Entr'acte – René Clair (1924)

(curta em 2 partes)

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Francis Picabia comissionou o diretor René Clair para a produção deste curta, originalmente criado para ser exibido na pausa entre'acte (entre atos) do ballet Relâche, de sua autoria e com coreografia de Jean Börlin. Em sua busca pelo cinema puro, Clair usa técnicas originais e ângulos inovadores e não tradicionais, para encontrar "o lugar de encontro de mil lugares". O expectador é bombardeado com fotomontagens e justaposições de imagens "non-sense" ao estilo Dada. Os acontecimentos mais improváveis estão interligados e se dão de forma simultânea. É o instantaneísmo* questionando a realidade e dando realidade ao virtual.

Eric Satie compôs as trilhas sonoras do filme e do ballet. Satie e Picabia atuaram no filme, bem como Marcel Duchamp e Man Ray, na famosa cena do jogo de xadrez.

Entr'acte é citado por Deleuze no livro A Imagem-Tempo, no capítulo “Da lembrança aos sonhos”, pág. 73. Editora Brasiliense, 1990 – tradução de Eloísa de Araújo Ribeiro.

"Qual é, mais precisamente, a diferença entre uma imagem-lembrança e uma imagem-sonho? Partimos de uma imagem-percepção, cuja natureza consiste em ser atual. A lembrança, ao contrário, o que Bergson chama de “lembrança pura”, necessariamente é virtual. Mas, no primeiro caso, ela própria se torna atual na medida em que é chamada pela imagem-percepção. Ela se atualiza numa imagem-lembrança que corresponde à imagem-percepção. O caso do sonho faz com que apareçam duas importantes diferenças. Por um lado, as percepções da pessoa que dorme subsistem, porém no estado difuso de uma nuvem de sensações atuais, exteriores e interiores, que não são apreendidas por si  mesmas, escapando à consciência. Por outro lado, a imagem virtual que se atualiza não se atualiza  diretamente, mas em outra imagem, que desempenha o papel de imagem virtual, atualizando-se numa terceira, ao infinito: o sonho não é uma metáfora, mas uma série de anamorfoses que traçam um circuito muito grande. Estas duas características estão ligadas. Quando a pessoa que dorme  está entregue à sensação luminosa atual de uma superfície verde com manchas brancas, a pessoa que sonha, que habita a que dorme, pode evocar a imagem de um prado salpicado de flores, mas esta só se atualiza tornando-se uma mesa de sinuca cheia de bolas, que por sua vez, não se atualiza sem se tornar ainda outra coisa. Não se trata de metáforas, mas de um devir que pode, em direito, prosseguir ao infinito. Em Entr'acte, de René Clair, a roupa da bailarina vista de baixo “se abre como uma flor” e a flor “abre e fecha sua corola, estende suas pétalas, estica seus estames”, tornando-se novamente pernas de bailarina que se abrem; as luzes da cidade tornam-se um “monte de cigarros em brasa” nos cabelos de um homem que joga xadrez, cigarros que por sua vez se tornam “as pilastras de um templo grego, e depois um silo, enquanto o tabuleiro de xadrez deixa transparecer a Place de la Concorde”.

*Técnica de montagem criada pelos Dadaístas para este filme.

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