Christine Fernandes

Ao mestre com carinho

Reparei agora que me escondo da morte, O Grande Sumiço. Evito a dor do confronto da perda.

Por sugestão do Davidson, nos comentários, decidi enfrentar minha dolorosa saudade e entrei no site (uma dádiva) póstumo do Cláudio Ulpiano. Estava aqui ouvindo a voz do mestre Afeto. Era o Homem Pensamento em ação numas das suas antológicas aulas (que estão disponibilizadas online).

Entendi de repente, porque nunca tive coragem de escrever sobre ele, apesar da imensa importância que ele tem na minha vida: É muita falta.

Falta que só a morte, que de tão definitiva, nos imobiliza. Cláudio já morreu há anos, mas está sempre presente em mim, nas minha escolhas, no meu olhar. Falar sobre, no entanto...

Anteontem, 24 de Novembro, seria aniversário do Guilherme, outra ausência. Um grande amigo, primeiro amor da minha vida, que completaria 42 anos, não tivesse morrido tão precocemente aos 34, de câncer.

Muita falta pede silêncio, sempre.

Mas sobre o Cláudio tive que encarar. Desde ontem ouço no I-pod (que baixei do site) suas aulas no carro, na malhação, no computador. Peito cheio de emoção, nostalgia e muita saudade. E é claro, também muita esperança, pois foi na aula dele que entendi que “só a arte salva”.

Eu poderia falar uma infinidade que não diria tudo que ele é. Sim, ele ainda é. Imortal enfim, através de um legado que ficou pra sempre impregnado em quem teve o privilégio de ser seu aluno.

E agora também possível pra qualquer indivíduo de sorte que entrar no seu site e se deixar ser tomado pela onda de "libertar o pensamento da consciência” (parece complexo, mas juro, não é): www.claudioulpiano.org.br

Cláudio Ulpiano, professor de filosofia que modificou a vida de muita gente. E nessa gente, plantou o germe da qualidade do pensamento. E que vai germinar alguma hora em algum lugar. Garantido. “Como a semente de rosa que só precisa da lama pra florescer”, na mais “perfeita contemplação”.

Ele não escreveu muito. Por opção, resolveu se concentrar nas suas aulas.  Mas não eram aulas comuns, eram experiências pra lá de generosas. Jogo limpo e atraente pro iniciante e pro veterano. Nada era complicado, mesmo quando ainda não se sabia nem o que era “afeto” ou “simulacro”.

Um Livro oral e ao vivo, só que muito melhor, porque ele era tão inebriante que era impossível parar de lê-lo. Ouvindo-o éramos encurralados contra nós mesmos, nossas pequenezas, preconceitos, idéias pré-concebidas, opiniões pessoais e bobagens de toda sorte. E com sua lança mitológica ele nos salvava. Pelo pensamento.

Nunca se saía o mesmo das suas aulas. Cláudio vibrava na gente o pensamento como órgão pulsante e vital, que se sobrepunha a todos os outros. Coração na boca me dá até hoje, lembrar dele e experimentar de novo (com a sensação vívida) tudo que herdei dessa convivência. Dos filmes (ele gostava muito de explicar a filosofia através do cinema. Ou vice-versa. Ele adorava o cinema) que ele me apresentou. O que seria de mim sem conhecer Cassavettes (John Cassavettes, diretor de cinema, do Cinema Tempo)? Ou Francis Bacon (pintor)?

Digo, sem qualquer exagero, que seria outra (muito pior), não fosse esse “Encontro”. Tive alguns na vida e espero ter mais; mas desse, é falta braba...

Cláudio Ulpiano, esse homem imperdível agora em cartaz nesse site:
www.claudioulpiano.org.br

Não percam!

Entrem e fiquem à vontade (e voltem pra comentar!)

Beijo,
Chris

Christine Fernandes é atriz. Este texto foi postado por ela em 26/1/2008 no seu blog
http://bloglog.globo.com/blog/post.do?act=loadSite&id=12806&permalink=true

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