Rosilene Rebeca

Guarapuava, 25 de março de 2002

Caríssima S.!

Em meio à solidão desses dias ensolarados que precedem o inverno, ando meio nostálgica. Sinto-me como que invadida de passado e futuro. Não há sensação presente na tristeza dos dias frios. Temo o abandono, num mundo onde os territórios mais fascinantes e desconhecidos de minha alma sejam inatingíveis a minha fragilidade orgânica e espiritual. Conheci um revelador desses territórios escondidos, mas hoje, sem ele, minhas tentativas de expressão parecem tolhidas pelo hábito. Estou perdida. Preciso inventar um auto-pedagogo. Acho que não sei o que fazer com meus próprios abismos.

Hoje senti inveja de Franz Xaver Kappus, jovem poeta, correspondente de Rilke. Seus temores e dúvidas, por mais ingênuos e despreparados, encontraram em Rilke mais que um conselheiro. Seu destino, assim como o meu quando encontrei o Claudio, foi inundado de luz e vida. Difícil é administrar esse grande anseio e, sobretudo, ter paciência. Bem, estou tentando... Empresto (ou tomo emprestado) os conselhos de Rilke ao poeta, para sentir saudades, para sempre, até quando eu estiver viva:

"Os trabalhos de arte são de uma solidão infinita: para os abordar, nada pior do que a crítica. Só o amor pode prendê-los, conservá-los, ser justo com eles. Dê sempre razão ao seu próprio sentimento, contra essas análises, esses resumos, esses preâmbulos. Mesmo que se iluda, o desenvolvimento natural da sua vida interior irá conduzi-lo, aos poucos, com o tempo, a um outro estado de conhecimento. Deixe que os seus julgamentos tenham a sua evolução natural, silenciosa. Não se oponha a esta evolução que, como todo o seu aperfeiçoamento, deve vir do âmago do seu ser e não pode suportar coação nem pressa. <<Levar a termo e dar a luz>> - eis tudo. É necessário deixar cada impressão, cada germe de sentimento, amadurecer em si, na treva, no inexprimível, no inconsciente, - essas regiões herméticas ao entendimento. Espere com humildade e paciência a alvorada de uma nova luz. Aos simples fiéis a arte exige tanto como aos criadores.

O tempo, neste caso, não é uma medida. Um ano não conta, dez anos não representam nada. Ser artista não significa contar, é crescer como a árvore que não apressa sua seiva e resiste, serena, aos grandes ventos da primavera, sem temer que o verão possa não vir. O verão há de vir. Mas só vem para aqueles que sabem esperar, tão sossegados como se tivessem na frente a eternidade. Aprendo todos os dias, à custa de sofrimentos que abençôo: a paciência é tudo."

Sempre sua

Rebeca

Rosilene Rebeca é professora da Universidade Estadual de Guarapuava, Paraná, mestre em biologia pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro e doutora pela Universidade Federal do Paraná.

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