a escrever sozinho, como se, provisoriamente – nem por isso nos tornamos menos amigos! – as possibilidades de trabalho estivessem esgotadas. Elas se reapresentaram recentemente. Não existe nenhuma receita. O único critério é “ assim funciona”. No início de nossas relações, foi Félix quem veio me procurar. Eu não o conhecia. Creio que o que mais me tocou foi o fato dele não ser filósofo de formação, que tomasse, portanto, em relação a estas coisas, muito mais precauções, que ele quase fosse mais filósofo do que se tivesse formação, e que ele encarna a filosofia no estado de criatividade ”. As lembranças de Guattari são quase idênticas. “Fiquei muito impressionado pela leitura de Diferença e repetição e da Lógica do sentido. Em meu modo de repensar o que ele dizia, ele tinha sido tocado pela dissidência muito marcada em relação ao lacanismo, que já era dominante, e por minha maneira de abordar os problemas políticos e sociais. Ele me incitou a colocar tudo isso em forma. Mas a época não era tão propícia, e eu estava longe de estar preparado. Então ele me propôs que fizéssemos juntos o trabalho. Fui eu quem foi procurá-lo, portanto, mas, em um segundo tempo, foi ele quem me propôs o trabalho em comum. O que ele me trouxe, desde o começo, foi uma escuta sobre as aventuras teóricas nas quais eu me achava em total solidão, um encorajamento a fazer elaborações teóricas que qualquer outro interlocutor me aconselharia a parar! Em seguida me trouxe um background filosófico extraordinário, a máquina de trabalho, a máquina de reflexão e de escrita ”. Uma obra filosófica que se faz então “ maquinalmente “.

Na realidade, o modo de trabalhar de Deleuze e Guattari é bem estranho. Não sabemos grande coisa sobre a feitura propriamente dita do manuscrito (“é um segredo”, diz Deleuze; “por idas e vindas, por versões sucessivas: o trabalho de finalização, é freqüentemente feito por Gilles”, diz, por outro lado, Guattari). Mas o método de trabalho, parece seguir regras bem precisas, que se impuseram por elas mesmas ao longo dos anos: “Acredito, diz Deleuze, que sobretudo dois elementos intervêm em nosso trabalho comum. Em primeiro lugar, as sessões orais. Acontece termos um problema sobre o qual estamos vagamente de acordo, mas procuramos soluções capazes de precisá-lo, localizá-lo, condicioná-lo. Ou então, encontramos uma solução, mas não sabemos muito bem para qual problema. Temos um idéia que parece funcionar em um domínio, mas procuramos outros domínios, muito diferentes, que poderiam prolongar o primeiro, variar suas condições, com a ajuda de uma manobra. Kleist disse tudo sobre o que se passa assim, quando, em vez de expor uma idéia pré-existente, elaboramos a idéia falando, gaguejando, com elipses, contrações, extensões, sons inarticulados. Ele diz: “Não somos nós que sabemos alguma coisa, é antes um certo estado de nós mesmos...”; trata-se de se levar a este estado, de se colocar neste estado, e é mais fácil a dois. O outro elemento, são as versões múltiplas. Cada um escreve uma versão sobre um tema dado (que foi destacado precisamente nas sessões orais). Em seguida cada um reescreve levando em conta a versão do outro... Cada um funciona como incrustação ou citação no texto do outro, mas, depois de um tempo, não sabemos mais quem cita quem. É uma escrita de variações. Estes procedimentos a dois só ampliam o que se passa quando se trabalha só. É o mesmo que dizer: estamos sempre completamente sós, e: somos sempre muitos. Estamos sós a dois, e somos muitos quando estamos sós. Entretanto, a condição para poder efetivamente trabalhar a dois, é a existência de um fundo comum implícito, inexplicável, que nos faz rir das mesmas coisas, ou nos preocupar como as mesmas coisas, ficar desgostoso ou entusiasmado por coisas análogas. Este fundo comum pode animar conversas as mais insignificantes, as mais idiotas (elas são até necessárias antes das sessões orais). Mas é também o fundo de onde saem os problemas aos quais estamos dedicados e que nos assediam como ritornelos. Isso faz com que nunca tenhamos nada a objetar ao outro, mas cada um deve impor ao outro volteios, bifurcações, abreviações, precipitações e catatonias. Sozinho ou a dois o pensamento está sempre em um estado longe do equilíbrio.”

Félix Guattari também fala dos encontros regulares, das sessões orais e dos textos que receberam diversas versões. E ele precisa: “Somos muito diferentes um do outro: tanto, que os ritmos de adoção de um tema ou de um conceito são diferentes. Mas, certamente, há também uma complementariedade. Eu, sou mais chegado a operações aventureiras, de “ guerrilha conceitual ”, podemos dizer, de inserção em territórios estrangeiros. Já Gilles possui armas filosóficas pesadas, toda uma intendência bibliográfica. Isso pode criar um descompasso de método. Mas o que fazemos não funciona com base em debates ou em resoluções de conflitos. De certo modo, nunca há oposição. O problema é procurar um confronto, uma “ harmonia ” dos processos. Algumas vezes, a articulação e a junção são imediatas. Mas nem sempre é assim. Acontece não articularmos um conceito da mesma maneira ou no mesmo terreno. Ainda que haja, naturalmente, intersecção. Pode ser também que a junção não se faça! Então cada um guarda “ em espera ” suas formações conceituais.” Logo se vê: não há nada que se pareça com uma “ conversa ”, com uma “ troca de opiniões ”. Deleuze: “ Um se cala quando o outro fala. Isso não é apenas uma lei para se compreender, para se escutar, mas significa que um se coloca perpetuamente a serviço do outro. Aquele que se cala está por natureza a serviço do outro. Trata-se de um sistema em que aquele que fala tem razão, pelo simples fato de falar. A questão não é “ discutir ”. Se Félix me diz alguma coisa, eu só tenho uma função: procuro o que pode confirmar uma idéia tão bizarra ou louca (e não “ discutível ”). Se eu lhe digo: “no centro da terra há doce de groselha ”, seu papel será procurar o que poderia dar razão a tal idéia (se por acaso for uma idéia!). Logo, é o contrário de uma sucessão ou de uma troca de opiniões. A questão não é saber se a opinião é minha ou dele, e, alíás, nunca se faz objeção. Só acontecerá melhor”. Guattari dizia: trata-se de uma “afinação”, de um ajuste. Logo que o ajuste se dá, nascem então todos estes conceitos que abundam na obra de Deleuze e Guattari. Conceitos de pai comum ou de pais diferentes? “ Nenhum de nós, responde Deleuze, se atribui uma paternidade dos conceitos. Quanto a mim, tenho uma lembrança forte da introdução desta ou daquela noção – ao contrário, sem dúvida, de Félix, que é mais esquecido, mais generoso –, mesmo se, em seguida, a transformamos completamente. Por exemplo, o “ ritornelo ”, noção que no momento eu aprecio muito, é devida originalmente a Félix. O “ corpo sem órgãos ”, fui eu quem trouxe, tomando de Artaud. Mas todas as nossas noções são comuns, ainda que aconteça irmos até o fim com uma noção comum em sentidos que são próprios a cada um!”. Conceitos órfãos, portanto, ou nascidos, também eles, da “ máquina de trabalho ”, como confirma Guattari: ”É muito difícil dizer se neste ou naquele momento um de nós foi o primeiro a articular uma fórmula; elas todas são buriladas. A desterritorialização, por exemplo, fórmula bárbara que articulei, Gilles a articulou com o conceito de Terra que inicialmente não estava na minha perspectiva – mas, a partir do momento que ela se tornou comum foi transformada.”

Certamente a relação entre Gilles Deleuze e Félix Guattari é uma relação discreta, se o termo remetesse à discrição, certamente, mas também à descontinuidade. Nenhum dos dois realiza uma “microssociedade de amigos” – que é também uma sociedade de rivalidade e de competições –, mas, usando a linguagem deles, um tipo de “conexão maquínica”. A amizade deles não cria a “fusão”, a intimidade, a confidência, ou “o choro no ombro do outro“, como dizia S. Francisco de Sales. Amizade sem rivalidade, sem efusão. “Gilles e eu temos uma certa propensão a chamar quase todo mundo de você. E, no entanto, depois de mais de vinte anos, nós nos chamamos de senhor. Há entre nós uma verdadeira política dissensual, não um culto, mas uma cultura da heterogeneidade, que faz com que cada um reconheça e aceite a singularidade do outro. Fizemos muitas coisas juntos, e, no entanto, paradoxalmente, eu sempre tentei, e ele fez o mesmo, não interferir, não me intrometer em sua vida ou suas preocupações. Talvez seja isto que o senhor chama de discrição. A confecção de uma máquina de trabalho implica esta micropolítica do dissenso. Não é um maneirismo pretensioso. É assim. Se fazemos alguma coisa juntos, é que funciona, e que somos levados por alguma coisa que nos ultrapassa. Gilles é meu amigo, não é meu camarada”. Esta é, sem dúvida, a condição para que pensar a dois não signifique pensar a mesma coisa e sim “pensar uma diferença”. “Seria necessário, conclui Deleuze, falar do pensamento a dois como os psiquiatras no século XIX falavam de folie à deux. Mas isso não é grave.”

Tradução de Viviane de Lamare

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