Manhattan (1977-1978) – carta de Toni Negri a um amigo

Querido David, nós já nos falamos, você se lembra? Nova York foi para mim, o que posso dizer?... Um choque, uma revelação, um soco no estômago? Não sei. Em todo caso, uma experiência notável. Em 1977, me tornei um cidadão cada vez menos aceito pelo meu governo. Então, entre 1977 e 78, fui passear pela Europa e América.

Para encontrar Carlos ou o « grande velho »1 do terrorismo internacional? Para percorrer de novo o Terror network? É o que afirma Claire Sterling, aquela filha da puta - eles até me fotografaram na Algéria com Carlos... na realidade eu não era nem fugitivo nem agitador - era levado por outra coisa além do simples desejo de fugir ou da curiosidade intelectual: era uma necessidade prática de conhecimento, uma incursão na ficção - em um futuro que a experiência imediata da luta não me permitia perceber racionalmente - e havia necessidade e urgência.

Ficção, justamente, ocasião de imaginar o futuro, o meu, o nosso. William Blake: ' What is now proved was once only imagined.' A América, portanto, mas, no fundo, unicamente Nova Amsterdã, Manhattan. Portanto, a Fundação de Asimov. O centro, o primeiro motor de qualquer circunferência possível. O mundo dos mundos. Senti-me face a face com Tantor, lá onde toda dialética desaparece, pois o capital acumulado aqui é tão enorme que não se pode falar dele. Conseqüentemente, segundo os termos de Asimov, o trabalho livre e vivo é colocado fora de toda dialética, o doce comércio se desenvolve na borda dos mundos. Meu primeiro sentimento foi de descontentamento e impotência. Você se pergunta, em que universo independente ainda existe liberdade e vida? Não é falando com os amigos economistas que você encontra razões para esperar - Asimov, ao contrário, responde pela afirmativa, com um determinismo otimista: a partir deste mundo liminar, o trabalho vivo poderá tentar uma refundação. O descontentamento se apazigua, você continua a observar, lê os dados e as estatísticas, olha: algumas bolhas de ar, aqui e ali, rompem a superfície do pântano. Depois a superfície se agita. Pouco a pouco, você descobre que aqui, em Nova York, os dois universos separados se cruzam: você começa a se dar conta disso, e se descobre com o sorriso dos bebês quando reconhecem alguém. Coexistem o desligamento enorme do poder e uma extrema vitalidade de trabalho social, potente, difusa,. Mas de que forma? O trabalho social aparece em um cenário de decomposição e de desintegração - a análise se torna difícil - jeopardized, face ao cume inacessível do poder. É um escândalo lógico. Um quebra-cabeças. A normalidade evidente de uma tal situação fere o intelecto e a paixão. E no entanto, eu não podia perseverar na dúvida, nem renovar antigas questões estereotipadas: aqui, a separação proletária aparecia sob a forma da desintegração, e era, apesar disso, reconhecível e viva. Loss of animal spirits, alienation, desire to die? Com certeza a desintegração tem tudo isso. Mas, ao contrário, no grande tecido social, emergia a força da invenção liberada - um povo louco, multicor, de formigas construtivas se agita freneticamente entre as torres do gigante. Ele se exprime através de símbolos da liberdade - o corpo, a noite de sábado, o jogging, o loft... - tantas coisas que nada têm a ver com o poder. E, no entanto, elas produzem, produzem muito além do que o capital - nesta floração selvagem de iniciativas - conseguiu organizar e alienar. A socialização imediata da desintegração valoriza o sujeito. Está certo, ela recompõe também, ao mesmo tempo, os processos de reprodução e os mecanismos da produção, porque os universos se superpõem: mas quem ainda sabe de onde vêm o comando e/ou o momento da recomposição? Do alto ou de baixo? Que cada um puxe para seu lado é uma realidade, e a riqueza se espalha na desintegração, construindo circuitos que ninguém sabe ainda percorrer. A crise de Nova York, o problema dos gastos públicos, os cortes, o fracasso de qualquer controle monetário... a crise econômica é totalmente prefigurada pela crise social. Roll-back of Keynesism. Onde está o alto, ou o baixo? A jornada do trabalho enlouqueceu - as qualificações do valor-trabalho dançam entre reprodução e produção, imaterialidade e materialidade - quantidade e qualidade do valor não são mais perceptíveis separadamente, assim como a distinção entre trabalho necessário e contra-poder. Onde ainda se encontra a força rigorosa do Wealth of nations e sua lógica providencial? Uma guerra formidável, de dimensões estelares, está em curso. A força dos combatentes se estende sobre todos os termos da relação, de modo que, contrariamente a todos o manuais de estratégia, guerra de posição e guerilha se confundem.

Dreissigjarhreskrieg: confusa, mutante - que ao mesmo tempo subverte e dissolve um velho mundo e faz laboriosamente aparecer um novo -, uma guerra que anula o direito internacional e o direito interno, e todo critério de repartição, uma guerra que distribui alegremente peste e riqueza.

Quando você se encontra nesta situação, se coloca preguiçosamente as questões clássicas do comunista militante. Mas, a despeito de sua aplicação e diligência, nenhuma resposta. The poverty of theory. Para se situar neste ponto da imaginação teórica, para contrabalançar a razão crítica a propósito de Nova York, você deve então realizar um deslocamento da lógica do capital e operar uma ultrapassagem igualmente vigorosa da lógica revolucionária. Para compreender a relação de força entre as classes no interior desta complexidade, e para assumir a independência dos sujeitos como base obrigatória.

Imagens e mais imagens reforçavam esses raciocínios. De um lado, a extravagância da metrópole e de seus proletários, o realismo raivoso no uso da cidade, e a ligação, o prazer decorrentes de sua renovação contínua, a alegria das ruas e a violência, o ataque aos gastos públicos, e a dimensão social da comunidade, a beleza dos indivíduos. De outro lado, outras imagens. É uma espécie de choque: atacado por esta desintegração viva, emerge, no mar das grandes torres, o arranha-céu fechado, sem janelas, talvez o símbolo mais incrível de um poder «em última instância» que a razão humana possa conceber. É uma massa enorme, quadrada, cuja biologia interna só podemos adivinhar. A desintegração social tem milhares de almas, o arranha-céu fechado é o poder enrijecido e irreversível. A realidade popular desta cidade é tão desagregada, e exuberante, e inapreensível, e dissoluta, que você sequer consegue imaginar, à primeira vista, a fisiologia deste poder.

Tento imaginá-lo, paradoxalmente, do ponto de vista da negatividade, da ruína, da morte. Esta é de fato sua especificidade: ele não pode se reciclar na vida, não pode inovar. Diferentemente das velhas fábricas, o arranha-céu fechado não pode ser reabilitado, transformado em lofts; assim que diminui a pulsão fisiológica de suas artérias, a velhice toca suas instalações e sua circulação e, uma vez desaparecida sua capacidade de produzir ordem, ele morre. Uma ruína maia - como um templo corroído por esta civilização? É um destino prescrito pelo deus americano? Levar ao extremo a imaginação do comando, superar graças a ela os limites do razoável e se casar apenas negativamente, como um símbolo maldito, na grandeza dos céus? Nova Babel? Talvez. Mas esta Babel não se encontra no deserto da Mesopotâmia. Ao contrário, está cercada pela potência dos vegetais, por uma luxúria de potências selvagens. O templo maia desmorona na velha natureza selvagem. Este desmoronará na segunda natureza, na renovação da cidade e na nova riqueza do comunismo das massas. Mas é uma aposta. Nova York dá vontade de jogar, mas nenhuma certeza de ganhar. Agora, a noite caiu e o arranha-céu cego se apaga, se cala e você o vê, então, enorme cortiço, você o vê já acabado, dessecado e você imagina facilmente, na sombra, os destroços de sua imensa glória: o concerto dos insetos monstruosos, helicópteros, jumbos, não voam mais em volta dele. Ele se tornou o habitat dos ratos e das baratas. Shit capital. Contra ele, o quarteirão, que durante o dia aparecia degradado pela presença do arranha-céu fechado, se ilumina com novo vigor durante a noite e quase se esquece de suas feridas. Vamos lá; à noite, discute-se com uma vivacidade de adolescente, e a velha teoria da revolta e da liberdade encontra novos gestos e novas expressões. (The Crock of Gold - lendo estes dias a fábula de Stephens, Manhattan me voltou à mente e como este mundo de formidável frivolidade - de espírito e de instinto - é o único que pode servir de base sociológica para uma ética de irredutibilidade radical. E talvez de uma linguagem adequada: Finnegans Wake).

O que é a luta de classes, aqui e agora? É uma alternativa de vida - presente - à uma acumulação de morte - presente. Uma riqueza enorme que se move - os poros e os vazios do ser são ocupados por uma produção independente em todo lugar onde a ordem capitalista não chega com violência suficiente, lá onde é obrigado a permitir tecidos esponjosos e receptivos. A história do arranha-céu fechado é a de um poder que desde a plenitude de sua estrutura exige articular qualquer iniciativa que permita a reprodução de seu ritmo biológico: a autocracia recomeça sempre o sonho da autarquia, mas em cada uma dessas articulações, o poder encontra outra coisa - obstáculos, um contra-poder. Linhas heterogêneas de desenvolvimento. Forças que não querem entrar no Palácio, que o odeiam. E assim o matam? Só com este afastamento ativo? Talvez. O que é certo, em todo caso, é que lutamos no exterior e contra o Palácio. Esta luta entre a morte e uma nova vitalidade se desenvolve continuamente. Nostalgia capitalista da dialética. (E mesmo do socialismo? Reagan, o grande reacionário, queria hoje uma massa operária à moda antiga, stakanovista, dedicada à produção e à reprodução deste arsenal barroco que se tornou seu poder. Vã nostalgia!). De qualquer maneira, empregados e patrões não se criam mais solidariamente. Assim, exibindo suas riquezas, os palácios imperiais choram lágrimas de ouro - todas as ruínas da glória dos conquistadores se equivalem. Entre essas grandes massas, a vida se desenvolve desagregada e dura. Um limite e um cerco imensos. Chaotische. Um gás sutil percorre os grandes agregados, um veneno poderoso. E será este mundo de uma fraqueza tão absurda que um Cortez ou um Pizarro, com seus cem cavaleiros, seriam suficiente para destruí-lo? É certo que nesse mundo o poder foi atingido por uma doença mortal, mas as pessoas e a sociedade possuem anti-corpos formidáveis; eles não podem viver em conjunto. O poder consegue, dia após dia, roubar esta substância social, para dela se nutrir, - mas sempre com mais esforço, fadiga, veneno. A lógica linear da exploração está esgotada. Sucede-lhe uma prática de fronteira que atravessa a metrópole. Labirinto, redes matemáticas que não têm centro - a rapina toma o lugar da lógica da mais-valia -, discretas e sanguinárias, o esforço e o desenho social do comando se remodelam sem cessar. O jogo terminou, sua teoria confusa - o poder é uma pirataria. Isto tudo pode ter um fim? Mas qual o sentido de falar em fim, quando todo começo foi negado?

Caro David, você conhece Nova York, e o resto do mundo, melhor do que eu - muitas vezes me falou deles de maneira esclarecida. Que eu esteja a tal ponto fascinado e confuso ao olhar o cristal de Nova York, bem, você se sentiu ofendido. Parecia um provincialismo ingênuo... Eu conheço americanos que consideram Nova York o umbigo de merda do mundo - e é verdade! Conheço europeus que em Nova York vivem uma verdadeira confusão de sentidos! Tudo é verdade: amor e ódio, desprezo e paixão, deslocamento e desintegração. Enquanto não se aprender a chamar de positivo o que é negativo, desde o início, e a compreender a explosão da realidade - seu futuro catastrófico e sua instalação no poder - não se compreende Nova York. Isto porque os sentidos ficam transtornados quando não se apreende teoricamente esta potência - se, ao contrário, chegamos a isso, os sentimentos e os espíritos não se habituam.

Volto-me para Europa, para a Itália. Ouço vagidos, e somente vagidos, e imagens da infância, face a esta imensa besta humana que é Nova York. E então me parece essencial tudo o que vivi e quanto lutei: ainda mais o fato de ter feito crescer coisas novas e logo agora reveladas - na perspectiva de um futuro que já vi viver, vergangene Zukunft, e que é antagonista e aberto e pode portanto ser mudado - e é este sentimeno que me leva ainda agora a apostar na nova geração, que ama e detesta a grande besta humana americana, a ama enquanto pai e pródromo, a detesta enquanto besta e poder. Graecia capta ferum victorem cepit? Idiotices. Os slogans históricos impedem de compreender, ao mesmo tempo que mistificam, a forma dos acontecimentos. É uma constante ilusão européia: para que pode servir? Ela é bastarda, se quer suprir subjetivamente uma potência objetiva ainda desconhecida. E se você pensa, como às vezes faz, que esta formidável realidade produzirá um sujeito revolucionário à altura, não há nenhuma necessidade nesta relação. E no entanto a ausência de necessidade desta relação não interdita sua possibilidade. Então você seria imbecil em dobro, o que é verdadeiramente inadmissível, se não pensasse que a revolução nasce, e não pode nascer, no lugar mais adiantado do desenvolvimento da besta.

(Carl, meu amigo negro, vive nos limites do Bronx: sua mulher descalça, duas crianças - roupas africanas - muito belas. Me fala dos anos sessenta, e em seguida da revolta no momento do black out de Nova York, em julho de 77 -tenta interpretar a revolução afro-americana ao longo deste período. Ele tem uma consciência que presta uma atenção incrível aos limites e à potência do movimento negro e proletário. Ele descreve o grande projeto realizado, centralização dinâmica das experiências comunitárias, mobilidade organizacional e coalisão de camadas sociais diversas, contra-poder como expressão de democracia direta, formalização profética da «leadership»... Em frente, a reação - que passa pelo corporatismo da middle-class e o terrorismo dos lumpen, através do fracionamento destrutivo das ideologias e o extermínio físico radical do grupo dirigente. Escuto, marco encontros com meu futuro. Mas ele também aposta no futuro do futuro - e explica o fracasso como uma descontinuidade e já vê na revolta do black-out, como nas intersecções institucionais do movimento, sempre novas, cambiantes e mais fortes, os signos dos rastros dos momentos de experimentação progressiva de massa e de exercício de um poder revolucionário - negro e branco. Carl tem um belo corpo e melhor proporcionado que Jessie Owens).

América, América: ninguém jamais te conquistará, mas lá, sob o céu enorme, esta nova revolução, cuja força de trabalho é inteligente e móvel, plena de desejos e de civilização, destrutiva e criativa como jamais se viu igual, se desencadeará - e o caminho percorrido já é longo, no interior desta história futura, de um lado e do outro do Atlântico.

Deste lado. Em Paris, o espetáculo intelectual era bem diferente durante estes anos. Os novos filósofos e outros ingredientes temperavam a sopa do poder. As autocríticas se acumulavam e sua incapacidade expunha um mau humor ético, que só se encontrou em seguida no «pentitismo» italiano. Entretanto, na França, felizmente não havia uma guerra aberta e as redescobertas de Jeová não terminavam em confissões no posto de polícia. Mas mal se tinha rompido esta tela mistificadora, o problema da filosofia - e aquele que respirava a boa cultura revolucionária e juvenil - era como em Greenwich Village. Higelin, Renaud e outros criaram uma nova música. A fragilidade e a invencibilidade do poder: este imenso paradoxo que não tivemos força para interromper. E agora, examinemos este paradoxo - depois da derrota do assalto ao céu, no desejo de renovação de 68. O mundo é uma totalidade sem fundamento: não pode ser destruído, não possui um coração que se possa arrancar. Só a astúcia, os estratagemas de Derrida!, dão os meios para se mover. Por mim, não é preciso insistir muito para que eu utilize estratégias e astúcia. O movimento italiano, neste domínio, foi de um lado a outro e tinha uma posição clara. Assim como os franceses davam à fenomenologia um sentido semiológico e crítico, os italianos estendiam a crítica fenomenológica para o lado da ética e do político. As estratégias avançavam sobre o terreno do real. Elas percorriam as vias de Manhattan.

Até que - e aqui começava a verdadeira novidade - estes deslocamentos em bandos à procura da verdade se descobrem produção, desejo, diferença ontológica e autonomia. Certamente nem tudo que brilha é ouro, tanto no nível da reflexão francesa como na experiência política italiana; entre diferença e produção se criava pouco a pouco um hiato; e o que podia aparecer como a teoria mais completa e a prática mais eficaz da potência ontológica era bloqueada em uma tensão insuportável e uma urgência extrema; um tipo de hemorragia de subjetividade se produzia, o projeto se desfiava em arabescos, manchas de umidade. Shit work. Underground economy. Slump city. Eis o que vi na Itália na maturação do novo sujeito - e agora sou obrigado a recolocar a questão -, neste cenário aberto inteiramente azimute. E chego a me convencer de que uma época terminou, de que o fim dos tempos chegou: o fim do tempo no qual eu havia vivido e no interior do qual toda minha experiência foi medida. Este tempo acabou porque se perdeu toda possibilidade de medi-lo, e toda minha experiência - e a das gerações que cresceram comigo - mesmo renovadas - havia sido poluída por esta medida. A própria maturação do novo sujeito, com o enorme alcance de seu desenvolvimento, não conseguiria ser compreendida se não pudéssemos mudar o quadro teórico - radicalmente. A coexistência dos contrários, no horizonte teórico da maior parte de meus companheiros, havia atingido a perfeição do inefável e do insignificante: um antes e um depois, não mais classificáveis, não mais afirmados em sua determinação, mas ambulantes - se bem que, ao longo de sua circulação, todos os aspectos, e o antes e o depois, acabassem por se tornar as faces inapreensíveis da identidade. Não conseguia ainda pensar praticamente a desagregação como potência. Não conseguia levar o discurso até esta radicalidade, na qual desaparece a perspectiva ideológica - inexistência reconhecida - para deixar lugar para a atualidade da livre estratégia. Mas esta minha incapacidade de dizer, e ainda mais esta hemorragia da subjetividade por vezes vociferante, por vezes silenciosa, não estavam inscritas no existente, a não ser como os restos do passado. Meu pensamento retornava a Nova York, voltava à representação sensível de uma antinomia realizada, à experiência física e determinada de uma alternativa. O presente, neste caso, está pleno de futuro.

Nesta situação, voltei a trabalhar sobre Marx - nostalgia de ordem teórica? Caro David, como se pode ter a nostalgia de seu ser? Não era nostalgia. Quando Espinoza lia Leone Ebreo, sua memória, creio, representava o mesmo papel que, hoje em dia, Marx pode representar para nós: no interior de nossa raça, procurar o sentido da mais potente utopia do amor para transferi-la na mais potente e mais eficaz subjetividade. Com Leone Ebreo, no sentido espinozista da potência; com Marx, para além de Marx. E é lá que reconhecemos um Marx realizado, uma potência proletária viva. Partamos do ser como potência. A potência das vias de Nova York, da produtividade, da desagregação proletária. A revolução não pertence ao amanhã, mas ao hoje, a revolução nada mais é do que nós mesmos.

Estes anos, caro David, foram os que viram o tumulto das paixões aperfeiçoarem nossa educação sentimental. Hoje em dia eu me sinto velho. Não consigo nem mesmo falar sobre isso, este devir. Arrisco, como um Goethe envelhecido, reencontrá-lo com ironia em uma época classissista - ou como um Malraux envelhecido, em turista bem educado. Não, a galera que vi mantém afastados esses estereótipos. Mas não mantém afastado o prazer de ter, ao menos uma vez na vida, assistido a este formidável drama ontológico que é o nascimento de um novo período revolucionário, interpretado por um novo sujeito, aberto com alegria à esperança. Pouco a pouco, aos pedaços, caem os farrapos da nostalgia e da tradição. Aus Geschichte lernt man nur eben Geschichte. Não se aprende nada da história. Suspiro de alívio. A ternura que você sente, e que tem medo de que seja vulgar, está, ao contrário, garantida em sua base ontológica. Como nos grandes pastores da Igreja, de François a Roncalli. Ou nas grandes feministas, da grande Rosa a Rossana, a bela. A filosofia de Espinoza e de Nietzsche, a imaginação revolucionária de Maquiavel e de Lênin, o clássico não é mais memória - revolucionando o mundo, vê desaparecer seu fascínio intimidante, e se descobre a paternidade do clássico. A ternura - esta abertura de um ser virgem, das noites de Manhattan, dos fogos proletários das metrópoles italianas. E, agora, da prisão. Esta viagem a Nova York seria um anúncio? Com certeza, pela primeira vez desde o início desta pesquisa, a continuidade e a indiferença, nem mesmo elas, me dão medo. Porque não podem ser separadas de uma identidade imóvel, mas porque se estendem em uma revolução em ação. Viver, ter vivido o futuro. Walt Whitman: « Do I contradict myself? Very well, I contradict myself (I'am large, I contain multitudes) ».

Caro David, às vezes cedo à prosopopéia da imagem barroca - me desculpe. Temo entretanto o oposto ao qual às vezes me abandono igualmente: o lirismo exsangue do filósofo e sua incapacidade de se substrair ao conceito. Aqui, tenho a impressão de que a pobreza de minha língua e de seus vícios do vale do Pó limitam muito o meu discurso. Talvez - uma língua ainda camponesa, pouco desgastada pela abstração funcional do modo de vida industrial, que tem a pretensão de procurar exprimir a metrópole, seus problemas, sua revolta. Sou um imigrado - estou pronto para tudo - mesmo se for preciso jogar pedras, para que todo o mundo se dê conta deste milagre que compreendi e vivi: a revolução em ação. É ridículo jogar pedras - mas não para o imigrante - para o Kid de Chaplin, é inocente. Hoje em dia, verdadeiramente, teria desejo - tenho um desejo imenso deste ar sutil de primavera que me envolve mesmo nessa «gaiola dourada» - teria desejo de repetir: queime, garoto, queime. Queime o passado que trava e engana para viver o futuro que você é. A você dedico, neste momento, meu desejo.

Ciao.

Toni Negri

Tradução de Viviane de Lamare

1: N. da T.: Na luta armada dos anos 70, na Itália, chamava-se "grande velho" aquele que estava por trás das ações violentas.

Esta é a décima sétima carta de Toni Negri, Pipe-Line, Lettere da Rebibbia, Turin, Einaudi, 1983, pp. 188-198.

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