Eduardo Goldenstein

Rio, 17 de novembro de 1995

Queridos Claudio e S.,

Logo depois da apresentação de Dreyer na UERJ peguei o carro para viajar e dirigi por umas quatro horas. Foi uma das mais belas viagens de minha vida. No caminho, enquanto a estrada escura desfilava na minha frente, uma música no toca-fitas, a chuva fina fazendo brilhar a superfície das coisas, comecei a entender mais concretamente o que são os afetos, o conhecimento direto, imediato, intuitivo das coisas. Experimentar um afeto é ao mesmo tempo e necessariamente experimentar a liberdade. E o cinema é uma arte com uma incrível e extraordinária afinidade com os afetos. Esse interesse pelas coisas, esta vontade de experimentá-las de dentro, de mostrá-las, desnudá-las, descobrir-lhes a alma - operação cinematográfica por excelência - a lente como microscópio que quer filmar o invisível: a essência do cinema, essa arte da visão, ou seu uso transcendente. Fazer uma exposição de Dreyer não é só uma honra que me coube, mas, principalmente, um aprendizado de importância fundamental.

Ontem assisti a um filme do Visconti que não existia por aqui: Noites Brancas. Um filme de amor, tão bonito, mas tão bonito, que deixa um sulco no coração. A indiscernibilidade entre o passado (o amante desaparecido - Jean Marais) e o presente (o cortejador apaixonado - Mastroianni) atravessa o tempo todo a linda e adorável menina (Maria Schell, que coisa mais linda!). O filme me fez pensar muito em A filha do negociante de cavalos, sobre o problema do amor inventado. Me parece que em Noites Brancas a menina estava de fato inventando um novo amor com Mastroianni, quando então tudo desaba no final ao consumar-se, por acaso, em lugar e hora diversos do que havia sido estipulado um ano antes, o encontro dela com o amante aguardado por tanto tempo. A beleza da seqüência final, do encontro e da despedida, é um momento tão raro no cinema que devemos guardá-lo como se guarda o mais precioso dos tesouros.

Ao ver Visconti trazendo Dostoyevski para o cinema, trazendo a literatura para o cinema, como o fez ao longo de toda sua obra, penso com alegria, em belíssimos agenciamentos do cinema, meu amor inventado, com a literatura, meu amor mais antigo.

Um beijo para vocês,

Dudu

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