Um Cão Andaluz – Luis Buñuel (1929)

(curta em 2 partes)

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Um Cão Andaluz, realizado na França em 1928, surgiu de uma colaboração entre o diretor de cinema Luis Buñuel e o pintor surrealista Salvador Dalí (amigos desde a adolecência). O curta foi criado a partir da união de seus sonhos juvenis, e da vontade de traduzir em imagens seu delírios criativos. Segundo palavras de Buñuel: "Escrevemos este roteiro em menos de uma semana e seguimos uma regra muito simples: não aceitar idéia ou imagem alguma que pudesse dar lugar a uma explicação racional, psicológica ou cultural. Abrir todas as portas ao irracional. Não admitir nada além das imagens que nos impressionavam, sem tratar de averiguar os porquês. Em nenhum momento houve desentendimento entre nós. Um sugeria uma idéia que quando era aceita não era discutida e quando não era aceita era esquecida para sempre".

Este filme surrealista foi escrito como um ataque aos valores burgueses, à razão cartesiana e uma denúncia ao absurdo das instituições que oprimiam a sociedade entre guerras. Entre as seqüências que causaram indignação estão a que exibe uma dupla de padres amarrada a dois pianos sobre os quais estavam colocados asnos mortos e cobertos de sangue, a que mostra um homem acariciando de forma violenta os seios de uma mulher e sobretudo a cena em que o próprio Buñuel mutila com uma navalha um dos olhos, que seriam da atriz Mareuil. Baseado num conceito surrealista, "uma navalhada no olho da sociedade", esta cena clássica de uma navalha cortando o olho de uma mulher logo na primeira parte do filme, marcou época como uma das mais impressionantes do cinema.

O curta foi exibido pela primeira vez em Paris para uma platéia de intelectuais - entre eles André Breton, autor do Manifesto Surrealista, ao som de "A Cavalgada das Valquírias", de Wagner, executada em um gramofone. O jovem Buñuel temia tanto a reação ao filme que havia levado pedras nos bolsos para revidar uma possível agressão da platéia. Mas ao final da projeção foi aclamado pelo grupo surrealista e por toda a elite cultural parisiense, ficando em cartaz durante oito meses com bastante sucesso, e gerando também protestos e muito escândalo. A boa acolhida inicial não evitou no entanto que o cineasta espanhol tivesse problemas. Sua casa foi alvo de ataques de grupos conservadores, que tentaram sem sucesso, interditar a exibição da obra na França. "Um Cão Andaluz" (referencia à região espanhola da Andaluzia onde Buñuel nasceu) não é um filme fácil de se assistir. Já podemos observar o estranho humor do cineasta que se tornaria célebre com seus trabalhos nas décadas seguintes.

(fonte: http://www.youtube.com/watch?v=mwee-xe7xVc)

Gilles Deleuze fala sobre este filme no livro A Imagem-Tempo, no capítulo “Da lembrança aos sonhos”, pág. 73. Editora Brasiliense, 1990 – tradução de Eloísa de Araújo Ribeiro.

"Em Un Chien Andalou, de Buñuel, a imagem da nuvem alongada que corta a lua se atualiza, mas tornando-se a de um barbeador que corta o olho, conservando assim o papel de imagem virtual em relação à seguinte. Um tufo de pêlos se torna um ouriço, que se transforma em cabeleira circular, para dar lugar a um círculo de curiosos. (...) Acontece que as imagens-sonho são disseminadas ao longo do filme, de modo a poderem ser resconstituídas em seu conjunto.

(...)

As imagens-sonho, por sua vez, parecem além do mais ter dois pólos, que podem ser distinguidos segundo a produção técnica delas. Um procede por meios ricos e sobrecarregados, fusões, superimpressões, desenquadramentos, movimentos complexos de câmera, efeitos especiais, manipulações de laboratório, chegando ao abstrato, tendendo à abstração. O outro, ao contrário, é bem sóbrio, operando por cortes bruscos ou montagem-cut, procedendo apenas a um perpétuo desprendimento que 'parece' sonho, mas entre objetos que continuam a ser concretos. A técnica da imagem remete sempre a uma metafísica da imaginação: são como duas maneiras de conceber a passagem de uma a outra. Nesse sentido, os estados oníricos são, em relação ao real, um pouco como os estado 'anômolos'* de uma língua em relação à língua corrente: ora sobrecarga, complexificação, sobressaturação, ora ao contrário, eliminação, elipse, ruptura, corte, desprendimento. (...) A oposição é paticularmente manifesta entre Entr'acte e Un Chien Andalou: o filme de René Clair multiplica todos os procedimentos, e os faz tender à abstração cinética da louca corrida final, enquanto o de Buñuel opera com meios mais sóbrios, e mantém a forma circular dominante em objetos sempre concretos que ele faz suceder por cortes bruscos (1). Mas, seja qual for o pólo escolhido, a imagem-sonho obedece à mesma lei: um grande circuito no qual cada imagem se atualiza na seguinte, a fim de eventualmente retornar à situação que lhe deu início. Da mesma mesma forma que a imagem-lembrança ela também não assegura, portanto, a discernibilidade do real e do imaginário. A imagem-sonho está submetida à condição de atribuir o sonho a um sonhador, e a consciência do sonho (o real) ao expectador."

*Solução que a tradutora encontrou, partindo do grego anomos (=irregular) e do radical português anomo-, para traduzir o francês anomal.

(1) Maurice Drouzy (Luis Buñuel architecte du rêve, Lherminier, pp. 40-43), analisando a oposição dos dois filmes, observa que Un chien andalou procede sobretudo por planos fixos, e só contém algumas plongées, fusões e travellings para a frente e para trás, uma única contra-plongée, uma única panorâmica, uma única câmera lenta; por isso o próprio Buñuel viu nele uma reação contra os filmes de vanguarda da época.(...)

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