A Chuva de Joris Ivens (Holanda – 1929)

Joris Ivens – a chuva

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A Chuva é um poema filme, um filme experimental que mostra a precipitação e queda de uma chuva em Amsterdam. É um filme impressionista composto à maneira de uma sinfonia. Ivens levou 2 anos para filmar diferentes chuvas em diferentes locações da cidade de Amsterdam para compor este curta. Em 1932/33 Helen Van Dongen criou esta versão sonora do filme com música de Lou Lichtveld. (fonte: Joris Ivens European Foundation – ivens.nl/upload/?p=118&t=2&k=2&film=26&details=ja)

Textos Relacionados com este filme:

Trecho do texto sobre Plano de Imanência

Deleuze é inseparável da expressão. Então, quando Deleuze diz da inspiração espinozista, é da expressão que está falando. E talvez por isto se envolva tanto com dois tipos de canto de pássaro, assinalados pela etologia. O territorializante e o canto do crepúsculo, porque revelam, estes cantos, um corpo expressivo diferente do corpo orgânico. Olivier Messiaen é espinozista – e, por que não, o pássaro exótico é espinozista – enfim, são sempre espantosas as aproximações deleuzianas. Ou melhor – expressivas. A emanação, exatamente porque a imanência se junta a ela, move Deleuze, e o aproxima da Idade Média e da Renascença: seu grande agenciamento com Etiènne Gilson e Maurice de Gandillac – Duns Scot e Nicolau de Cusa: “todas as coisas estão presentes em Deus, que as complica; Deus está presente em todas as coisas que o explicam e o implicam”. Mas Proust também está envolvido com esta tradição, como se outra linha, que não a longitudinal e histórica, forçasse seu pensamento a pensar. Ao fazer a distinção entre essência e sujeito, entre essência e objeto, ainda que a essência não exista fora do sujeito que a exprime – ela, a essência, não se reduz a um estado psicológico. A essência só pertence ao domínio da arte. É o nascimento do tempo. “O que a arte nos faz redescobrir é o tempo tal como se encontra enrolado na essência, tal como nasce no mundo envolvido da essência, idêntico à eternidade “. Um pouco mais. A paixão de Deleuze pela primeiridade de Peirce e pelas afecções sensitivas puras de Maine de Biran, “o homem sente alguma coisa de doce penetrá-lo”, o artigo indefinido designando uma singularidade, a paixão por tudo aquilo que é distinto de um estado de coisas e de uma estrutura psicológica – como a variação do sentido da palavra pragma, diferente de coisa exterior existente, para algo muito próximo do incorporal estóico, o acontecimento. É também um curta-metragem do cinema mudo, a ” Chuva ” de Jory Ivens, que Deleuze chama de a chuva em si. Chuva não é uma chuva determinada, concreta, que caiu em algum lugar “. Não acredito que a idéia de percepção ideal, a consciência de direito de Bergson, fosse suficiente para que Deleuze atingisse a compreensão dos processos afetivos, – do modo que ele atinge -, é sempre a busca dos pensadores da expressão, que parece não ter fim – que o faz renovar-se incessantemente. É a inclinação da percepção que constitui a inquietude. Parece filosofia.

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Trecho da Aula de 27/07/1995 –  O Sentimento, o Afeto e a Pulsão

Quando nós passarmos para o cinema-afecção não vai haver o meio histórico. Vai haver o que eu chamei de espaço qualquer. Num espaço qualquer não pode haver função. Por quê? Porque o espaço qualquer não é construído para receber ações dentro dele. Ele não é construído para isso.

Na penúltima aula, eu coloquei dois retratos – um barroco e um renascentista – e disse que aqueles dois retratos chamavam-se ícone de contorno e ícone de traço. Foi a primeira vez que eu tive condições de ligar o cinema a uma semiótica. Agora é preciso que vocês marquem: um espaço qualquer chama-se qualisigno. Então, na imagem afecção, nós temos três tipos de signos – que seriam (1) o ícone de contorno; (2) o ícone de traço; e (3) o que eu chamei de qualisigno. O que nós temos que fazer nesse momento (porque essa aula vai crescer muito, viu?) é… usar a palavra opor – opor o espaço qualquer ao meio histórico; e usar a diferença de espaço qualquer para meio histórico – porque dentro do espaço qualquer o que ocorre são afetos - como por exemplo no filme A Chuva - afetos de chuva. Em vez de ser ação-reação de personagens, o que se passa no espaço qualquer é o ser-em-si das coisas que nele aparecem. Em A Chuva foi o em-si da chuva; em A Ponte , o em-si da ponte. Então, quando a gente tem essa noção de em-si - exclui-se da noção de em-si a idéia de função.

A função é uma associação da coisa com o meio histórico. Então, quando não há uma associação da coisa ou da personagem com o meio histórico – que é o caso do espaço qualquer – você não tem nenhuma ação. Nesse tipo de espaço é impossível haver ação – porque ele não é constituído para ter ação.

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Trecho da Aula de 24/07/1995 – A Imagem-Afecção

Então, eu vou fazer o seguinte: nesta aula – terrível de difícil - eu vou colocar um filme pra vocês que é uma obra-prima – literal obra-prima. O autor dele chama-se Joris Ivens – J-o-r-i-s I-v-e-n-s.

Esse filme foi feito em 1929 – chama-se A Chuva . Em 1989, esse autor fez um filme chamado O Vento , na China. E morreu. Vocês também vão ver O Vento . Este, chama-se A Chuva . Então, (prestem atenção!) nesse filme vocês não vão encontrar… o quê? Vocês não vão encontrar o meio histórico – vão encontrar o que eu estou chamando de espaço qualquer. Então, preparem-se para ver uma obra-prima do cinema!

[Filme rodando]

Notem que ele não tem a menor preocupação em descrever a cidade - que é o meio histórico dado. Ele persegue “a chuva”, onde ela estiver – no guarda-chuva , no reflexo do asfalto , no vidro do carro , na janela da casa Ou seja: toda a questão dele é mostrar “a chuva” num espaço qualquer - não importa o espaço em que ela vá aparecer! Então, essa noção de “espaço qualquer” se associa com o que eu chamei de primeiro sistema de imagem. Esse espaço qualquer não está num meio histórico dado, não está num meio geográfico dado – ele está em qualquer lugar. Porque esse é o espaço onde – no caso, “a chuva” – vai poder expressar os seus afetos. Então, o que Joris Ivens coloca nesse filme são afetos de chuva.

- O que é afeto de chuva? Afeto de chuva é a chuva se mostrando em qualquer espaço, não importa qual. Então, o objetivo dele nesse filme foi inteiramente realizado. O que ele vai mostrar para nós, em primeiro lugar, é o espaço qualquer - ou seja: não há espaço privilegiado. O espaço privilegiado é quando você está no meio histórico . O meio histórico tem sempre um espaço privilegiado: a casa , a rua , a rua para o duelo , a casa para a alimentação … e assim por diante. , não! Aí a questão dele (olhem o nome que eu vou usar, hein?) é expressar os afetos da chuva. Ouçam: expressar os afetos da chuva . Ou seja: tirar da chuva qualquer característica personalística, qualquer idéia de meio histórico. E ao expressar os afetos da chuva, ele mostra a chuva – e esse sintagma agora é fundamental – ele mostra a chuva em si: a chuva como ela é - e não segundo a proposição do meio histórico.

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